por Bruno Weber A carreira de Aaron Sorkin é marcada por thrillers políticos salientados por paralelos na realidade ou adaptando diretamente fatos reais, sempre alternando momentos de discussões tensas com outros mais leves e bem-humorados. O aspecto mais particular de seus trabalhos como roteirista é essa construção de diálogos rápidos cheios de referências inteligentes e respostas espirituosas a serviço de um didatismo expositivo (e um pouquinho cafona). E para o bem ou para o mal, essa descrição se encaixa em praticamente tudo que ele já escreveu, desde "The West Wing" até "O Homem Que Mudou O Jogo". Quando um cineasta de pulso firme e estilo forte se propõe a filmar um roteiro do Sorkin, geralmente ele consegue empurrar esses elementos na direção certa. Foi o que David Fincher fez em 2010 com "A Rede Social". Agora, dezesseis anos depois, Sorkin demonstra mais uma vez que um roteirista não é necessariamente um bom diretor com essa continuação de "A Rede Social", intitulada "O Outro Lado Das Redes".
"A Rede Social" contava a ascensão trágica de Mark Zuckerberg como criador e CEO do Facebook, uma posição que o transformou na figura extremamente influente que é hoje, ao mesmo tempo que o posicionou nesse espaço alternativo que os barões da tecnologia parecem habitar, separados do resto da humanidade e das interações humanas normais. Nessa continuação, Sorkin tira de Zuckerberg o papel de protagonista trágico e o estabelece como um frio antagonista. É uma progressão que parece combinar com a realidade, já que Jesse Eisenberg preferiu não retornar após protagonizar o filme anterior, alegando que não queria mais ser relacionado com a figura de Zuckerberg. Assim, ele cede lugar para Jeremy Strong, que, segundo relatos, escolheu usar a técnica de atuação de método, adotando os trejeitos e o comportamento de Zuckerberg mesmo entre as filmagens. E mesmo que já tenha sido dito várias vezes que a atuação de método é ineficaz e cansativa para todos os envolvidos - não é à toa que só é utilizada para interpretar babacas - deve-se admitir que Strong está muito bom no papel. E um atestado dos pontos positivos da escrita de Sorkin é que é possível traçar linhas diretas entre as duas interpretações do personagem e a figura real de Zuckerberg sem que pareça que qualquer um dos atores esteja "copiando" alguém, e ainda assim, as distinções entre eles conseguem realçar o que é real e o que não é, assim como o que cada um dos intérpretes trouxe para o papel.
Mas a verdade é que todo o elenco está se esforçando bastante ao tentar dar vida aos diálogos de Sorkin que, sem ser filtrados pelo talento de outro diretor, parecem aqui especialmente artificiais e pretensiosos. A dupla de protagonistas interpretada por Mikey Madison e Jeremy Allen White é quem carrega o maior peso dessa responsabilidade. White interpreta Jeff Horwitz, repórter investigativo do Wall Street Journal, que ao assumir o trabalho de investigar os desvios éticos e políticos do Facebook (hoje Meta), acaba entrando em contato com a engenheira de informação Frances Hagen, interpretada por Madison. As conversas entre eles, motivadas pelas preocupações de Frances com a crescente radicalização política dos usuários da rede social em que trabalha, levou a engenheira a vazar vários documentos confidenciais do Facebook, resultando na série de reportagens conhecida como "The Facebook Files". Entre as principais revelações, essas reportagens deixaram claro que a empresa contrariou várias das próprias medidas de segurança para assegurar que usuários continuassem grudados em suas telas, interagindo com postagens que espalhavam desinformação, facilitavam atividades criminosas e induziam à mudanças de autoimagem, automutilação e suicídio. O filme então se divide em duas timelines, repetindo a dinâmica do original. Na primeira, em 2019, acompanhamos as descobertas de Jeff e Frances. Na segunda, em 2021, Zuckerberg está num teatro decorado como o Congresso, ensaiando suas respostas para a CPI que aconteceria em breve. Lá, ele é confrontado por Charlie, ex-acionista do Facebook e único personagem totalmente fictício do filme, embora seja livremente inspirado na figura de Roger McNamee. Dessa forma, apesar de Zuckerberg ser estabelecido como o vilão, ele nunca realmente interage com os protagonistas da história, reiterando sua posição isolada do resto do mundo, enquanto vemos Jeff e Frances em ambientes reais, tendo interações verdadeiras com as pessoas à sua volta.
Apesar dessas ressalvas com "O Outro Lado Das Redes", um filme pode falhar num nível técnico e ainda assim apresentar temas interessantes e necessários. A abordagem de Sorkin sempre foi imperfeita, e nos últimos anos ele pode ter apresentado mais erros do que acertos, mas sempre foi adequada em suas intenções, trazendo discussões com as quais o público pode e deve se engajar. Mais do que nunca, as descobertas que levaram Mark Zuckerberg a depor em frente ao congresso americano devem ser amplamente conhecidas. Elas revelam que a radicalização política da extrema-direita foi um fenômeno artificial, arquitetado por bilionários das big techs crentes numa ideologia absolutista de liberdade de expressão que desconsidera a segurança dos seus usuários e suas consequências para o bem-estar social, destruindo o próprio conceito objetivo de verdade. E mais do que isso, motivado para favorecer figuras políticas que atuassem em prol da desregularização das redes sociais e cortes de impostos para suas empresas. Dessa forma, filmes como "O Outro Lado Das Redes", em meio a suas romantizações formulaicas e humor cafona, se provam meio indispensáveis por seu alcance. A crise de informação, com suas pós-verdades e "fatos alternativos", representa um perigo tão grave para nossa existência quanto a crise climática, e é irônico que um drama que adapta fatos reais em entretenimento acessível possa atuar como defesa da realidade contra a insanidade.


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