segunda-feira, 19 de outubro de 2026

A Margem do Rio (Brasil, 2026)

O mangue tem seus próprios códigos, seus mistérios e uma força que parece escapar ao controle dos homens. Em “A Margem do Rio”, de Enock Carvalho e Matheus Farias, as águas escuras do Recife se tornam território de desejo, liberdade e ameaça, em um filme atmosférico, sexy e profundamente enraizado no imaginário nordestino. Izaquiel (Caique Copque), auxiliar de serviços gerais, percorre o manguezal à noite em busca de encontros sexuais secretos. É nesse espaço de liberdade clandestina que conhece Jeremias (Ítalo Martins), um pescador enigmático que o conduz a uma experiência em que a atração física se mistura ao mistério. Quando a violência invade esse universo, a fuga para as profundezas do mangue abre passagem para o realismo fantástico.

A comparação com “Um Estranho no Lago” (2013), de Alain Guiraudie, é inevitável. Nos dois filmes, o desejo entre homens encontra na natureza um território de encontros furtivos, erotismo e perigo. Mas, se Guiraudie constrói seu suspense à beira de um lago francês, Carvalho e Farias mergulham de pés descalços na lama tropical. O mangue pernambucano não é uma simples transposição geográfica dessa experiência: carrega uma história, uma espiritualidade e uma textura próprias. O calor, a umidade, a vegetação e a escuridão participam da sensualidade das imagens, enquanto o sexo deixa de ser mero instrumento de provocação para se afirmar como expressão de corpos que reivindicam o direito ao prazer.

Jeremias parece pertencer tanto ao mundo físico quanto às histórias que sobrevivem na memória popular. Há nele algo que ultrapassa a sedução convencional, como se o personagem carregasse uma ligação ancestral com o rio, o manguezal e a escuridão. É nesse ponto que o longa se aproxima com mais força do realismo fantástico: o sobrenatural não precisa surgir como uma ruptura espetacular, pois já parece respirar na paisagem. O folclore, as raízes indígenas e o misticismo também tem uma dimensão política, pois questiona o olhar conservador que frequentemente desqualifica essas matrizes culturais enquanto reivindica para si o monopólio da moral e da espiritualidade.

Mas o perigo mais assustador de “A Margem do Rio” não está necessariamente nas sombras do mangue. Ele tem rosto, discurso e influência política. O pastor Eurico (Robério Diógenes), figura que deveria oferecer orientação espiritual, revela a hipocrisia de quem utiliza a religião como instrumento de poder, articulando interesses políticos enquanto se apresenta como defensor dos bons costumes. Sua presença introduz um medo bastante concreto: a violência contra corpos dissidentes não nasce de alguma maldição sobrenatural, mas de estruturas sociais capazes de transformar preconceito em discurso público e intolerância em projeto de poder.

É impossível falar da potência política do longa sem destacar a presença de suas atrizes trans. Renna Costa, Artia e Ísis Broken não estão ali como um gesto protocolar de diversidade, mas como parte de um universo queer que ganha corpo, voz e presença na tela. As três dividiram o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante no Festival do Rio.

A consagração de “A Margem do Rio” em festivais é um reconhecimento importante para uma produção que parte de Recife e transforma suas águas e seus corpos em cinema. Carvalho e Farias encontram no mangue uma linguagem capaz de unir erotismo, folclore, suspense e crítica social sem abandonar a singularidade de seu território. Se “Um Estranho no Lago” explora o perigo escondido no refúgio do desejo, “A Margem do Rio” acrescenta a essa equação a lama, a ancestralidade e o fundamentalismo de um Brasil em disputa. Um filme úmido, provocador e encantado, que lembra que, às vezes, o verdadeiro monstro não está escondido na mata, mas sentado atrás de uma mesa, falando em nome de Deus e do povo.

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