Depois do fenômeno desconfortável de “Bebê Rena”, Richard Gadd retorna ainda mais cruel consigo mesmo, e com o espectador, em “Pela Metade”, minissérie da HBO que transforma trauma masculino, repressão queer e violência emocional em um verdadeiro terror psicológico. Criada, escrita e estrelada por Gadd, a produção acompanha a relação tóxica entre Ruben Pallister e Niall Kennedy em duas linhas temporais distintas: a juventude dos personagens na Escócia dos anos 80 e o reencontro devastador na vida adulta, décadas depois.
Stuart Campbell interpreta o jovem Ruben, enquanto Mitchell Robertson vive o jovem Niall, com Richard Gadd e Jamie Bell assumindo as versões adultas, de irmãos de criação filhos de um casal sáfico. A narrativa começa no presente, durante o casamento homoafetivo de Niall, quando a reaparição de Ruben desencadeia uma explosão de violência. A partir daí, a série alterna passado e presente para revelar como esse vínculo simbiótico, destrutivo e marcado por desejo reprimido foi construído ao longo de quase 40 anos.
“Pela Metade” é traumatizante. Não existe maneira mais honesta de descrevê-la. Cada episódio parece desenhado para acelerar gatilhos emocionais específicos: abuso, homofobia internalizada, violência doméstica, sexo atravessado por culpa e masculinidade tóxica em estado terminal. Há momentos em que assistir à série se torna quase fisicamente desagradável, especialmente nas cenas em que consentimento, medo e desejo se embaralham de maneira perturbadora.
No centro disso tudo está a relação entre Ruben e Niall. Ruben é violento, instável, controlador, mas também profundamente ferido. Já Niall vive esmagado pela repressão sexual, um comportamento autodestrutivo e pelo medo constante de desejar aquilo que aprendeu a odiar em si mesmo. A série trabalha a relação dos dois quase como uma história de amor doentia e deformada pela violência patriarcal.
Diferente de muitos dramas LGBTQIA+ contemporâneos preocupados em tornar seus personagens imediatamente higienizados ou empáticos, “Pela Metade” insiste nas zonas mais feias e contraditórias da sexualidade reprimida. Niall não é um protagonista confortável. Seu medo da própria homossexualidade destrói relações, alimenta silêncios e sustenta sua dependência emocional de Ruben.
A minissérie não é agradável, nem pretende ser. Richard Gadd cria uma obra agressiva, exaustiva, abusiva e muitas vezes difícil de suportar, mas também assustadoramente honesta sobre violência masculina, repressão queer e heranças emocionais que atravessam décadas. “Pela Metade” escolhe permanecer na ferida aberta. E mesmo quando parece insuportável, continua impossível de abandonar, mesmo que depois você precise fazer meditação ou terapia.

