sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Dom de Iludir (Brasil, 2026)


Lúcia Rossetti (Marieta Severo) é uma colecionadora de arte rica, controladora e superprotetora. Sua filha, Maíra (Alice Wegmann), enfrenta uma condição de saúde misteriosa, e a incapacidade da medicina em encontrar uma solução leva a mãe a procurar Irina (Nanda Costta), terapeuta espiritual indicada por Bóris (José de Abreu). A promessa de cura abre caminho para uma fraude que envolve obras de arte, dinheiro e segredos familiares. A primeira grande virada, porém, muda completamente a perspectiva da história: Maíra não é apenas a jovem vulnerável que precisa ser salva. Ela participa da armação contra a própria mãe, ao lado de Irina, com quem mantém um relacionamento amoroso. Elas são GAYS, BANDIDAS E TRAMBIQUEIRAS.

A relação entre Maíra e Irina é o maior atrativo da série. Em vez de reservar o romance entre mulheres ao espaço da delicadeza, da superação ou da representatividade edificante, “Dom de Iludir” coloca o desejo sáfico no centro de uma aliança criminosa. As duas são ambiciosas, calculistas e capazes de manipular sentimentos para alcançar seus objetivos. O amor não as torna moralmente melhores, tampouco funciona como uma espécie de redenção. É parte do golpe, mas também uma conexão que acrescenta tensão e imprevisibilidade à trama.

Enquanto a relação entre Maíra e Irina concentra o magnetismo, o perigo e a ambiguidade moral, o romance envolvendo a policial Elaine (Heloísa Jorge) e Diego (Allan Souza Lima), atravessado por uma gravidez e por conflitos pessoais, soa convencional e pouco inspirado. O problema não está na existência de uma história paralela, mas na falta de conexão orgânica com o suspense principal. A sensação de barriga também aparece na tentativa de desenvolver a história dos funcionários da mansão, que acabam sequestrados. A situação promete acrescentar urgência e perigo físico ao enredo, mas não recebe a profundidade necessária para produzir o impacto desejado.

É no núcleo central que o elenco encontra seu melhor espaço. Marieta Severo constrói uma Lúcia sufocante, cuja proteção materna se confunde com posse e autoritarismo. Alice Wegmann aproveita a transformação de Maíra, personagem que exige transitar entre fragilidade aparente, desejo de autonomia e manipulação. Nanda Costta estabelece com ela uma química fundamental para que o romance funcione também como mecanismo de suspense. José de Abreu se diverte com a teatralidade de Bóris, um patriarca vigarista que abraça o exagero novelesco, enquanto Luciana Paes, atriz fetiche de Gabriela Amaral Almeida, entra em cena como Bárbara.

Sob a direção-geral de Mauro Mendonça Filho, o trabalho de Gabriela Amaral de Almeida. A produção da Conspiração também demonstra cuidado na construção desse universo. A direção de arte, a iluminação e os cenários ajudam a estabelecer o contraste entre o luxo da coleção de Lúcia e a podridão moral que se esconde atrás de sua fachada respeitável. A música-tema, “Dom de Iludir”, composição de Caetano Veloso gravada por Liniker especialmente para a série, acrescenta outra camada de personalidade queer.

A comparação com o caso Sabine Boghici é inevitável. Em 2022, a filha de Geneviève Boghici foi acusada de participar de um golpe estimado em R$ 725 milhões contra a própria mãe, envolvendo falsas promessas de tratamentos espirituais, transferências financeiras, joias e obras de arte de artistas como Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti. A semelhança com a ficção é impressionante, especialmente na combinação entre fraude espiritual, conflito familiar e patrimônio artístico.

“Dom de Iludir” não escapa das limitações de uma narrativa que se dispersa, perde fôlego no meio do caminho para logo recuperá-lo. Em 10 episódios, a atração encontra uma combinação atraente entre novelão, suspense e humor perverso. Seu maior mérito está em colocar duas mulheres queer no centro de uma história de poder, desejo e criminalidade. Entre a mãe que quer controlar a vida da filha, o patriarca que organiza a vigarice e as amantes que planejam tomar uma fortuna, a série encontra seu melhor espetáculo justamente onde a moralidade desanda.

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