quarta-feira, 7 de outubro de 2026

O Gesto Entre Nós (Brasil/França/Portugal, 2026)

Há filmes que registram uma trajetória e há filmes que, sem perceber, acabam registrando o tempo. “O Gesto Entre Nós” pertence um pouco às duas categorias. Roberto Bomtempo acompanha a história da Cia. Dos à Deux a partir de quase três décadas de imagens feitas pelos próprios André Curti e Artur Luanda Ribeiro, companheiros de vida e de criação desde o encontro em Paris, em 1997. O material poderia render apenas uma retrospectiva sobre uma companhia brasileira de teatro gestual que chegou a mais de 50 países. Mas existe alguma coisa mais íntima escondida nessas imagens: jovens artistas ainda descobrindo uma linguagem, dois homens construindo uma relação de amor, viagens, ensaios, palcos e, entre uma coisa e outra, a vida acontecendo. 

A Dos à Deux nasceu em 1998, a partir de uma pesquisa inspirada em “Esperando Godot”, de Samuel Beckett, e encontrou muito cedo uma identidade própria ao transformar gesto, movimento, imagem e fisicalidade em dramaturgia. É curioso perceber como essa escolha estética também parece contaminar a relação dos dois. Eles fazem teatro sem depender da palavra e, durante boa parte da vida, parecem ter encontrado no corpo uma forma de comunicação que o documentário tenta recuperar.

Embora Bomtempo não precise ficar apontando para o aspecto queer com uma seta luminosa, pois ela é completamente natural, ela impregna o filme. André e Artur são um casal há quase três décadas, e essa informação não aparece como parte orgânica de uma vida compartilhada. Isso é significativo. Durante muito tempo, histórias de artistas LGBTQIA+ precisaram justificar sua existência pela violência, pelo preconceito ou pela ruptura. Aqui, a experiência está também naquilo que se constrói: uma casa, uma companhia, uma obra, viagens, escolhas profissionais, crises e permanências. 

O arquivo é provavelmente o grande personagem do filme. São imagens acumuladas durante anos pelos próprios artistas, antes mesmo de existir a intenção de transformá-las em documentário. Isso dá ao material uma espontaneidade que uma reconstituição jamais conseguiria reproduzir. Bomtempo levou nove anos para concluir o projeto, trabalhando sobre quase três décadas de vida registrada. Quando as imagens antigas encontram as filmagens atuais realizadas no Brasil, na França, em Portugal e na Coreia do Norte, o que aparece não é apenas a evolução da companhia, mas a transformação física de seus criadores. Os corpos que antes se lançavam ao palco com vigor agora carregam história.

Por seguir uma estrutura documental bastante tradicional, “O Gesto Entre Nós” nem sempre encontra a mesma inventividade formal da companhia que retrata. Existe uma certa segurança na maneira de organizar depoimentos, imagens de arquivo, trajetória profissional e registros atuais. Em alguns momentos, gostaria que o filme confiasse mais no próprio material, porque aquelas imagens antigas já possuem uma força extraordinária e não precisam ser constantemente explicadas.


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