Um homem de asas angelicais flutua pelo céu enquanto saboreia um sanduíche enorme. A imagem de abertura de “Cherri”, drama do cineasta cubano Fabián Suárez, anuncia um filme que não tem interesse em separar o sublime do grotesco, a delicadeza da carne, a beleza daquilo que o mundo insiste em considerar inadequado. Cherri (Juan Miguel Más) é um coreógrafo gay, gordo e apaixonado pelo balé clássico, que dirige uma companhia de dança formada por corpos pluz size em uma clínica de Havana. Em casa, cuida do marido com deficiência, Luis (Roberto Díaz Gomar), enquanto tenta administrar a solidão e uma vida afetiva que parece ter perdido espaço para as obrigações cotidianas. A chegada de Tim (Noslen Sánchez), um jovem segurança, desperta uma paixão que devolve movimento à sua existência, mas também o coloca diante de uma vulnerabilidade que ele não consegue controlar.
Suárez coloca no centro da narrativa um homem que o cinema raramente transforma em protagonista de uma história de desejo. A gordura não aparece como um obstáculo a ser superado antes que o personagem possa experimentar o amor. Ela faz parte de sua existência, de sua expressividade e de sua maneira de habitar o mundo. O balé funciona como uma linguagem de liberdade. Ao orientar uma companhia formada por pessoas cujos corpos costumam ser excluídos dos imaginários tradicionais da dança clássica, Cherri constrói um espaço onde graça e leveza não dependem de medidas corporais. O contraste entre a disciplina do balé e a exuberância física dos bailarinos desmonta convenções estéticas sem precisar transformar cada ensaio em um manifesto.
A paixão por Tim é o ponto em que essa vulnerabilidade se torna dolorosa. Cherri percebe sinais de manipulação, mas continua investindo emocionalmente em alguém cuja atenção parece oferecer a promessa de uma vida diferente. A relação coloca em cena a distância entre desejar ser amado e aceitar aquilo que o outro está disposto a oferecer. Suárez não transforma o protagonista em uma figura moralmente perfeita, tampouco apresenta sua paixão como uma experiência necessariamente libertadora. O desejo pode devolver vitalidade, mas também alimentar a autodepreciação e a disposição para tolerar humilhações. Uma cena sexual particularmente explícita e desconfortável rompe a delicadeza de outros momentos e expõe uma intimidade atravessada por assimetrias de poder.
Enquanto tenta se aproximar de Tim, Cherri continua cuidando de Luis, seu companheiro de longa data, cuja deficiência exige assistência constante. Esse vínculo impede que a narrativa reduza o protagonista a um homem apaixonado por alguém mais jovem. Existe uma vida anterior, uma história compartilhada e uma responsabilidade afetiva que não desaparecem quando surge uma nova possibilidade de prazer. O filme encontra uma tensão legítima entre cuidado, lealdade, desejo e exaustão, sem oferecer soluções simples para a convivência entre essas forças. A relação com Luis tem uma ternura silenciosa, mas também evidencia o peso de uma rotina em que as necessidades do outro ocupam quase todo o espaço.
“Cherri” é um drama sobre o direito de continuar desejando quando o mundo parece ter decidido quais corpos merecem ser desejados. Sua contribuição para o cinema queer está em recusar a ideia de que representatividade se resolve pela simples presença de um personagem gay na tela. Suárez coloca em cena a interseção entre homossexualidade, gordura, envelhecimento, deficiência e cuidado, sem transformar essas experiências em uma lista de adversidades nem fazer de seu protagonista um símbolo abstrato. Juan Miguel Más sustenta essa visão com uma atuação de grande expressividade física, alternando momentos de humor e uma delicadeza que torna a paixão de Cherri tão compreensível quanto inquietante.































