“Vampire Carnival” pode não ser assumido, mas é bastante pintoso. Ponto. Existe uma atmosfera de teatralidade, sensualidade e exagero que atravessa sua narrativa e encontra expressão especialmente interessante no universo de vampiros criado pelos diretores David Charbonier e Justin Douglas Powell. Enquanto a história acompanha Gemma (Nell Verlaque) em sua aproximação com uma comunidade de criaturas noturnas, são os encontros entre Sebastian (Alvise Rigo) e Eric (Kieron Moore) que fazem a temperatura subir. Há algo de profundamente homoerótico na presença dos atores, uma eletricidade construída no embate entre dois corpos masculinos, como se a violência fosse também uma forma tortuosa de aproximação.
Alvise Rigo, com seu porte físico imponente e uma presença que combina sedução e melancolia, constrói Sebastian como uma figura de fascínio. Já Kieron Moore, vindo de papéis em “Boots” e ‘Blue Film” investe em um Eric mais instável, ressentido e ameaçador. O ator cria alguém possuído pelo luto e pela vingança, marcado por uma vida de humilhações e perdas.
Sebastian e Eric encarnam formas distintas de exercer poder sobre os outros, mas também duas maneiras de lidar com a própria condição monstruosa. A disputa territorial entre eles ganha contornos de tensão sexual porque o roteiro e as atuações aproximam constantemente confronto e desejo. A protagonista continua sendo o centro formal da narrativa, mas, em vários momentos, a química entre Rigo e Moore ameaça deslocar esse eixo. Para quem gosta do homoerotismo clássico do cinema de vampiros, aquele em que ameaça, sedução e atração compartilham o mesmo gesto, há aqui material de sobra.
O vampiro é uma criatura que vive à margem, pertence a uma comunidade secreta, desafia as normas da sociedade humana e precisa negociar continuamente o que pode revelar sobre si. Em “Vampire Carnival”, essa condição ganha uma particularidade: os vampiros se alimentam do desespero humano e seguem um código que exige consentimento, tentando coexistir sem transformar suas vítimas em cadáveres. O filme não constrói uma alegoria queer deliberada, mas reconhece como a tradição vampírica oferece imagens poderosas para falar de segredo, diferença, desejo proibido e pertencimento.
Visualmente, os diretores apostam no carnaval como território de sedução e ameaça. Luzes neon, atrações circenses, labirintos de espelhos e apresentações performáticas criam um universo artificial, deliberadamente exagerado, que flerta com o camp e com a teatralidade do horror gótico. A sequência de orgia, embalada por iluminação vermelha e neon ele essa dimensão: corpos masculinos e femininos se misturam numa celebração de desejo que sugere uma sexualidade fluida.
“Vampire Carnival” parece ter saído dos anos 1990 e nem sempre consegue honrar suas referências. A história de Gemma, o passado de Eric, as regras da comunidade vampírica e a dimensão psicológica do luto e o próprio sexo disputam espaço. Mas o filme mostra personalidade quando permite que o desejo atravesse o horror e que seus personagens sejam observados como corpos em conflito, sedução e permanente encenação.






























