sexta-feira, 29 de maio de 2026

Pela Metade (Half Man, Reino Unido/EUA, 2026)

Depois do fenômeno desconfortável de “Bebê Rena”, Richard Gadd retorna ainda mais cruel consigo mesmo, e com o espectador, em “Pela Metade”, minissérie da HBO que transforma trauma masculino, repressão queer e violência emocional em um verdadeiro terror psicológico. Criada, escrita e estrelada por Gadd, a produção acompanha a relação tóxica entre Ruben Pallister e Niall Kennedy em duas linhas temporais distintas: a juventude dos personagens na Escócia dos anos 80 e o reencontro devastador na vida adulta, décadas depois.

Stuart Campbell interpreta o jovem Ruben, enquanto Mitchell Robertson vive o jovem Niall, com Richard Gadd e Jamie Bell assumindo as versões adultas, de irmãos de criação filhos de um casal sáfico. A narrativa começa no presente, durante o casamento homoafetivo de Niall, quando a reaparição de Ruben desencadeia uma explosão de violência. A partir daí, a série alterna passado e presente para revelar como esse vínculo simbiótico, destrutivo e marcado por desejo reprimido foi construído ao longo de quase 40 anos.

“Pela Metade” é traumatizante. Não existe maneira mais honesta de descrevê-la. Cada episódio parece desenhado para acelerar gatilhos emocionais específicos: abuso, homofobia internalizada, violência doméstica, sexo atravessado por culpa e masculinidade tóxica em estado terminal. Há momentos em que assistir à série se torna quase fisicamente desagradável, especialmente nas cenas em que consentimento, medo e desejo se embaralham de maneira perturbadora.

No centro disso tudo está a relação entre Ruben e Niall. Ruben é violento, instável, controlador, mas também profundamente ferido. Já Niall vive esmagado pela repressão sexual, um comportamento autodestrutivo e pelo medo constante de desejar aquilo que aprendeu a odiar em si mesmo. A série trabalha a relação dos dois quase como uma história de amor doentia e deformada pela violência patriarcal.

Diferente de muitos dramas LGBTQIA+ contemporâneos preocupados em tornar seus personagens imediatamente higienizados ou empáticos, “Pela Metade” insiste nas zonas mais feias e contraditórias da sexualidade reprimida. Niall não é um protagonista confortável. Seu medo da própria homossexualidade destrói relações, alimenta silêncios e sustenta sua dependência emocional de Ruben. 

A minissérie não é agradável, nem pretende ser. Richard Gadd cria uma obra agressiva, exaustiva, abusiva e muitas vezes difícil de suportar, mas também assustadoramente honesta sobre violência masculina, repressão queer e heranças emocionais que atravessam décadas. “Pela Metade” escolhe permanecer na ferida aberta. E mesmo quando parece insuportável, continua impossível de abandonar, mesmo que depois você precise fazer meditação ou terapia.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

As Quatro Estações do Ano 2ª Temporada (The Four Seasons, EUA, 2026)

Tina Fey retorna para a segunda temporada de “As Quatro Estações do Ano”, minissérie inspirada no filme homônimo de 1981 dirigido por Alan Alda, agora sob uma atmosfera de luto e reconstrução. Co-criada por Fey, Lang Fisher e Tracey Wigfield, a produção mantém a estrutura de encontros sazonais, mas redireciona seu foco para as consequências da morte de Nick (Steve Carell), forçando a viúva Anne (uma impagável Kerri Kenney-Silver) a um embate inevitável com Ginny (Erika Henningsen), a amante grávida de seu falecido marido. A série expande organicamente o protagonismo de Danny (Colman Domingo) e Claude (Marco Calvani), elevando a relevância das tensões e alegrias do casal gay em um momento de transição.

Dirigido por Colman Domingo, o primeiro episódio já estabelece o tom agridoce desta nova fase. A temporada começa literalmente entre cinzas, com os personagens tentando lidar com o luto de Nick enquanto continuam presos às pequenas confusões, DRs e ressentimentos que sustentam amizades de longa duração. A chegada do bebê de Ginny reorganiza completamente a dinâmica do grupo, especialmente para Anne, cujo despertar maternal transforma sua dor em algo mais complexo e inesperadamente comovente. 


Mas é no núcleo formado por Danny e Claude que “As Quatro Estações do Ano” encontra o seu verão. A segunda temporada amplia significativamente o espaço do casal gay como eixo emocional da narrativa. Danny e Claude discutem a possibilidade de terem filhos, enfrentam inseguranças sobre envelhecimento e seguem funcionando como conselheiros afetivos do restante do grupo. Colman Domingo e Marco Calvani possuem uma química rara, construída nos cotidianos de um relacionamento duradouro.

Enquanto isso, Kate (Tina Fey) e Jack (Will Forte) deixam de esconder as rachaduras do casamento sob ironias inteligentes e comentários passivo-agressivos. A temporada trabalha muito bem a ideia de consenso emocional, mostrando como até relações aparentemente sólidas podem entrar em colapso quando o desgaste cotidiano se acumula silenciosamente.

Visualmente, a produção continua extremamente elegante. Cada episódio segue estruturado em torno das estações do ano, utilizando locações ensolaradas, praias, casas de campo e até um Natal na Itália para refletir os estados emocionais dos personagens. Existe uma sofisticação aconchegante na maneira como a série filma a vida adulta. O sexto episódio, ambientado durante a pandemia e trazendo de volta Steve Carell em flashbacks, talvez seja o mais forte da temporada. Ao mesmo tempo engraçadíssimo e melancólico.


Leve, divertida e emocionalmente honesta, “As Quatro Estações do Ano” amadurece sem perder o humor afiado que tornou a primeira temporada tão charmosa. A série compreende que amizades longas também passam por fases, desgastes e reinvenções, assim como qualquer casamento.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Sidosa (Espanha, 2026)

“Sidosa”, documentário de Lluís Galter e Màrius Sánchez, já nasce carregando uma provocação no próprio título. A palavra, historicamente usada como insulto homofóbico e misógino na Espanha, é reapropriada aqui como gesto político, íntimo e quase desesperado. O filme acompanha o ator e diretor Eduardo Casanova no momento em que decide tornar pública uma informação que manteve em silêncio desde a adolescência: vive com HIV desde os 17 anos. O que poderia facilmente se transformar num relato pedagógico ou excessivamente solene encontra outro caminho, prefere a vulnerabilidade desconfortável, a ironia amarga e o humor como formas de desmontar o estigma.

Ao lado do jornalista Jordi Évole, que também atua como produtor e interlocutor constante, Casanova revisita médicos, enfermeiras, amigos e memórias que moldaram sua experiência com o vírus. Existe algo profundamente metacinematográfico na estrutura do documentário. Não é apenas um filme sobre HIV, mas um filme sobre alguém tentando reorganizar retrospectivamente a própria imagem pública.

A escolha de Galter e Sánchez de não transformar o HIV em espetáculo trágico talvez seja a maior qualidade do longa. “Sidosa” não busca lágrimas nem a estética da superação inspiradora. Pelo contrário, dialoga com a estética do cineasta, trabalhando constantemente no terreno da contradição. Casanova ri, faz piadas, encena exageros, flerta com o absurdo e frequentemente parece esconder dor atrás de performance. Essa oscilação entre sinceridade e teatralidade combina perfeitamente com sua persona artística, construída justamente sobre excesso visual, desconforto e corpos considerados desviantes.

O filme não fala apenas sobre diagnóstico, mas sobre vergonha histórica, silêncio e sobrevivência LGBTQIA+ dentro de uma sociedade que ainda associa HIV a punição moral. Há uma dimensão política importante no fato de um artista conhecido como Casanova tornar pública sua sorologia. O documentário insiste que o problema nunca foi o vírus em si, mas o imaginário de exclusão construído ao redor dele. Ao reapossar-se da palavra “sidosa”, o filme transforma insulto em identidade de resistência, numa operação profundamente queer de ressignificação da violência verbal.

Mais do que um coming out sorológico, o documentário é um filme sobre o direito de existir. Galter e Sánchez entendem que o maior gesto político do documentário não está em transformar Casanova em símbolo, mas em permitir que ele permaneça contraditório, vaidoso, engraçado, ferido e excessivo.




Blank Narcissus (Passion of the Swamp) (Austrália/Reino Unido, 2022)

“Blank Narcissus (Passion of the Swamp)” dura pouco mais de onze minutos, mas parece condensar uma história inteira do desejo queer em miniatura. Peter Strickland, cineasta que construiu carreira explorando fetiche, textura e erotismo em obras como “The Duke of Burgundy” e “In Fabric”, aqui radicaliza ainda mais seu projeto estético. O ponto de partida é deliciosamente absurdo: em 2022, um envelhecido diretor de filmes pornôs grava comentários em áudio para o relançamento de um obscuro pornô underground em 16mm realizado em 1972, uma referência à “Pink Narcissus”. Enquanto ouvimos suas lembranças, vemos o protagonista atravessar uma sequência de devaneios eróticos artificiais e hipnóticos.

O que poderia virar apenas exercício de estilo rapidamente revela outra coisa. O dispositivo do comentário em DVD transforma “Blank Narcissus” numa obra sobre memória e perda. O diretor, dublado por Michael Brandon, não está simplesmente comentando um filme antigo, ele está tentando reviver um amor que ficou preso dentro das imagens. Cada observação técnica acaba se convertendo em confissão sentimental. O desejo aparece como arquivo deteriorado, algo que permanece vivo justamente porque nunca foi totalmente consumado.

Visualmente, Strickland entrega um dos objetos mais assumidamente kitsch da sua filmografia. O título já anuncia sua linhagem: uma brincadeira direta com “Pink Narcissus”, clássico queer de James Bidgood, cuja influência aparece no erotismo artificial, nos cenários evidentemente falsos e no prazer em transformar corpo masculino em superfície decorativa. Aqui não existe preocupação com realismo. Existe cetim demais, fumaça demais, cor demais. O erotismo não nasce do naturalismo, nasce justamente do exagero e da fabricação. É um filme que entende o camp não como ironia vazia, mas como linguagem afetiva.

Strickland transforma pornografia em melancolia. Embora o universo pornográfico organize toda a narrativa, o curta nunca parece interessado em excitação direta.. O diretor dentro da narrativa parece incapaz de separar desejo, autoria e saudade. Existe algo profundamente triste na ideia de que seu grande amor sobreviva apenas como material restaurado, pronto para consumo de novos espectadores décadas depois.

“Blank Narcissus” funciona como uma pequena cápsula do tempo sobre memória homoerótica. Em vez de tratar o passado gay como trauma ou segredo, o curta o apresenta como performance, fantasia e encenação. O amor entre diretor e ator nunca é romantizado nem explicado demais, apenas permanece suspenso entre erotismo e arrependimento. 

“Blank Narcissus (Passion of the Swamp)” talvez seja um filme mínimo dentro da carreira de Peter Strickland, mas também parece uma chave secreta para entender sua obra inteira. Fetiche, performance, memória, som e obsessão estão todos aqui. Em apenas doze minutos, ele cria um pornô imaginário que acaba se revelando um melodrama sobre envelhecer e continuar desejando. E talvez essa seja sua ideia mais bonita: algumas paixões sobrevivem porque nunca deixaram de ser ficção.


terça-feira, 26 de maio de 2026

“Labirinto dos Garotos Perdidos”, fantasia queer de Matheus Marchetti, estreia nos cinemas em junho

Depois de chamar atenção na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e passar pelo Fantaspoa, “Labirinto dos Garotos Perdidos”, novo longa de Matheus Marchetti, chega aos cinemas brasileiros em 4 de junho. O filme marca também o primeiro lançamento nacional da FILMICCA no circuito exibidor.


Conhecido por trabalhos como “As Núpcias de Drácula” e “Verão Fantasma”, Marchetti retorna ao seu universo autoral que mistura fantasia, horror e desejo para construir uma espécie de conto de fadas urbano e queer ambientado na noite paulistana.


A trama acompanha Miguel, um jovem recém-chegado do interior que se perde pela cidade grande e atravessa uma sequência de encontros sexuais cada vez mais estranhos, enquanto uma ameaça misteriosa ronda a madrugada. Entre desejo, descoberta e perigo, o filme transforma ruas, parques e becos em um labirinto de experiências afetivas e sexuais.


Segundo o diretor, o longa nasceu de vivências pessoais e relatos de amigos, propondo um retrato da experiência homossexual contemporânea através da linguagem da fábula e do fantástico.


E nós já vimos. O Cinematografia Queer foi o primeiro portal a publicar uma crítica sobre o filme, destacando sua leitura da noite como espaço de fantasia, medo e descoberta. Leia nossa análise completa e descubra por que “Labirinto dos Garotos Perdidos” já desponta como uma das experiências mais singulares do cinema queer brasileiro recente.



segunda-feira, 25 de maio de 2026

Henrique Arruda estreia série “As Lunáticas”, na TV Pernambuco

Uma banda pop que fez sucesso nos anos 1980, desapareceu por quatro décadas e agora precisa voltar aos palcos para sobreviver ao mundo dos streams, dancinhas e viralizações. Essa é a premissa de “As Lunáticas”, nova série pernambucana criada por Henrique Arruda que estreia neste domingo (24) na TV Pernambuco.


Com cinco episódios exibidos semanalmente, sempre às 20h30, e transmissão também pelo canal da emissora no YouTube, a produção aposta no formato de falso documentário para acompanhar o retorno caótico de um grupo musical fictício que tenta recuperar a fama em plena era digital.


Na trama, Sharlene Summer, Raquel Simpson, Suelanny Sibernética e Pérola Patrícia foram fenômenos nacionais graças ao hit “Amor do Futuro”, mas acabaram seguindo caminhos diferentes após o desaparecimento repentino da banda. Quarenta anos depois, o antigo empresário Gilberto Carreiras convoca o quarteto para uma tentativa improvável de retorno.


Criada, roteirizada e dirigida por Henrique Arruda, “As Lunáticas” marca sua primeira incursão totalmente voltada para a comédia e mistura ficção com experiências reais vividas pelo elenco. Parte do grupo volta a trabalhar com o diretor após o longa “Filhas da Noite” (2024).


O elenco reúne Sharlene Esse, Suelanny Carvalho, Raquel Simpson, Fato Kaim, Pascoal Filizola, Matheus Arruda e Ruby Nox, vencedora da segunda temporada do “Drag Race Brasil”. A série também presta homenagem ao ator e referência do teatro pernambucano Gilberto Brito, falecido no início do ano, que realiza aqui sua última atuação.


Com trilha sonora original produzida por Gino Batidão, a produção traz músicas inéditas como “Amor do Futuro”, “Amanhã Eu Faço um Hit” e “O Passinho das Lunáticas”. Realizada pela Filmes de Marte com incentivo do Funcultura Audiovisual e do Sebrae/PE, a série ainda ganhará uma sessão especial no Cinema São Luiz, em 20 de junho, com uma versão em formato de telefilme e cenas inéditas.

O primeiro episódio está disponível no Vimeo da Filmes de Marte.


quinta-feira, 21 de maio de 2026

Kika (Espanha, 1993)

Se existe um momento em que Almodóvar leva sua estética kitsch ao limite absoluto, provavelmente é aqui. “Kika", vivida por Verónica Forqué, parece um laboratório visual onde nada precisa obedecer ao bom gosto. Os figurinos desenhados por Jean Paul Gaultier para Andrea Caracortada, a repórter sensacionalista interpretada por Victoria Abril, convivem com referências associadas ao imaginário extravagante dos anos 1990 e com contribuições visuais relacionadas ao universo de Gianni Versace. O resultado é um carnaval pop onde cada ambiente parece existir para competir com o anterior. Mas seria injusto reduzir isso ao excesso decorativo. Há um rigor enorme na encenação, na composição dos planos e no uso da cor. Por trás do aparente caos existe um diretor absolutamente consciente do que está enquadrando.

Narrativamente, “"Kika"”segue a maquiadora homônima e funciona quase como o “Janela Indiscreta”, de Alfred Hitchcock, particular de Almodóvar. Todo mundo observa alguém. Todo mundo invade a vida do outro. Câmeras, janelas, programas de televisão e olhares atravessam continuamente a narrativa. O personagem Nicolas transforma o mundo em objeto de contemplação artística enquanto Andrea converte sofrimento em entretenimento. Nesse sentido, o filme antecipa discussões que hoje parecem assustadoramente atuais sobre espetacularização da dor, exploração midiática e consumo compulsivo da intimidade. O programa “Lo peor del día”, patrocinado pela "Leche La Real", conduzido por Andrea usando sua câmera acoplada ao figurino, continua sendo uma das invenções mais brilhantes e agressivas do diretor: um verdadeiro show de horrores que satiriza a televisão sensacionalista muito antes do colapso definitivo entre vida privada e conteúdo.

Também é impossível falar de “"Kika"” sem reconhecer seus pontos mais difíceis. O filme aborda violência sexual, fetichização e humor de maneiras que geram desconforto real hoje. O personagem Paul Bazzo, por exemplo, concentra um tipo de provocação verbal e construção caricatural que opera dentro de um jogo de linguagem e trocadilhos muito específico do espanhol e que certamente seria recebido de maneira muito diferente no presente.


Dentro desse excesso, há também um lado profundamente afetivo e queer que muitas vezes passa despercebido. Juana carrega uma energia dissidente dentro daquele universo de personagens deslocados, enquanto a presença de Bibi Andersen, hoje reconhecida como uma das figuras históricas da cultura trans espanhola, adiciona outra camada ao projeto almodovariano de expansão dos corpos e identidades na tela. Sua interpretação de “Luz de luna”, de Chavela Vargas, produz um daqueles momentos típicos do diretor em que tudo para por alguns instantes e o exagero dá lugar a uma emoção inesperada. Até a breve participação de Paquita, mãe de Almodóvar, reforça esse sentimento de cinema doméstico, quase familiar, escondido por trás do escândalo.

“"Kika"” talvez não seja o maior filme de Pedro Almodóvar, nem o mais elegante, nem o mais equilibrado. Mas existe algo profundamente autêntico nele. É uma obra feita num momento em que o diretor ainda permitia que o mau gosto, o desejo e a provocação disputassem espaço com sua crescente sofisticação e maturidade. O filme às vezes erra, às vezes exagera e às vezes parece perder completamente o controle, mas justamente por isso continua vivo. Em sua mistura de fotonovela, melodrama, televisão trash e erotismo absurdo, “"Kika"” permanece como um retrato de um cineasta no auge da coragem de experimentar.


quarta-feira, 20 de maio de 2026

KYLIE (Austrália/Reino Unido, 2026)

 

“KYLIE”, docussérie em três episódios dirigida por Michael Harte, chega à Netflix com uma promessa que carrega um peso enorme: desmontar uma das personas mais resistentes e elegantes da cultura pop. Depois de quase cinco décadas entre televisão, música e reinvenções constantes, Kylie Minogue abre seus arquivos pessoais e tenta responder uma pergunta delicada: o que sobra quando a luz do palco apaga? Entre vídeos caseiros, imagens de bastidores e depoimentos de pessoas que acompanharam sua trajetória, a série revela a mulher que existiu por trás da iconografia pop.

A primeira grande força do projeto está em não reduzir Kylie à narrativa previsível da sobrevivente ou da estrela resiliente. O material divulgado indica que Michael Harte, vindo de documentários como “Beckham” e “Wham”, procura equilibrar celebração e fragilidade. A série revisita desde os anos de “Neighbours” até a transformação de Kylie numa artista capaz de sobreviver a ciclos brutais da indústria musical, passando por momentos de rejeição crítica, mudanças estéticas e a pressão permanente para permanecer relevante num mercado historicamente cruel com mulheres pop acima dos 40 anos.

Mas o que pode transformar “KYLIE” em algo maior do que um documentário de carreira é justamente sua disposição para lidar com perdas e zonas menos polidas da imagem pública. A série aborda não apenas o diagnóstico de câncer de mama de 2005, mas também revela uma segunda experiência com a doença em 2021, mantida em sigilo até agora. Ao lado disso aparecem temas como maternidade, envelhecimento, relacionamentos e o desgaste emocional provocado por décadas vivendo sob a atenção do público.

Existe outro eixo impossível de ignorar: Kylie como figura queer. A série aparentemente entende que sua importância cultural nunca foi apenas musical. Kylie pertence ao grupo restrito de artistas pop que foram apropriadas, transformadas e devolvidas pela comunidade LGBTQIA+ ao longo das décadas. Existe algo profundamente emocionante na ideia de que uma artista tantas vezes subestimada tenha encontrado justamente entre corpos dissidentes seu espaço mais fiel de celebração.

Também chama atenção o tom aparentemente menos controlado do que se esperava. Vemos uma Kylie mais espontânea, menos filtrada e até surpreendentemente irreverente para quem construiu uma carreira tão marcada por contenção e elegância pública. Isso sugere que “KYLIE” talvez esteja interessada em desmontar o mito da perfeição pop e substituir essa imagem por algo mais contraditório e humano.

O mais fascinante não é descobrir fatos bombásticos, mas ver alguém que atravessou tantas eras da cultura pop finalmente narrar sua própria história, num momento em que já não precisa provar nada. Se conseguir manter essa intimidade sem cair no promocional, “KYLIE” pode entregar algo verdadeiramente notável: não só o retrato de uma estrela, mas o de uma mulher que sobreviveu tempo suficiente para contar sua versão.



terça-feira, 19 de maio de 2026

Mother Mary (EUA/Alemanha/Irlanda/Finlândia, 2026)

“Mother Mary”, escrito e dirigido por David Lowery, existe entre o delírio pop e a sessão espírita. Depois de anos transitando entre fantasia, luto e espiritualidade em obras como A “ The Green Knight", Lowery retorna com seu trabalho mais excessivo e talvez mais divisivo: um melodrama psicológico sobre fama, criação artística e vínculos que sobrevivem ao rompimento. A história segue Mother Mary (Anne Hathaway), uma estrela pop em colapso que reaparece na vida de Sam Anselm (Michaela Coel), sua ex-colaboradora e estilista, exigindo que ela crie o figurino para um grande retorno. O que começa como reencontro profissional rapidamente se transforma numa investigação sobre ressentimento, dependência emocional e a violência silenciosa que existe em criar algo junto.

Lowery trata o estrelato como religião. Mary entra em cena envolta por auréolas, referências católicas, iconografia sacra e canções que confundem adoração romântica com transcendência espiritual. O filme sugere que o pop contemporâneo transformou celebridades em entidades quase divinas, obrigadas a alimentar continuamente uma imagem que já não pertence a elas.Mother Mary” funciona como um filme sobre exaustão performática: uma mulher tentando descobrir se ainda existe algo dela por trás do personagem que construiu.


Esteticamente, é um dos trabalhos mais barrocos de Lowery. Concertos grandiosos convivem com interiores quase teatrais, enquanto a narrativa mergulha aos poucos em horror psicológico, fantasia espectral e surtos visuais que lembram tanto videoclipes quanto pesadelos. A trilha original, construída com contribuições de nomes como Charli XCX, Jack Antonoff e FKA twigs,e interpretada pela própria Hathaway, ajuda a sustentar essa atmosfera de espetáculo emocional permanente.

No centro disso tudo está a dupla Anne Hathaway e Michaela Coel. Hathaway entende que Mary não pode ser interpretada como pessoa comum: ela atua como alguém que desaprendeu a existir sem plateia. Já Coel entrega o contraponto mais humano do filme, transformando Sam numa mulher que carrega o ressentimento de quem ajudou a criar um ícone e foi deixada para trás.

É justamente aqui que surge sua dimensão queer, talvez a mais interessante do filme. “Mother Mary” nunca nomeia explicitamente sua relação central como romance, mas trabalha continuamente numa zona de intimidade emocional, obsessão criativa e desejo sublimado entre mulheres que remete “As Lágrimas Amargas de Peter Von Kant”, do mestre Rainer Fassbinder. Uma pulsação sáfica e homoafetiva atravessao vínculo entre Mary e Sam, transformando o filme numa história sobre colaboração artística que se confunde com amor não resolvido. A presença de Hunter Schafer e FKA twigs amplia ainda mais esse imaginário de feminilidade performática, identidade mutável e corpos que escapam de leituras fixas. 


“Mother Mary” talvez não seja um filme para amar imediatamente. É excessivo, autoconsciente e frequentemente desorientador. Mas também é um dos trabalhos mais pessoais e arriscados de David Lowery, que reproduz uma sensação:  a de perceber que certas relações nunca terminam completamente, apenas mudam de forma e continuam nos assombrando. Entre figurinos, canções e fantasmas emocionais, “Mother Mary” encontra um melodrama sobre arte que entende que toda colaboração profunda deixa rasgos.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Dinner with Friends (Canadá, 2025)

“Dinner with Friends”, estreia em longas de Sasha Leigh Henry, parte de uma premissa perfeitamente conhecida: oito amigos na faixa dos trinta e poucos anos tentando preservar vínculos enquanto a vida adulta lentamente implode qualquer ilusão de estabilidade. O que poderia virar apenas mais um drama millennial sobre brunches e crises afetivas acaba se revelando um retrato surpreendentemente honesto sobre amizade, ressentimento e o desgaste silencioso do tempo.

Mesmo que fique difícil de não relacionar com os filmes “Perfeitos Desconhecidos, Henry entende algo fundamental sobre relações adultas: o verdadeiro conflito raramente explode de uma vez. Ele se acumula em pequenos silêncios, mensagens ignoradas em grupos de WhatsApp, ressentimentos antigos e dinâmicas que ninguém tem coragem de confrontar diretamente. O filme trabalha justamente nessa zona desconfortável entre carinho genuíno e exaustão emocional. Joy (Tattiawna Jones), cansada de carregar sozinha o peso afetivo das reuniões, acaba funcionando como epicentro dessa implosão gradual. 

O grande mérito do roteiro escrito por Sasha Leigh Henry e Tania Thompson está na maneira como distribui atenção entre os personagens sem transformar nenhum deles em arquétipo simplista. Todos parecem estar vivendo versões diferentes do mesmo medo: perceber que talvez suas vidas adultas não tenham se tornado aquilo que imaginavam.

Dentro desse mosaico afetivo, a presença do casal gay Ty (Michael Ayres) e Josh (Leighton Alexander Williams) se destaca justamente pela naturalidade. “Dinner with Friends” não transforma os personagens queer em símbolo de diversidade decorativa. Eles fazem parte organicamente daquele grupo, compartilhando inseguranças semelhantes às dos casais heterossexuais, mas também atravessados por questões específicas sobre envelhecimento queer, liberdade e pertencimento. Existe algo muito bonito como o filme insere personagens negros e gays dentro de uma narrativa cotidiana sobre amizade adulta sem precisar justificar constantemente sua existência.

O tom é de espetáculo. Algumas cenas de mesa são filmadas quase como peças teatrais contemporâneas, com diálogos rápidos e interrupções constantes que reforçam a sensação de convivência real. O filme foi rodado em apenas nove dias e com orçamento reduzido, mas transforma essa limitação em linguagem: tudo parece apertado, improvisado e emocionalmente saturado, como a própria vida adulta.

“Dinner with Friends” funciona menos como um filme sobre jantares e mais como um filme sobre luto,  o luto pelas versões mais jovens de nós mesmos e pelas amizades que tentamos desesperadamente preservar enquanto tudo ao redor muda. Sasha Leigh Henry entrega uma obra delicada, engraçada e dolorosamente reconhecível, interessada não em grandes revelações dramáticas, mas nos pequenos desgastes que lentamente redefinem nossas relações.


domingo, 17 de maio de 2026

El Filo de las Tijeras (Argentina, 2023)

"El filo de las tijeras", dirigido por David Marcial Valverdi, habita na fronteira entre memória, confissão e fantasia erótica. Misturando documentário, animação e autoficção, o longa acompanha o próprio diretor revisitando episódios fundamentais da construção de sua sexualidade e identidade afetiva. A narrativa parte das lembranças da infância na barbearia da avó, no conurbano de Buenos Aires, e se expande para experiências de cruising nos anos 90, relações homoeróticas e a vivência de uma trisal que durou sete anos. O resultado é uma espécie de diário íntimo queer, onde desejo e memória se tornam inseparáveis.

O mais fascinante no filme é justamente a maneira como Valverdi entende o desejo como arquivo. Cada lembrança parece funcionar menos como reconstrução factual e mais como tentativa de compreender os caminhos emocionais que moldaram sua subjetividade gay. A barbearia da avó, espaço tradicionalmente associado à masculinidade, surge como primeiro território de observação e fascínio. 


Quando "El filo de las tijeras" mergulha nas experiências de cruising, o longa ganha outra camada ainda mais interessante. Valverdi filma esses encontros anônimos não apenas como prática sexual, mas como ritual urbano de pertencimento queer. Existe algo profundamente melancólico na forma como ele revisita os anos 90, período em que o cruising funcionava simultaneamente como espaço de risco, liberdade e descoberta. O diretor parece compreender que muitos homens gays daquela geração aprenderam a desejar justamente através da clandestinidade, da escuridão e da improvisação dos encontros fugazes em espaços públicos.


Quanto a vivência do trisal, Valverdi investiga o desgaste emocional, as negociações afetivas e as pequenas violências silenciosas que atravessam qualquer relação amorosa. O filme entende que o desejo queer raramente cabe em modelos rígidos, e transforma essa instabilidade em linguagem estética.


"El filo de las tijeras" abraça o fragmento. A mistura entre imagens documentais, encenações e animação cria uma sensação constante de memória incompleta, como se o diretor estivesse tentando reorganizar pedaços dispersos da própria vida. O caráter confessional nunca vira narcisismo vazio porque Valverdi compreende que falar sobre si também significa falar de uma geração inteira de homens queer latino-americanos atravessados por silêncio, desejo e reinvenção.


"El filo de las tijeras" pertence a um tipo de cinema queer latino-americano cada vez mais interessado em borrar fronteiras entre autobiografia, performance e política do desejo. Mais do que um relato pessoal, o longa funciona como cartografia afetiva de experiências homoeróticas que raramente encontram espaço no cinema tradicional. Íntimo, vulnerável e sexualmente honesto, o filme de David Marcial Valverdi transforma a memória em corpo vivo.



sábado, 16 de maio de 2026

Screams from the Tower (EUA, 2024)

“Screams from the Tower”, escrito e dirigido por Cory Wexler Grant, representa o ruído de uma rádio escolar nos anos 90, o cheiro de fita cassete, o desconforto de crescer sendo “estranho” em um subúrbio americano que não sabe muito bem o que fazer com garotos queer. O longa segue Julien Rosdahl (Richie Fusco), um adolescente pintoso, barulhento e claramente deslocado, que finalmente consegue realizar o sonho de comandar um programa na rádio da escola ao lado do melhor amigo Cary (David Bloom).

Grant bebe diretamente da tradição dos coming-of-age dos anos 80 e 90, especialmente do cinema de John Hughes, mas faz algo que aqueles filmes raramente permitiam: colocar personagens queer no centro da narrativa sem tratá-los apenas como alívio cômico ou subtexto. Julien é pintoso, performático e desconfortavelmente autêntico. Cary, ao contrário, tenta desesperadamente sobreviver pela assimilação. Essa tensão entre os dois, entre quem aceita ser “diferente” e quem teme carregar esse rótulo, move o filme com uma honestidade emocional que ecoa “Young Soul Rebels”, de Isaac Julien.

O filme entende perfeitamente a rádio como espaço LGBTQIA+.. Não apenas porque ela permite que aqueles adolescentes falem sem filtro, mas porque funciona como território de reinvenção. Atrás do microfone, Julien e seus amigos deixam de ser os “esquisitos” da escola e passam a controlar a narrativa. Existe algo profundamente tocante nessa ideia de jovens queer encontrando voz antes mesmo de encontrarem identidade. “Screams from the Tower” talvez nunca mergulhe totalmente em romance ou sexualidade explícita, mas compreende com precisão aquele momento específico.

Ao mesmo tempo, Cory Wexler Grant evita transformar o longa numa fantasia nostálgica higienizada. Conforme a popularidade do programa cresce, o filme revela o custo psicológico de performar irreverência o tempo inteiro. Julien começa a afundar em ansiedade, obsessões e crises de identidade que o roteiro trata com delicadeza. O elenco todo atua em perfeita sintonia nessa jornada emocional, com o peso caindo mais em Richie Fusco e sua deliciosa vibe flamboyant.

“Screams from the Tower” funciona como homenagem e reparação histórica. Um filme que olha para os teen movies clássicos dos anos 90 e pergunta: onde estavam as pessoas queer nessa paisagem? A resposta de Grant não vem através do trauma extremo nem do melodrama pesado, mas pela ternura. Entre piadas absurdas, programas de rádio caóticos e amizades adolescentes prestes a desmoronar, o longa encontra algo: um retrato genuinamente afetuoso sobre jovens LGBTQIA+  tentando descobrir quem são antes que o mundo lhes diga quem deveriam ser.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Marc by Sofia (EUA, 2025)

“Marc by Sofia” marca a estreia de Sofia Coppola em documentários, mas a verdade é que o filme parece menos uma ruptura em sua carreira do que uma extensão natural de tudo que ela já vinha fazendo. Ao voltar sua câmera para o estilista Marc Jacobs, Coppola encontra um personagem que compartilha de sua obsessão por superfícies, melancolia, referências pop e construção estética. O documentário acompanha os bastidores da coleção “paper doll” de Jacobs enquanto revisita sua trajetória, transformando o processo criativo em uma espécie de scrapbook emocional sobre moda, amizade e culto à imagem.

Existe algo profundamente coerente em ver Coppola filmando moda. Sua filmografia inteira sempre orbitou o luxo, a feminilidade performática e personagens presos dentro de universos visualmente perfeitos, mas emocionalmente vazios. Em “Marc by Sofia”, essa sensibilidade encontra talvez seu objeto ideal. O filme abandona qualquer distância jornalística e assume sem vergonha seu caráter afetivo: Jacobs não é apenas tema, é amigo, cúmplice estético e extensão do próprio imaginário da diretora.

Coppola mantém intacta sua assinatura. A montagem fragmentada, os registros quase caseiros e o fascínio por detalhes banais transformados em fetiche fazem o filme parecer uma continuação não oficial de “Somewhere” ou “Marie Antoinette”. Há algo deliciosamente superficial nisso tudo, e o filme sabe. Em vez de tentar justificar a moda como “arte séria”, “Marc by Sofia” abraça seu glamour, seu artifício e sua teatralidade. Jacobs surge como um grande curador de referências culturais, falando de Bob Fosse, Fassbinder e Marcel Duchamp como alguém montando um altar pessoal de obsessões.

Ao mesmo tempo, o documentário nunca consegue escapar completamente da bolha de privilégio que habita. Essa é sua principal limitação. Há momentos em que “Marc by Sofia” parece tão encantado consigo mesmo que esquece de oferecer qualquer conflito real. Ainda assim, talvez seja injusto exigir de Coppola um gesto que nunca foi seu: ela sempre filmou mundos isolados, ricos e alienados, e raramente fingiu o contrário.

O mais interessante acaba sendo perceber como o filme também funciona como autorretrato indireto. Ao filmar Jacobs, Coppola parece revisitar sua própria formação cultural dos anos 1990: a estética indie, o fascínio pelo artifício cool, a mistura entre moda, música e cinema como linguagem de identidade.

“Marc by Sofia” talvez não seja um grande documentário no sentido clássico, mas é um filme profundamente “sofia coppoliano”. Elegante, etéreo, autoconsciente e levemente vazio, às vezes de maneira frustrante, às vezes de maneira hipnótica. Quem procura uma investigação rigorosa sobre Marc Jacobs pode se decepcionar.. Mas quem entende o cinema de Sofia Coppola como um exercício constante de atmosfera, textura e melancolia estética provavelmente encontrará aqui um objeto curiosamente sincero: um filme sobre duas pessoas que transformaram estilo em linguagem emocional.

Alma Gêmea (Soul Mate, Japão, 2025)

Lançada na Netflix, a minissérie japonesa "Alma Gêmea" chega como um marco para o gênero Boys' Love, distanciando-se da superfície para abraçar uma narrativa densa e madura. Composta por 8 episódios, a obra propõe um mergulho profundo na psicologia de dois homens solitários cujas vidas se entrelaçam ao longo de uma década, em uma jornada que viaja entre Berlim, Seul e Tóquio, explorando as fronteiras geográficas e emocionais do trauma.

A trama inicia com Ryu Narutaki (Hayato Isomura) um jovem consumido pela culpa após um incidente que destrói a vida de seu melhor amigo no Japão. Em um estado de fuga autodestrutiva em Berlim, Ryu é resgatado de um incêndio em uma igreja por Johan Hwang (Ok Taec-yeon, do grupo de K-Pop 2PM), um boxeador coreano que também carrega suas próprias cicatrizes e dormência emocional.

"Alma Gêmea" aproveita suas locações internacionais para reforçar a sensação de isolamento e busca por pertencimento. A direção de Shunki Hashizume mantém um ritmo propositalmente lento, priorizando o drama psicológico e o companheirismo em vez de um romance acelerado ou focado em fanservice. As cenas são construídas para valorizar o silêncio e as expressões não ditas, criando uma atmosfera terna, mas não explicita o que pode gerar frustração.

A série não se esquiva de temas pesados, abordando de forma direta a violência, o trauma e questões ligadas à saúde mental, como a ideação suicida, sempre com um olhar voltado para o poder da conexão humana. A narrativa explora como o destino e a dor podem unir duas pessoas feridas, transformando a amizade em um amor que serve como dispositivo de salvação mútua.

"Alma Gêmea" é uma experiência sobre parar de fugir de si mesmo e encontrar coragem na presença do outro. Ao focar na honestidade emocional das cicatrizes, a série é uma reflexão sobre o tempo necessário para que duas almas finalmente encontrem paz lado a lado.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Diary of a Woman (Suiça, 2025)

“Diary of a Woman”, de Simon Aeby, mergulha o espectador em uma atmosfera sufocante, marcada por silêncios prolongados, enquadramentos escuros e uma sensação constante de desintegração emocional. A história segue Alex Darkley( Marcel Schneider), um professor suíço consumido por traumas ligados à repressão de sua identidade de gênero. O longa pretende construir um estudo psicológico sobre alienação, culpa e desejo de transformação, mas frequentemente confunde intensidade emocional com repetição.  Ainda assim, existe algo honestamente perturbador na maneira como Aeby filma o colapso de seu protagonista.

O maior acerto está justamente em Schneider. Sua atuação sustenta praticamente toda a experiência, especialmente porque o roteiro oferece pouco suporte aos personagens secundários. Ele interpreta Alex como alguém permanentemente deslocado do próprio corpo, alguém incapaz de habitar plenamente qualquer espaço social ou afetivo. Quando o personagem começa sua transição para Alexa, o filme encontra seus momentos mais interessantes, porque abandona parcialmente o discurso clínico do trauma e se aproxima de uma investigação mais íntima sobre identidade e autoimagem. 

O problema é que Simon Aeby parece desconfiar da sutileza. O filme inteiro opera em uma única frequência emocional, a da angústia permanente. A fotografia de Roberto Cancellara, construída sobre tons frios e composições carregadas de sombra, inicialmente funciona como extensão visual do estado mental de Alex. Porém, conforme a narrativa avança, essa insistência estética se torna cansativa.

Ainda assim, seria injusto negar a coragem do projeto. Aeby escolhe abordar identidade de gênero, trauma psicológico e suicídio sem transformar esses temas em discurso edificante ou narrativa de superação fácil. Existe uma aspereza sincera em sua abordagem, uma disposição em permanecer dentro do desconforto mesmo quando isso compromete o ritmo ou a acessibilidade do longa. Em seus melhores momentos, o filme realmente transmite a sensação de uma mente em colapso tentando desesperadamente reorganizar a própria identidade.

“Diary of a Woman” é mais admirável do que propriamente bem-sucedido. O filme possui ambição emocional e estética suficientes para permanecer na memória, mas raramente encontra equilíbrio entre introspecção e monotonia. Simon Aeby demonstra sensibilidade visual e coragem temática, porém ainda parece acreditar que sofrimento constante automaticamente produz profundidade dramática. Mesmo assim, há valor na tentativa de construir um retrato queer que não seja higienizado, otimista ou conciliador.


terça-feira, 12 de maio de 2026

The Christophers (Reino Unido/EUA, 2025)

“The Christophers”, de Steven Soderbergh, começa como um filme sobre falsificação de arte, mas rapidamente revela algo mais melancólico e íntimo: uma reflexão sobre legado, desejo e o medo de desaparecer. No centro da narrativa está Julian Sklar (Ian McKellen), um pintor queer envelhecido, isolado em uma townhouse decadente de Londres, cercado por telas inacabadas e fantasmas emocionais. Seus filhos contratam Lori Butler (Michaela Coel), uma restauradora e artista frustrada, para finalizar clandestinamente a famosa série de quadros “The Christophers”, retratos inspirados em Christophe, o grande amor masculino de Julian e a figura que atravessa toda a sua obra.

Soderbergh transforma essa premissa quase absurda em um drama inesperadamente comovente sobre artistas que vivem assombrados pela própria imagem. Julian não é apenas um velho pintor amargo; ele é um homem queer que envelheceu carregando as marcas de uma geração para quem viver abertamente “custava algo”, como o próprio personagem comenta.

O filme nunca transforma sua sexualidade em manifesto explícito, mas ela atravessa silenciosamente tudo: a maneira como ele olha para os quadros, o ressentimento dos filhos nascidos de seus anos de repressão, e principalmente a obsessão pelos “Christophers”, pinturas que funcionam como tentativa desesperada de eternizar um amor perdido.

Ian McKellen entrega uma atuação monumental justamente porque entende esse tipo de homem por dentro. Seu Julian alterna crueldade, ironia e fragilidade com uma fluidez impressionante. Há algo profundamente triste em vê-lo tentando sustentar uma pose de gênio insuportável enquanto o mundo já o trata como relíquia inconveniente.

A dinâmica entre Julian e Lori é o grande eixo dramático do filme. Michaela Coel constrói uma personagem igualmente marcada pela frustração criativa, e o encontro entre os dois vira uma batalha de egos, ressentimentos e admiração mútua. O roteiro de Ed Solomon evita transformar Lori em simples discípula ou antagonista: ela entende Julian porque também sabe o que significa ter o próprio talento desviado pelas estruturas do mercado e da crítica.

“The Christophers” é um dos trabalhos mais delicados da fase recente de Soderbergh. Um filme sobre autenticidade, mas também sobre performance; sobre falsificação, mas sobretudo sobre memória queer. Ao transformar os retratos de Christopher em símbolo de um amor impossível de recuperar completamente, o longa encontra uma melancolia singular.

“Love Kills” retorna ao Marché du Film em Cannes e estreia nos cinemas brasileiros em maio

Após circular por festivais internacionais de cinema fantástico, “Love Kills”, dirigido por Luiza Shelling Tubaldini, estreia nos cinemas brasileiros no dia 21 de maio com distribuição da O2 Play. O longa também retorna ao Marché du Film, no Festival de Cannes, onde será apresentado a distribuidores internacionais pelo agente de vendas Reel Suspects.

Misturando horror urbano, vampirismo e tensão social, o filme acompanha Helena (Thais Lago), uma jovem vampira imortal que vive no centro de São Paulo, em meio a uma cidade marcada pela violência, drogas e exclusão. Quando o garçom Marcos (Gabriel Stauffer) se aproxima dela, acaba mergulhando em um submundo perigoso que coloca em risco sua própria mortalidade. O elenco ainda conta com Erom Cordeiro.

O longa já garantiu distribuição em diversos territórios internacionais, incluindo América do Norte, Alemanha, Itália, Coreia do Sul e Índia, consolidando-se como um dos títulos brasileiros recentes de horror com maior circulação fora do país.

Além da atmosfera vampiresca e do visual neon inspirado no imaginário urbano paulistano, “Love Kills” também se destaca pelos atravessamentos queer presentes na narrativa. O filme utiliza o mito do vampiro para discutir marginalização, desejo e sobrevivência, incorporando corpos dissidentes e personagens que tensionam normas de gênero dentro de um terror estilizado e político.

NÓS JÁ VIMOS

“Love Kills” transforma São Paulo em uma metrópole vampiresca marcada por exclusão, desejo e violência. Em nossa crítica completa, destacamos como Luiza Shelling Tubaldini usa o horror para discutir corpos marginalizados, sexualidade e sobrevivência, criando um dos filmes brasileiros de gênero mais interessantes dos últimos anos, entre neon, sangue e uma forte pulsação queer. Confira a crítica completa.