sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Iván & Hadoum (Espanha/Alemanha/Bélgica, 2026)


Em “Iván & Hadoum”, Ian de la Rosa transforma os enormes campos de tomate na Almería em cenário para uma história de amor que nunca consegue existir completamente separada das estruturas ao redor. Iván (Silver Chicón) é um homem trans que trabalha como operador de empilhadeira em uma estufa e está prestes a receber uma promoção que representa não apenas uma conquista pessoal, mas também a possibilidade de melhorar a vida de sua família. Quando Hadoum (Herminia Loh), uma trabalhadora de origem hispano-marroquina, chega à empresa, os dois retomam uma conexão que vem da adolescência, antes da transição de Iván. O romance nasce de maneira espontânea, entre conversas, trabalho e encontros à beira-mar, mas rapidamente evolui para um conflito sobre aquilo que cada um está disposto a sacrificar para sobreviver.

O interessante é que De la Rosa recusa a ideia de que a experiência trans de Iván precise ser apresentada. O personagem já atravessou o processo de aceitação e vive sua identidade com naturalidade, cercado por uma família que o reconhece e o apoia. A questão não é fazer Iván provar quem é, mas descobrir quem deseja ser quando uma oportunidade de ascensão profissional o coloca do outro lado de uma estrutura que começa a prejudicar justamente as pessoas com quem ele trabalha. 


Hadoum não existe apenas como interesse amoroso de Iván. Ela é uma personagem com desejos e posições próprias, e sua experiência como mulher de origem marroquina dentro de uma empresa marcada pela precariedade faz com que a relação entre os dois seja atravessada por uma diferença política cada vez maior. Enquanto Iván enxerga na promoção uma oportunidade de construir uma vida mais confortável, Hadoum começa a organizar as trabalhadoras da empresa diante da ameaça de perda de empregos e das condições precárias de trabalho. O romance passa então a carregar uma contradição bastante concreta: amar alguém também significa reconhecer aquilo que essa pessoa está fazendo dentro de uma estrutura que afeta você. 


Essa tensão é ainda mais forte porque o espaço de Almería funciona quase como um personagem. As estufas ocupam uma extensão gigantesca da paisagem e criam uma imagem paradoxal: de longe, parecem um mar branco e brilhante; por dentro, são locais de trabalho submetidos a regras, hierarquias e pressões econômicas. A fotografia de Beatriz Sastre explora o contraste entre essa paisagem ensolarada e os espaços industriais onde os personagens passam grande parte do dia. 

Há também uma delicadeza particular na maneira como De la Rosa filma o desejo. O romance não precisa ser anunciado como acontecimento extraordinário. Ele aparece no modo como os dois conversam, na intimidade construída pouco a pouco e em cenas de sexo que não são tratadas como prova de transgressão, mas como parte natural da relação. A preparação de dois meses com Silver Chicón e Herminia Loh antes das filmagens parece ter sido fundamental para essa sensação de espontaneidade. As atuações são contidas, e o filme evita transformar cada conflito em uma grande explosão melodramática. 

Ganhador do Teddy no último Festival de Berlim, “Iván & Hadoum faz uma escalada íntima. De la Rosa não precisa transformar Iván em símbolo nem Hadoum em porta-voz de uma causa. O conflito nasce de uma escolha concreta e dolorosa: aceitar uma posição dentro da empresa significa aproximar-se de uma vida que Iván deseja, mas também pode significar afastar-se de quem ama e das pessoas que dependem de seu trabalho. O filme encontra nessa contradição uma ideia bastante potente sobre a experiência queer contemporânea: identidade não existe isoladamente das condições materiais. No meio das estufas de Almería, entre o amor, o desejo, o trabalho e a possibilidade de ascensão, Iván precisa decidir não apenas com quem quer ficar, mas que tipo de homem quer ser.

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