quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Pequenas Tragédias (Brasil, 2026)

Voltar para casa nem sempre significa encontrar o caminho de volta. Às vezes, é descobrir que a cidade continua ali, mas as pessoas que davam sentido a ela desapareceram, partiram ou já não podem ser encontradas. Em “Pequenas Tragédias”, Daniel Nolasco retorna a Catalão, no interior de Goiás, para confrontar justamente essa espécie de desaparecimento coletivo. Em 2011, ele deixou a cidade para estudar no Rio de Janeiro, sendo o primeiro de um grupo de amigos queer a partir. Dez anos depois, percebe que nenhum deles permanece ali: alguns se mudaram para grandes centros urbanos, outros morreram. Corajoso, íntimo e atravessado por uma melancolia que nunca sufoca o humor, o longa me parece o melhor filme de Nolasco até agora. Não porque abandone as obsessões que já conhecemos, mas porque encontra nelas uma dimensão emocional muito mais profunda.

O retorno a Catalão tem algo de exorcismo. Nolasco não olha para sua cidade natal de uma distância confortável, como quem transforma o interior brasileiro em objeto de contemplação para espectadores urbanos. Ele volta para dentro da própria história, revisitando lugares, relações e feridas que continuam produzindo efeitos no presente. A mistura de documentário e fábula torna essa operação especialmente interessante: o filme não se limita a registrar o que restou, mas imagina o que poderia ter acontecido, devolvendo presença a quem já não está disponível para contar sua versão. A voz do narrador acrescenta uma camada metalinguística que expõe o próprio processo de reconstrução, lembrando que a memória não é um arquivo neutro. Ao mesmo tempo que fala de uma comunidade queer de uma cidade goiana, Nolasco investiga o que significa sobreviver à própria juventude e perceber que algumas das pessoas que nos formaram ficaram pelo caminho. A pequena tragédia do título ganha, uma dimensão coletiva.

Esteticamente, o filme reafirma a singularidade de um diretor que nunca teve medo de desejar seus personagens. A masculinidade que atravessa “Pequenas Tragédias” é viril, sexy, feita de pelos, poros, suor e corpos. Ereções, nudez, sexo, banheirão e cruising integram uma experiência em que o erotismo não aparece como intervalo entre os assuntos considerados sérios, mas como parte fundamental da vida, da sociabilidade e da memória gay. A fotografia, de Felipe Quintelas, é sublime ao transformar corpos, ambientes e gestos em matéria sensorial, enquanto o filme encontra maneiras de fazer conviver o desejo presente e a nostalgia por um mundo que já não existe da mesma forma. Há uma liberdade particular em observar esses homens sem higienizá-los para torná-los aceitáveis.


Essa liberdade ganha ainda mais força quando se percebe o diálogo com os primeiros trabalhos do diretor, como os curtas  “Plutão” e “Netuno”. As inquietações já estavam ali: o homoerotismo, o desejo masculino, as relações entre intimidade e performance, a construção de universos queer afastados dos centros culturais dominantes. Em “Pequenas Tragédias”, porém, essas marcas deixam de ser apenas investigações estéticas e passam a carregar o peso da experiência vivida. Lucas Drummond, que protagonizou “Apenas Coisas Boas”, ganha aqui uma presença particularmente sensível, capaz de revelar vulnerabilidades que convivem com a virilidade e o desejo. A trilha sonora também participa dessa arquitetura afetiva, transitando de Jordan Firstman a Thiago Pethit e chegando ao hino de Catalão, cuja inserção carrega um deboche deliciosamente ambíguo.

A visibilidade trans, recorrente na filmografia de Nolasco, encontra um de seus momentos mais bonitos na interpretação de “A Canção de Gisberta”. Ao incorporar essa canção, e esse momento em especial, o filme abre espaço para que a lembrança não seja apenas uma coleção de perdas privadas, mas também uma forma de reconhecimento político.  Mas, o que mais me pega, é a percepção de que “Pequenas Tragédias” funciona como uma celebração dos amigos que passaram por nossas vidas e com quem, por diferentes razões, perdemos contato. Nem toda amizade termina em briga, nem todo afastamento encontra uma explicação definitiva. Às vezes, a vida simplesmente espalha as pessoas, até que uma lembrança, uma música ou um lugar nos devolva a consciência de quanto elas participaram de quem nos tornamos.

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