sábado, 17 de outubro de 2026

Me Deixa Ser (Brasil/EUA, 2026)

Se corpos passam a vida tentando provar que têm o direito de existir exatamente como são, não é porque exista algo de errado com eles, mas porque uma sociedade obcecada por classificações insiste em tratar a diversidade humana como um problema a ser corrigido. É desse conflito que parte “Me Deixa Ser” , documentário dirigido por Viviane D’Avilla, que acompanha pessoas intersexo no Brasil, na Índia e nos Estados Unidos. O filme reúne experiências de descoberta, afeto, militância e construção da autonomia corporal, deslocando o debate para quem tantas vezes foi tratado como objeto de observação médica, curiosidade ou constrangimento. 

Ao aproximar histórias de diferentes países, D’Avilla evidencia que a experiência intersexo não pode ser reduzida a uma categoria clínica: ela envolve relações familiares, acesso à informação, pertencimento, intimidade e o direito de construir a própria narrativa. Um dos pontos mais delicados abordados pelo filme é a realização de intervenções médicas irreversíveis em bebês e crianças intersexo para adequar seus corpos a padrões convencionais de sexo. Essas práticas, frequentemente justificadas pela promessa de facilitar a integração social, podem produzir consequências físicas e psicológicas permanentes. O documentário dá dimensão humana a um debate que frequentemente se esconde atrás de termos técnicos. Quando alguém conta o que aconteceu com seu corpo, a discussão deixa de ser apenas sobre protocolos médicos e passa a ser sobre poder, integridade e o direito de decidir.


Entre as pessoas retratadas estão Carolina Iara, parlamentar brasileira e referência na luta pelos direitos das pessoas intersexo; Vidda Guzzo, da Intersexo Brasil, que leva o tema a espaços internacionais; Hida Viloria, escritora e ativista conhecida pelo livro “Born Both”; Aanandh Rajappan, da Índia; e os norte-americanos Tiger Devore e Lyss Ball. A presença dessas trajetórias ajuda a afastar o documentário de uma abordagem que transforma pessoas intersexo em exemplos de sofrimento. São indivíduos com histórias, posições políticas e formas próprias de compreender a experiência corporal. 


O lado internacional do filme também permite pensar as diferentes formas pelas quais a intersexualidade é compreendida em contextos culturais distintos. A experiência de Aanandh Rajappan, na Índia, não deve ser confundida automaticamente com a de pessoas intersexo no Brasil ou nos Estados Unidos, e tampouco se deve tratar a diversidade de gênero presente em comunidades indianas como sinônimo de intersexualidade. São realidades que podem se cruzar, mas possuem histórias e significados próprios. O mérito de reunir essas perspectivas está em mostrar que não existe uma única maneira de viver a diversidade corporal. 

“Me Deixa Ser”  confronta séculos de classificações e hierarquias: o corpo de uma pessoa não precisa corresponder às expectativas de terceiros para merecer respeito. A autonomia corporal não é um luxo, nem um privilégio concedido quando a sociedade se sente confortável com determinada diferença. É um direito. Ao fazer de experiências pessoais uma reflexão pública, Viviane D’Avilla contribui para deslocar o debate da curiosidade sobre corpos considerados incomuns para a responsabilidade coletiva de garantir que ninguém seja submetido a intervenções irreversíveis apenas para se tornar socialmente mais aceitável.


sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Fiz um Foguete Imaginando Que Você Vinha (Brasil, 2026)

Em “Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha”, Janaína Marques Ribeiro pega  a estrutura tradicional do road movie e a leva numa viagem pelos labirintos do subconsciente, substituindo a promessa de chegada pela possibilidade de reencontro. Rosa (Verônica Cavalcanti), uma mulher de cinquenta anos, é orientada a evocar uma lembrança feliz durante uma ressonância magnética. O problema é que essa memória parece não existir. É então que a imaginação entra em cena, construindo uma travessia com Dalva (Luciana Souza), sua mãe, de quem foi separada ainda na infância. Condenada à prisão depois de matar um homem que estava prestes a cometer feminicídio, Dalva permaneceu ausente durante décadas. O filme inventa, portanto, aquilo que a realidade não permitiu: uma viagem compartilhada, uma convivência possível, uma segunda oportunidade para duas mulheres que foram privadas do direito de viver juntas. 

A estrada, aqui, não é feita apenas de asfalto e poeira. É uma paisagem mental, um território em que o tempo perde a linearidade, as lembranças se misturam às invenções e a geografia do Ceará parece obedecer à lógica imprevisível dos sonhos. A van de cachorro-quente que conduz mãe e filha por essa travessia é ao mesmo tempo um veículo precário, um negócio a defender e uma espécie de nave espacial improvisada. O foguete do título não precisa de combustível: basta a imaginação de quem deseja que alguém volte. 

Mas a delicadeza não significa suavidade diante da violência. A separação entre Rosa e Dalva é consequência de uma sociedade em que a violência masculina atravessa a vida das mulheres, determina seus deslocamentos e cobra um preço de quem decide intervir. Dalva age para impedir um feminicídio e acaba encarcerada; Rosa cresce sem a presença da mãe e carrega as marcas de uma ausência que não consegue compreender inteiramente. Já adulta, ela enfrenta o fim de um casamento e luta para preservar o pouco que conquistou, inclusive o carrinho de cachorro-quente que garante seu sustento. Os homens permanecem sobretudo como vozes, ameaças ou forças que condicionam a existência das protagonistas, enquanto o filme abre espaço para que as mulheres assumam o centro da narrativa. 


Existe também uma leitura queer muito potente nessa relação entre mãe e filha, não porque o filme precise atribuir uma identidade LGBTQIA+ às personagens, mas porque sua forma de imaginar o afeto desorganiza expectativas normativas sobre maternidade, família e convivência. Dalva e Rosa não são apresentadas como figuras que precisam cumprir os papéis socialmente prescritos de mãe e filha. São duas mulheres marginalizadas, com histórias e desejos próprios, que precisam descobrir como estar juntas. Verônica Cavalcanti e Luciana Souza são fundamentais para que essa viagem emocional não se perca na abstração. 

“Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha” é, no fundo, um filme sobre a impossibilidade de recuperar o passado e a necessidade de reinventar nossa relação com ele. Algumas ausências não podem ser reparadas na realidade; algumas conversas nunca acontecem, algumas viagens ficam apenas no campo das possibilidades. Ainda assim, imaginar o encontro pode transformar a maneira como carregamos a perda. Janaína Marques não oferece uma reconciliação fácil nem promete que a memória inventada substituirá os anos roubados. O que ela constrói é um espaço provisório de liberdade, no qual Rosa pode experimentar uma versão de sua história que não esteja inteiramente subordinada à culpa e ao abandono.

MOSTRA SP 2026: ONDE REPOUSAR MEUS OLHOS E EKLIPSE

por Bruno Weber

ONDE REPOUSAR MEUS OLHOS (Nowhere To Lay My Eyes, Coréia do Sul, 2026) 

O cinema de Hong Sang-soo é composto de observações intimistas. O cineasta coreano parece não se importar com qualquer expectativa do que seria uma trama ou estrutura tradicional de roteiro, capturando uma realidade composta de sutilezas momentâneas e rotineiras. Seu filme mais recente, "Nowhere To Lay My Eyes", se aprofunda mais nessa abordagem, ao mesmo tempo em que a afronta ao seguir a perspectiva de uma cineasta amadora, alguém cujos instintos naturais é aplicar significados profundos às imagens.

Kim Min-hee interpreta Sanghee, que sai de Seul para visitar sua mãe, acompanhada do irmão Sangwon (Shin Seok-ho). A mãe, interpretada por Choi Myung-gil, vive na afastada Ilha de Jeju, onde ganha dinheiro com turismo e hospedaria. Além dos atritos básicos com a mãe, que critica desde a demora da filha em vir visitá-la até a falta de sucesso dela na carreira, Sanghee ainda precisa lidar com o novo namorado da mãe, interpretado por Kwon Hae-hyo. Todo o filme é estruturado quase como um documentário criado pela própria Sanghee, até mesmo com a narração que ela usa nos pequenos curta-metragens que ela cria e publica na internet.

O desconforto de visitar um dos pais ou ser forçado a interagir com uma pessoa nova são situações corriqueiras e banais na vida de qualquer jovem adulto, e Sanghee não as trata como nenhuma grande provação. Somente quando ela conhece a filha de seu novo padrasto, interpretada por Park Mi-so, que ela demonstra alguma perturbação exterior. Não fica claro se a intimidade e súbita admiração que a garota demonstra com ela é fruto de uma insegurança maior e mais enraizada. É possível que a nova irmã postiça estivesse flertando com ela? Ou ela está apenas em choque diante de uma gentileza inesperada? Seja o que for, a presença da garota - uma jovem adulta semelhante a ela, mas talvez mais confortável consigo mesma - parece causar um conflito interno que reflete em suas relações com o resto da família. No final, não há resoluções drásticas ou permanentes, apenas uma pequena e ligeira compreensão da mãe em relação à filha, e alguns momentos de calmaria silenciosa.

EKLIPSE (Áustria/Itália, 2026) por Bruno Weber

Dois garotos andam sorrateiramente pela floresta, empunhando galhos como se fossem rifles, enquanto fingem caçar um ao outro. É assim que somos apresentados à dupla de protagonistas de "Eklipse", primeiro longa-metragem do diretor austríaco Manuel Wetscher. Essa brincadeira com fantasias masculinas de luta e combate combina muito com o ambiente rude habitado por Tomy (Moritz Hohlrieder) e Chris (Finley Brown), isolados numa fazenda de vacas leiteiras no meio das montanhas, onde o pai de Chris é o encarregado de cuidar dos animais e da produção. Tomy e Chris formam uma amizade forte enquanto passam os dias com os afazeres da fazenda, montando apresentações de lipsync pras visitas frequentes da mãe de Tomy, e na expectativa do iminente eclipse total do sol sendo anunciado na TV. Mas essa amizade é abalada quando Chris descobre que o pai de Tomy não está internado com pneumonia, como os dois garotos acreditavam, mas sim por causa da "doença dos gays".

Wetscher estabelece com facilidade a época em que o filme se passa como o final dos anos 90, não apenas com as referências ao eclipse e ao bug do milênio, mas também acentuando o isolamento dos garotos do resto do mundo sem a presença constante de celulares e computadores, mas a verdade é que o conflito principal poderia se passar em qualquer momento das últimas décadas. A homofobia internalizada que os dois garotos apresentam permanece inalterada nos dias de hoje. E a maneira agressiva com a qual Chris começa a rejeitar Tomy, até mesmo assumindo uma postura de fanatismo religioso, infelizmente também tem paralelos hoje. E mesmo que em nenhum momento do filme fique claro como o pai de Tomy foi infectado ou se ele fazia sexo com homens, aos olhos de Chris isso não importa. Para ele, AIDS e homossexualidade são a mesma coisa, e Tomy é culpado dos dois crimes apenas por ser filho de quem é.

Até o pai de Chris, interpretado por Hannes Perkmann, precisa lidar com os próprios preconceitos. Mesmo sendo apresentado como um fazendeiro durão, ele demonstra compreensão e carinho com Tomy e a situação de seu pai, de quem é amigo desde a juventude. Ainda assim, ele não consegue esconder o medo quando Tomy tem um sangramento de nariz normal. Em vários momentos o filme apresenta esses contrastes entre a pureza e a imundície, entre a brancura do leite e o sangue de Tomy misturado com as fezes das vacas. E os testes frequentes sendo aplicados no leite e o próprio cuidado das mazelas dos animais formam um paralelo com a ideia dos frequentes cuidados médicos que o pai de Tomy deve estar passando. Mas no final das contas, o maior paralelo é com o próprio eclipse, uma sombra gigantesca que surge sobre aqueles dois garotos, mas que é, no final das contas, passageira.


quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Pequenas Tragédias (Brasil, 2026)

Voltar para casa nem sempre significa encontrar o caminho de volta. Às vezes, é descobrir que a cidade continua ali, mas as pessoas que davam sentido a ela desapareceram, partiram ou já não podem ser encontradas. Em “Pequenas Tragédias”, Daniel Nolasco retorna a Catalão, no interior de Goiás, para confrontar justamente essa espécie de desaparecimento coletivo. Em 2011, ele deixou a cidade para estudar no Rio de Janeiro, sendo o primeiro de um grupo de amigos queer a partir. Dez anos depois, percebe que nenhum deles permanece ali: alguns se mudaram para grandes centros urbanos, outros morreram. Corajoso, íntimo e atravessado por uma melancolia que nunca sufoca o humor, o longa me parece o melhor filme de Nolasco até agora. Não porque abandone as obsessões que já conhecemos, mas porque encontra nelas uma dimensão emocional muito mais profunda.

O retorno a Catalão tem algo de exorcismo. Nolasco não olha para sua cidade natal de uma distância confortável, como quem transforma o interior brasileiro em objeto de contemplação para espectadores urbanos. Ele volta para dentro da própria história, revisitando lugares, relações e feridas que continuam produzindo efeitos no presente. A mistura de documentário e fábula torna essa operação especialmente interessante: o filme não se limita a registrar o que restou, mas imagina o que poderia ter acontecido, devolvendo presença a quem já não está disponível para contar sua versão. A voz do narrador acrescenta uma camada metalinguística que expõe o próprio processo de reconstrução, lembrando que a memória não é um arquivo neutro. Ao mesmo tempo que fala de uma comunidade queer de uma cidade goiana, Nolasco investiga o que significa sobreviver à própria juventude e perceber que algumas das pessoas que nos formaram ficaram pelo caminho. A pequena tragédia do título ganha, uma dimensão coletiva.

Esteticamente, o filme reafirma a singularidade de um diretor que nunca teve medo de desejar seus personagens. A masculinidade que atravessa “Pequenas Tragédias” é viril, sexy, feita de pelos, poros, suor e corpos. Ereções, nudez, sexo, banheirão e cruising integram uma experiência em que o erotismo não aparece como intervalo entre os assuntos considerados sérios, mas como parte fundamental da vida, da sociabilidade e da memória gay. A fotografia, de Felipe Quintelas, é sublime ao transformar corpos, ambientes e gestos em matéria sensorial, enquanto o filme encontra maneiras de fazer conviver o desejo presente e a nostalgia por um mundo que já não existe da mesma forma. Há uma liberdade particular em observar esses homens sem higienizá-los para torná-los aceitáveis.


Essa liberdade ganha ainda mais força quando se percebe o diálogo com os primeiros trabalhos do diretor, como os curtas  “Plutão” e “Netuno”. As inquietações já estavam ali: o homoerotismo, o desejo masculino, as relações entre intimidade e performance, a construção de universos queer afastados dos centros culturais dominantes. Em “Pequenas Tragédias”, porém, essas marcas deixam de ser apenas investigações estéticas e passam a carregar o peso da experiência vivida. Lucas Drummond, que protagonizou “Apenas Coisas Boas”, ganha aqui uma presença particularmente sensível, capaz de revelar vulnerabilidades que convivem com a virilidade e o desejo. A trilha sonora também participa dessa arquitetura afetiva, transitando de Jordan Firstman a Thiago Pethit e chegando ao hino de Catalão, cuja inserção carrega um deboche deliciosamente ambíguo.

A visibilidade trans, recorrente na filmografia de Nolasco, encontra um de seus momentos mais bonitos na interpretação de “A Canção de Gisberta”. Ao incorporar essa canção, e esse momento em especial, o filme abre espaço para que a lembrança não seja apenas uma coleção de perdas privadas, mas também uma forma de reconhecimento político.  Mas, o que mais me pega, é a percepção de que “Pequenas Tragédias” funciona como uma celebração dos amigos que passaram por nossas vidas e com quem, por diferentes razões, perdemos contato. Nem toda amizade termina em briga, nem todo afastamento encontra uma explicação definitiva. Às vezes, a vida simplesmente espalha as pessoas, até que uma lembrança, uma música ou um lugar nos devolva a consciência de quanto elas participaram de quem nos tornamos.

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Privadas de Suas Vidas (Brasil, 2026)

Com direção de Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner, o terror transforma privadas assassinas em instrumentos de choque e comentário social. Entre o riso constrangido e a repulsa, sobra uma pergunta: o que fazer com tanta merda? A presença de Bruce LaBruce como produtor executivo nos créditos iniciais já funciona como uma piscadela para quem acompanha o cinema mais transgressor. A produção de Rodrigo Teixeira, à frente da RT Features, dá musculatura a uma ideia que poderia nascer como delírio de cinema underground, mas que aqui ganha escala, acabamento técnico e uma coleção de situações tão absurdas quanto difíceis de esquecer. O resultado é um terror inventivo, subversivo e absolutamente comprometido com a própria falta de modos.

A história segue Malu (Martha Nowill), uma produtora de eventos que tenta continuar vivendo depois de perder um dos filhos gêmeos em um acidente envolvendo uma privada. O trauma se manifesta também no corpo: ela passa a sofrer de uma constipação persistente, como se aquilo que não consegue elaborar emocionalmente tampouco pudesse liberar fisicamente. Enquanto enfrenta dificuldades financeiras e uma relação desgastada com Gênesis (Benjamín Damini), seu filhe adolescente não binárie, Malu aceita organizar o chá de revelação de gênero de uma vizinha influencer. A festa, com seus códigos cor-de-rosa e azul, oferece uma das ironias mais evidentes do filme: em pleno século XXI, ainda celebramos como espetáculo a tentativa de encaixar uma pessoa em categorias determinadas antes mesmo de ela nascer. 

O prédio onde essas figuras convivem logo deixa de ser apenas cenário. As privadas se transformam em criaturas assassinas, sugando moradores para dentro de uma ameaça que converte o espaço doméstico em espaço de insegurança. É uma ideia tão delirante que chega a ser estranho pensar que o cinema de terror ainda não a tenha explorado dessa maneira. Vinagre e Gewdner encontram na louça sanitária uma criatura improvável, capaz de fazer do banheiro, lugar de intimidade e alívio, uma armadilha mortal. E o filme não se contenta com o sangue: investe nos excrementos, nos fluidos e em tudo aquilo que a sociedade prefere manter fora de vista. A cena da chuca mortal merece um lugar próprio nos anais do cinema nacional, uma sequência que arranca risos constrangidos justamente porque leva o grotesco a um grau de comprometimento quase inacreditável. É uma cagada de proporções épicas. Que nojo! E, sim, esse nojo faz parte do projeto.


O elenco inteiro compra a proposta absurda e a leva a sério dentro do universo de seus personagens. Premiada em Brasília, Martha Nowill sustenta o desespero de Malu sem abandonar sua dimensão patética e humana; Benjamín Damini dá corpo ao conflito de Gênesis, enquanto Otávio Müller, Chandelly Braz, Marco Pigossi, Regina Braga, Maria Gladys, Rodrigo Apresentador e Olivia Torres ajudam a compor esse zoológico de vaidades, ressentimentos e pequenas violências cotidianas. É a entrega  das atuações, que permite ao filme oscilar entre o horror, a comédia e o melodrama.

Mas o que "Privadas de Suas Vidas" tenta dizer afinal? Por trás das privadas assassinas, há uma sociedade inteira entupida de coisas que não sabe processar. Malu retém o luto e corre o risco de perder o filhe que continua vivo; Gênesis luta para não ser aprisionade pelas expectativas da mãe; o chá de revelação transforma o gênero em performance comercial; e o zelador Vilaça (Otávio Müller), explorado durante anos pelos moradores, está prestes a ser descartado em nome da terceirização. O encanamento entupido vira uma imagem bastante literal das relações sociais: cada personagem acumula suas próprias porcarias, enquanto a estrutura que deveria permitir o escoamento já não dá conta de nada. 

O filme sabe como nos fazer olhar para o que preferimos não ver, mas nem sempre aprofunda com igual força tudo o que coloca diante de nós. Em certos momentos, a sucessão de absurdos parece ameaçar engolir o próprio comentário social. Mas, existe algo admirável na disposição de Vinagre e Gewdner de levar essa premissa até as últimas consequências, sem higienizar a experiência. "Privadas de Suas Vidas" é uma experiência de horror, humor e repulsa que transforma a pergunta sobre o que estamos tentando esconder em cinema literalmente fecal.


terça-feira, 13 de outubro de 2026

Soy Mario (Espanha, 2026)

por Egídio La Pasta

É uma dramaturgia que desafia as convenções sociais para construir uma representação (possível) sobre identidade, masculinidade e o desejo de constituir uma família. Mario, um taxista trans de 40 anos, vê na gravidez inesperada a possibilidade de realizar o sonho de ser pai, mas essa experiência também o coloca diante de contradições que atravessam sua própria percepção de si.

A masculinidade não é apenas uma imposição externa, mas também uma construção de um compromisso, que carrega inseguranças e conflitos particulares. A gravidez irrompe seu corpo masculino, reorganizando certezas que pareciam estabelecidas. Sua jornada para pertencer e se estabelecer diante dos colegas de trabalho e do mundo ao seu redor, precisa se reconfigurar, de dentro para fora.

"Soy Mario" procura compreender as ambiguidades de um homem que deseja construir sua própria ideia de família, sem abrir mão da identidade que construiu. Sharon Kleinberg conduz a narrativa para um terreno em que afeto, vulnerabilidade e autonomia se tornam elementos fundamentais, sobre a paternidade e modelos familiares legítimos. As concepções rígidas de gênero aparecem aos olhos de sua mãe, em alguns momentos, mas vem dela também a compreensão cheia de afeto. Da irmã e sobrinha. Os laços familiares são uma rede de apoio fundamental na sua trajetória.


Tudo funciona ao redor de Oustin de León. É um ator espetacular, que aprofunda, investiga, atento aos detalhes, muito potente nos conflitos e muito suave na sua relação com a paternidade. Que seja o primeiro de muitos protagonistas.


O Outro Lado das Redes (The Social Reckoning, EUA, 2026)

por Bruno Weber A carreira de Aaron Sorkin é marcada por thrillers políticos salientados por paralelos na realidade ou adaptando diretamente fatos reais, sempre alternando momentos de discussões tensas com outros mais leves e bem-humorados. O aspecto mais particular de seus trabalhos como roteirista é essa construção de diálogos rápidos cheios de referências inteligentes e respostas espirituosas a serviço de um didatismo expositivo (e um pouquinho cafona). E para o bem ou para o mal, essa descrição se encaixa em praticamente tudo que ele já escreveu, desde "The West Wing" até "O Homem Que Mudou O Jogo". Quando um cineasta de pulso firme e estilo forte se propõe a filmar um roteiro do Sorkin, geralmente ele consegue empurrar esses elementos na direção certa. Foi o que David Fincher fez em 2010 com "A Rede Social". Agora, dezesseis anos depois, Sorkin demonstra mais uma vez que um roteirista não é necessariamente um bom diretor com essa continuação de "A Rede Social", intitulada "O Outro Lado Das Redes".

"A Rede Social" contava a ascensão trágica de Mark Zuckerberg como criador e CEO do Facebook, uma posição que o transformou na figura extremamente influente que é hoje, ao mesmo tempo que o posicionou nesse espaço alternativo que os barões da tecnologia parecem habitar, separados do resto da humanidade e das interações humanas normais. Nessa continuação, Sorkin tira de Zuckerberg o papel de protagonista trágico e o estabelece como um frio antagonista. É uma progressão que parece combinar com a realidade, já que Jesse Eisenberg preferiu não retornar após protagonizar o filme anterior, alegando que não queria mais ser relacionado com a figura de Zuckerberg. Assim, ele cede lugar para Jeremy Strong, que, segundo relatos, escolheu usar a técnica de atuação de método, adotando os trejeitos e o comportamento de Zuckerberg mesmo entre as filmagens. E mesmo que já tenha sido dito várias vezes que a atuação de método é ineficaz e cansativa para todos os envolvidos - não é à toa que só é utilizada para interpretar babacas - deve-se admitir que Strong está muito bom no papel. E um atestado dos pontos positivos da escrita de Sorkin é que é possível traçar linhas diretas entre as duas interpretações do personagem e a figura real de Zuckerberg sem que pareça que qualquer um dos atores esteja "copiando" alguém, e ainda assim, as distinções entre eles conseguem realçar o que é real e o que não é, assim como o que cada um dos intérpretes trouxe para o papel.

Mas a verdade é que todo o elenco está se esforçando bastante ao tentar dar vida aos diálogos de Sorkin que, sem ser filtrados pelo talento de outro diretor, parecem aqui especialmente artificiais e pretensiosos. A dupla de protagonistas interpretada por Mikey Madison e Jeremy Allen White é quem carrega o maior peso dessa responsabilidade. White interpreta Jeff Horwitz, repórter investigativo do Wall Street Journal, que ao assumir o trabalho de investigar os desvios éticos e políticos do Facebook (hoje Meta), acaba entrando em contato com a engenheira de informação Frances Hagen, interpretada por Madison. As conversas entre eles, motivadas pelas preocupações de Frances com a crescente radicalização política dos usuários da rede social em que trabalha, levou a engenheira a vazar vários documentos confidenciais do Facebook, resultando na série de reportagens conhecida como "The Facebook Files". Entre as principais revelações, essas reportagens deixaram claro que a empresa contrariou várias das próprias medidas de segurança para assegurar que usuários continuassem grudados em suas telas, interagindo com postagens que espalhavam desinformação, facilitavam atividades criminosas e induziam à mudanças de autoimagem, automutilação e suicídio. O filme então se divide em duas timelines, repetindo a dinâmica do original. Na primeira, em 2019, acompanhamos as descobertas de Jeff e Frances. Na segunda, em 2021, Zuckerberg está num teatro decorado como o Congresso, ensaiando suas respostas para a CPI que aconteceria em breve. Lá, ele é confrontado por Charlie, ex-acionista do Facebook e único personagem totalmente fictício do filme, embora seja livremente inspirado na figura de Roger McNamee. Dessa forma, apesar de Zuckerberg ser estabelecido como o vilão, ele nunca realmente interage com os protagonistas da história, reiterando sua posição isolada do resto do mundo, enquanto vemos Jeff e Frances em ambientes reais, tendo interações verdadeiras com as pessoas à sua volta.

Apesar dessas ressalvas com "O Outro Lado Das Redes", um filme pode falhar num nível técnico e ainda assim apresentar temas interessantes e necessários. A abordagem de Sorkin sempre foi imperfeita, e nos últimos anos ele pode ter apresentado mais erros do que acertos, mas sempre foi adequada em suas intenções, trazendo discussões com as quais o público pode e deve se engajar. Mais do que nunca, as descobertas que levaram Mark Zuckerberg a depor em frente ao congresso americano devem ser amplamente conhecidas. Elas revelam que a radicalização política da extrema-direita foi um fenômeno artificial, arquitetado por bilionários das big techs crentes numa ideologia absolutista de liberdade de expressão que desconsidera a segurança dos seus usuários e suas consequências para o bem-estar social, destruindo o próprio conceito objetivo de verdade. E mais do que isso, motivado para favorecer figuras políticas que atuassem em prol da desregularização das redes sociais e cortes de impostos para suas empresas. Dessa forma, filmes como "O Outro Lado Das Redes", em meio a suas romantizações formulaicas e humor cafona, se provam meio indispensáveis por seu alcance. A crise de informação, com suas pós-verdades e "fatos alternativos", representa um perigo tão grave para nossa existência quanto a crise climática, e é irônico que um drama que adapta fatos reais em entretenimento acessível possa atuar como defesa da realidade contra a insanidade.


A Professora de Francês (Brasil/Portugal/França, 2026)

Por Marco Gal Um carro vagueia pela cidade em uma noite de chuva. Duas mulheres procuram alguém. Quando o carro trava o pneu em um buraco na rua, um grupo de homens se aproxima e forçam seus corpos contra o carro. Um momento de tensão. Eles querem invadir sua entrada? Assaltá-las? As mulheres se assustam. Porém, o grupo de homens move o carro para fora do buraco. As mulheres agora conseguem ir embora.

É nessa estranheza que o filme “A Professora de Francês” funciona. Na hospitalidade envolvida de uma violência ameaçadora. O longa dirigido por Ricardo Alves Jr., diretor de “Parque de Diversões” e “Tudo o que Você Podia Ser” é estrelado Grace Passô, atriz de “Temporada” e diretora de “Nosso segredo”.

No filme, Grace faz Graça, uma professora muito preocupada com a saúde de seu pai, interpretado por Rodger Rogério. Como o pai tem precisado bastante de ajuda, Graça decide morar junto com ele por um tempo. O problema é que isso implica em conviver com o restante da família do pai, pessoas com valores conservadores, e Graça enxerga essa relação com muita desconfiança.

Essa é a melhor definição sobre a direção de Ricardo Alves Jr., que consegue trabalhar com muito domínio uma direção bem desconfiada, pessimista até, esperando sempre o pior das situações e do seu arredor. Criando um clima de tensão que começa com manipulações psicológicas, micro agressões, para depois partir para agressões físicas. É inevitável não se lembrar de “O Bebê de Rosemary”, em que a heroína de Mia Farrow enfrentava um culto religioso que se aproveitava dela.

Porém, nada há de fictício ou de estrangeiro em “A Professora de Francês”. À exceção dos diálogos durante as aulas de francês de Graça, a mensagem do filme é bastante brasileira. O avanço do neopentecostalismo impactou profundamente a sociedade e política brasileira. Ampliou a influência de lideranças religiosas no debate público e contribuiu para pautar discussões sobre costumes, gênero e sexualidade, fortalecendo agendas conservadoras. “A professora de francês” vai de encontro a isso ao discutir temas como LGBTQfobia e a juventude conservadora, principalmente na figura de Tomás (interpretado por Pedro Goifman), um líder religioso da comunidade e sobrinho de Graça.

Aliás, Grace e Pedro foram vitoriosos no Festival do Rio, que se encerrou neste 11 de outubro, com os prêmios de Melhor Atriz e Melhor Ator Coadjuvante. O Festival do Rio foi a première brasileira de “A professora de francês”, que teve sua estreia mundial no prestigiado festival San Sebastian. A vitória no Rio faz sentido, pois Grace entrega uma performance com bastante emoção. Boa parte da força do filme se sustenta na atuação de Passô e ela consegue criar uma relação muito convincente ao esconder e revelar o que realmente sente. É poderoso como ela expressa somente com o olhar. O elenco inteiro está todo muito bem, Rodger Rogério entrega ternura e dureza com muita naturalidade. Rômulo Braga também explora bem a complexidade do personagem. O elenco inteiro atua nessa dualidade entre mostrar afeto e gerar desconfiança ao mesmo tempo.

Porém há uma dificuldade no clímax. O filme tem um ritmo tão bem trabalhado na graduação da tensão que, quando alcança o clímax, há um salto no tempo que a princípio parece um pouco equivocado, no sentido de não ser crível as ações da personagem. Essa escolha é justificada depois, mas há muita coisa omitida nessa passagem do tempo que gostaria de ter visto mais.

Por fim, “A professora de francês” é um assustador retrato do Brasil contemporâneo que expõe como pode ser violento uma comunidade que diz proteger, enquanto controla.


GUIA QUEER: MOSTRA DE SP 2026

A 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo acontece de 15 a 29 de outubro, reunindo produções de diferentes países, gerações e tradições cinematográficas. Entre os filmes que disputam o Prêmio Prisma, dedicado ao cinema LGBTQIA+, há romances, histórias de amadurecimento, dramas familiares, narrativas políticas e experiências que desafiam as fronteiras entre ficção e realidade. A diversidade permite observar como o cinema queer se transforma quando muda de território, de geração e de linguagem.

Olhe Pra Mim, de Rafhael Barbosa

O BRASIL QUEER EM MUITAS FORMAS

“A Margem do Rio”, de Enock Carvalho e Matheus Farias, leva o desejo masculino para os manguezais do Recife. Em “London”, de Victor Di Marco e Márcio Picoli, vencedor do Queer Lion em Veneza, um jovem com deficiência trabalha numa casa de fetiche em Porto Alegre. “A Paixão Segundo G.H.B.”, de Gustavo Vinagre e Vinícius Couto, parte de um encontro sexual entre homens para mergulhar no chemsex.  A infância queer aparece em “Feito Pipa”, de Allan Deberton. Em “Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha”, de Janaína Marques, a memória de uma mãe que matou um homem prestes a cometer feminicídio conduz a uma viagem imaginária entre passado, violência e reconciliação. O grotesco também tem lugar nessa cartografia. “Privadas de Suas Vidas”, de Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner. Já “Não Estamos Sonhando”, de Ulisses Arthur, acompanha Ciro, estudante de medicina que dá aulas de pole dance aos amigos e enfrenta a precariedade da vida universitária. A seleção inclui ainda “Zé”, documentário de Paulo Caldas sobre o teatrólogo Zé Celso Martinez Corrêa. Em "Pequenas Tragédias", Daniel Nolasco entrega sua obra mais pessoal e Grace Passô protagoniza "A Professora de Francês" de Ricardo Alves Jr. "Justino - Nos Bastidores do Reino" , de José Eduardo Belmonte, e estrelado por Caio Blat, é baseado no livro autobiográfico que relata a trajetória real de ascensão e queda dentro de uma grande igreja neopentecostal. "Olhe para Mim", dirigido pelo alagoano Rafhael Barbosa, segue Marcelo, que ainda tenta lidar com o luto e o vazio da ausência materna.

Pequenas Tragédias, de Daniel Nolasco


A seleção aponta para um cinema queer que não se limita ao romance ou à afirmação identitária. Há crianças buscando acolhimento, homens confrontando a masculinidade que aprenderam a representar, pessoas trans construindo suas próprias redes de cuidado, amantes separados pela repressão e artistas tentando preservar histórias que poderiam ser apagadas. Há também filmes que recorrem ao horror, ao camp e à experimentação para encontrar outras maneiras de falar sobre o corpo e o desejo.


Roma Elástica, de Betrand Mandico

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

FESTIVAL DO RIO 2026: CLUB KID



Club Kid (EUA, 2026) por Egídio La Pasta

É interessante observar o cinema queer desse ano. A diversidade dos temas, os cenários e as diferentes épocas, grandes romances históricos em meio aos escombros da guerra, da incerteza do amor diante da sociedade, histórias interrompidas pela violência, a juventude em sintonia com o seu desejo, homens e mulheres em transição constante, moldando as suas vidas de acordo com o contrato irrevogável de serem exatamente quem são. E "Club Kid", que foge um pouco da cartilha, e foca num encontro entre uma criança e o seu pai. E na transformação profunda de ambos.

Peter é um cara que encara o excesso como uma forma de se afirmar. Ele vive uma rotina, na produção de suas festas, regada a muita bebida, muitas drogas e putaria. É o estereótipo do jovem gay, bonitão, nova iorquino, com uma vida organizada para a curtição. Ele parece meio à deriva, se deixando levar, no conforto da juventude, mas parece compreender que não encontra mais satisfação no seu comportamento.

Quando ele conhece Arlo, seu filho, as relações entre identidade, pertencimento e construção da imagem imediatamente ganham forma, instintivamente, no aprendizado mútuo entre pai e filho. Dentro de um universo marcado pela cultura noturna e pela liberdade de expressão, essa paternidade desloca o cenário e amplifica o diálogo entre eles.

O filme articula questões relacionadas a autoimagem, ao desejo e a busca por reconhecimento, sem ignorar as ambiguidades presentes nesse processo. Peter é todo errado. Mas sua relação com Arlo parece equalizar a sua bagunça interna. Ela cria uma linguagem possível aos dois, onde o amor faz brotar mais amor. Ele não precisa encaretar e abandonar quem ele sempre foi. Mas amadurece, sem se deixar.

Toda a reta final é um primor. As opções de Jordan Firstman, ator, diretor e roteirista, quando o filme pesa a mão, são muito sóbrias. Mesmo no discurso diante da juíza, cena chave, onde ele está especialmente bem. E na cena no escuro, ao celular, momento onde as lágrimas vieram. Ele desenha o drama com muita firmeza, se equilibrando com esperteza para que o filme não se perca.

É lindo demais.

FESTIVAL DO RIO 2026: VICENTINA PEDE DESCULPAS


Vicentina Pede Desculpas (Brasil, 2026) por Egídio La Pasta

Gabriel Martins parte de uma tragédia e cruza uma jornada que vai muito além do luto. Vicentina perde o filho motorista em um acidente de ônibus e começa uma busca por respostas, tateando alguma reconciliação e compreensão de uma dor que parece estrangeira. Ao procurar as famílias das outras vítimas para pedir desculpas, ela assume o peso da culpa, como se compartilhar o seu sofrimento pudesse, de alguma forma, fazê-la entender, acalmar e investigar a fatalidade do acidente. É um pedido de desculpas também para si mesma. Uma mãe, diante de um filho que ela não conhecia, desesperadamente, tentando dar sentido ao que não tem sentido algum.

Rejane Faria merece muitos elogios, principalmente pela maneira como constrói uma mulher que parece guardar muito mais do que consegue expressar. O filme é integralmente Vicentina e é muito difícil desviar da emoção, diante desse ambiente exaustivamente sensível.

Também não consigo olhar para uma história como essa sem pensar na dimensão social da tragédia e na facilidade com que vidas são reduzidas a números, notícias espetacularizadas e discussões vazias sobre quem deve ser responsabilizado. A porra da polarização. A culpa que encontra endereço, raça e qualquer justificativa que alimente a audiência e inflame a sociedade.

Há questões que jamais serão respondidas. Criar mais perguntas para elas é um caminho impossível de trafegar. Inviável. Cruel.


A forma como ele abraça os casais homoafetivos é muito natural e delicada. Sua relação com Joana é curiosa e as duas acumulam amor e silêncio na sua relação. É uma amizade com a maiúsculo. E a cena na igreja com o ex-noivo me parece especialmente significativa, porque coloca em perspectiva sentimentos, memórias e tudo aquilo que permanece, mesmo quando uma relação chega ao fim. Inclusive o ódio.

A cena do acidente me tirou um grito.

domingo, 11 de outubro de 2026

Santo (Brasil, 2026)

Um acidente de trânsito aproxima dois entregadores que, em princípio, parecem habitar universos diferentes. Em “Santo”, segundo curta-metragem de Maria Luísa Alves, Yuri (Pedro Tófani) é provocativo e circula com mais liberdade, enquanto Davi (João Pedro Mariano) carrega consigo a fé evangélica e uma rotina marcada pelo trabalho. A colisão que coloca os dois no mesmo caminho tem uma força simbólica evidente: às vezes, basta um desvio na rotina para que certezas cultivadas durante anos comecem a vacilar.

O interesse está no atrito entre religião e desejo, especialmente quando a sexualidade masculina precisa disputar espaço com uma visão de mundo que estabelece limites rígidos para o afeto. Davi não é apenas um jovem religioso que encontra alguém atraente. É alguém cuja formação espiritual pode ter lhe ensinado a interpretar certos desejos como ameaça, desvio ou pecado. Yuri, por sua vez, surge como a possibilidade de conhecer outras formas de viver. A pergunta mais instigante não é simplesmente se os dois vão se envolver, mas o que acontece quando a experiência concreta de um encontro contradiz aquilo que aprendemos a considerar verdade.

“Santo” pode remeter à devoção de Davi, mas também à ideia de pureza que tantas vezes serve para separar corpos considerados aceitáveis daqueles tratados como pecaminosos. Quando o desejo entre homens entra em cena, quem define o que é puro e o que precisa ser reprimido? A contradição ganha força porque a história não se passa num espaço protegido, longe da vida cotidiana, mas nas ruas de São Paulo, entre entregas e obrigações. O trabalho aproxima os protagonistas e lembra que a vida não espera que nossas convicções estejam resolvidas para continuar acontecendo.


Os protagonistas são entregadores, trabalhadores que atravessam a cidade para cumprir tarefas, lidar com prazos e garantir o sustento. O encontro amoroso se desenha nesse cotidiano, e não num cenário idealizado, apartado das pressões materiais. Em quinze minutos, porém, há um desafio considerável: fazer com que o conflito não se reduza à oposição previsível entre o rapaz livre e o rapaz reprimido, como se a sexualidade de um fosse simples e a fé do outro explicasse tudo.

A proposta de “Santo” tem força por aproximar duas experiências que o debate público costuma colocar em campos inimigos: a fé e a homossexualidade. O risco está em tratar o conflito como uma disputa simples entre repressão e liberdade, sem dar a Davi e Yuri contradições suficientes para escapar dos papéis que representam. O que torna um romance assim realmente interessante é a possibilidade de que o encontro não produza respostas imediatas, nem transforme alguém em salvador de outra pessoa. Quando o desejo aparece, a fé não precisa desaparecer para que a vida se torne mais complexa.

FESTIVAL DO RIO 2026: NARCISO, NÃO ESTAMOS SONHANDO E A PROFESSORA DE FRANCÊS

Quem Matou Narciso? (Narciso, Paraguai/Brasil/Espanha/Uruguai/Alemanha/França/Portugal, 2026) por Egídio La Pasta

Marcelo Martinessi parte de um assassinato para investigar a identidade do Paraguai, durante a ditadura, no controle dos corpos, dos desejos e das palavras. Narciso surge como uma presença que incomoda justamente por precisar romper os limites. O rock e a liberdade com que transitam entre diferentes relações, tornam-se elementos de uma existência que desafia a ordem estabelecida. Tem uma tinta suave na sexualidade dele, pouco explorada pelo roteiro. Mas o que mais inquieta é perceber como a violência contra determinados corpos não termina no ato de matar: ela continua no silêncio, na omissão e na tentativa de apagar as circunstâncias que tornaram aquela morte possível. O filme encontra nessa dimensão política sua questão mais importante, mostrando que, em sociedades marcadas pelo autoritarismo e pelo preconceito, até mesmo a verdade pode se tornar uma ameaça. A gente não aprendeu nada.

Embora a atmosfera de repressão esteja presente e a trajetória de Narciso carregue potência, senti falta de uma aproximação mais profunda do personagem, de algo que ultrapassasse sua condição de jovem radialista, para revelar também suas contradições e fragilidades. A pergunta que dá nome ao filme na nossa tradução, perde a força. Que sociedade permite que alguém seja perseguido e, depois de sua morte, ainda encontra maneiras de silenciar sua história? Onde, em que momento, que o mundo virou esse lugar?


Essa é uma edição do festival do Rio com filmes que resgatam a memória queer. Que vasculha histórias, que joga luz em quem resistiu, quem lutou, quem atravessou o tempo, sem nem pretender, para nos dar um sopro quente de realidade, de que há guerras que duram gerações, que há gritos que ecoam por séculos, dores e abismos inimagináveis diante da diferença. De quem não enxerga o que há de melhor em nós. Resistimos. Resistiremos. Resistamos.

Não Estamos Sonhando(Brasil, 2026)
por Egídio La Pasta

É bonita a imagem que abre o filme, Ciro, um jovem negro, despertando, nu, numa espécie de coreografia não ensaiada. A dança está nele, de forma orgânica, no cotidiano duro de um estudante de medicina, na sua rotina, na turma de amigos da universidade, onde eles fazem, juntos, aulas de pole dance. É um lugar seguro, de acolhimento, de muito carinho entre os amigos. E liberdade.


É um roteiro que encontra no corpo de homens e mulheres negros, no desejo e nas contradições de Ciro, um caminho para falar sobre liberdade, pertencimento e as expectativas que tentam determinar quem podemos ser. Entre a faculdade e a sala de ensaio, os personagens habitam mundos que parecem exigir deles identidades distintas, como se não fosse possível conciliar razão e desejo, futuro e prazer, disciplina e liberdade. Nessa tensão, o filme encontra força, ao compreender que existir também é desafiar os lugares que nos reservam aos nossos corpos.


A política - especialmente nesse momento - não está apenas em ocupar devidamente essas instituições ou nos grandes enfrentamentos, denunciando toda e qualquer arbitrariedade do ambiente estudantil, mas também na intimidade, no exercício livre da sexualidade e no direito de experimentar outras possibilidades, ocupando espaços e não abrindo mão de si mesmo. Não estamos sonhando porque desconhecemos a realidade, mas porque, apesar dela, ainda somos capazes de legitimar as nossas formas de (r)existir.

A Professora de Francês (Brasil/Portugal/França, 2026)
por Bruno Weber

O diretor Ricardo Alves Jr. faz em "A Professora de Francês" uma denúncia do fanatismo religioso que assombra as comunidades periféricas com uma linguagem típica do terror. Tanto uma fábula do lobo em pele de cordeiro quanto um torture porn psicológico, é na atuação magnífica de Grace Passô que ele encontra seu ponto mais forte.


Não Estamos Sonhando