"Ney por Trás das Máscaras” é sobre alguém que passou a vida inteira demonstrando que a máscara pode ser justamente o lugar mais verdadeiro de uma pessoa. Ney Matogrosso não construiu sua imagem pública apesar da fantasia, da maquiagem, das plumas, dos gestos e da voz inconfundível Foi através deles. Um ano depois de “Homem com H”, Esmir Filho retorna ao artista, agora aos 85 anos, em um documentário que troca a cinebiografia pela observação do presente. O pretexto é o desfile da Imperatriz Leopoldinense no Carnaval de 2026, que homenageou Ney com o enredo “Camaleônico”, mas o filme logo percebe que a avenida é apenas uma das máscaras possíveis. Entre o café da manhã, os exercícios, a fazenda, os bastidores do show e os encontros no barracão da escola, surge um Ney menos monumental, embora nunca exatamente comum.
A proposta tem algo de delicado e também de perigoso. Afinal, o que significa mostrar a intimidade de alguém que fez da exposição uma arte e da preservação de si mesmo uma espécie de método? Esmir filma Ney tomando café, conversando, circulando pela Imperatriz, lidando com a morte da mãe, Beita de Souza Pereira, e até nu, depois do banho. O corpo que durante décadas foi transformado em instrumento de provocação aparece agora sem figurino, sem palco e sem a necessidade de produzir impacto. Mas o curioso é que a nudez não parece ser o momento de maior vulnerabilidade. Ney pode tirar a roupa diante da câmera sem necessariamente entregar aquilo que considera mais protegido. A nudez, para ele, nunca foi exatamente um problema. O difícil parece ser outra coisa: deixar alguém chegar perto demais.
É aí que “Ney por Trás das Máscaras” encontra sua questão mais forte. Esmir diz querer discutir o papel libertador da máscara, como manifestação dos instintos e desejos, e o filme acaba fazendo isso quase contra a própria ideia de um documentário revelador. Gilberto Gil resume a contradição ao dizer que gostaria de ter a capacidade de Ney de “mascarar e desmascarar tantas coisas”. Ney sabe que a imagem é uma construção, mas não parece interessado em abandoná-la. Pelo contrário, ele a manipula, brinca com ela, troca de pele.
O Carnaval oferece a Esmir uma metáfora que quase se escreve sozinha. Enquanto a Imperatriz monta carros, fantasias e alegorias para transformar Ney em festa popular, o próprio artista revisita as diferentes personas que construiu ao longo de décadas. Há uma beleza particular em vê-lo no barracão, entre costureiras e trabalhadores, observando a fabricação de uma imagem que, naquele momento, já não pertence apenas a ele. Ney virou personagem de uma escola de samba, depois de ter passado a vida transformando-se em personagem de si mesmo. .
Mas, a intimidade aqui é menos cinematograficamente delirante e mais doméstica. Café, academia, camarim, fazenda, barracão. O material é precioso, mas nem sempre produz uma descoberta. Em alguns momentos, o filme parece querer abrir muitas portas ao mesmo tempo, e por isso não consegue permanecer tempo suficiente diante de nenhuma delas.
“Ney por Trás das Máscaras” não consegue desmontar completamente seu personagem porque talvez Ney Matogrosso seja alguém que aprendeu há muito tempo a decidir o que pode ser visto. O próprio artista admite, perto do final, que é emocionalmente travado, que se segura firme. A frase reorganiza tudo o que veio antes. A máscara não está apenas no rosto, na roupa ou no palco. Ela também está no controle do que se entrega ao outro.
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