Karl Lagerfeld passou décadas transformando a própria imagem em uma instalação de arte. O cabelo branco preso em rabo de cavalo, os óculos escuros, as luvas, o colarinho alto e a postura quase aristocrática fizeram dele uma das figuras mais reconhecíveis da moda, mesmo para quem jamais acompanhou uma coleção de Chanel ou Fendi. Nick Hooker tenta investigar em “Karl”, documentário que percorre sete décadas da trajetória do estilista, de sua infância na Alemanha à transformação em uma espécie de celebridade permanente da cultura pop. Baseado na biografia “Paradise Now”, de William Middleton, o filme reúne imagens de arquivo, entrevistas com colaboradores e depoimentos de nomes como Tilda Swinton, Tom Ford e Penélope Cruz. O problema é que Lagerfeld passou tanto tempo interpretando Karl Lagerfeld que talvez não exista uma separação tão simples entre personagem e pessoa.
Como panorama da carreira, o documentário é bastante eficiente. Hooker entende que contar Lagerfeld significa também contar uma parte importante da transformação da moda em espetáculo midiático. Sua passagem por Chloé, a recuperação da Chanel a partir de 1983, o trabalho simultâneo para diferentes marcas, a criação da própria grife e a capacidade de transformar um desfile em acontecimento cultural aparecem como capítulos de uma trajetória marcada por uma curiosidade quase compulsiva. O desfile da Chanel transformado em supermercado, as campanhas publicitárias, a colaboração com a H&M e a própria presença constante de Lagerfeld diante das câmeras mostram um homem que compreendeu muito antes de seus contemporâneos que um estilista também poderia ser uma marca, um personagem e uma celebridade.
Mas é quando “Karl” se aproxima da intimidade que sua proposta fica mais interessante e, ao mesmo tempo, mais incompleta. Lagerfeld era gay e Jacques de Bascher foi o grande amor de sua vida, uma relação que atravessou décadas e terminou com a morte de Jacques por uma doença relacionada à AIDS, em 1989. O documentário reconhece a importância desse relacionamento e encontra nele uma chave para compreender a solidão do estilista, mas não mergulha profundamente nas contradições dessa vida afetiva.
Esse paradoxo é o verdadeiro assunto de “Karl”. O filme começa com a promessa de revelar quem estava escondido atrás dos óculos escuros, mas quanto mais pessoas falam sobre Lagerfeld, mais ele parece escapar. Tilda Swinton, Tom Ford e outros admiradores oferecem versões diferentes do mesmo homem: genial, engraçado, cruel, generoso, controlador, infantil, sofisticado, solitário. Os colaboradores que trabalharam durante décadas com ele são, curiosamente, mais reveladores do que as celebridades convidadas a celebrar sua genialidade.
O problema é que essa admiração também suaviza aspectos que deveriam provocar maior desconforto. Lagerfeld foi responsável por uma série de declarações e posições controversas, especialmente sobre corpos gordos, mulheres, imigração e o movimento #MeToo. “Karl” faz referências muito rápidas a algumas dessas controvérsias, mas não parece interessado em confrontar seriamente a relação entre seu poder, sua influência e aquilo que suas palavras produziram. Como separar o homem que desafiava convenções na moda do homem que também reproduzia preconceitos bastante convencionais?
“Karl” não decifra Karl Lagerfeld. O documentário é elegante, movimentado e visualmente sedutor, e funciona muito bem como introdução à trajetória de um dos personagens mais influentes da moda contemporânea. Mas a tentativa de encontrar o homem por trás da máscara acaba revelando algo mais curioso: a máscara era parte inseparável daquele homem. Sua sexualidade, sua relação com Jacques, sua solidão, sua obsessão pelo trabalho e sua necessidade de controlar a própria imagem formam um personagem que talvez tenha sido deliberadamente impossível de capturar. Hooker chega perto, encontra algumas fissuras e olha através delas, mas Lagerfeld continua escapando.
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