quarta-feira, 1 de julho de 2026

She's The He! (EUA, 2025)

Há um risco evidente em construir uma comédia a partir de uma premissa que, em mãos menos sensíveis, poderia facilmente escorregar para o deboche. Em "She's the He", Siobhan McCarthy transforma justamente esse risco em seu maior acerto. O filme segue  Alex (Nico Carney) e Ethan (Misha Osherovich), dois amigos do ensino médio que decidem fingir ser garotas trans para encerrar os rumores de que seriam um casal gay e, no caso de Alex, se aproximar da garota por quem é apaixonado. A brincadeira, porém, toma outro rumo quando Ethan percebe que aquela identidade improvisada desperta sentimentos que sempre estiveram adormecidos. O que começa como uma sátira das guerras culturais em torno das pessoas trans rapidamente se converte em um afetuoso relato de descoberta e aceitação.

McCarthy demonstra inteligência ao subverter a estrutura das tradicionais comédias teen. O filme dialoga com títulos como "American Pie", "Ela é Demais" e tantas outras produções dos anos 1990 e 2000, mas desmonta seus códigos com ironia. Em vez de reforçar estereótipos sobre gênero e sexualidade, utiliza o humor para ridicularizar o pânico moral em torno das pessoas trans, especialmente a histeria política envolvendo banheiros e vestiários. 


She's the He" foi concebido por uma equipe majoritariamente formada por artistas trans e não binários, algo que reflete na autenticidade de seus conflitos e diálogos. Misha Osherovich entrega uma atuação delicada e comovente como Ethan, acompanhando cada pequena transformação emociona. Nico Carney funciona como contraponto perfeito ao interpretar um adolescente cuja imaturidade vai sendo confrontada pela realidade.

O filme abraça uma estética colorida, frenética e deliberadamente exagerada. A montagem acelerada, as animações, a trilha sonora vibrante e o humor físico remetem às comédias juvenis clássicas. Esse dinamismo conversa diretamente com a energia caótica da adolescência e reforça a proposta de criar um filme pop sem abrir mão de seu posicionamento político. 

Em um momento histórico marcado por retrocesso e ataques às pessoas trans, "She's the He" responde com aquilo que o cinema frequentemente oferece de melhor: empatia, irreverência e imaginação. Siobhan McCarthy entrega uma estreia que diverte sem banalizar seus temas e emociona sem recorrer ao melodrama fácil. Imperfeito em alguns aspectos narrativos, mas extremamente honesto em suas intenções, o filme reafirma que a comédia continua sendo uma poderosa ferramenta, sobretudo quando se recusa a rir das pessoas trans e escolhe rir do preconceito que insiste em persegui-las.

Do bordel ao deserto: como "O Lugar sem Limites" e "O Olhar Misterioso do Flamingo" dialogam

Há filmes que parecem responder uns aos outros mesmo quando separados por décadas. É o caso de "O Lugar sem Limites" (1978), de Arturo Ripstein, e "O Olhar Misterioso do Flamingo" (2025), estreia em longa-metragem do chileno Diego Céspedes. Ambos compartilham uma inquietação comum: investigar como sociedades profundamente conservadoras transformam corpos dissidentes em alvo de medo, desejo e violência. O diálogo entre as duas obras revela não apenas a permanência da transfobia e da homofobia na América Latina, mas também a força do cinema queer latino-americano em transformar essas dores em memória e resistência.

Nos dois filmes, o espaço é muito mais do que cenário. Em "O Lugar sem Limites", El Olivo, um vilarejo mexicano decadente dominado por um bordel, representa um universo sem qualquer possibilidade real de fuga. Já em "O Olhar Misterioso do Flamingo", Diego Céspedes transporta essa sensação para uma isolada comunidade mineradora no deserto chileno durante a ditadura de Augusto Pinochet. Ambos constroem verdadeiros microcosmos onde preconceito, ignorância e violência se alimentam mutuamente. O  próprio Céspedes reconheceu que leu o romance "El lugar sin límites", de José Donoso, origem da obra de Ripstein, e percebe afinidades entre os dois universos.


Essa aproximação é fortalecida sobretudo na centralidade de suas personagens trans e travestis.La Manuela, interpretada magistralmente por Roberto Cobo, permanece uma das figuras mais emblemáticas da história do cinema latino-americano. Décadas depois, Céspedes apresenta Flamingo e a família da Casa Alaska como um núcleo igualmente vibrante de afeto, humor e solidariedade. Nenhuma dessas personagens existe apenas para sofrer. Ao contrário, elas irradiam desejo, sensualidade, ironia e humanidade.


Céspedes substitui a agressão direta da obra dos anos 1970, por uma poderosa alegoria: o mito de que homens adoecem ao serem olhados com desejo por pessoas queer. A invenção de uma enfermidade transmitida pelo olhar ecoa diretamente o pânico moral que cercou a epidemia de HIV/AIDS nos anos 1980, quando o simples contato com corpos LGBTQIA+ passou a ser tratado como ameaça. Em ambos os casos, o preconceito nasce da tentativa desesperada de controlar aquilo que não pode ser domesticado: o desejo.
Quase cinquenta anos separam as duas obras, mas a sensação é de continuidade histórica. "O Lugar sem Limites" abriu caminhos ao confrontar de forma inédita o machismo estrutural latino-americano e colocar uma travesti no centro de sua narrativa. "O Olhar Misterioso do Flamingo" amplia esse legado ao incorporar realismo mágico, memória da AIDS, infância e poesia visual sem abandonar o compromisso político com a dignidade de corpos marginalizados.