Em “Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha”, Janaína Marques Ribeiro pega a estrutura tradicional do road movie e a leva numa viagem pelos labirintos do subconsciente, substituindo a promessa de chegada pela possibilidade de reencontro. Rosa (Verônica Cavalcanti), uma mulher de cinquenta anos, é orientada a evocar uma lembrança feliz durante uma ressonância magnética. O problema é que essa memória parece não existir. É então que a imaginação entra em cena, construindo uma travessia com Dalva (Luciana Souza), sua mãe, de quem foi separada ainda na infância. Condenada à prisão depois de matar um homem que estava prestes a cometer feminicídio, Dalva permaneceu ausente durante décadas. O filme inventa, portanto, aquilo que a realidade não permitiu: uma viagem compartilhada, uma convivência possível, uma segunda oportunidade para duas mulheres que foram privadas do direito de viver juntas.
A estrada, aqui, não é feita apenas de asfalto e poeira. É uma paisagem mental, um território em que o tempo perde a linearidade, as lembranças se misturam às invenções e a geografia do Ceará parece obedecer à lógica imprevisível dos sonhos. A van de cachorro-quente que conduz mãe e filha por essa travessia é ao mesmo tempo um veículo precário, um negócio a defender e uma espécie de nave espacial improvisada. O foguete do título não precisa de combustível: basta a imaginação de quem deseja que alguém volte.
Mas a delicadeza não significa suavidade diante da violência. A separação entre Rosa e Dalva é consequência de uma sociedade em que a violência masculina atravessa a vida das mulheres, determina seus deslocamentos e cobra um preço de quem decide intervir. Dalva age para impedir um feminicídio e acaba encarcerada; Rosa cresce sem a presença da mãe e carrega as marcas de uma ausência que não consegue compreender inteiramente. Já adulta, ela enfrenta o fim de um casamento e luta para preservar o pouco que conquistou, inclusive o carrinho de cachorro-quente que garante seu sustento. Os homens permanecem sobretudo como vozes, ameaças ou forças que condicionam a existência das protagonistas, enquanto o filme abre espaço para que as mulheres assumam o centro da narrativa.
Existe também uma leitura queer muito potente nessa relação entre mãe e filha, não porque o filme precise atribuir uma identidade LGBTQIA+ às personagens, mas porque sua forma de imaginar o afeto desorganiza expectativas normativas sobre maternidade, família e convivência. Dalva e Rosa não são apresentadas como figuras que precisam cumprir os papéis socialmente prescritos de mãe e filha. São duas mulheres marginalizadas, com histórias e desejos próprios, que precisam descobrir como estar juntas. Verônica Cavalcanti e Luciana Souza são fundamentais para que essa viagem emocional não se perca na abstração.
“Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha” é, no fundo, um filme sobre a impossibilidade de recuperar o passado e a necessidade de reinventar nossa relação com ele. Algumas ausências não podem ser reparadas na realidade; algumas conversas nunca acontecem, algumas viagens ficam apenas no campo das possibilidades. Ainda assim, imaginar o encontro pode transformar a maneira como carregamos a perda. Janaína Marques não oferece uma reconciliação fácil nem promete que a memória inventada substituirá os anos roubados. O que ela constrói é um espaço provisório de liberdade, no qual Rosa pode experimentar uma versão de sua história que não esteja inteiramente subordinada à culpa e ao abandono.


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