por Egídio La Pasta The Education of Jane Cumming (Reino Unido/Alemanha/Suíça, 2026)
É um filme que expõe não só a homofobia que as professoras sofrem. Mas o racismo por Jane ser indiana. Sua avó não a suporta e a escola funciona como uma forma de fazer com que ela suma de vista.
1810 e a educação para as mulheres era questionada. Por que elas precisam aprender sobre borboletas? Um casal homoafetivo era tratado como algo sobrenatural. Após o julgamento, o caso foi tratado como segredo de justiça e ganhou um sigilo de cem anos.
Tem um lance bacana na atmosfera, que é o isolamento. A escola é distante. A casa é imensa. Elas parecem estar num universo à parte, onde vivem de acordo com as próprias regras, mesmo dentro de uma sociedade machista.
As atrizes estão muito bem, são temperamentos e personalidades muito distintas entre as protagonistas. As crianças criam uma unidade interessante e Fiona Shaw dá uma roubada de cena todo momento em que aparece.
A Long Winter (Reino Unido/Canadá, 2026)
Fazendo as pazes com o Haigh aqui, seu filme anterior, "Todos Nós Desconhecidos", é um filme que não aconteceu em nenhuma esfera comigo. Mas ele é um cara que sabe dissecar silêncios, dentro e ao redor das relações frágeis.
Adaptado do conto de Colm Tóibín, ele nos leva para o isolamento das montanhas rochosas nos anos 1950 para contar uma história onde o clima gélido de fora é só um reflexo do que os personagens carregam no peito. E é bem simples na dinâmica, dois irmãos, jovens adultos, pensando em sair de casa, uma cabana no meio da montanha e ir tentar a vida. E seus pais, a mãe (Caitríona Balfe maravilhosa), sufocada pelo lugar, pela rotina, pela vida e o pai (Ebon Moss-Bachrach, que também está em "The Man I Love"), um cara que construiu essa vida nesse lugar, sem ambição alguma sobre mudar o cenário, sem ser exatamente um brutamontes, mas que compreende seu machismo de maneira rotineira, natural.
Quando o mais novo (Kit Connor, olar) vai embora, o mais velho se encontra diante da herança da expectativa que o pai deposita sobre ele e a compreensão do sofrimento da mãe diante de uma vida toda construída através da aparência. Mike (Fred Hechinger) é um cara sensível, começando a entender seus desejos, de maneira muito sutil. Sua sexualidade é usada como um elemento da personalidade, embora sugerida em momentos específicos, não se sobrepõe a outros traços que também o definem.
A fotografia é um elemento importante, a imensidão sufocante das montanhas com a clausura daquela cabana isolada de tudo. E a investigação sobre dores profundas, luto e as expectativas sufocantes colocadas sobre os homens e mulheres daquela época. É um belo filme.
Jim Queen (França/Bélgica, 2026)
O traço é o máximo. E a velocidade das piadas também.
Imagine um cenário onde a única pandemia que importa não fecha comércios, mas ameaça extinguir o coração pulsante da comunidade queer de Paris. É com essa premissa absurda e deliciosamente provocativa que Jim Queen nos joga de cabeça no caos.
Cores vibrantes, referências pop de três em três minutos e um humor ácido. A história acompanha Jim, um influenciador narcisista e "rainha" incontestável da noite parisiense, que vê seu império desmoronar da noite para o dia por causa do Heterotopzis — um vírus misterioso que converte homens gays em héteros atordoados
O que poderia ser apenas uma piada de uma nota só, ganha fôlego graças ao roteiro esperto e a dinâmica improvável entre Jim e Lucien, um twink recém-assumido que embarca nessa jornada frenética em busca de uma cura.
A relação dos dois funciona como o coração do filme e por trás de todo o deboche, das críticas afiadas ao culto, fama nas redes sociais e da sátira aos modismos da militância contemporânea, existe uma discussão ali sobre pertencimento, ego e o medo de perder a própria identidade.
Rir de si mesmo é sempre um caminho que abre a estrada, desde sempre eu penso dessa forma. E no meio da loucura toda, é um filme sobre o afeto, o que deixa tudo muito mais interessante e divertido.
Eu tava um pano de chão no início da sessão de meia-noite, achei que não ia dar conta e dormir, mas ele é ágil, rápido, sem tempo morto e muito animado.

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