sábado, 18 de julho de 2026

Tu Nombre en el Papel (Argentina, 2026)

Há filmes que nascem de grandes acontecimentos e outros que transformam pequenos gestos em acontecimentos extraordinários. "Tu Nombre en el Papel", escrito, dirigido e produzido por Nicolás Adriel Iaciancio, pertence ao segundo grupo. A trama segue Lucas (Joaquín Ochoa), um jovem editor literário que encontra, dentro de um livro da biblioteca, um marcador de páginas manuscrito contendo apenas um nome: Mateo. O acaso funciona como ponto de partida para um romance delicado ambientado em Buenos Aires, onde encontros, silêncios e palavras não ditas ganham tanto peso quanto declarações de amor.

O filme compreende que o romance não se constrói apenas através dos acontecimentos, mas sobretudo da espera. Nicolás Adriel filma o desejo como uma sucessão de hesitações: olhares interrompidos, conversas incompletas, cartas imaginárias e sentimentos que parecem sempre chegar alguns segundos atrasados. Buenos Aires participa dessa dinâmica como uma cidade melancólica, feita de livrarias, cafés e ruas tranquilas.

Um elemento fundamental e talvez o maior êxito do filme é a trilha sonora original. O próprio Nicolás Iaciancio assina as composições em parceria com Joaquín Ochoa e Orne Martínez, criando um EP cujas canções prolongam emocionalmente aquilo que o filme sugere. Faixas como "En Tu Mirada" e "Otra Vez" funcionam quase como capítulos paralelos da narrativa, enquanto "Lo Llaman Amor", interpretada por Orne Martínez e o diretor, amplia o alcance afetivo da história. A música traduz sentimentos que os personagens ainda não conseguem verbalizar, reforçando a delicadeza que permeia toda a obra.

Essa delicadeza, contudo, também evidencia algumas limitações. Em determinados momentos, o roteiro parece excessivamente confortável em sua própria contemplação, fazendo com que certos conflitos dramáticos se resolvam de maneira previsível ou permaneçam apenas esboçados. Ainda assim, a sinceridade da encenação impede que o filme se torne artificial. Nicolás Adriel demonstra interesse genuíno pelos sentimentos de seus personagens.

"Tu Nombre en el Papel" é uma declaração de amor às palavras, aos livros e aos encontros que acontecem por acaso. Seu romantismo pode parecer modesto diante de produções mais ambiciosas, mas justamente nessa escala reduzida reside seu encanto. O cineasta realiza um filme de gestos mínimos, onde um marcador de página é capaz de mudar uma vida inteira e onde o amor nasce não das grandes promessas, mas da coragem de finalmente dizer aquilo que permaneceu escrito apenas no papel. 


Sweetheart (Reino Unido, 2025)

Em apenas dezoito minutos, "Sweetheart" demonstra que o cinema queer histórico ainda possui territórios pouco explorados. Dirigido por Luke Wintour e escrito por Alastair Curtis, o curta transporta o espectador para a Londres de 1723, quando Thomas Neville (Eben Figueiredo), surpreendido durante um encontro sexual clandestino, encontra refúgio em uma Molly House,  espaços frequentados por homens gays e pessoas dissidentes de gênero muito antes da consolidação de uma identidade LGBTQIA+ como a entendemos hoje. Em vez de construir um drama sobre perseguição, Wintour prefere revelar um universo subterrâneo de comunidade, afeto e celebração que existia à margem da moralidade oficial.

A clandestinidade não é apresentada apenas como um espaço de medo, mas também de invenção. As Molly Houses surgem como precursoras dos clubes, bares e espaços de acolhimento queer contemporâneos, onde identidades podiam ser experimentadas, nomes reinventados e afetos compartilhados, ainda que sob permanente risco de repressão. O curta compreende que preservar essa memória é também resgatar uma genealogia frequentemente apagada da história LGBTQIA+.

Visualmente, Luke Wintour constrói um trabalho de notável refinamento. A fotografia de Jack Hamilton utiliza velas e luzes difusas para criar uma atmosfera de permanente penumbra, como se cada corredor e cada rosto carregassem simultaneamente perigo e desejo. Há uma sensualidade discreta na maneira como os corpos ocupam o quadro, mais interessada na troca de olhares do que na exposição explícita.

Embora a ameaça da perseguição nunca desapareça, o filme dedica mais tempo às formas de sociabilidade que floresciam apesar dela. A chegada de Thomas àquele espaço transforma seu medo inicial em descoberta, sugerindo que a comunidade sempre existiu, mesmo quando a história insistiu em apagá-la. É um curta que dialoga com estudos recentes sobre as Molly Houses, entendendo esses locais não apenas como pontos de encontro sexual, mas como importantes núcleos de resistência cultural e construção identitária.

Talvez seu único limite seja justamente a duração. Alguns personagens secundários, interpretados por nomes como Kadiff Kirwan e  Ian Gelder, despertam curiosidade suficiente para merecer maior desenvolvimento, e certas relações parecem interrompidas quando começam a ganhar profundidade. 

Mais do que um drama de época, "Sweetheart" funciona como um gesto de recuperação histórica. Luke Wintour ilumina um capítulo frequentemente negligenciado da experiência queer britânica sem abrir mão da beleza cinematográfica nem transformar seus personagens em meros símbolos políticos. O resultado é um curta elegante, delicado e humano, que lembra que muito antes das bandeiras coloridas, das paradas e dos direitos conquistados, já existiam pessoas encontrando maneiras de amar, celebrar e sobreviver nas sombras.


Macho Dancer (Filipinas, 1988)

Em "Macho Dancer",  Lino Brocka funde melodrama popular, thriller urbano e denúncia social. O filme segue Pol (Allan Paule), um jovem do interior que chega a Manila para sustentar a família e acaba sendo introduzido por Noel (Daniel Fernando) ao universo dos dançarinos eróticos e da prostituição masculina. O que poderia facilmente se transformar em um drama moralista é conduzido por Brocka com enorme lucidez: o sexo nunca aparece como desvio, mas como consequência direta de uma estrutura econômica que reduz corpos a mercadorias. 

Embora o título sugira um filme centrado no espetáculo dos corpos masculinos, Brocka está interessado principalmente na engrenagem que os consome. Os números de dança, carregados de sensualidade, coexistem com drogas, corrupção policial,  exploração e violência cotidiana. Manila é filmada como uma cidade onde a sobrevivência exige negociações constantes entre desejo e necessidade. O diretor jamais exotiza aquele universo; ao contrário, revela a prostituição masculina como parte de uma economia informal sustentada pela desigualdade, desmontando qualquer glamour que o cenário noturno possa sugerir. 

O desejo circula entre homens, mulheres e clientes de diferentes perfis como parte da complexidade daquele submundo. Em vez de discutir orientação sexual, o filme investiga como classe, pobreza e poder moldam a experiência dos corpos dissidentes. Há ecos do cinema de Rainer Werner Fassbinder na maneira como erotismo, exploração e afetos se entrelaçam, produzindo personagens incapazes de separar amor, sexo e sobrevivência. 

Brocka filma os clubes noturnos com uma energia quase documental. A câmera desliza entre luzes coloridas, fumaça, suor e coreografias sem nunca perder de vista a humanidade daqueles rapazes. Existe um fascínio evidente pelos corpos em movimento, mas também um olhar profundamente melancólico. O diretor compreende que aqueles palcos oferecem uma rara possibilidade de protagonismo aos dançarinos, ao mesmo tempo em que os tornam vulneráveis à exploração. 

O roteiro por vezes abraça soluções melodramáticas bastante características do cinema filipino da época, acumulando tragédias, traições e reviravoltas. Ainda assim, essas escolhas nunca comprometem a contundência política da narrativa. Ao contrário, reforçam a sensação de que seus personagens vivem presos a um sistema onde qualquer tentativa de ascensão parece condenada ao fracasso. 

Décadas depois de seu lançamento, "Macho Dancer" permanece surpreendentemente moderno. Não apenas por abordar frontalmente prostituição masculina, homoerotismo e desejo, mas porque compreende que a verdadeira violência não está no sexo, e sim nas estruturas que transformam intimidade em mercadoria. Restaurado e finalmente redescoberto por novas gerações, o filme confirma Lino Brocka como um dos grandes cineastas filipinos do século XX. Seu olhar sobre a noite de Manila continua pulsante, sensual e devastador, lembrando que, para muitos daqueles corpos iluminados pelos refletores, dançar era apenas outra forma de continuar vivo.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Heartstopper Para Sempre (Hearstopper Forever, Reino Unido, 2026)

Poucas produções recentes conseguiram acompanhar o amadurecimento de seu público com tanta delicadeza quanto "Heartstopper". Depois de três temporadas, "Heartstopper Para Sempre", dirigido por Wash Westmoreland e escrito por Alice Oseman, baseado em sua graphic novel, encerra a jornada de Nick Nelson (Kit Connor) e Charlie Spring (Joe Locke).  Agora, às vésperas da universidade e diante da perspectiva de um relacionamento à distância, os dois precisam aceitar que crescer também significa conviver com dúvidas, despedidas e mudanças inevitáveis.

Se a série sempre foi marcada pelos grafismos delicados que ilustravam emoções e descobertas, o longa preserva esse recurso, mas o insere em uma proposta visual muito mais cinematográfica. A fotografia, de James Rhodes, aposta em uma luz mais naturalista e sofisticada, enquanto a narrativa dividida pelas quatro estações do ano transforma primavera, verão, outono e inverno em estados emocionais. Cada capítulo reflete inseguranças, autoconfiança, desejos e o medo do futuro, numa construção elegante que acompanha a passagem definitiva da adolescência para a vida adulta.

Alice Oseman desloca o centro dramático da relação. Depois de acompanhar a recuperação de Charlie ao longo das temporadas, é Nick quem passa a enfrentar suas próprias angústias diante da separação iminente e das responsabilidades da vida universitária. O filme compreende que o amadurecimento nunca acontece de maneira linear: quando um encontra estabilidade, o outro vacila. As cenas de intimidade entre os dois também evoluem com naturalidade, incorporando sexo, pele e desejo com enorme ternura, sem abandonar a doçura que sempre definiu a franquia.

Embora Nick e Charlie permaneçam como eixo central, o roteiro encontra espaço para que os demais personagens tenham seus próprios momentos. Charlie cria um ambiente de acolhimento para estudantes LGBTQIA+ dentro da escola, reforçando que a luta contra a homofobia institucional continua sendo necessária mesmo em espaços aparentemente seguros. Durante um breve afastamento do casal, Elle, Tao, Tara, Darcy, Isaac e os demais voltam a respirar individualmente, enquanto a narrativa ainda encontra espaço para abordar direitos das pessoas trans e incluir uma Parada do Orgulho. É pouco para um elenco tão querido, mas suficiente para lembrar que "Heartstopper" sempre foi também uma história sobre comunidade e amizade.

A trilha sonora segue em pleno diálogo com a franquia. Nomes como Sufjan Stevens, Billie Eilish, Maggie Rogers, The National, Baby Queen, Royel Otis, Middle Kids, Orla Gartland e Gigi Perez os personagens sem jamais soar como uma playlist montada apenas para agradar algoritmos. Há ainda um simpático gesto metalinguístico quando os amigos assistem a "Colette",do próprio Wash Westmoreland, além da inevitável estranheza causada pela substituição de Olivia Colman por Anna Maxwell Martin no papel de Sarah Nelson.

"Heartstopper Para Sempre" entende que seu maior desafio não era surpreender, mas concluir uma história que acompanhou toda uma geração de jovens LGBTQIA+. O filme reconhece que o primeiro amor pode sobreviver ao tempo, desde que aceite também a transformação. Mais maduro, visualmente mais refinado e emocionalmente mais complexo, o encerramento entrega exatamente o que promete: uma despedida afetuosa para personagens que cresceram diante do público e deixaram uma marca definitiva na representação queer contemporânea, sem perder a esperança que sempre fez de "Heartstopper" um fenômeno tão necessário.


quinta-feira, 16 de julho de 2026

A Divina Sarah Bernhardt(Sarah Bernhardt, La Divine, França, 2024)

 Poucas artistas moldaram a ideia moderna de celebridade como Sarah Bernhardt. Antes mesmo da invenção do cinema como linguagem consolidada, a atriz francesa já compreendia o poder da própria imagem, da autopromoção e do escândalo. Em "A Divina Sarah Bernhardt", Guillaume Nicloux evita o caminho do biopic cronológico para construir um retrato fragmentado dessa mulher extraordinária, interpretada por uma magnética Sandrine Kiberlain. A narrativa percorre diferentes momentos da vida da atriz, tendo como eixo sua intensa relação com o ator Lucien Guitry (Laurent Lafitte), sem deixar de revelar outras paixões, amizades e rivalidades que ajudaram a transformar Bernhardt em uma figura quase mitológica.

O filme compreende que Sarah Bernhardt jamais caberia numa narrativa convencional. Nicloux prefere trabalhar por associações, memórias e episódios que, juntos, compõem o retrato de uma personalidade maior que a própria vida. A estrutura fragmentada acompanha uma mulher que parecia existir permanentemente em cena, incapaz de separar completamente arte e existência.


É nesse ponto que o aspecto queer da obra ganha relevância. Mais do que registrar a bissexualidade de Sarah Bernhardt como uma curiosidade biográfica, o filme a insere dentro de um projeto muito maior de liberdade. Sua relação com a pintora Louise Abbéma (Amira Casar) aparece como resultado de uma vida conduzida pelo desejo e pela recusa das convenções sociais. O romance ocupa menos espaço que a relação turbulenta com Lucien Guitry, mas reforça uma característica essencial da protagonista: sua recusa em aceitar limites impostos ao corpo feminino.

Mas as limitações estão justamente na natureza episódica do roteiro. Algumas passagens surgem e desaparecem antes de alcançar verdadeiro desenvolvimento dramático, enquanto personagens históricos, como Alexandre Dumas e Sigmund Freud, entram em cena apenas para reforçar o status lendário da protagonista. Em determinados momentos, a impressão é de assistir a uma sucessão de quadros sobre Sarah Bernhardt, mais interessados em preservar seu magnetismo do que em investigar suas contradições.

Mais do que celebrar uma atriz, "A Divina Sarah Bernhardt" celebra uma mulher que viveu décadas à frente de seu tempo. Sua independência artística, sua liberdade sexual, sua capacidade de desafiar normas sociais e transformar a própria vida em performance fazem dela uma figura cuja modernidade continua surpreendente mais de um século depois.


Baumgeflüster (Alemanha, 2026)

Em um momento em que as narrativas LGBTQIA+ ainda ocupam espaço reduzido nas tradicionais produções televisivas alemãs, "Baumgeflüster", dirigido por Dirk Kummer, assume uma importância que vai além de sua proposta como romance. O filme acompanha Yascha Krüger (Linus Schütz), um engenheiro florestal solitário que aceita trabalhar temporariamente como guarda-florestal e recebe a missão de negociar a compra de uma área destinada à criação de um parque nacional. No entanto, tudo se complica quando ele se apaixona por Mats Stein (Aaron Friesz), fotógrafo e herdeiro justamente da propriedade que precisa convencer a vender. Entre mentiras, dilemas éticos e encontros em meio à natureza, o longa constrói uma história de amor delicada, ainda que bastante convencional.

"Baumgeflüster" trata o romance entre Yascha e Mats como qualquer outra história de amor exibida no tradicional bloco Herzkino, da televisão pública alemã. O simples fato de colocar dois homens ocupando esse espaço, historicamente reservado a casais heterossexuais, já representa um pequeno gesto político. Não há grandes discursos sobre preconceito; o filme aposta na ideia de que personagens LGBTQIA+ também merecem viver histórias leves, românticas e otimistas.


Dirk Kummer conduz essa narrativa com elegância discreta. A floresta da Baviera deixa de ser apenas cenário e se transforma numa extensão emocional dos protagonistas. A fotografia de Alexander Püringer valoriza os tons verdes, a luz natural e a sensação de refúgio. Existe uma atmosfera acolhedora que dialoga diretamente com a tradição dos romances televisivos europeus, explorando a paisagem como metáfora para personagens que também procuram encontrar seu lugar no mundo.


Ainda assim, a previsibilidade do roteiro limita parte de seu impacto. Escrito por Claudia Matschulla e Arnd Mayer, o filme segue praticamente todas as convenções da comédia romântica: o mal-entendido inicial, os segredos inevitáveis, a ruptura temporária e a reconciliação emocional. O conflito envolvendo a compra da floresta nunca alcança verdadeira complexidade dramática, funcionando apenas como obstáculo para o casal.

Sua força reside justamente na simplicidade com que reivindica espaço para um amor entre homens dentro de um formato tradicionalmente conservador. Há momentos em que o filme poderia arriscar mais, seja emocionalmente, seja narrativamente, mas sua delicadeza acaba se tornando um gesto de afirmação. Em tempos de crescente visibilidade queer no audiovisual europeu, Dirk Kummer demonstra que a representatividade também pode florescer em histórias pequenas, calorosas e sem necessidade de transformar o amor em tragédia.


quarta-feira, 15 de julho de 2026

Just Kids (EUA, 2025)

 

“Just Kids" acompanha um tema que, facilmente, poderia ser reduzido a estatísticas, discursos jurídicos ou debates ideológicos. Gianna Toboni faz o caminho inverso. O documentário acompanha, ao longo de um ano, três famílias que vivem em estados norte-americanos onde o acesso aos cuidados de afirmação de gênero foi proibido, obrigando pais e filhos a decidir entre permanecer em suas comunidades ou abandonar suas vidas em busca de segurança e atendimento médico. A diretora, jornalista premiada por seu trabalho investigativo, prefere a intimidade ao panfleto, construindo um retrato humano de adolescentes que desejam apenas crescer com dignidade.

O filme recusa transformar seus personagens em símbolos abstratos. Toboni observa o cotidiano desses jovens com uma câmera discreta, acompanhando consultas médicas, conversas familiares, momentos de lazer e pequenas vitórias que ganham um peso enorme diante do contexto político. Há espaço para o medo, mas também para humor, afeto e esperança. Em vez de enquadrar essas famílias apenas pela dor, "Just Kids" insiste em registrar a vitalidade de seus protagonistas, lembrando que suas vidas não se resumem às batalhas judiciais travadas em seus nomes.


Os adolescentes filmados não aparecem como "casos" ou "questões culturais", mas como jovens apaixonados por redes sociais, amizades, escola e sonhos para o futuro. Ao lado deles surgem figuras fundamentais da história da comunidade trans, como a historiadora Susan Stryker e a política Andrea Jenkins, ampliando a discussão para uma perspectiva histórica sem jamais retirar o foco daqueles que vivem as consequências imediatas das novas legislações. 

Há momentos em que a estrutura assume um caráter mais didático, incorporando entrevistas com especialistas para contextualizar o avanço das leis que restringem os cuidados de afirmação de gênero nos Estados Unidos. Ainda assim, o filme evita cair na armadilha do documentário exclusivamente argumentativo. O que permanece na memória não são os dados ou os processos legislativos, mas os rostos dessas famílias tentando preservar uma infância que lhes é continuamente negada pela política. 

Exibido em Tribeca, "Just Kids" transforma uma das discussões mais polarizadas da atualidade em um exercício de escuta. Gianna Toboni realiza um documentário urgente, sensível e profundamente comprometido com seus personagens, oferecendo um registro histórico de um momento decisivo para os direitos das pessoas trans nos Estados Unidos. Mais do que denunciar retrocessos, o filme celebra a capacidade dessas famílias de continuarem amando, protegendo e acreditando em seus filhos quando o próprio Estado insiste em tratá-los como exceções.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Una Storia Vera (Itália, 2025)

Mariano Lamberti parte de uma ideia simples em "Una Storia Vera", mas procura expandi-la por meio de uma estética de found footage que mistura registros íntimos, vídeos de celular e imagens supostamente espontâneas. A narrativa acompanha o relacionamento entre dois jovens, interpretados por Alessio Bisaccia e Giulio Forges Davanzati, cuja paixão é registrada quase em tempo real, entre passeios por Roma, momentos de intimidade e pequenas crises afetivas. O título brinca justamente com essa ideia de verdade: não importa tanto se os acontecimentos são reais, mas se o dispositivo cinematográfico consegue convencer o espectador de que está diante de fragmentos autênticos de uma vida.

A opção pelo found footage, contudo, é simultaneamente a maior virtude e o principal obstáculo da obra. Em alguns momentos, a câmera nervosa, os enquadramentos improvisados e a baixa resolução realmente criam uma sensação de intimidade, como se o público invadisse lembranças privadas dos personagens. Em outros, porém, a encenação denuncia o próprio artifício. Algumas situações parecem excessivamente calculadas para um registro que pretende soar espontâneo, reduzindo a potência da proposta justamente quando ela deveria alcançar maior naturalidade.


Essa irregularidade também afeta o roteiro. Há ideias interessantes sobre memória, vulnerabilidade e pertencimento, mas elas surgem de maneira dispersa, como se estivéssemos assistindo à ampliação de um curta-metragem. Certas sequências se prolongam sem acrescentar novas camadas dramáticas, enquanto conflitos importantes aparecem e desaparecem rapidamente. 

Tecnicamente, o filme compreende bem as limitações que escolhe assumir. A montagem preserva a sensação de material encontrado, enquanto a fotografia imperfeita reforça a proximidade física entre câmera e personagens. Ainda assim, o minimalismo visual não basta para esconder algumas oscilações de ritmo e interpretação. 

"Una Storia Vera" é um experimento interessante dentro do cinema queer independente italiano, sobretudo por utilizar o found footage para falar de intimidade, desejo e vulnerabilidade afetiva em vez de recorrer ao suspense ou ao horror, gêneros mais associados ao formato. Mariano Lamberti demonstra sensibilidade ao registrar pequenos gestos cotidianos e encontra momentos de verdade entre seus protagonistas. Ainda assim, o longa também evidencia limitações importantes de escrita e construção narrativa, fazendo com que a experiência oscile entre o genuinamente comovente e o excessivamente improvisado.

Stop! That! Train! (EUA, 2026)

Adam Shankman abraça o absurdo sem qualquer constrangimento em STOP! THAT! TRAIN!, uma comédia-catástrofe que transforma um trem de luxo em palco para um espetáculo de humor nonsense, cultura drag e referências ao cinema pastelão. A trama segue Tess (Ginger Minj) e DeeDee (Jujubee), duas comissárias ferroviárias que deixam uma linha decadente para trabalhar no extravagante Glamazonian Express. Quando uma tempestade ameaça lançar o trem desgovernado contra Los Angeles, elas precisam unir forças com uma equipe de primeira classe nada amigável e com a espalhafatosa Presidente Gagwell (RuPaul). O resultado é uma sucessão de gags visuais, cameos de luxo e situações exageradas que recuperam o espírito de clássicos como Apertem os Cintos... O Piloto Sumiu!, filtrado pela estética do universo de RuPaul's Drag Race. 

Shankman compreende que o filme jamais funcionaria se buscasse qualquer compromisso com o realismo. A encenação aposta em um ritmo frenético, teatral, onde praticamente cada plano esconde uma piada visual ou um comentário absurdo ao fundo, Há um prazer evidente em construir um universo paralelo no qual drags ocupam naturalmente funções de heroínas, enquanto celebridades como Sarah Michelle Gellar, Joel McHale, Rachel Bloom e outros surgem em participações que ampliam o espírito de festa permanente. Nem todas as piadas encontram o alvo, mas a quantidade de ideias lançadas por minuto faz com que o filme raramente perca energia. 


É bem mais que uma esquete estendida de Drag Race permitindo que elas sejam heroínas, protagonistas românticas, figuras de autoridade e agentes do caos ao mesmo tempo. Mesmo tendo dirigido o remake de "Hairspray", Adam Shankman definiu o projeto como seu primeiro filme "assumidamente queer" depois de décadas de carreira, não apenas pelo elenco majoritariamente LGBTQIA+, mas porque toda sua lógica narrativa parte da teatralidade, da exuberância e da irreverência que fazem parte da cultura drag. Muitas RuGirls, como Latrice Royale, Monét X Change e Angeria Van Michaels, ocupam a tela nem que seja rapidamente para um gag absurdo.


A produção abraça muito bem a estética camp. Figurinos extravagantes, maquiagem carregada, cenários artificiais, e com maquetes, e uma direção de arte que jamais tenta esconder sua natureza caricata dialogam diretamente com a tradição do exagero apropriada pela cultura queer ao longo das décadas. O próprio trem parece existir numa realidade paralela onde tudo pode acontecer, reforçando um senso de fantasia que aproxima o filme tanto das competições televisivas de drag quanto das grandes comédias absurdas produzidas entre os anos 1970 e 1980. A fotografia colorida e a montagem veloz trabalham sempre em favor desse excesso.


O roteiro de Christina Friel e Connor Wright é bem mais eficaz, e engraçado, que o de "Bitch Who Stole the Christmas". O elenco demonstra enorme sintonia, especialmente Ginger Minj, Jujubee, Brooke Lynn Hytes e RuPaul, que entendem perfeitamente o tom debochado da narrativa. Existe uma sinceridade divertida na maneira como todos interpretam situações completamente ridículas com absoluta convicção, respeitando uma das regras fundamentais da boa paródia: tratar o absurdo com máxima seriedade. 


STOP! THAT! TRAIN! encontra um público específico apto a experimentar escancaradamente camp ou da tradição das grandes paródias hollywoodianas. Há piadas internas que só quem assista o programa irá entender, enquanto celebra a arte drag, em um momento político que ela precisa ser celebrada. Entre explosões, tempestades improváveis, números performáticos e piadas que se acumulam, Adam Shankman entrega uma homenagem afetuosa tanto ao cinema pastelão quanto à potência transformadora da performance drag. É uma obra assumidamente boba, consciente de sua própria artificialidade e, justamente por isso, muito divertida.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Confesiones Chin Chin (Espanha, 2024)

"Confesiones Chin Chin", estreia de Carolina Perelman na direção de longas, transforma uma noite no bar Cazador, em Madri, em território para pequenas implosões pessoais. Vicente (Enrique Gimeno) e Lolo (Fernando Bodega), dois atores queer tentando sobreviver às instabilidades da vida artística, cruzam histórias com Sofía (Ángela Aguilar), Roberto (Nacho Scorza) e outras figuras que bebem, fumam e falam talvez mais do que deveriam. Escrito por Perelman e Samuel Rotter, o filme nasce de confissões reais e embaralha deliberadamente experiência e encenação.

O "chin chin" do título soa como um brinde à indiscrição. Sexo, infidelidade, dinheiro, abuso, frustrações profissionais e relações pouco convencionais surgem em conversas que raramente obedecem a uma progressão dramática tradicional. Perelman parece posicionar sua câmera na mesa ao lado e permitir que escutemos fragmentos de vidas alheias. 


A queerness circula pelo bar como parte da experiência cotidiana, atravessando desejo, trabalho, precariedade e afeto. Até quando aborda a discriminação e a homofobia, "Confesiones Chin Chin" preserva a complexidade de personagens que também podem ser vaidosos, cruéis, engraçados ou contraditórios.

A referência a "Portrait of Jason" ajuda a decifrar o jogo proposto por Perelman. A diretora contou ter entrevistado os intérpretes durante meses para criar seus "duplos", enquanto reunia relatos sobre sexo, casamento, saída do armário e infidelidade. O resultado ocupa uma região nebulosa entre documentário e ficção, na qual nunca temos plena certeza sobre a origem de uma confissão. 


O bar funciona como uma cápsula de intimidade. Os enquadramentos fechados, a câmera móvel e a iluminação quente reforçam a proximidade física, enquanto a música de Pedro Fraguela dá ao jazz uma função quase estrutural. O ritmo musical conecta conversas que poderiam parecer vinhetas isoladas e imprime ao longa uma textura ao mesmo tempo retrô e contemporânea. 


"Confesiones Chin Chin" pode frustrar quem procura uma narrativa rigorosamente amarrada. Ainda assim, existe algo sedutor nesse conjunto de vozes indiscretas. Carolina Perelman constrói um cinema queer interessado na escuta e na vulnerabilidade, permitindo que seus personagens retirem as máscaras sem transformá-los em exemplos de boa conduta. Entre jazz, fumaça, álcool e verdades possivelmente maquiadas, o filme propõe seu próprio brinde: à deliciosa confusão de sermos personagens até quando juramos estar confessando a verdade.

domingo, 12 de julho de 2026

Beautiful Evening, Beautiful Day (Lijepa večer, lijep dan, Croácia/ Bósnia/ Herzegovina/ Canadá/ Chipre/ Polônia, 2024)

Em “Beautiful Evening, Beautiful Day”, Ivona Juka recupera uma parcela pouco visível da memória queer do Leste Europeu para construir um drama histórico de grande fôlego. Lovro (Dado Ćosić), Nenad (Đorđe Galić), Stevan (Slaven Došlo) e Ivan (Elmir Krivalić) lutaram como partisans contra os Ustaše e os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial e, dezesseis anos depois, tornaram-se cineastas reconhecidos na Iugoslávia comunista. A suspeita sobre a homossexualidade dos quatro, porém, desperta o interesse do Partido, que encarrega Emir (Emir Hadžihafizbegović) de vigiar e sabotar suas vidas e carreiras. Juka parte desse conflito para lançar uma pergunta incômoda: o que acontece quando homens que lutaram pela liberdade descobrem que a nova ordem também não admite quem eles são? A própria diretora afirma ter pesquisado teses acadêmicas sobre a perseguição a homossexuais na Iugoslávia comunista para desenvolver o projeto. 

A dimensão queer ganha força justamente porque os protagonistas não surgem apartados da História: eles ajudaram a construí-la. São heróis de guerra, artistas e homens gays, uma combinação que confronta a maneira como narrativas nacionais frequentemente higienizam seus personagens para acomodá-los em mitologias políticas. O filme causou controvérsia ao colocar protagonistas gays no centro da memória antifascista e ao representar sua sexualidade de maneira explícita, algo ainda incomum no cinema croata. Juka não esconde os corpos nem transforma a intimidade em elipse respeitável. Sexo, desejo e amor ocupam a tela porque a perseguição política depende exatamente da tentativa de controlar essas experiências. 

O cinema dentro do cinema amplia esse embate. Lovro, Nenad, Stevan e Ivan trabalham em uma estrutura cinematográfica atravessada pela propaganda estatal, ao mesmo tempo em que enxergam a arte como possibilidade de crítica à sociedade pela qual combateram. A vigilância sobre a sexualidade passa, assim, a dialogar com a censura da criação: controlar o corpo e controlar a imagem pertencem ao mesmo projeto autoritário.

“Beautiful Evening, Beautiful Day” encontra no preto e branco fotografado por Dragan Ruljančić uma beleza severa. Os enquadramentos frequentemente parecem comprimir os personagens entre paredes, corredores e estruturas institucionais, enquanto paisagens e sequências próximas à água abrem breves zonas de respiração. O filme não teme a sensualidade masculina e algumas de suas cenas eróticas possuem uma frontalidade rara, mas a beleza das imagens convive com tortura, violência sexual e discriminação. 

“Beautiful Evening, Beautiful Day” encontra sua imagem mais poderosa na contradição de seus protagonistas: homens celebrados por enfrentarem o fascismo que precisam novamente lutar pelo direito de existir. Ivona Juka transforma a memória queer em terreno de disputa política e faz do cinema uma arma contra o apagamento. “Beautiful Evening, Beautiful Day, olha para 1957,  sabendo que regimes mudam de nome, mas a vigilância sobre corpos LGBTQIA+  possui uma assustadora capacidade de sobreviver ao tempo.


sexta-feira, 10 de julho de 2026

Labirinti (Itália, 2024)

A estreia de Giulio Donato na direção demonstra um raro entendimento sobre as contradições da adolescência. Em "Labirinti", o cineasta italiano abandona qualquer romantização do coming of age para construir um drama profundamente enraizado na Calábria rural, onde tradições, masculinidade e conservadorismo moldam o cotidiano de seus habitantes. O protagonista Francesco (Francesco Grillo) cresce ao lado do inseparável Mimmo (Simone Iorgi), mas, à medida que a juventude dá lugar à vida adulta, percebe que seus sonhos e desejos caminham por direções incompatíveis com as expectativas daquele pequeno vilarejo. O labirinto do título não é apenas geográfico, mas sobretudo psicológico, emocional e social.

O roteiro encontra força justamente na maneira como trata a descoberta da sexualidade sem recorrer a grandes revelações ou conflitos espetaculares. O aspecto queer surge de forma gradual, quase silenciosa, acompanhando o despertar de Francesco em um ambiente onde a masculinidade permanece rigidamente codificada. O desejo aparece como algo íntimo, difícil de nomear, refletindo o peso das convenções sociais impostas a um adolescente que começa a compreender que seus sentimentos o afastam do caminho considerado aceitável. A relação com Mimmo ganha camadas cada vez mais complexas, misturando amizade, admiração, rivalidade e uma tensão afetiva que nunca precisa ser completamente verbalizada para ser compreendida pelo espectador.


Donato demonstra grande sensibilidade ao utilizar a própria paisagem calabresa como extensão dos personagens. As montanhas, as estradas estreitas e o isolamento da pequena comunidade reforçam permanentemente a sensação de aprisionamento vivida por Francesco. A fotografia de Lorenzo Scudiero privilegia a luz natural e os grandes espaços abertos, criando um contraste interessante: a natureza parece oferecer liberdade, enquanto as regras invisíveis da comunidade restringem qualquer possibilidade de fuga. Esse diálogo entre espaço físico e estado emocional torna o filme particularmente envolvente.

Embora dialogue com diversos dramas italianos sobre juventude, "Labirinti" encontra personalidade própria ao associar o amadurecimento à construção da identidade queer. O livro encontrado por Francesco, tratado quase como um objeto mágico, simboliza justamente a descoberta de outras possibilidades de existência, funcionando como uma janela para um mundo muito maior do que aquele delimitado pelas montanhas da Calábria. O filme sugere que crescer significa, antes de tudo, encontrar coragem para desafiar narrativas impostas e escrever a própria história. Essa dimensão simbólica amplia o alcance da obra sem comprometer seu realismo.

Sem recorrer a grandes reviravoltas, Giulio Donato entrega um primeiro longa de notável maturidade. "Labirinti" compreende que a experiência queer nem sempre se constrói em torno da violência explícita ou do trauma, mas também através dos pequenos silêncios, dos gestos interrompidos e da dificuldade de imaginar um futuro diferente daquele reservado pela sociedade. É um filme delicado, sensível e profundamente humano, que transforma o processo de amadurecimento em uma busca pela própria liberdade, encontrando na especificidade da Calábria uma história capaz de dialogar com experiências universais.


quinta-feira, 9 de julho de 2026

A Una Isla de Ti (Espanha, 2026)

Alexis Morante traz uma comédia romântica ensolarada que faz da paisagem de Gran Canaria um personagem tão importante quanto seus protagonistas. Em "A Una Isla de Ti", Harry (Freddie Dennis), um chef britânico abandonado no altar, aceita o convite da melhor amiga Yaiza (Julia Martínez) para passar uma temporada na ilha. O que começa como uma fuga sentimental logo se transforma em uma inesperada história de amor quando ele conhece Iván (Jaime Zatarain), pai de Yaiza. A premissa poderia facilmente cair na caricatura, mas Morante conduz o romance com delicadeza, privilegiando o encanto dos encontros e o prazer da descoberta. 

O filme incorpora com delicadeza uma relação homoafetiva ao universo da comédia romântica clássica. O conflito nunca nasce da orientação sexual de Harry ou Iván, mas das inseguranças, dos desencontros e das diferentes maneiras como ambos enxergam o amor.

Freddie Dennis constrói Harry como um estrangeiro em todos os sentidos: deslocado pela dor do abandono, pela língua e pelos costumes locais. Jaime Zatarain, por sua vez, oferece a Iván um charme descontraído, tornando compreensível a atração imediata que desperta. Julia Martínez funciona como elo entre esses dois universos, enquanto Toni Acosta, vivendo Famara, injeta personalidade e humor em praticamente todas as cenas em que aparece. O elenco entende perfeitamente o tom da narrativa, evitando exageros mesmo quando o roteiro abraça situações típicas da comédia de costumes. 

Morante faz de Gran Canaria muito mais do que um cartão-postal turístico. As praias, as pequenas cidades, a culinária, as festas populares e as paisagens vulcânicas participam ativamente da construção emocional dos personagens. Existe, evidentemente, um componente promocional na forma como a ilha é fotografada, mas o diretor consegue integrá-lo ao enredo. O amor de Harry pelo lugar cresce ao mesmo tempo que seu sentimento por Iván, transformando espaço e afeto numa única experiência sensorial. 

O roteiro segue de maneira bastante fiel as convenções da comédia romântica dos anos 1990, com mal-entendidos, coincidências e personagens excêntricos orbitando os protagonistas. Esses clichês impedem que o filme alcance momentos verdadeiramente memoráveis, mas também faz parte de seu charme, onde casais LGBTQIA+ finalmente podem protagonizar histórias leves, divertidas e otimistas sem que o preconceito seja o motor principal da narrativa. 


"A Una Isla de Ti" conquista justamente por sua sinceridade. É um filme sobre recomeços, pertencimento e encontros inesperados, embalado por interpretações carismáticas e por uma atmosfera calorosa que faz da ilha uma extensão dos sentimentos de seus personagens. Alexis Morante entrega uma obra acolhedora, com humor, e luminosa , permitindo que seus protagonistas vivam uma história romântica sem carregar pesos e traumas.

A Coroa de Ruby (Brasil, 2026)

Muito antes de celebrar uma conquista, "A Coroa de Ruby", novo documentário de Henrique Arruda, procura compreender tudo o que existe por trás dela. Ao acompanhar Ruby Nox durante os meses em que aguardava, em absoluto sigilo, a exibição da segunda temporada de "Drag Race Brasil", o curta de 24 minutos registra a tensão, as dúvidas, os preparativos e a entrega exigidos para ocupar um dos maiores palcos da cultura drag contemporânea. O resultado é um retrato íntimo de uma artista que jamais abandona suas origens no sertão pernambucano, revelando que a coroa é apenas a consequência de uma trajetória construída muito antes das câmeras do reality.

Henrique Arruda confirma, mais uma vez, sua habilidade em borrar as fronteiras entre documentário, performance e ensaio audiovisual. Assim como em outros trabalhos de sua filmografia, o diretor aposta na mistura de linguagens para construir uma narrativa profundamente brasileira. A literatura de cordel atravessa o filme ao lado da exuberância da arte drag, enquanto as referências musicais percorrem extremos aparentemente distantes, de Shirley Bassey à rainha do forró Marinês.

O aspecto mais interessante do documentário está justamente naquilo que o público raramente vê. Arruda acompanha os bastidores dos ensaios fotográficos, a elaboração dos figurinos, a concepção dos looks e o trabalho quase artesanal que antecede cada aparição pública da drag queen. São momentos que desmontam qualquer ideia de glamour imediato. A construção de uma estrela exige planejamento, criatividade, investimento financeiro e uma enorme carga emocional. Os depoimentos íntimos de Ruby, conduzidos com a naturalidade de seu delicioso sotaque sertanejo, aproximam a personagem do espectador e
revelam fragilidades que o formato competitivo do reality dificilmente permitiria explorar.


Há também um componente afetivo evidente entre cineasta e personagem. Henrique Arruda acompanha Ruby Nox há anos, e essa intimidade se transforma numa vantagem narrativa. O documentário nunca assume uma postura distante ou jornalística; prefere registrar cumplicidades. Em diversos momentos, a câmera parece filmar não apenas uma vencedora, mas uma musa recorrente dentro do universo criativo do diretor.

Embora a vitória em "Drag Race Brasil" funcione como eixo dramático, "A Coroa de Ruby" amplia seu olhar para discutir representatividade. Natural de Carnaíba, no sertão do Pajeú, Ruby Nox torna-se símbolo de uma geração de artistas nordestinas que historicamente permaneceram à margem dos grandes centros culturais. O documentário compreende a dimensão política dessa conquista sem transformar sua protagonista em monumento. Ao contrário, evidencia como sua arte nasce justamente do encontro entre cultura popular, teatro, performance, artes visuais e experimentação, reafirmando que a drag brasileira possui inúmeras identidades para além dos modelos consagrados internacionalmente.


Com pouco mais de vinte minutos, "A Coroa de Ruby" emociona porque entende que grandes vitórias nunca pertencem apenas a uma pessoa. Henrique Arruda transforma os bastidores de um reality em um documento sobre pertencimento, memória e resistência cultural, registrando uma artista que leva Pernambuco para o centro da cultura pop global sem abandonar o sotaque, as referências e os afetos que moldaram sua trajetória. Ao celebrar Ruby Nox, o filme também celebra toda uma cena drag nordestina que há muito tempo merecia ocupar esse lugar de protagonismo.


quarta-feira, 8 de julho de 2026

Girls like Girls (EUA, 2026)

Hayley Kiyoko transformou um dos videoclipes sáficos mais importantes da década passada em romance literário e, agora, em seu primeiro longa como diretora. "Girls Like Girls" expande o universo criado em 2015 sem perder de vista aquilo que fez da obra um fenômeno para uma geração inteira: a possibilidade de jovens lésbicas e bissexuais se enxergarem no centro de uma história de amor. Ambientado em 2006, o filme acompanha Coley, recém-chegada a uma pequena cidade do Oregon após a morte da mãe, que encontra em Sonya uma amizade capaz de despertar sentimentos que ambas ainda não conseguem nomear.

Kiyoko demonstra sensibilidade ao reconstruir uma adolescência anterior às redes sociais e à maior visibilidade LGBTQIA+ dos dias atuais. As conversas pelo AOL Messenger, os iPods, os mergulhos no lago e os passeios de bicicleta evocam um verão que parece suspenso no tempo. O romance entre Coley e Sonya faz da descoberta afetiva algo íntimo e reconhecível.

Kiyoko não ignora os medos que cercavam adolescentes LGBTQIA+ em meados dos anos 2000, quando assumir um relacionamento entre duas garotas ainda parecia um risco enorme. O filme também acerta ao colocar duas jovens racializadas no centro da história, ampliando uma representatividade ainda pouco frequente nas grandes produções do gênero. A própria diretora declarou que desejava realizar o filme que gostaria de ter visto quando era adolescente. 

Esteticamente, nota-se a origem de Kiyoko como diretora de videoclipes. A fotografia aposta em luz dourada, contraluzes e movimentos suaves de câmera que transformam aquele verão em uma memória afetiva permanente. Em alguns momentos, essa estética faz o longa flertar com a linguagem de vídeos musicais, Ainda assim, Maya Da Costa e Myra Molloy sustentam a experiência com interpretações delicadas e uma química convincente, capazes de transmitir tudo mesmo quando os diálogos optam pelo minimalismo. 

Se existe uma limitação, ela está justamente no roteiro. Algumas situações seguem caminhos previsíveis e determinados conflitos emocionais poderiam receber maior desenvolvimento. A narrativa prefere permanecer em uma zona de conforto, evitando riscos que poderiam aprofundar ainda mais suas personagens. Mas, essa simplicidade também permite que a sinceridade dos sentimentos permaneça sempre em primeiro plano. 

"Girls Like Girls" cumpre algo importante: entrega às novas gerações uma história sáfica luminosa, romântica e repleta de esperança. Hayley Kiyoko confirma que seu compromisso com a representação queer vai além da música e demonstra personalidade como cineasta, realizando um filme delicado, nostálgico, POP e emocionalmente honesto.

Natal Amargo (Amarga Navidad, Espanha, 2026)

 

Pedro Almodóvar retorna ao espanhol em "Natal Amargo" olhando para trás sem qualquer nostalgia. Em vez de buscar conforto na própria filmografia, o cineasta transforma o ato de criar em matéria dramática, embaralhando lembranças, ficção e autobiografia em uma narrativa  metalinguística. A história acompanha a escritora Elsa (Bárbara Lennie), que enfrenta um período de luto e bloqueio criativo, ela é na verdade personagem de um roteiro do cineasta Raúl (Leonardo Sbaraglia), cuja vida profissional e pessoal passa a dialogar perigosamente com o material que pretende transformar em filme. Ao redor deles orbitam personagens como Mónica (Aitana Sánchez-Gijón), Patricia (Victoria Luengo), Natalia (Milena Smit), o parceiro de Raúl, Santi (Quim Gutiérrez) e Bonifacio (Patrick Criado), formando um mosaico de afetos, memórias e feridas que borra continuamente as fronteiras entre realidade e invenção,

Há um humor discreto atravessando a melancolia, uma ironia tipicamente almodovariana que impede a narrativa de sucumbir ao peso do sofrimento. É também um dos filmes mais musicais do diretor em muitos anos. A emocionante interpretação de Amaia Romero para "Las simples cosas" ecoa a intensidade de Caetano Veloso cantando em "Fale com Ela", enquanto a presença simbólica de Chavela Vargas reaparece como uma homenagem carregada de afeto a uma artista fundamental para o universo emocional de Almodóvar. Em outro extremo, uma sequência de striptease embalada por Grace Jones reafirma que sensualidade, humor e dor continuam coexistindo em perfeita sintonia dentro de seu cinema, fazendo da música uma extensão dos sentimentos que as personagens nem sempre conseguem verbalizar.

Essa sensação de reencontro também passa pelo elenco. Bárbara Lennie conduz o filme com uma interpretação delicada e contida, Rostos históricos do cinema almodovariano, como Carmen Machi, Rossy de Palma e Bibiana Fernández, além da atriz trans Ángeles Ortega e até Los Javis, reafirmam compromisso do diretor com um cinema onde diferentes identidades convivem com absoluta naturalidade e nunca precisam justificar sua existência.

 "Natal Amargo" confirma que poucos cineastas contemporâneos dominam a imagem com tamanha precisão. Na fotografia, sai o antigo colaborador José Luís Alcaine, para a primeira contribuição com Pau Esteve Birba, que transforma objetos, tecidos, paredes e peças decorativas em extensões do estado emocional das personagens. Cada ambiente parece cuidadosamente construído para revelar sentimentos antes mesmo que eles sejam verbalizados. Os enquadramentos, as cores saturadas e a direção de arte preservam uma assinatura estética imediatamente reconhecível.

O roteiro encontra sua maior força justamente ao transformar o próprio processo criativo em conflito dramático. O cinema deixa de ser apenas tema para tornar-se personagem. Almodóvar questiona os limites éticos entre inspiração e apropriação, perguntando até que ponto um artista tem o direito de transformar a intimidade alheia em ficção. Esse movimento aproxima inevitavelmente "Natal Amargo" de "Dor e Glória", mas sem repetir sua estrutura. Se naquele filme predominava a reconciliação com o passado, aqui há uma inquietação permanente sobre o preço de transformar experiências pessoais em obra de arte. Vida e cinema deixam de ocupar espaços distintos e passam a existir como uma única matéria narrativa.

Mesmo que alguns momentos revelem um cineasta confortável revisitando temas recorrentes, "Natal Amargo" permanece uma obra sofisticada, elegante e emocionalmente generosa. Seu humor delicado, a musicalidade constante, o reencontro com figuras emblemáticas da filmografia almodovariana e a reflexão sobre o próprio ato de criar reafirmam a vitalidade artística de Pedro Almodóvar. Entre ficção e memória, desejo e luto, o diretor continua encontrando novas formas de filmar sentimentos antigos, lembrando que revisitar o próprio universo nunca significa permanecer no mesmo lugar, mas descobrir novas possibilidades de olhar para aquilo que ainda habita ne pele.