Uma gravidez alienígena, fluidos radioativos, tentáculos e uma protagonista que ninguém parece disposto a escutar. Em “Mum, I'm Alien Pregnant”, a dupla neozelandesa THUNDERLIPS, formada por Sean Wallace e Jordan Mark Windsor, cria uma comédia de horror corporal tão grotesca quanto provocadora, através dos desconfortos da gestação. Mary (Hannah Lynch) é uma millennial sem rumo, ainda vivendo com a mãe controladora, quando um encontro sexual insólito com o vizinho Boo (Arlo Green) provoca uma gravidez extraterrestre de crescimento acelerado. O que vem depois é uma sucessão de transformações físicas, consultas médicas frustrantes e palpites de gente que parece ter mais certeza sobre o corpo dela do que a própria dona.
A premissa absurda, que expande o curta de 2014, esconde uma questão bastante concreta: quem tem o direito de decidir o que acontece com um corpo? Mary tenta compreender o que está acontecendo, procura alternativas e enfrenta profissionais que não levam suas preocupações a sério. Enquanto isso, as pessoas ao redor tratam a gravidez como uma bênção inevitável, como se a maternidade fosse um destino natural capaz de anular qualquer hesitação. O horror não vem apenas do feto alienígena, mas da normalidade com que os outros esperam que Mary aceite a transformação. A ficção científica amplia, de maneira repulsiva e cômica, experiências de desamparo, desinformação e perda de autonomia.
É há uma clara alegoria queer. Seja na genitália alienígena de Boo, longe de qualquer normativa, mas também por borrar as fronteiras entre o corpo aceitável e o corpo estranho, entre a reprodução convencional e aquilo que escapa às suas regras. Msas quem determina que um corpo é anormal? Por que certas anatomias despertam a necessidade de explicação, como se a diferença precisasse ser justificada para merecer respeito? E o que acontece quando aquilo que deveria permanecer escondido passa a ocupar o centro da narrativa? O horror corporal de “Mum, I'm Alien Pregnant” abre espaço para essas perguntas ao apresentar corpos que escapam ao controle, às convenções e às explicações médicas disponíveis.
O humor grotesco e a estética camp ajudam a levar essa discussão para um território deliciosamente desobediente. O filme mistura sexualidade excêntrica, fluidos corporais, efeitos práticos gosmentos e situações que parecem empenhadas em testar os limites do bom gosto. A repulsa vira espetáculo, e o corpo deixa de ser uma superfície discreta, organizada para corresponder às expectativas sociais.
A relação quase simbiótica entre Mary e sua mãe, Cynthia (Yvette Parsons), ganha contornos mais interessantes à medida que o caos corporal aproxima duas mulheres que nem sempre sabem como conversar. A maternidade aparece simultaneamente como experiência de intimidade, fonte de conflito e instituição cercada por expectativas que atravessam gerações.
“Mum, I'm Alien Pregnant” faz da gosma uma linguagem e do absurdo uma maneira de falar sobre questões que costumam ser escondidas sob discursos edificantes sobre maternidade. A combinação de humor ácido, horror corporal e crítica à autoridade sobre o corpo produz uma experiência singular. O alienígena pode ser ficção; a expectativa de que outras pessoas saibam o que é melhor para o seu corpo, infelizmente, não é.


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