Em “Olhe Para Mim”, o cineasta alagoano Rafhael Barbosa reconfigura uma história de desaparecimento em uma experiência visual poética e atmosférica, na qual maternidade, amor e fé se entrelaçam às lendas e aos mistérios do Nordeste. Dez anos depois do desaparecimento da mãe durante uma grande festa religiosa, Marcelo (Ulisses Arthur) ainda tenta compreender a ausência que reorganizou sua vida. O encontro com Sandra (Rejane Faria) e seu filho Ivan (Luciano Pedro Jr.), dois viajantes misteriosos, abre caminho para uma narrativa em que realidade e imaginação se contaminam. Mais do que solucionar um desaparecimento, o filme investiga aquilo que fazemos com as ausências quando a vida não oferece respostas suficientes.
A maternidade é o centro dessa história, mas está longe de ser sua única questão. “Olhe Para Mim” também fala de amor, fé e da necessidade de encontrar algum sentido diante do inexplicável. A figura materna ganha contornos múltiplos, ora acolhedores, ora enigmáticos, como se Marcelo tentasse reconstruir, por meio da imaginação, as diferentes formas de cuidado que deseja encontrar no mundo. Rafhael Barbosa demonstra sensibilidade ao recorrer a metáforas visuais e imagens evocativas, permitindo que sentimentos difíceis encontrem expressão na paisagem, nos corpos e nos elementos fantásticos.
Rejane Faria, atriz que vem conquistando cada vez mais espaço e reconhecimento no cinema nacional, confere presença à matriarca Sandra, personagem que participa dessa atmosfera de segredos e ambiguidades. Sua atuação ajuda a sustentar a dimensão humana de uma narrativa que poderia facilmente se perder em abstrações. Ao redor dela, o filme constrói um universo em que as relações familiares não são necessariamente simples, e o acolhimento pode surgir de encontros inesperados. A maternidade deixa de ser apenas uma ligação biológica ou uma imagem idealizada para se tornar uma pergunta sobre cuidado, pertencimento e os laços que inventamos ao longo da vida.
A dimensão se torna ainda mais interessante na maneira como o longa incorpora a espiritualidade e o folclore nordestino. A festa religiosa que marca o desaparecimento da mãe, as lendas populares e a presença da rasga-mortalha, ave cercada por associações simbólicas com a morte, ajudam a construir a linguagem do filme, conectando o imaginário de Marcelo a uma cultura em que o cotidiano e o sobrenatural podem coexistir. O fantástico não interrompe a realidade, mas amplia suas possibilidades. E o filme assume essa escolha sem constrangimento, deixando que o mistério, o sonho e a superstição expressem aquilo que o realismo talvez não conseguisse traduzir.
“Olhe Para Mim” também representa em um cenário audiovisual brasileiro cada vez mais descentralizado. Realizado por Rafhael Barbosa, cineasta alagoano, o longa parte de um território, de suas referências culturais e de suas particularidades para construir uma obra que não precisa reproduzir os códigos dos grandes centros urbanos. Essa descentralização não significa apenas ampliar o mapa do cinema nacional, mas reconhecer que diferentes regiões produzem linguagens, imaginários e modos de sentir que enriquecem o audiovisual.
“Olhe Para Mim” confirma que o cinema queer brasileiro se fortalece quando amplia seus horizontes estéticos e geográficos. Sua beleza não depende de transformar cada elemento em explicação, mas de confiar na força das imagens e na capacidade da fantasia de revelar verdades emocionais. Maternidade, amor e fé se encontram em uma narrativa que acolhe o inexplicável e faz do folclore uma parte viva de sua expressão.





























