sexta-feira, 9 de outubro de 2026

FESTIVAL DO RIO 2026: FEITO PIPA E WHERE TO?

Feito Pipa

Aclamado nos festivais de Berlim e Gramado, "Feito Pipa", do diretor Allan Deberton, é o representante oficial do Brasil na corrida pelo Oscar 2027. Rodado no sertão do Ceará, o longa acompanha Gugu, um garoto de 11 anos apaixonado por futebol, dança e maquiagem. Criado com liberdade pela avó, ele esconde o avanço do Alzheimer dela para não perder sua autonomia e ser obrigado a viver com o pai intolerante.

"Where to?", longa de estreia do diretor Assaf Machnes, utiliza a cabine de um carro para mapear as dores do exílio e do conflito no Oriente Médio. A trama acompanha um motorista palestino cuja rotina muda ao longo de dois anos após corridas com um jovem turista israelense, transformando o choque geopolítico em uma sensível relação de afeto.

Feito Pipa (Brasil, 2026)
por Egídio La Pasta

Yuri Gomes é um acontecimento. Que seja um ator com uma carreira bonita e generosa pela frente.

Allan Deberton transforma a infância de Gugu em um delicado território de descobertas, afetos e medos. Criado pela avó Dilma (Teca Pereira, espetacular) no interior do Ceará, o menino encontra nela a liberdade para gostar de futebol, dançar e se expressar sem precisar caber nas expectativas dos outros. Quando a saúde da avó começa a se deteriorar, o medo de perdê-la se mistura à possibilidade de ter que morar com o pai (Lázaro Ramos, ótimo), com quem mantém uma relação difícil. Crescer é também enfrentar um mundo que talvez não esteja disposto a aceitá-lo como ele é. Mundo e pessoa. Pessoa e mundo.

O que me parece tocante é a maneira como o amor entre avó e neto se constrói nos pequenos gestos, nos detalhes de como ela abraça a liberdade do menino e está sempre disposta ao amor. A barragem que revela uma cidade esquecida, distante, parece acompanhar esse movimento da memória, trazendo à superfície aquilo que o tempo suprimiu. É bem leve quando aborda o preconceito e amadurecimento, mas muito certeiro quando lembra que a infância deveria ser um espaço de liberdade, nunca de medo. A tal da pipa que insiste em voar, apesar dos ventos contrários.

Where To? (Israel/Alemanha/França, 2026)
por Egídio La Pasta

Eu costumo recorrer à sinopse porque muitas vezes eu encontro algo que eu não consegui captar. Aqui, um motorista palestino e um jovem israelense se cruzam durante algumas viagens de táxi por Berlim, em diferentes momentos. O passageiro é um homem gay. O tempo aqui, é também um personagem importante. Porque ele não constrói exatamente as relações, mas ele deixa marinar os pensamentos sobre algumas conversas entre eles dois.

Hassan percebe na juventude de Amir, o impulso do amor apaixonado, rasgado, disponível. E acende memórias do jovem que ele foi. Isso mexe intimamente com ele. Com a forma como ele lida com a sua vida, a sua família. A forma como ele rompe sua própria convenção de ser o homem que ele se deixou transformar, criando uma rede de afeto tão confortável como inexistente.


A troca entre eles é algo que parece se perder na tradução e no significado. A compreensão nem sempre é nítida, as intenções são. Dois homens cujas trajetórias são moldadas pelo exílio e pela urgência de se reinventarem em Berlim. Um, em movimento perpétuo numa estrada que não chega a lugar algum. O outro, que parece encontrar o grande amor, se perde de si mesmo, ainda mais estrangeiro.

É bonito demais!


Where To?

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