“Minha Querida Senhorita” segue Adela (Elisabeth Martínez), uma mulher criada em um ambiente conservador, dividida entre a rotina na loja de antiguidades da família e as aulas de catecismo que ministra. Sem ter plena consciência de sua própria intersexualidade, ela vive sob o peso de silêncios e repressões até que novos encontros, um padre recém-chegado, uma amiga do passado e a enigmática Isabel (Anna Castillo), desencadeiam um processo de descoberta que a leva de Pamplona a Madri.
Dirigido por Fernando González Molina, o filme parte do clássico homônimo do cinema espanhol, dirigido por Jaime de Armiñán, para construir uma releitura mais contemporânea, interessada em discutir identidade, gênero e pertencimento, agora longe do regime franquista que o original desafiou em 1972. Mostrando Adela desde seu nascimento, com uma cirurgia imposta pelos pais o filme é uma proposta menos provocadora do que reflexiva, apostando em um olhar sensível para temas que, historicamente, foram atravessados por repressão e invisibilidade.
O roteiro, de Alana S. Portero, trabalha bem a ideia de uma descoberta tardia, especialmente ao mostrar como a identidade de Adela foi moldada por anos de silêncio. Ainda assim, há momentos em que os conflitos parecem se resolver rápido demais, como se o filme optasse por caminhos mais acessíveis em vez de mergulhar nas contradições mais difíceis dessa jornada. O filme ainda pincela a cultura pop dos anos 1990 e 2000, com "Amigas de Colégios", Almodóvar, La Prohibida e Placebo.
Elisabeth Martínez sustenta o filme com uma atuação delicada. Sua Adela é atravessada por dúvidas e fragilidades, e encontra nos personagens ao redor, como o padre vivido por Paco León e Isabel, diferentes espelhos para entender quem é. Mesmo que alguns desses coadjuvantes, como Lola Rodríguez e Manu Ríos, sejam pouco desenvolvidos, eles ajudam a mover o percurso emocional da protagonista.
Visualmente, “Minha Querida Senhorita” aposta em contrastes bem definidos: o ambiente fechado e tradicional da cidade pequena ganha outra dimensão quando a narrativa se abre para Madri e o vibrante bairro da Chueca. A fotografia de Carlos Rigo e a trilha assinada por Álex de Lucas e Zahara acompanham essa transição com discrição, criando uma atmosfera que privilegia o intimismo sem perder o apelo mais amplo.
Sem buscar o impacto radical do filme original de 1972, essa nova versão prefere um caminho mais acolhedor. Isso pode soar, para alguns, como uma suavização de conflitos, mas também torna a história mais acessível para novos públicos. No centro de tudo está a tentativa de dar forma a uma identidade que sempre foi silenciada e, nesse aspecto, o filme encontra sua força.