"A Margem do Rio", der Matheus Farias e Enock Carvalho, foi ganhadora do Prêmio Especial do Júri no Festival de Cinema de Locarno, na Suíça. A obra segue Izaquiel (Caique Copque), um jovem que trabalha como auxiliar de serviços gerais em Recife. À noite, ele costuma frequentar os manguezais da cidade em busca de encontros sexuais secretos. Sua vida muda drasticamente ao conhecer Jeremias (Ítalo Martins), um pescador misterioso. Quando uma onda de violência e ameaças externas invade a região, Jeremias guia Izaquiel em uma jornada tensa pelas profundezas do manguezal, onde o desejo, a religiosidade e o mito se misturam.
A Margem do Rio (Brasil, 2026)
por Egídio La Pasta
É um mergulho em águas profundas e turvas. Que exige aceitar alguns códigos, sobretudo na reta final, onde o filme parece romper com alguns signos, me fazendo repensar de que talvez eu pudesse estar muito preso ao universo realista que ele imprime tão bem.
Izaquiel, um jovem gay, trabalha como auxiliar de serviços gerais em Recife e enfrenta diariamente o cerco dos seus contratantes. Ele é transferido para uma igreja evangélica, numa última tentativa de mantê-lo na empresa.
Enquanto o dia exige discrição para sobreviver nesse ambiente, a noite o leva para o manguezal. É na lama e na penumbra que ele busca encontros sexuais e encontra Jeremias, um pescador enigmático. Arrisco dizer que ele não busca apenas o sexo. Mas algum tipo de conexão com a floresta, com o rio, com a natureza, que parece chamá-lo. Quando a violência externa invade a intimidade desse refúgio, ele tenta preservar não só esse lugar tão importante para sua conexão com a sua essência, mas a sua identidade.
Há suspense, erotismo e realismo mágico (embora eu tenha demorado a compreender), transformando o próprio mangue em um personagem sufocante e acolhedor ao mesmo tempo. É um filme quase sensorial sobre existir à margem, muito direto no ponto, onde essa igreja radical, que tenta curar o que não precisa de cura (e tenho visto cada vez mais isso), exerce um personagem crucial no roteiro.
Implico com o final, mas gosto demais de como Izaquiel traça suas relações, de como ele parece estar numa investigação profunda sobre quem ele é, disponível para a sua intuição, desfrutando da sua beleza e juventude, mas ciente de que esse mundo é um lugar filho da puta.
Todas as atrizes trans que dividem o apartamento e a vida com ele são maravilhosas.


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