terça-feira, 14 de julho de 2026

Una Storia Vera (Itália, 2025)

Mariano Lamberti parte de uma ideia simples em "Una Storia Vera", mas procura expandi-la por meio de uma estética de found footage que mistura registros íntimos, vídeos de celular e imagens supostamente espontâneas. A narrativa acompanha o relacionamento entre dois jovens, interpretados por Alessio Bisaccia e Giulio Forges Davanzati, cuja paixão é registrada quase em tempo real, entre passeios por Roma, momentos de intimidade e pequenas crises afetivas. O título brinca justamente com essa ideia de verdade: não importa tanto se os acontecimentos são reais, mas se o dispositivo cinematográfico consegue convencer o espectador de que está diante de fragmentos autênticos de uma vida.

A opção pelo found footage, contudo, é simultaneamente a maior virtude e o principal obstáculo da obra. Em alguns momentos, a câmera nervosa, os enquadramentos improvisados e a baixa resolução realmente criam uma sensação de intimidade, como se o público invadisse lembranças privadas dos personagens. Em outros, porém, a encenação denuncia o próprio artifício. Algumas situações parecem excessivamente calculadas para um registro que pretende soar espontâneo, reduzindo a potência da proposta justamente quando ela deveria alcançar maior naturalidade.


Essa irregularidade também afeta o roteiro. Há ideias interessantes sobre memória, vulnerabilidade e pertencimento, mas elas surgem de maneira dispersa, como se estivéssemos assistindo à ampliação de um curta-metragem. Certas sequências se prolongam sem acrescentar novas camadas dramáticas, enquanto conflitos importantes aparecem e desaparecem rapidamente. 

Tecnicamente, o filme compreende bem as limitações que escolhe assumir. A montagem preserva a sensação de material encontrado, enquanto a fotografia imperfeita reforça a proximidade física entre câmera e personagens. Ainda assim, o minimalismo visual não basta para esconder algumas oscilações de ritmo e interpretação. 

"Una Storia Vera" é um experimento interessante dentro do cinema queer independente italiano, sobretudo por utilizar o found footage para falar de intimidade, desejo e vulnerabilidade afetiva em vez de recorrer ao suspense ou ao horror, gêneros mais associados ao formato. Mariano Lamberti demonstra sensibilidade ao registrar pequenos gestos cotidianos e encontra momentos de verdade entre seus protagonistas. Ainda assim, o longa também evidencia limitações importantes de escrita e construção narrativa, fazendo com que a experiência oscile entre o genuinamente comovente e o excessivamente improvisado.

Stop! That! Train! (EUA, 2026)

Adam Shankman abraça o absurdo sem qualquer constrangimento em STOP! THAT! TRAIN!, uma comédia-catástrofe que transforma um trem de luxo em palco para um espetáculo de humor nonsense, cultura drag e referências ao cinema pastelão. A trama segue Tess (Ginger Minj) e DeeDee (Jujubee), duas comissárias ferroviárias que deixam uma linha decadente para trabalhar no extravagante Glamazonian Express. Quando uma tempestade ameaça lançar o trem desgovernado contra Los Angeles, elas precisam unir forças com uma equipe de primeira classe nada amigável e com a espalhafatosa Presidente Gagwell (RuPaul). O resultado é uma sucessão de gags visuais, cameos de luxo e situações exageradas que recuperam o espírito de clássicos como Apertem os Cintos... O Piloto Sumiu!, filtrado pela estética do universo de RuPaul's Drag Race. 

Shankman compreende que o filme jamais funcionaria se buscasse qualquer compromisso com o realismo. A encenação aposta em um ritmo frenético, teatral, onde praticamente cada plano esconde uma piada visual ou um comentário absurdo ao fundo, Há um prazer evidente em construir um universo paralelo no qual drags ocupam naturalmente funções de heroínas, enquanto celebridades como Sarah Michelle Gellar, Joel McHale, Rachel Bloom e outros surgem em participações que ampliam o espírito de festa permanente. Nem todas as piadas encontram o alvo, mas a quantidade de ideias lançadas por minuto faz com que o filme raramente perca energia. 


É bem mais que uma esquete estendida de Drag Race permitindo que elas sejam heroínas, protagonistas românticas, figuras de autoridade e agentes do caos ao mesmo tempo. Mesmo tendo dirigido o remake de "Hairspray", Adam Shankman definiu o projeto como seu primeiro filme "assumidamente queer" depois de décadas de carreira, não apenas pelo elenco majoritariamente LGBTQIA+, mas porque toda sua lógica narrativa parte da teatralidade, da exuberância e da irreverência que fazem parte da cultura drag. Muitas RuGirls, como Latrice Royale, Monét X Change e Angeria Van Michaels, ocupam a tela nem que seja rapidamente para um gag absurdo.


A produção abraça muito bem a estética camp. Figurinos extravagantes, maquiagem carregada, cenários artificiais, e com maquetes, e uma direção de arte que jamais tenta esconder sua natureza caricata dialogam diretamente com a tradição do exagero apropriada pela cultura queer ao longo das décadas. O próprio trem parece existir numa realidade paralela onde tudo pode acontecer, reforçando um senso de fantasia que aproxima o filme tanto das competições televisivas de drag quanto das grandes comédias absurdas produzidas entre os anos 1970 e 1980. A fotografia colorida e a montagem veloz trabalham sempre em favor desse excesso.


O roteiro de Christina Friel e Connor Wright é bem mais eficaz, e engraçado, que o de "Bitch Who Stole the Christmas". O elenco demonstra enorme sintonia, especialmente Ginger Minj, Jujubee, Brooke Lynn Hytes e RuPaul, que entendem perfeitamente o tom debochado da narrativa. Existe uma sinceridade divertida na maneira como todos interpretam situações completamente ridículas com absoluta convicção, respeitando uma das regras fundamentais da boa paródia: tratar o absurdo com máxima seriedade. 


STOP! THAT! TRAIN! encontra um público específico apto a experimentar escancaradamente camp ou da tradição das grandes paródias hollywoodianas. Há piadas internas que só quem assista o programa irá entender, enquanto celebra a arte drag, em um momento político que ela precisa ser celebrada. Entre explosões, tempestades improváveis, números performáticos e piadas que se acumulam, Adam Shankman entrega uma homenagem afetuosa tanto ao cinema pastelão quanto à potência transformadora da performance drag. É uma obra assumidamente boba, consciente de sua própria artificialidade e, justamente por isso, muito divertida.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Confesiones Chin Chin (Espanha, 2024)

"Confesiones Chin Chin", estreia de Carolina Perelman na direção de longas, transforma uma noite no bar Cazador, em Madri, em território para pequenas implosões pessoais. Vicente (Enrique Gimeno) e Lolo (Fernando Bodega), dois atores queer tentando sobreviver às instabilidades da vida artística, cruzam histórias com Sofía (Ángela Aguilar), Roberto (Nacho Scorza) e outras figuras que bebem, fumam e falam talvez mais do que deveriam. Escrito por Perelman e Samuel Rotter, o filme nasce de confissões reais e embaralha deliberadamente experiência e encenação.

O "chin chin" do título soa como um brinde à indiscrição. Sexo, infidelidade, dinheiro, abuso, frustrações profissionais e relações pouco convencionais surgem em conversas que raramente obedecem a uma progressão dramática tradicional. Perelman parece posicionar sua câmera na mesa ao lado e permitir que escutemos fragmentos de vidas alheias. 


A queerness circula pelo bar como parte da experiência cotidiana, atravessando desejo, trabalho, precariedade e afeto. Até quando aborda a discriminação e a homofobia, "Confesiones Chin Chin" preserva a complexidade de personagens que também podem ser vaidosos, cruéis, engraçados ou contraditórios.

A referência a "Portrait of Jason" ajuda a decifrar o jogo proposto por Perelman. A diretora contou ter entrevistado os intérpretes durante meses para criar seus "duplos", enquanto reunia relatos sobre sexo, casamento, saída do armário e infidelidade. O resultado ocupa uma região nebulosa entre documentário e ficção, na qual nunca temos plena certeza sobre a origem de uma confissão. 


O bar funciona como uma cápsula de intimidade. Os enquadramentos fechados, a câmera móvel e a iluminação quente reforçam a proximidade física, enquanto a música de Pedro Fraguela dá ao jazz uma função quase estrutural. O ritmo musical conecta conversas que poderiam parecer vinhetas isoladas e imprime ao longa uma textura ao mesmo tempo retrô e contemporânea. 


"Confesiones Chin Chin" pode frustrar quem procura uma narrativa rigorosamente amarrada. Ainda assim, existe algo sedutor nesse conjunto de vozes indiscretas. Carolina Perelman constrói um cinema queer interessado na escuta e na vulnerabilidade, permitindo que seus personagens retirem as máscaras sem transformá-los em exemplos de boa conduta. Entre jazz, fumaça, álcool e verdades possivelmente maquiadas, o filme propõe seu próprio brinde: à deliciosa confusão de sermos personagens até quando juramos estar confessando a verdade.

domingo, 12 de julho de 2026

Beautiful Evening, Beautiful Day (Lijepa večer, lijep dan, Croácia/ Bósnia/ Herzegovina/ Canadá/ Chipre/ Polônia, 2024)

Em “Beautiful Evening, Beautiful Day”, Ivona Juka recupera uma parcela pouco visível da memória queer do Leste Europeu para construir um drama histórico de grande fôlego. Lovro (Dado Ćosić), Nenad (Đorđe Galić), Stevan (Slaven Došlo) e Ivan (Elmir Krivalić) lutaram como partisans contra os Ustaše e os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial e, dezesseis anos depois, tornaram-se cineastas reconhecidos na Iugoslávia comunista. A suspeita sobre a homossexualidade dos quatro, porém, desperta o interesse do Partido, que encarrega Emir (Emir Hadžihafizbegović) de vigiar e sabotar suas vidas e carreiras. Juka parte desse conflito para lançar uma pergunta incômoda: o que acontece quando homens que lutaram pela liberdade descobrem que a nova ordem também não admite quem eles são? A própria diretora afirma ter pesquisado teses acadêmicas sobre a perseguição a homossexuais na Iugoslávia comunista para desenvolver o projeto. 

A dimensão queer ganha força justamente porque os protagonistas não surgem apartados da História: eles ajudaram a construí-la. São heróis de guerra, artistas e homens gays, uma combinação que confronta a maneira como narrativas nacionais frequentemente higienizam seus personagens para acomodá-los em mitologias políticas. O filme causou controvérsia ao colocar protagonistas gays no centro da memória antifascista e ao representar sua sexualidade de maneira explícita, algo ainda incomum no cinema croata. Juka não esconde os corpos nem transforma a intimidade em elipse respeitável. Sexo, desejo e amor ocupam a tela porque a perseguição política depende exatamente da tentativa de controlar essas experiências. 

O cinema dentro do cinema amplia esse embate. Lovro, Nenad, Stevan e Ivan trabalham em uma estrutura cinematográfica atravessada pela propaganda estatal, ao mesmo tempo em que enxergam a arte como possibilidade de crítica à sociedade pela qual combateram. A vigilância sobre a sexualidade passa, assim, a dialogar com a censura da criação: controlar o corpo e controlar a imagem pertencem ao mesmo projeto autoritário.

“Beautiful Evening, Beautiful Day” encontra no preto e branco fotografado por Dragan Ruljančić uma beleza severa. Os enquadramentos frequentemente parecem comprimir os personagens entre paredes, corredores e estruturas institucionais, enquanto paisagens e sequências próximas à água abrem breves zonas de respiração. O filme não teme a sensualidade masculina e algumas de suas cenas eróticas possuem uma frontalidade rara, mas a beleza das imagens convive com tortura, violência sexual e discriminação. 

“Beautiful Evening, Beautiful Day” encontra sua imagem mais poderosa na contradição de seus protagonistas: homens celebrados por enfrentarem o fascismo que precisam novamente lutar pelo direito de existir. Ivona Juka transforma a memória queer em terreno de disputa política e faz do cinema uma arma contra o apagamento. “Beautiful Evening, Beautiful Day, olha para 1957,  sabendo que regimes mudam de nome, mas a vigilância sobre corpos LGBTQIA+  possui uma assustadora capacidade de sobreviver ao tempo.


sexta-feira, 10 de julho de 2026

Labirinti (Itália, 2024)

A estreia de Giulio Donato na direção demonstra um raro entendimento sobre as contradições da adolescência. Em "Labirinti", o cineasta italiano abandona qualquer romantização do coming of age para construir um drama profundamente enraizado na Calábria rural, onde tradições, masculinidade e conservadorismo moldam o cotidiano de seus habitantes. O protagonista Francesco (Francesco Grillo) cresce ao lado do inseparável Mimmo (Simone Iorgi), mas, à medida que a juventude dá lugar à vida adulta, percebe que seus sonhos e desejos caminham por direções incompatíveis com as expectativas daquele pequeno vilarejo. O labirinto do título não é apenas geográfico, mas sobretudo psicológico, emocional e social.

O roteiro encontra força justamente na maneira como trata a descoberta da sexualidade sem recorrer a grandes revelações ou conflitos espetaculares. O aspecto queer surge de forma gradual, quase silenciosa, acompanhando o despertar de Francesco em um ambiente onde a masculinidade permanece rigidamente codificada. O desejo aparece como algo íntimo, difícil de nomear, refletindo o peso das convenções sociais impostas a um adolescente que começa a compreender que seus sentimentos o afastam do caminho considerado aceitável. A relação com Mimmo ganha camadas cada vez mais complexas, misturando amizade, admiração, rivalidade e uma tensão afetiva que nunca precisa ser completamente verbalizada para ser compreendida pelo espectador.


Donato demonstra grande sensibilidade ao utilizar a própria paisagem calabresa como extensão dos personagens. As montanhas, as estradas estreitas e o isolamento da pequena comunidade reforçam permanentemente a sensação de aprisionamento vivida por Francesco. A fotografia de Lorenzo Scudiero privilegia a luz natural e os grandes espaços abertos, criando um contraste interessante: a natureza parece oferecer liberdade, enquanto as regras invisíveis da comunidade restringem qualquer possibilidade de fuga. Esse diálogo entre espaço físico e estado emocional torna o filme particularmente envolvente.

Embora dialogue com diversos dramas italianos sobre juventude, "Labirinti" encontra personalidade própria ao associar o amadurecimento à construção da identidade queer. O livro encontrado por Francesco, tratado quase como um objeto mágico, simboliza justamente a descoberta de outras possibilidades de existência, funcionando como uma janela para um mundo muito maior do que aquele delimitado pelas montanhas da Calábria. O filme sugere que crescer significa, antes de tudo, encontrar coragem para desafiar narrativas impostas e escrever a própria história. Essa dimensão simbólica amplia o alcance da obra sem comprometer seu realismo.

Sem recorrer a grandes reviravoltas, Giulio Donato entrega um primeiro longa de notável maturidade. "Labirinti" compreende que a experiência queer nem sempre se constrói em torno da violência explícita ou do trauma, mas também através dos pequenos silêncios, dos gestos interrompidos e da dificuldade de imaginar um futuro diferente daquele reservado pela sociedade. É um filme delicado, sensível e profundamente humano, que transforma o processo de amadurecimento em uma busca pela própria liberdade, encontrando na especificidade da Calábria uma história capaz de dialogar com experiências universais.


quinta-feira, 9 de julho de 2026

A Una Isla de Ti (Espanha, 2026)

Alexis Morante traz uma comédia romântica ensolarada que faz da paisagem de Gran Canaria um personagem tão importante quanto seus protagonistas. Em "A Una Isla de Ti", Harry (Freddie Dennis), um chef britânico abandonado no altar, aceita o convite da melhor amiga Yaiza (Julia Martínez) para passar uma temporada na ilha. O que começa como uma fuga sentimental logo se transforma em uma inesperada história de amor quando ele conhece Iván (Jaime Zatarain), pai de Yaiza. A premissa poderia facilmente cair na caricatura, mas Morante conduz o romance com delicadeza, privilegiando o encanto dos encontros e o prazer da descoberta. 

O filme incorpora com delicadeza uma relação homoafetiva ao universo da comédia romântica clássica. O conflito nunca nasce da orientação sexual de Harry ou Iván, mas das inseguranças, dos desencontros e das diferentes maneiras como ambos enxergam o amor.

Freddie Dennis constrói Harry como um estrangeiro em todos os sentidos: deslocado pela dor do abandono, pela língua e pelos costumes locais. Jaime Zatarain, por sua vez, oferece a Iván um charme descontraído, tornando compreensível a atração imediata que desperta. Julia Martínez funciona como elo entre esses dois universos, enquanto Toni Acosta, vivendo Famara, injeta personalidade e humor em praticamente todas as cenas em que aparece. O elenco entende perfeitamente o tom da narrativa, evitando exageros mesmo quando o roteiro abraça situações típicas da comédia de costumes. 

Morante faz de Gran Canaria muito mais do que um cartão-postal turístico. As praias, as pequenas cidades, a culinária, as festas populares e as paisagens vulcânicas participam ativamente da construção emocional dos personagens. Existe, evidentemente, um componente promocional na forma como a ilha é fotografada, mas o diretor consegue integrá-lo ao enredo. O amor de Harry pelo lugar cresce ao mesmo tempo que seu sentimento por Iván, transformando espaço e afeto numa única experiência sensorial. 

O roteiro segue de maneira bastante fiel as convenções da comédia romântica dos anos 1990, com mal-entendidos, coincidências e personagens excêntricos orbitando os protagonistas. Esses clichês impedem que o filme alcance momentos verdadeiramente memoráveis, mas também faz parte de seu charme, onde casais LGBTQIA+ finalmente podem protagonizar histórias leves, divertidas e otimistas sem que o preconceito seja o motor principal da narrativa. 


"A Una Isla de Ti" conquista justamente por sua sinceridade. É um filme sobre recomeços, pertencimento e encontros inesperados, embalado por interpretações carismáticas e por uma atmosfera calorosa que faz da ilha uma extensão dos sentimentos de seus personagens. Alexis Morante entrega uma obra acolhedora, com humor, e luminosa , permitindo que seus protagonistas vivam uma história romântica sem carregar pesos e traumas.

A Coroa de Ruby (Brasil, 2026)

Muito antes de celebrar uma conquista, "A Coroa de Ruby", novo documentário de Henrique Arruda, procura compreender tudo o que existe por trás dela. Ao acompanhar Ruby Nox durante os meses em que aguardava, em absoluto sigilo, a exibição da segunda temporada de "Drag Race Brasil", o curta de 24 minutos registra a tensão, as dúvidas, os preparativos e a entrega exigidos para ocupar um dos maiores palcos da cultura drag contemporânea. O resultado é um retrato íntimo de uma artista que jamais abandona suas origens no sertão pernambucano, revelando que a coroa é apenas a consequência de uma trajetória construída muito antes das câmeras do reality.

Henrique Arruda confirma, mais uma vez, sua habilidade em borrar as fronteiras entre documentário, performance e ensaio audiovisual. Assim como em outros trabalhos de sua filmografia, o diretor aposta na mistura de linguagens para construir uma narrativa profundamente brasileira. A literatura de cordel atravessa o filme ao lado da exuberância da arte drag, enquanto as referências musicais percorrem extremos aparentemente distantes, de Shirley Bassey à rainha do forró Marinês.

O aspecto mais interessante do documentário está justamente naquilo que o público raramente vê. Arruda acompanha os bastidores dos ensaios fotográficos, a elaboração dos figurinos, a concepção dos looks e o trabalho quase artesanal que antecede cada aparição pública da drag queen. São momentos que desmontam qualquer ideia de glamour imediato. A construção de uma estrela exige planejamento, criatividade, investimento financeiro e uma enorme carga emocional. Os depoimentos íntimos de Ruby, conduzidos com a naturalidade de seu delicioso sotaque sertanejo, aproximam a personagem do espectador e
revelam fragilidades que o formato competitivo do reality dificilmente permitiria explorar.


Há também um componente afetivo evidente entre cineasta e personagem. Henrique Arruda acompanha Ruby Nox há anos, e essa intimidade se transforma numa vantagem narrativa. O documentário nunca assume uma postura distante ou jornalística; prefere registrar cumplicidades. Em diversos momentos, a câmera parece filmar não apenas uma vencedora, mas uma musa recorrente dentro do universo criativo do diretor.

Embora a vitória em "Drag Race Brasil" funcione como eixo dramático, "A Coroa de Ruby" amplia seu olhar para discutir representatividade. Natural de Carnaíba, no sertão do Pajeú, Ruby Nox torna-se símbolo de uma geração de artistas nordestinas que historicamente permaneceram à margem dos grandes centros culturais. O documentário compreende a dimensão política dessa conquista sem transformar sua protagonista em monumento. Ao contrário, evidencia como sua arte nasce justamente do encontro entre cultura popular, teatro, performance, artes visuais e experimentação, reafirmando que a drag brasileira possui inúmeras identidades para além dos modelos consagrados internacionalmente.


Com pouco mais de vinte minutos, "A Coroa de Ruby" emociona porque entende que grandes vitórias nunca pertencem apenas a uma pessoa. Henrique Arruda transforma os bastidores de um reality em um documento sobre pertencimento, memória e resistência cultural, registrando uma artista que leva Pernambuco para o centro da cultura pop global sem abandonar o sotaque, as referências e os afetos que moldaram sua trajetória. Ao celebrar Ruby Nox, o filme também celebra toda uma cena drag nordestina que há muito tempo merecia ocupar esse lugar de protagonismo.


quarta-feira, 8 de julho de 2026

Girls like Girls (EUA, 2026)

Hayley Kiyoko transformou um dos videoclipes sáficos mais importantes da década passada em romance literário e, agora, em seu primeiro longa como diretora. "Girls Like Girls" expande o universo criado em 2015 sem perder de vista aquilo que fez da obra um fenômeno para uma geração inteira: a possibilidade de jovens lésbicas e bissexuais se enxergarem no centro de uma história de amor. Ambientado em 2006, o filme acompanha Coley, recém-chegada a uma pequena cidade do Oregon após a morte da mãe, que encontra em Sonya uma amizade capaz de despertar sentimentos que ambas ainda não conseguem nomear.

Kiyoko demonstra sensibilidade ao reconstruir uma adolescência anterior às redes sociais e à maior visibilidade LGBTQIA+ dos dias atuais. As conversas pelo AOL Messenger, os iPods, os mergulhos no lago e os passeios de bicicleta evocam um verão que parece suspenso no tempo. O romance entre Coley e Sonya faz da descoberta afetiva algo íntimo e reconhecível.

Kiyoko não ignora os medos que cercavam adolescentes LGBTQIA+ em meados dos anos 2000, quando assumir um relacionamento entre duas garotas ainda parecia um risco enorme. O filme também acerta ao colocar duas jovens racializadas no centro da história, ampliando uma representatividade ainda pouco frequente nas grandes produções do gênero. A própria diretora declarou que desejava realizar o filme que gostaria de ter visto quando era adolescente. 

Esteticamente, nota-se a origem de Kiyoko como diretora de videoclipes. A fotografia aposta em luz dourada, contraluzes e movimentos suaves de câmera que transformam aquele verão em uma memória afetiva permanente. Em alguns momentos, essa estética faz o longa flertar com a linguagem de vídeos musicais, Ainda assim, Maya Da Costa e Myra Molloy sustentam a experiência com interpretações delicadas e uma química convincente, capazes de transmitir tudo mesmo quando os diálogos optam pelo minimalismo. 

Se existe uma limitação, ela está justamente no roteiro. Algumas situações seguem caminhos previsíveis e determinados conflitos emocionais poderiam receber maior desenvolvimento. A narrativa prefere permanecer em uma zona de conforto, evitando riscos que poderiam aprofundar ainda mais suas personagens. Mas, essa simplicidade também permite que a sinceridade dos sentimentos permaneça sempre em primeiro plano. 

"Girls Like Girls" cumpre algo importante: entrega às novas gerações uma história sáfica luminosa, romântica e repleta de esperança. Hayley Kiyoko confirma que seu compromisso com a representação queer vai além da música e demonstra personalidade como cineasta, realizando um filme delicado, nostálgico, POP e emocionalmente honesto.

Natal Amargo (Amarga Navidad, Espanha, 2026)

 

Pedro Almodóvar retorna ao espanhol em "Natal Amargo" olhando para trás sem qualquer nostalgia. Em vez de buscar conforto na própria filmografia, o cineasta transforma o ato de criar em matéria dramática, embaralhando lembranças, ficção e autobiografia em uma narrativa  metalinguística. A história acompanha a escritora Elsa (Bárbara Lennie), que enfrenta um período de luto e bloqueio criativo, ela é na verdade personagem de um roteiro do cineasta Raúl (Leonardo Sbaraglia), cuja vida profissional e pessoal passa a dialogar perigosamente com o material que pretende transformar em filme. Ao redor deles orbitam personagens como Mónica (Aitana Sánchez-Gijón), Patricia (Victoria Luengo), Natalia (Milena Smit), o parceiro de Raúl, Santi (Quim Gutiérrez) e Bonifacio (Patrick Criado), formando um mosaico de afetos, memórias e feridas que borra continuamente as fronteiras entre realidade e invenção,

Há um humor discreto atravessando a melancolia, uma ironia tipicamente almodovariana que impede a narrativa de sucumbir ao peso do sofrimento. É também um dos filmes mais musicais do diretor em muitos anos. A emocionante interpretação de Amaia Romero para "Las simples cosas" ecoa a intensidade de Caetano Veloso cantando em "Fale com Ela", enquanto a presença simbólica de Chavela Vargas reaparece como uma homenagem carregada de afeto a uma artista fundamental para o universo emocional de Almodóvar. Em outro extremo, uma sequência de striptease embalada por Grace Jones reafirma que sensualidade, humor e dor continuam coexistindo em perfeita sintonia dentro de seu cinema, fazendo da música uma extensão dos sentimentos que as personagens nem sempre conseguem verbalizar.

Essa sensação de reencontro também passa pelo elenco. Bárbara Lennie conduz o filme com uma interpretação delicada e contida, Rostos históricos do cinema almodovariano, como Carmen Machi, Rossy de Palma e Bibiana Fernández, além da atriz trans Ángeles Ortega e até Los Javis, reafirmam compromisso do diretor com um cinema onde diferentes identidades convivem com absoluta naturalidade e nunca precisam justificar sua existência.

 "Natal Amargo" confirma que poucos cineastas contemporâneos dominam a imagem com tamanha precisão. Na fotografia, sai o antigo colaborador José Luís Alcaine, para a primeira contribuição com Pau Esteve Birba, que transforma objetos, tecidos, paredes e peças decorativas em extensões do estado emocional das personagens. Cada ambiente parece cuidadosamente construído para revelar sentimentos antes mesmo que eles sejam verbalizados. Os enquadramentos, as cores saturadas e a direção de arte preservam uma assinatura estética imediatamente reconhecível.

O roteiro encontra sua maior força justamente ao transformar o próprio processo criativo em conflito dramático. O cinema deixa de ser apenas tema para tornar-se personagem. Almodóvar questiona os limites éticos entre inspiração e apropriação, perguntando até que ponto um artista tem o direito de transformar a intimidade alheia em ficção. Esse movimento aproxima inevitavelmente "Natal Amargo" de "Dor e Glória", mas sem repetir sua estrutura. Se naquele filme predominava a reconciliação com o passado, aqui há uma inquietação permanente sobre o preço de transformar experiências pessoais em obra de arte. Vida e cinema deixam de ocupar espaços distintos e passam a existir como uma única matéria narrativa.

Mesmo que alguns momentos revelem um cineasta confortável revisitando temas recorrentes, "Natal Amargo" permanece uma obra sofisticada, elegante e emocionalmente generosa. Seu humor delicado, a musicalidade constante, o reencontro com figuras emblemáticas da filmografia almodovariana e a reflexão sobre o próprio ato de criar reafirmam a vitalidade artística de Pedro Almodóvar. Entre ficção e memória, desejo e luto, o diretor continua encontrando novas formas de filmar sentimentos antigos, lembrando que revisitar o próprio universo nunca significa permanecer no mesmo lugar, mas descobrir novas possibilidades de olhar para aquilo que ainda habita ne pele.


segunda-feira, 6 de julho de 2026

Coágulo (Brasil, 2026)

Hsu Chien já transitou por diferentes gêneros ao longo da carreira, mas é em "Coágulo" que ele vai direto à artéria, entregando tudo aquilo pelo que gays são sedentos. Depois de comédias POP como "Desapega!" e "Morando com o Crush", o diretor mergulha definitivamente no horror para transformar o vampiro em metáfora de desejo, envelhecimento e permanência. Com Carmo Dalla Vecchia, o curta acompanha uma criatura noturna que, em vez de apenas sugar sangue, intensifica a experiência sexual e a conexão de suas vítimas durante o orgasmo, enquanto declama versos de Augusto dos Anjos. Curiosamente, a gênese do projeto nasceu da fotografia viral do chamado "Surubão do Arpoador". Como revelou o cineasta, o anonimato daqueles corpos desfocados despertou a pergunta que daria origem ao filme: "Essas pessoas trabalham o dia todo, se expõem de madrugada... só podem ser vampiros." A partir dessa imagem, o diretor constrói uma fantasia erótica onde anonimato, desejo e marginalidade caminham pelas sombras.

Desde a sequência de abertura, ambientada em um parque e marcada por um momento de cruising, "Coágulo" deixa claro que não pretende suavizar sua proposta. Há nudez, sangue, saliva, sêmen e uma constante troca de fluidos, mas Hsu filma tudo com surpreendente elegância. A fotografia de Alex Araripe alterna luzes quentes, como o inferno, e banhos de neon azul que evocam o giallo italiano, enquanto o formato de tela quadrado reforça a sensação de clausura e aprisionamento dos personagens, decisão assumida pelo próprio diretor. "Eu queria essa sensação de aprisionamento, de claustrofobia, de angústia", explicou. 

O filme reposiciona o mito do vampiro. Em vez da eterna criatura jovem e irresistível, Hsu o utiliza para discutir a maturidade queer, um tema muito necessário. Carmo Dalla Vecchia interpreta essa presa e predador com uma mistura de sofisticação, melancolia e apetite, enquanto Fernando Braga, Márcio Rosário e Bayard Tonelli, integrante histórico dos Dzi Croquettes, ampliam a reflexão sobre corpos que continuam desejantes quando a sociedade insiste em decretar sua invisibilidade. 


Não por acaso, Hsu afirma que desejava homenagear Bayard justamente para reafirmar que "os corpos de terceira idade também são corpos desejáveis", rompendo com uma lógica que insiste em expulsar o envelhecimento da sexualidade. Há uma sequência envolvendo seu personagem que inevitavelmente remete ao universo de "Gerontophilia", de Bruce LaBruce, porque "Coágulo" também é sobre cuidado, reafirmando que o desejo não envelhece. O diretor define essa transformação como "uma catarse muito bonita", na qual um homem que passou a vida reprimindo a própria identidade finalmente se permite ser desejado.

Também chama atenção a maneira como Hsu transforma o vampiro em uma figura ambígua. Ele é um predador, mas também um libertador. Em vez de condenar o prazer, suas mordidas funcionam como uma metáfora de emancipação para personagens que passaram décadas aprisionados por convenções sociais e pela própria repressão. "O vampiro representa a libertação", resume o diretor, permitindo que personagens oprimidos finalmente experimentem o prazer sem culpa ou vergonha. Os versos pré-modernistas de Augusto dos Anjos acrescentam outra camada ao filme, aproximando erotismo, morte e decadência em um diálogo poeticamente brasileiro. A mistura entre terror, fantasia, drama e experimentalismo faz de "Coágulo" uma experiência sensorial que encontra na carne seu principal instrumento narrativo.

Depois de abordar personagens LGBTQIA+ em filmes como "Quem Vai Ficar com Mário?", ou nos curtas "Flerte" e "Bergamota", Hsu Chien realiza aqui seu trabalho mais radical e politicamente consciente. O diretor subverte convenções clássicas do cinema de vampiros para discutir etarismo, masculinidades, memória e liberdade sexual, oferecendo visibilidade a uma geração queer frequentemente esquecida pelo audiovisual. "Coágulo" demonstra que o terror continua sendo um dos espaços mais férteis para refletir sobre identidade e desejo, entregando um curta estilizado, provocador e surpreendentemente sensível, capaz de encontrar beleza justamente onde a sociedade insiste em enxergar decadência.

domingo, 5 de julho de 2026

Siempre Vuelven (Argentina/Uruguai, 2025)

A estreia de Sergio de León em longas revela um cineasta interessado em abordar o amadurecimento queer por caminhos pouco convencionais. Em "Siempre Vuelven", o luto, o desejo e a descoberta da sexualidade caminham junto, sempre atravessados por um simbolismo delicado e, por vezes, surreal. A trama acompanha Emilio (Bruce Pintos), um jovem de 18 anos que, após a morte da mãe, herda um pombal de pombos-correio e passa a cuidar tanto da criação quanto das dívidas deixadas por ela. Ao lado de Juan (Juan Wauters) , antigo companheiro da mãe, ele encontra nos pássaros uma forma de reconstruir a própria vida, enquanto desperta para sentimentos até então desconhecidos.

Embora a narrativa tenha como ponto de partida uma perda familiar, o filme rapidamente amplia seu horizonte para discutir identidade e desejo. Emilio não atravessa apenas o luto, mas também um processo de autoconhecimento que transforma seu olhar sobre o próprio corpo e sobre aqueles que o cercam. Sergio de León evita recorrer ao arco do "coming out", preferindo observar pequenas descobertas cotidianas, silêncios e impulsos que surgem naturalmente.

Existe ainda uma dimensão poética que diferencia "Siempre Vuelven" de outros dramas queer latino-americanos. Os pombos-correio deixam de ser simples elementos narrativos para assumir um papel simbólico constante. Representam memória, retorno, pertencimento e liberdade, acompanhando Emilio em uma jornada onde cada voo parece refletir um novo estado emocional. A lenda da pomba Winkie, evocada durante a narrativa, reforça essa construção quase fabulesca, enquanto o filme mistura humor discreto, erotismo, realismo mágico e imagens de forte apelo sensorial.

Bruce Pintos entrega uma atuação extremamente natural, sustentando um protagonista que fala pouco, mas expressa muito. Ao seu lado, o músico uruguaio Juan Wauters confere enorme humanidade ao personagem Juan, estabelecendo uma relação afetuosa que também surge em acordes musicais. A fotografia privilegia paisagens rurais e espaços abertos, típicos do Uruguai, contrastando com uma paleta que remete a plumagem dos pombos, ressaltando a intensidade emocional dos personagens.

Em vez de explicar seus símbolos, Sergio de León prefere sugeri-los. Há momentos em que a narrativa assume contornos oníricos e flerta com a fantasia, mas sem abandonar o cotidiano daquela comunidade rural uruguaia. O erotismo também aparece de forma livre e desinibida, integrando-se ao percurso emocional de Emilio.. Essa combinação de lirismo, desejo e estranheza faz do filme uma experiência bastante singular,

Ao transformar um pombal em cenário para um delicado rito de passagem, Sergio de León realiza um filme sobre heranças que vão muito além das materiais. "Siempre Vuelven" compreende que crescer significa aprender a conviver com aquilo que permanece.. Entre pássaros que sempre encontram o caminho de volta, desejos que acham espaço para existir e memórias que insistem em estar vivas, o diretor constrói uma obra sensível, confirmando sua chegada como uma voz promissora do novo cinema queer latino-americano.


quinta-feira, 2 de julho de 2026

Jone, A Veces(Jone, batzuetan, Espanha, 2025)

A estreia solo de Sara Fantova em longas demonstra sensibilidade para capturar o instante delicado em que a juventude deixa de ser promessa e passa a conviver com perdas, responsabilidades e escolhas irreversíveis. Ambientado durante a vibrante Semana Grande de Bilbao, "Jone, A Veces" contrapõe a explosão coletiva da festa à intimidade silenciosa de sua protagonista. É um coming-of-age que evita grandes reviravoltas dramáticas para encontrar sua força nos pequenos gestos, nos silêncios e na sensação de que crescer quase nunca acontece de maneira gloriosa.

Jone, interpretada com impressionante naturalidade por Olaia Aguayo, tem apenas vinte anos, mas já carrega um peso que parece incompatível com sua idade. Enquanto acompanha o agravamento do Parkinson do pai e assume parte dos cuidados da irmã mais nova, ela vive seu primeiro amor ao conhecer Olga ( Ainhoa Artetxe). A descoberta afetiva nunca surge como conflito por se tratar de um romance entre duas mulheres, algo que Fantova trata com admirável naturalidade.

Essa abordagem talvez seja o maior mérito do filme. Em vez de transformar a sexualidade em motor exclusivo da narrativa, Fantova compreende que a vida de uma jovem lésbica também é atravessada por questões familiares, econômicas e existenciais. O romance entre Jone e Olga floresce entre shows, caminhadas noturnas e encontros durante a festa popular, oferecendo respiros luminosos diante da inevitabilidade da doença e da responsabilidade familiar.

A fotografia, de Andreu Ortoll, acompanha a protagonista com câmera próxima aos corpos, privilegiando rostos, olhares e pequenas reações, enquanto Bilbao raramente é filmada como cartão-postal. A cidade pulsa através de suas festas, multidões e música, mas permanece sempre filtrada pela experiência subjetiva de Jone.

O roteiro talvez peque por certa timidez dramática. Algumas relações secundárias poderiam ser exploradas com maior profundidade, especialmente o vínculo entre Jone e seu pai, que permanece emocionalmente contido até os instantes finais. Em determinados momentos, a opção por um registro minimalista faz com que certos conflitos pareçam apenas esboçados. 

"Jone, A Veces" revela uma cineasta com identidade própria e um olhar profundamente humanista. Sara Fantova filma a juventude como um território de transição permanente, onde a alegria de um primeiro amor convive inevitavelmente com a consciência da finitude. É um filme discreto, mas emocionalmente consistente, que encontra beleza naquilo que costuma escapar aos grandes dramas: os dias comuns, as despedidas silenciosas e a coragem de continuar vivendo quando o futuro finalmente deixa de parecer uma abstração.

Waldo (Espanha, 2024)

Há documentários musicais que celebram um artista e há aqueles que procuram compreender o ser humano escondido atrás da fama. "Waldo", dirigido por Charlie Arnaiz e Alberto Ortega, pertence decididamente ao segundo grupo. Em vez de construir uma hagiografia sobre o compositor argentino Waldo de los Ríos, responsável por popularizar a versão sinfônica de "Himno a la alegría" e por revolucionar a música popular espanhola nas décadas de 1960 e 1970, o filme investiga as fissuras de um homem cuja genialidade caminhava lado a lado com a solidão, a depressão e a violência de uma sociedade profundamente homofóbica.

A narrativa parte da morte do músico, encontrado em 1977 com dois tiros no rosto, oficialmente considerada suicídio, para reconstruir sua trajetória através de cartas, filmes caseiros, gravações em áudio e fotografias preservadas pelo próprio Waldo. Esse vasto acervo, somado aos depoimentos de familiares, amigos e de sua viúva, a jornalista Isabel Pisano, transforma o documentário em uma investigação íntima sobre um artista que parecia registrar a própria vida na esperança de não ser esquecido. 

O aspecto queer atravessa toda a obra de maneira sensível e contundente. Embora Waldo nunca tenha vivido publicamente sua homossexualidade, o documentário evidencia o peso que o preconceito exerceu sobre sua existência, especialmente durante a Espanha franquista e os anos imediatamente posteriores à ditadura. Sua orientação sexual não é apresentada como curiosidade biográfica, mas como um elemento inseparável das pressões que contribuíram para seu sofrimento emocional.

"Waldo" impressiona pelo modo como transforma arquivos pessoais em linguagem cinematográfica. A montagem organiza cartas, fitas cassete, diários e registros domésticos como se cada fragmento fosse uma peça de uma memória quebrada. Os diretores evitam narrações excessivamente explicativas e permitem que a voz do próprio compositor conduza grande parte da narrativa, estabelecendo uma relação emocional rara entre espectador e personagem.

O roteiro encontra equilíbrio entre a investigação histórica e a dimensão afetiva, ainda que algumas questões permaneçam inevitavelmente sem resposta. Em vez de preencher todas as lacunas, Arnaiz e Ortega compreendem que certos mistérios pertencem ao próprio Waldo. Essa recusa em oferecer conclusões fáceis fortalece o documentário, que jamais transforma o sofrimento psíquico em espetáculo nem reduz seu protagonista à tragédia de seu desfecho. 

"Waldo" resgata um dos grandes nomes da música ibero-americana ao mesmo tempo que devolve humanidade a uma figura frequentemente reduzida ao mito ou ao escândalo de sua morte. Charlie Arnaiz e Alberto Ortega realizam um documentário elegante, profundamente melancólico e politicamente relevante, ao revelar como talento, sucesso e criatividade não foram suficientes para proteger Waldo de los Ríos da homofobia, da repressão e da solidão. O resultado é um retrato emocionante de um homem que desejava permanecer vivo através de sua obra e que, graças a este filme, finalmente encontra uma nova forma de permanência.



Bang My Box: A História de Robin Byrd (Bang My Box: The Robin Bird Story, EUA, 2026)

Muito antes da internet transformar qualquer pessoa em influenciadora e do algoritmo decidir o que pode ou não ser visto, Robin Byrd já ocupava as madrugadas da televisão nova-iorquina com um programa que misturava erotismo, humor, entrevistas e uma defesa incondicional da liberdade de expressão. "Bang My Box: A História de Robin Byrd", dirigido por Jyllian Gunther e Stephanie Schwam, recupera essa trajetória extraordinária sem tentar domesticá-la. 

Para quem nunca ouviu falar de Robin Byrd, o filme funciona como uma verdadeira cápsula do tempo. Ex-atriz de filmes adultos, ela transformou o "The Robin Byrd Show", exibido entre 1977 e 1998 na TV comunitária de Nova York, em um espaço onde estrelas pornôs, performers, artistas experimentais, drag queens e pessoas LGBTQIA+ encontravam uma visibilidade praticamente inexistente na televisão tradicional. 

O documentário demonstra que Robin Byrd nunca foi apenas uma apresentadora provocadora. Durante os anos mais devastadores da epidemia de HIV/AIDS, ela utilizou sua enorme audiência e plataforma para incentivar o sexo seguro, combater a desinformação e acolher uma comunidade frequentemente ignorada pelos grandes meios de comunicação. Também enfrentou uma longa batalha judicial contra tentativas de censura da televisão a cabo, transformando-se, quase sem querer, em uma importante defensora da Primeira Emenda da Constituição norte-americana. 


Gunther e Schwam evitam transformar Byrd em um monumento intocável. Ao contrário, aproximam-se dela no presente, acompanhando sua rotina, a dedicação ao marido Shelly, diagnosticado com demência, e sua preocupação em preservar centenas de fitas que documentam décadas de televisão alternativa. Esse contraponto entre a figura explosiva dos arquivos e a mulher idosa que revisita o próprio legado acrescenta uma delicadeza inesperada ao documentário. 

"Bang My Box" abraça a estética imperfeita da televisão pública dos anos 1970 e 1980, preservando sua textura analógica e seu charme artesanal. Mais do que revisitar um programa de auditório, o documentário registra uma Nova York desaparecida, onde a contracultura, a vida noturna e a comunidade queer construíram espaços próprios de sobrevivência diante do conservadorismo crescente.

"Bang My Box: A História de Robin Byrd" deixa claro que seu verdadeiro tema não é pornografia nem televisão, mas liberdade. Robin Byrd transformou um programa de baixíssimo orçamento em uma plataforma de acolhimento, educação sexual e resistência política quando poucos estavam dispostos a fazê-lo. O documentário celebra essa herança sem esconder suas contradições, reconhecendo nela uma pioneira cuja influência ultrapassa em muito o universo do entretenimento adulto.


quarta-feira, 1 de julho de 2026

She's The He! (EUA, 2025)

Há um risco evidente em construir uma comédia a partir de uma premissa que, em mãos menos sensíveis, poderia facilmente escorregar para o deboche. Em "She's the He", Siobhan McCarthy transforma justamente esse risco em seu maior acerto. O filme segue  Alex (Nico Carney) e Ethan (Misha Osherovich), dois amigos do ensino médio que decidem fingir ser garotas trans para encerrar os rumores de que seriam um casal gay e, no caso de Alex, se aproximar da garota por quem é apaixonado. A brincadeira, porém, toma outro rumo quando Ethan percebe que aquela identidade improvisada desperta sentimentos que sempre estiveram adormecidos. O que começa como uma sátira das guerras culturais em torno das pessoas trans rapidamente se converte em um afetuoso relato de descoberta e aceitação.

McCarthy demonstra inteligência ao subverter a estrutura das tradicionais comédias teen. O filme dialoga com títulos como "American Pie", "Ela é Demais" e tantas outras produções dos anos 1990 e 2000, mas desmonta seus códigos com ironia. Em vez de reforçar estereótipos sobre gênero e sexualidade, utiliza o humor para ridicularizar o pânico moral em torno das pessoas trans, especialmente a histeria política envolvendo banheiros e vestiários. 


She's the He" foi concebido por uma equipe majoritariamente formada por artistas trans e não binários, algo que reflete na autenticidade de seus conflitos e diálogos. Misha Osherovich entrega uma atuação delicada e comovente como Ethan, acompanhando cada pequena transformação emociona. Nico Carney funciona como contraponto perfeito ao interpretar um adolescente cuja imaturidade vai sendo confrontada pela realidade.

O filme abraça uma estética colorida, frenética e deliberadamente exagerada. A montagem acelerada, as animações, a trilha sonora vibrante e o humor físico remetem às comédias juvenis clássicas. Esse dinamismo conversa diretamente com a energia caótica da adolescência e reforça a proposta de criar um filme pop sem abrir mão de seu posicionamento político. 

Em um momento histórico marcado por retrocesso e ataques às pessoas trans, "She's the He" responde com aquilo que o cinema frequentemente oferece de melhor: empatia, irreverência e imaginação. Siobhan McCarthy entrega uma estreia que diverte sem banalizar seus temas e emociona sem recorrer ao melodrama fácil. Imperfeito em alguns aspectos narrativos, mas extremamente honesto em suas intenções, o filme reafirma que a comédia continua sendo uma poderosa ferramenta, sobretudo quando se recusa a rir das pessoas trans e escolhe rir do preconceito que insiste em persegui-las.

Do bordel ao deserto: como "O Lugar sem Limites" e "O Olhar Misterioso do Flamingo" dialogam

Há filmes que parecem responder uns aos outros mesmo quando separados por décadas. É o caso de "O Lugar sem Limites" (1978), de Arturo Ripstein, e "O Olhar Misterioso do Flamingo" (2025), estreia em longa-metragem do chileno Diego Céspedes. Ambos compartilham uma inquietação comum: investigar como sociedades profundamente conservadoras transformam corpos dissidentes em alvo de medo, desejo e violência. O diálogo entre as duas obras revela não apenas a permanência da transfobia e da homofobia na América Latina, mas também a força do cinema queer latino-americano em transformar essas dores em memória e resistência.

Nos dois filmes, o espaço é muito mais do que cenário. Em "O Lugar sem Limites", El Olivo, um vilarejo mexicano decadente dominado por um bordel, representa um universo sem qualquer possibilidade real de fuga. Já em "O Olhar Misterioso do Flamingo", Diego Céspedes transporta essa sensação para uma isolada comunidade mineradora no deserto chileno durante a ditadura de Augusto Pinochet. Ambos constroem verdadeiros microcosmos onde preconceito, ignorância e violência se alimentam mutuamente. O  próprio Céspedes reconheceu que leu o romance "El lugar sin límites", de José Donoso, origem da obra de Ripstein, e percebe afinidades entre os dois universos.


Essa aproximação é fortalecida sobretudo na centralidade de suas personagens trans e travestis.La Manuela, interpretada magistralmente por Roberto Cobo, permanece uma das figuras mais emblemáticas da história do cinema latino-americano. Décadas depois, Céspedes apresenta Flamingo e a família da Casa Alaska como um núcleo igualmente vibrante de afeto, humor e solidariedade. Nenhuma dessas personagens existe apenas para sofrer. Ao contrário, elas irradiam desejo, sensualidade, ironia e humanidade.


Céspedes substitui a agressão direta da obra dos anos 1970, por uma poderosa alegoria: o mito de que homens adoecem ao serem olhados com desejo por pessoas queer. A invenção de uma enfermidade transmitida pelo olhar ecoa diretamente o pânico moral que cercou a epidemia de HIV/AIDS nos anos 1980, quando o simples contato com corpos LGBTQIA+ passou a ser tratado como ameaça. Em ambos os casos, o preconceito nasce da tentativa desesperada de controlar aquilo que não pode ser domesticado: o desejo.
Quase cinquenta anos separam as duas obras, mas a sensação é de continuidade histórica. "O Lugar sem Limites" abriu caminhos ao confrontar de forma inédita o machismo estrutural latino-americano e colocar uma travesti no centro de sua narrativa. "O Olhar Misterioso do Flamingo" amplia esse legado ao incorporar realismo mágico, memória da AIDS, infância e poesia visual sem abandonar o compromisso político com a dignidade de corpos marginalizados.