Mariano Lamberti parte de uma ideia simples em "Una Storia Vera", mas procura expandi-la por meio de uma estética de found footage que mistura registros íntimos, vídeos de celular e imagens supostamente espontâneas. A narrativa acompanha o relacionamento entre dois jovens, interpretados por Alessio Bisaccia e Giulio Forges Davanzati, cuja paixão é registrada quase em tempo real, entre passeios por Roma, momentos de intimidade e pequenas crises afetivas. O título brinca justamente com essa ideia de verdade: não importa tanto se os acontecimentos são reais, mas se o dispositivo cinematográfico consegue convencer o espectador de que está diante de fragmentos autênticos de uma vida.
A opção pelo found footage, contudo, é simultaneamente a maior virtude e o principal obstáculo da obra. Em alguns momentos, a câmera nervosa, os enquadramentos improvisados e a baixa resolução realmente criam uma sensação de intimidade, como se o público invadisse lembranças privadas dos personagens. Em outros, porém, a encenação denuncia o próprio artifício. Algumas situações parecem excessivamente calculadas para um registro que pretende soar espontâneo, reduzindo a potência da proposta justamente quando ela deveria alcançar maior naturalidade.
Essa irregularidade também afeta o roteiro. Há ideias interessantes sobre memória, vulnerabilidade e pertencimento, mas elas surgem de maneira dispersa, como se estivéssemos assistindo à ampliação de um curta-metragem. Certas sequências se prolongam sem acrescentar novas camadas dramáticas, enquanto conflitos importantes aparecem e desaparecem rapidamente.
Tecnicamente, o filme compreende bem as limitações que escolhe assumir. A montagem preserva a sensação de material encontrado, enquanto a fotografia imperfeita reforça a proximidade física entre câmera e personagens. Ainda assim, o minimalismo visual não basta para esconder algumas oscilações de ritmo e interpretação.
"Una Storia Vera" é um experimento interessante dentro do cinema queer independente italiano, sobretudo por utilizar o found footage para falar de intimidade, desejo e vulnerabilidade afetiva em vez de recorrer ao suspense ou ao horror, gêneros mais associados ao formato. Mariano Lamberti demonstra sensibilidade ao registrar pequenos gestos cotidianos e encontra momentos de verdade entre seus protagonistas. Ainda assim, o longa também evidencia limitações importantes de escrita e construção narrativa, fazendo com que a experiência oscile entre o genuinamente comovente e o excessivamente improvisado.
