Por Marco Gal Um carro vagueia pela cidade em uma noite de chuva. Duas mulheres procuram alguém. Quando o carro trava o pneu em um buraco na rua, um grupo de homens se aproxima e forçam seus corpos contra o carro. Um momento de tensão. Eles querem invadir sua entrada? Assaltá-las? As mulheres se assustam. Porém, o grupo de homens move o carro para fora do buraco. As mulheres agora conseguem ir embora.
É nessa estranheza que o filme “A Professora de Francês” funciona. Na hospitalidade envolvida de uma violência ameaçadora. O longa dirigido por Ricardo Alves Jr., diretor de “Parque de Diversões” e “Tudo o que Você Podia Ser” é estrelado Grace Passô, atriz de “Temporada” e diretora de “Nosso segredo”.
No filme, Grace faz Graça, uma professora muito preocupada com a saúde de seu pai, interpretado por Rodger Rogério. Como o pai tem precisado bastante de ajuda, Graça decide morar junto com ele por um tempo. O problema é que isso implica em conviver com o restante da família do pai, pessoas com valores conservadores, e Graça enxerga essa relação com muita desconfiança.
Essa é a melhor definição sobre a direção de Ricardo Alves Jr., que consegue trabalhar com muito domínio uma direção bem desconfiada, pessimista até, esperando sempre o pior das situações e do seu arredor. Criando um clima de tensão que começa com manipulações psicológicas, micro agressões, para depois partir para agressões físicas. É inevitável não se lembrar de “O Bebê de Rosemary”, em que a heroína de Mia Farrow enfrentava um culto religioso que se aproveitava dela.
Porém, nada há de fictício ou de estrangeiro em “A Professora de Francês”. À exceção dos diálogos durante as aulas de francês de Graça, a mensagem do filme é bastante brasileira. O avanço do neopentecostalismo impactou profundamente a sociedade e política brasileira. Ampliou a influência de lideranças religiosas no debate público e contribuiu para pautar discussões sobre costumes, gênero e sexualidade, fortalecendo agendas conservadoras. “A professora de francês” vai de encontro a isso ao discutir temas como LGBTQfobia e a juventude conservadora, principalmente na figura de Tomás (interpretado por Pedro Goifman), um líder religioso da comunidade e sobrinho de Graça.
Aliás, Grace e Pedro foram vitoriosos no Festival do Rio, que se encerrou neste 11 de outubro, com os prêmios de Melhor Atriz e Melhor Ator Coadjuvante. O Festival do Rio foi a première brasileira de “A professora de francês”, que teve sua estreia mundial no prestigiado festival San Sebastian. A vitória no Rio faz sentido, pois Grace entrega uma performance com bastante emoção. Boa parte da força do filme se sustenta na atuação de Passô e ela consegue criar uma relação muito convincente ao esconder e revelar o que realmente sente. É poderoso como ela expressa somente com o olhar. O elenco inteiro está todo muito bem, Rodger Rogério entrega ternura e dureza com muita naturalidade. Rômulo Braga também explora bem a complexidade do personagem. O elenco inteiro atua nessa dualidade entre mostrar afeto e gerar desconfiança ao mesmo tempo.
Porém há uma dificuldade no clímax. O filme tem um ritmo tão bem trabalhado na graduação da tensão que, quando alcança o clímax, há um salto no tempo que a princípio parece um pouco equivocado, no sentido de não ser crível as ações da personagem. Essa escolha é justificada depois, mas há muita coisa omitida nessa passagem do tempo que gostaria de ter visto mais.
Por fim, “A professora de francês” é um assustador retrato do Brasil contemporâneo que expõe como pode ser violento uma comunidade que diz proteger, enquanto controla.


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