por Luiz Silva Para os trabalhos de Halloween, me incumbiram a missão de falar sobre filmes de terror e afins na temática LGBT+ ou para o público. Esse gênero TERROR será usado livremente, pois há o gênero em si, a temática, a estética, assuntos, etc. Então fiquem avisados de antemão. Eu sou muito fã de cinema, mas em especial o terror. Ironicamente eu tinha medo desses filmes na infância, mas ao assistir “O Filho de Chucky" (2004), coincidentemente um horror com tons queer, eu superei esse medo e devorei todos os filmes de terror da minha locadora. Aprendendo inglês conheci sites especializados e cá estou eu. E sobre a parte LGBT+ vocês já tirem suas conclusões já que estou aqui.
Terror foi utilizado para abordar desde ameaças nuclear até o medo em relação ao sexo. Sendo um terreno muito livre devido aos assuntos, sexo nunca foi um tabu para o gênero, porém colocou ele como algo de baixo nível para os críticos. Muitas vezes sem razão, mas com muita razão em outras. Com forte apelo comercial, a nudez feminina virou informalmente um item essencial nas décadas de 70 e 80. Daí chegamos ao nosso ponto da objetificação, a ação de transformar algo ou alguém em um objeto de desejo geralmente sexual. Falaremos aqui sobre abordagens diferentes e filmes distintos.
“O Pacto" ("The Covenant", 2006) apresenta quatro jovens bruxos que estão entrando na vida adulta e precisam lidar com os perigos que o vício em usar bruxaria pode trazer, já que magia é viciante e traz consequências para seus corpos como envelhecimento antecipado. Toda essa nova problemática toma um novo rumo quando um possível quinto descendente da mesma ordem de bruxos que eles, pode estar envolvido com assassinatos na cidade e mirá-los. Esse filme é ruim, tipo ruim. Longa com cara de filme barato dos anos 2000, pois é um filme barato dos anos 2000. Uma trama superficial para uma mitologia potencialmente boa, mas pessimamente explorada. Ruim. Diálogos e atuações ruins tanto dublados como no inglês original e efeitos especiais datados para época até. Eu já falei que é ruim? Então por que falar sobre um filme ruim que faixa etária 12 que divide a classificação terror com fantasia? Eles são muito gostosos. Não tem outra justificativa e não vou me desculpar por isso porque o filme está ciente disso. A proposta inicialmente era ser uma série de filmes que abordassem assuntos sobrenaturais, tal como “Crepúsculo” (2008) conseguiu nos anos seguintes, porém ninguém nesse filme teve a competência para tal. Durante a pré-produção tomaram a decisão de mudar o tom do projeto e marketing para focar no público adolescente. Guardem este ponto sobre marketing porque reaparecerá neste texto. O elenco é totalmente a ideia de uma série adolescente, tanto que um dois atores entraram em “Gossip Girl" (2007) no ano seguinte, Chace Crawford e Sebastian Stan, este último que viria ser indicado a um Oscar em 2024, então potencial existia no elenco. Aliás, Sebastian Stan é a segunda coisa boa da obra porque ele inteligentemente tem ciência absoluta do tipo de filme que ele está enquanto os outros levam muito à sério. Ele até dá um beijo na boca de outro ator no calor de um confronto. Segunda coisa porque a primeira é a cena da piscina. Uma longa tomada dos atores de sunga para uma competição de nado que haverá. Seguida de uma cena em um vestiário com nudez masculina, mas que foi censurada com vapor digital. Além de muitas cenas clichês dos personagens acordando no meio da noite descamisados e encharcados de suor. Não é possível que eles não sabiam o filme que estavam fazendo. Esse tipo de filme é destinado para garotas adolescentes, então a objetificação sexualmente limitada faz sentido. Mas e quando um filme tem a objetificação sexual como principal arma narrativa e ainda assim não sabem divulgar?
Em 1994 a banda de rock alternativo Hole lançou o meu álbum favorito da banda, “Live Through This”. Há nele uma faixa chamada “Jennifer’s Body" cuja letra fala sobre uma figura feminina, possivelmente chamada Jennifer, e faz referência a um sequestro de Colleen Stan de 1977 nos EUA. A música cantada por Courtney Love fala sobre violência de gênero e objetificação. Como corpos femininos viram partes de um objeto ou peças de carne. Essa música serviu de inspiração para o filme “Garota Infernal” (“Jennifer’s Body”, 2009) escrito por Diablo Cody. A roteirista mistura vários elementos do cinema de terror como símbolos e linguagem satânica, gore, body horror, slashers com humor ácido autoconsciente. Tudo isso muito bem amarrado e embrulhado pela direção de Karyn Kusama que cria uma esfera ao mesmo tempo atual como nostálgica para os adolescentes da época (tipo eu que assisti em um Halloween nos cinemas naquele ano) desde a fotografia e moda até trilha sonora. O filme fala sobre uma garota popular e desejada com senso de humor ácido chamada Jennifer Check, feita pela Megan Fox após o sucesso mundial de "Transformers". A sua amizade inesperada com a personagem totalmente oposto, Anita “Needy” Lesnicki, feita pela Amanda Seyfried. “Needy” em inglês literalmente significa carente em português. Jennifer é vítima de uma banda de rock alternativo da época (emos) que quer fama e para isso decide realizar um ritual satânico sacrificando uma virgem, porém a Jennifer não é virgem (“nem na porta de trás graças ao Roman”). Devido este fato a ritual funciona parcialmente, a banda ganha o sucessos, mas Jennifer se transforma num súcubo que precisa devorar garotos (ou “pegar os dois”) para ter beleza e superpoderes. Eu lembrava de ter gostado do filme, mas nada além disso na época, mas eu comecei a gostar mais quando eu descobri que esse filme fazia parte de muitas meninas lésbicas no seu autodescobrimento. A sexualidade não é consequência ou necessidade mercadológica aqui como em “O Pacto”, é uma necessidade narrativa. O processo de amadurecimento pessoal, e sexual também, referência ao subgênero de terror de revenge porn, a superficialidade social, sororidade das personagens, a representação de personagens fortes não somente fisicamente, mas em total controle de suas próprias narrativas. Jennifer Check e o filme estão cientes da sua objetificação sexual e estão em total controle dela. Porém o estúdio não teve tamanha profundidade. O público-alvo do filme sempre foi idealmente feminino e LGBT+ em geral. O estúdio focou em garotos adolescentes heterossexuais dada a figura de sucesso da Megan Fox e forte apelo sexual dela. Cogitaram sites falsos em que a Megan Fox tiraria a roupa até. Felizmente Karyn Kusama teve poder suficiente para impedir isso, entretanto, o material promocional colocando a figura da Jennifer como alguém que “gostava de meninos maus” foi a direção. Resultado, o filme fracassou na bilheteria igual “O Pacto” (não como se isso surpreenderia quem assistiu o filme). Esse foi o marketing desastroso de um filme que fracassou, mas se tornou um clássico por bons motivos.
Aqui chegamos ao objetivo final. Falei sobre a indústria e percepção pública do gênero de terror. Como a objetificação sexual, majoritariamente feminina, faz parte do gênero por razões financeiras. Mas onde isso chega a nós como público? Nudez não é um problema. Entendemos várias problemáticas na gratuidade da nudez, mas talvez até isso possa ser subvertido na linguagem do cinema. "Garota Infernal" não tem nenhuma nudez muito explícita, nem O Pacto, todavia, é tão incomum vermos figuras masculinas objetificadas na grande mídia que homens descamisados suados, ou uma bunda masculina em algum filme slasher, parece algo explosivo. Talvez seja por isso que a objetificação feminina é banalizada e a masculina é apreciada. Além do fato comentado, a nudez alinhada à sexualidade em Garota Infernal é praticamente uma arma à favor do filme contra a cultura que o filme critica. O longa de Karyn Kusama foi vítima da própria cultura externa a produção que o filme criticava, a visão masculina sobre o corpo feminino. Felizmente, por méritos próprios o filme resiste ao tempo é lembrado. "O Pacto" não teve essa consequência, não chamarei de sorte, porque não se sustenta positivamente além da objetificação dos corpos masculinos. Que pode ser vista até como algo retroativo contra o que mulheres passaram no cinema. O filme se tornou algo camp involuntariamente. O entretanto é a objetificação não crítica ou até artística, mas simplesmente comercial.
Nudez não é um problema e existem pequenas situações que a objetificação sexual pode ser utilizada como através de uma crítica cômica ou menos explícita. Gratuidade talvez possa existir por vontade própria movida por vaidade. O que fica aqui é como ela é planejada e executada. Todos queremos ser lembrados positivamente. Talvez sexual não seja um problema para alguns. Consentimento próprio e organicamente voluntário do objeto pesa muito na execução, e que essa execução traga resultados interpretados como positivos para o próprio objeto.



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