Em “Tia Marga”, episódio de abertura da série “Amora”, Juliana Rojas encontra uma situação que parece ter sido inventada por alguém com um senso de humor bastante particular: duas mulheres aguardam o nascimento do primeiro filho enquanto participam do velório de uma parente. Tereza (Bruna Linzmeyer) e Daniela (Ana Hikari) estão prestes a começar uma família, mas a chegada do bebê vem acompanhada de dúvidas, segredos e inseguranças que a presença dos parentes só faz aumentar. Entre flores, despedidas e conversas atravessadas, o luto se mistura à expectativa de uma nova vida. A morte está na sala, o nascimento se aproxima e ninguém parece ter um manual para lidar com nenhum dos dois. É desse desconforto, tão reconhecível quanto absurdo, que o episódio extrai boa parte de seu humor.
A questão da dupla maternidade dá à história um peso que ultrapassa as ansiedades comuns de quem espera um bebê. Daniela está gestando a criança, mas o reconhecimento das duas como mães não é tratado como uma consequência automática do amor que compartilham. Existe uma insegurança jurídica que acompanha o casal e expõe o quanto famílias LGBTQIA+ ainda precisam pensar em direitos que muitos casais heterossexuais consideram garantidos.
Bruna Linzmeyer, figura importante para a representação LGBTQIA+ no audiovisual brasileiro, e Ana Hikari formam um casal cuja intimidade não depende de grandes declarações. O que interessa é a maneira como cada uma administra as próprias inseguranças, inclusive os segredos que podem abalar a relação num momento já suficientemente delicado. O encontro familiar no velório abre espaço para comentários, constrangimentos e pequenas disputas, enquanto o episódio evita apresentar a família tradicional como um bloco homogêneo de vilões.
“Amora” tem sotaque gaúcho, não apenas na maneira como suas personagens falam, mas na textura cotidiana que envolve a história. A direção de arte de Juliana Lobo contribui para esse ambiente, dando materialidade ao espaço doméstico e ao ritual do velório. O cenário fúnebre poderia facilmente engolir o episódio, mas Rojas encontra nele um lugar de convivência, observação e até humor.
A adaptação do livro homônimo de Natalia Borges Polesso também abre uma perspectiva promissora para a antologia. Vencedor do Prêmio Jabuti em 2016, “Amora” reúne narrativas sobre diferentes formas de amar entre mulheres, com personagens que atravessam descoberta, preconceito, desejo, envelhecimento e liberdade. A série parte desse universo para apresentar casais de idades e trajetórias distintas na cidade fictícia que lhe dá nome.
Como primeiro contato com a série, “Tia Marga” deixa uma impressão calorosa justamente porque não exige que suas personagens representem uma comunidade inteira. Elas podem ser engraçadas, contraditórias, assustadas e até um pouco egoístas. Podem esconder coisas uma da outra e discutir no momento menos conveniente. O episódio entende que ampliar a representação queer também significa permitir que essas mulheres tenham uma vida cotidiana, com os embaraços e as pequenas crueldades que pertencem a qualquer relação. Há uma boa ironia em colocar o nascimento iminente de uma criança no centro de um velório, mas a graça não apaga o que está em jogo: quem pode ser reconhecida como família, quem tem o direito de cuidar e quais garantias ainda faltam para que o amor não dependa apenas da boa vontade dos outros.

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