sexta-feira, 9 de outubro de 2026

FESTIVAL DO RIO 2026: COWARD

 

"Covarde", de Lukas Dhont, é ambientado em 1916, e acompanha Pierre, um jovem soldado que, ao se afastar temporariamente das trincheiras, conhece o artista Francis. Juntos, eles trabalham em uma revista teatral para elevar o moral das tropas, o que desencadeia uma história de amor homossexual e clandestina em meio aos horrores da Primeira Guerra Mundial. O longa estreou no Festival de Cannes de 2026, onde ganhou o prêmio conjunto de Melhor Ator aos protagonistas Emmanuel Macchia e Valentin Campagne, e, foi escolhido como o representante da Bélgica no Oscar de 2027. Covarde (Coward, Bélgica/França/Holanda, 2026)  por Egídio La Pasta

Homens diante de seus próprios limites, em um cenário de guerra, no qual demonstrar sentimentos pode ser tão difícil quanto enfrentar o inimigo. Qualquer sentimento. Seja o desespero diante da situação que parece sem fim. Quanto o medo diante da morte. Ou o desespero da dúvida sobre o dia seguinte. Ou o amor por outro homem. A guerra erradica os sentimentos, demole a emoção, aniquila o afeto.  

​Os combates aqui não funcionam como pano de fundo. Ele é o ambiente integral: thrown/inóspito, cheio de escombros, explosões, desespero. Ao redor há medo, solidão, pavor. Encontrar qualquer tipo de carinho num ambiente como esses parece incompatível. Parece uma traição ao propósito da luta. Desertar. Mais do que acompanhar os acontecimentos no campo de batalha, o filme observa os personagens, especialmente quando precisam esconder suas fragilidades para corresponder à imagem de coragem que se espera deles. Meninos. Sem vida vivida. Sem tempo de estrada. Com uma serie de infinitos desejos inéditos, sonhos em construção, pontes para atravessar. À deriva.  


​Não há delicadeza na violência. Ela determina as regras. Os pequenos gestos de aproximação ganham dimensão especial entre dois dos soldados. É como se, por alguns instantes, conseguissem escapar da realidade. Com interesse um pelo outro. Curiosidade. Algum carinho confuso, constantemente ameaçado pelas convenções sociais e pela dificuldade de compreender a profundidade do que isso representa. Ali, entre 1914 e 1918. O teatro dos rejeitados, os soldados que não servem mais para a guerra, parece dar rumo a liberdade de Francis. E se apresenta a Pierre, de maneira gradual. A expressão artística suspende a guerra para eles por alguns segundos.  

​Como a masculinidade, o desejo e a farda conseguem, na representação desses dois rapazes, criar raízes profundas, para além da guerra, apesar dela. Existe uma contradição permanente entre o que sentem e o que precisam aparentar ser diante dos outros. O uniforme não representa apenas a condição de soldados, mas também um conjunto de regras que determina como devem se comportar, sentir e esconder suas próprias vulnerabilidades. O ambiente parece tornar tudo ainda mais urgente, mais cruel. A possibilidade dos sentimentos criarem raízes, diante de um cenário construído para, no mínimo, sufocá-los.  


​Gostei mais do que imaginei. Muito mais.


FESTIVAL DO RIO 2026: FEITO PIPA E WHERE TO?

Feito Pipa

Aclamado nos festivais de Berlim e Gramado, "Feito Pipa", do diretor Allan Deberton, é o representante oficial do Brasil na corrida pelo Oscar 2027. Rodado no sertão do Ceará, o longa acompanha Gugu, um garoto de 11 anos apaixonado por futebol, dança e maquiagem. Criado com liberdade pela avó, ele esconde o avanço do Alzheimer dela para não perder sua autonomia e ser obrigado a viver com o pai intolerante.

"Where to?", longa de estreia do diretor Assaf Machnes, utiliza a cabine de um carro para mapear as dores do exílio e do conflito no Oriente Médio. A trama acompanha um motorista palestino cuja rotina muda ao longo de dois anos após corridas com um jovem turista israelense, transformando o choque geopolítico em uma sensível relação de afeto.

Feito Pipa (Brasil, 2026)
por Egídio La Pasta

Yuri Gomes é um acontecimento. Que seja um ator com uma carreira bonita e generosa pela frente.

Allan Deberton transforma a infância de Gugu em um delicado território de descobertas, afetos e medos. Criado pela avó Dilma (Teca Pereira, espetacular) no interior do Ceará, o menino encontra nela a liberdade para gostar de futebol, dançar e se expressar sem precisar caber nas expectativas dos outros. Quando a saúde da avó começa a se deteriorar, o medo de perdê-la se mistura à possibilidade de ter que morar com o pai (Lázaro Ramos, ótimo), com quem mantém uma relação difícil. Crescer é também enfrentar um mundo que talvez não esteja disposto a aceitá-lo como ele é. Mundo e pessoa. Pessoa e mundo.

O que me parece tocante é a maneira como o amor entre avó e neto se constrói nos pequenos gestos, nos detalhes de como ela abraça a liberdade do menino e está sempre disposta ao amor. A barragem que revela uma cidade esquecida, distante, parece acompanhar esse movimento da memória, trazendo à superfície aquilo que o tempo suprimiu. É bem leve quando aborda o preconceito e amadurecimento, mas muito certeiro quando lembra que a infância deveria ser um espaço de liberdade, nunca de medo. A tal da pipa que insiste em voar, apesar dos ventos contrários.

Where To? (Israel/Alemanha/França, 2026)
por Egídio La Pasta

Eu costumo recorrer à sinopse porque muitas vezes eu encontro algo que eu não consegui captar. Aqui, um motorista palestino e um jovem israelense se cruzam durante algumas viagens de táxi por Berlim, em diferentes momentos. O passageiro é um homem gay. O tempo aqui, é também um personagem importante. Porque ele não constrói exatamente as relações, mas ele deixa marinar os pensamentos sobre algumas conversas entre eles dois.

Hassan percebe na juventude de Amir, o impulso do amor apaixonado, rasgado, disponível. E acende memórias do jovem que ele foi. Isso mexe intimamente com ele. Com a forma como ele lida com a sua vida, a sua família. A forma como ele rompe sua própria convenção de ser o homem que ele se deixou transformar, criando uma rede de afeto tão confortável como inexistente.


A troca entre eles é algo que parece se perder na tradução e no significado. A compreensão nem sempre é nítida, as intenções são. Dois homens cujas trajetórias são moldadas pelo exílio e pela urgência de se reinventarem em Berlim. Um, em movimento perpétuo numa estrada que não chega a lugar algum. O outro, que parece encontrar o grande amor, se perde de si mesmo, ainda mais estrangeiro.

É bonito demais!


Where To?

Primeiras Impressões sobre AMORA, de JULIANA ROJAS

Em “Tia Marga”, episódio de abertura da série “Amora”, Juliana Rojas encontra uma situação que parece ter sido inventada por alguém com um senso de humor bastante particular: duas mulheres aguardam o nascimento do primeiro filho enquanto participam do velório de uma parente. Tereza (Bruna Linzmeyer) e Daniela (Ana Hikari) estão prestes a começar uma família, mas a chegada do bebê vem acompanhada de dúvidas, segredos e inseguranças que a presença dos parentes só faz aumentar. Entre flores, despedidas e conversas atravessadas, o luto se mistura à expectativa de uma nova vida. A morte está na sala, o nascimento se aproxima e ninguém parece ter um manual para lidar com nenhum dos dois. É desse desconforto, tão reconhecível quanto absurdo, que o episódio extrai boa parte de seu humor.

A questão da dupla maternidade dá à história um peso que ultrapassa as ansiedades comuns de quem espera um bebê. Daniela está gestando a criança, mas o reconhecimento das duas como mães não é tratado como uma consequência automática do amor que compartilham. Existe uma insegurança jurídica que acompanha o casal e expõe o quanto famílias LGBTQIA+ ainda precisam pensar em direitos que muitos casais heterossexuais consideram garantidos.

Bruna Linzmeyer, figura importante para a representação LGBTQIA+ no audiovisual brasileiro, e Ana Hikari formam um casal cuja intimidade não depende de grandes declarações. O que interessa é a maneira como cada uma administra as próprias inseguranças, inclusive os segredos que podem abalar a relação num momento já suficientemente delicado. O encontro familiar no velório abre espaço para comentários, constrangimentos e pequenas disputas, enquanto o episódio evita apresentar a família tradicional como um bloco homogêneo de vilões.

“Amora” tem sotaque gaúcho, não apenas na maneira como suas personagens falam, mas na textura cotidiana que envolve a história. A direção de arte de Juliana Lobo contribui para esse ambiente, dando materialidade ao espaço doméstico e ao ritual do velório. O cenário fúnebre poderia facilmente engolir o episódio, mas Rojas encontra nele um lugar de convivência, observação e até humor.

A adaptação do livro homônimo de Natalia Borges Polesso também abre uma perspectiva promissora para a antologia. Vencedor do Prêmio Jabuti em 2016, “Amora” reúne narrativas sobre diferentes formas de amar entre mulheres, com personagens que atravessam descoberta, preconceito, desejo, envelhecimento e liberdade. A série parte desse universo para apresentar casais de idades e trajetórias distintas na cidade fictícia que lhe dá nome.

Como primeiro contato com a série, “Tia Marga” deixa uma impressão calorosa justamente porque não exige que suas personagens representem uma comunidade inteira. Elas podem ser engraçadas, contraditórias, assustadas e até um pouco egoístas. Podem esconder coisas uma da outra e discutir no momento menos conveniente. O episódio entende que ampliar a representação queer também significa permitir que essas mulheres tenham uma vida cotidiana, com os embaraços e as pequenas crueldades que pertencem a qualquer relação. Há uma boa ironia em colocar o nascimento iminente de uma criança no centro de um velório, mas a graça não apaga o que está em jogo: quem pode ser reconhecida como família, quem tem o direito de cuidar e quais garantias ainda faltam para que o amor não dependa apenas da boa vontade dos outros.

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

FESTIVAL DO RIO 2026: A MARGEM DO RIO

"A Margem do Rio", der Matheus Farias e Enock Carvalho, foi ganhadora do Prêmio Especial do Júri no Festival de Cinema de Locarno, na Suíça. A obra segue Izaquiel (Caique Copque), um jovem que trabalha como auxiliar de serviços gerais em Recife. À noite, ele costuma frequentar os manguezais da cidade em busca de encontros sexuais secretos. Sua vida muda drasticamente ao conhecer Jeremias (Ítalo Martins), um pescador misterioso. Quando uma onda de violência e ameaças externas invade a região, Jeremias guia Izaquiel em uma jornada tensa pelas profundezas do manguezal, onde o desejo, a religiosidade e o mito se misturam.


A Margem do Rio (Brasil, 2026)
por Egídio La Pasta

É um mergulho em águas profundas e turvas. Que exige aceitar alguns códigos, sobretudo na reta final, onde o filme parece romper com alguns signos, me fazendo repensar de que talvez eu pudesse estar muito preso ao universo realista que ele imprime tão bem.


Izaquiel, um jovem gay, trabalha como auxiliar de serviços gerais em Recife e enfrenta diariamente o cerco dos seus contratantes. Ele é transferido para uma igreja evangélica, numa última tentativa de mantê-lo na empresa.

Enquanto o dia exige discrição para sobreviver nesse ambiente, a noite o leva para o manguezal. É na lama e na penumbra que ele busca encontros sexuais e encontra Jeremias, um pescador enigmático. Arrisco dizer que ele não busca apenas o sexo. Mas algum tipo de conexão com a floresta, com o rio, com a natureza, que parece chamá-lo. Quando a violência externa invade a intimidade desse refúgio, ele tenta preservar não só esse lugar tão importante para sua conexão com a sua essência, mas a sua identidade.


Há suspense, erotismo e realismo mágico (embora eu tenha demorado a compreender), transformando o próprio mangue em um personagem sufocante e acolhedor ao mesmo tempo. É um filme quase sensorial sobre existir à margem, muito direto no ponto, onde essa igreja radical, que tenta curar o que não precisa de cura (e tenho visto cada vez mais isso), exerce um personagem crucial no roteiro.

Implico com o final, mas gosto demais de como Izaquiel traça suas relações, de como ele parece estar numa investigação profunda sobre quem ele é, disponível para a sua intuição, desfrutando da sua beleza e juventude, mas ciente de que esse mundo é um lugar filho da puta.


Todas as atrizes trans que dividem o apartamento e a vida com ele são maravilhosas.

London (Brasil, 2026)

Se em “Ato Noturno”, de Marcio Reolon e Filipe Matzembacher, Porto Alegre é uma femme fatale, sedutora, noturna, perigosa, em “London”, de Victor Di Marco e Márcio Picoli, ela assume outra personalidade, mas continua sendo personagem. A capital gaúcha aparece no apartamentos, ruas, interiores e espaços de desejo que não servem apenas para descentralizar a história, mas ajudam a desenhar o estado emocional de London (Victor Di Marco), jovem com deficiência que trabalha realizando performances eróticas em um “inferninho” de fetiches. Quando surge a possibilidade de descobrir, por meio de um exame médico, a origem e o futuro de sua condição, ele se vê diante de uma pergunta que parece objetiva, mas mexe com tudo: até que ponto saber o que acontece com seu corpo significa permitir que outras pessoas decidam o que ele deve ser?

O filme recusa a imagem habitual da pessoa com deficiência como alguém a ser protegido, explicado ou transformado em exemplo de superação. London deseja, transa, trabalha, domina, se diverte, se irrita e se apaixona. Seu corpo não é apresentado como uma incógnita esperando por solução, mas como território de prazer, autonomia e contradição. O longa  evita determinar exatamente qual é sua condição, escolha que desloca a atenção do diagnóstico para a experiência. O Queer Lion, recebido em Veneza, reconheceu essa coragem de celebrar corpo, desejo e sexualidade fora das normas.

E “London” é muito sexy. Há nudez, fetiche, BDSM, corpos expostos e uma liberdade sexual que não aparece como provocação. O protagonista é bissexual e circula entre desejos por homens e mulheres sem transformar sua sexualidade em mais uma etiqueta burocrática. Existe, inclusive, uma relação especial com as mulheres que o cercam, uma espécie de acolhimento que lhe oferecem uma segurança afetiva que nem sempre encontra em outros lugares. Mas, por baixo de toda essa superfície, há uma história sobre solidão. O sexo não elimina o isolamento. O fetiche não resolve a necessidade de afeto. Ser desejado não significa necessariamente se sentir compreendido. 

A presença de Victor Di Marco diante da câmera dá outra camada para a experiência. O ator, roteirista e diretor compartilha com o personagem uma vivência de deficiência, mas “London” não precisa ser lido como autobiografia para que essa proximidade produza efeito.  O filme sabe que existe uma diferença enorme entre falar sobre um corpo e permitir que esse corpo fale por si. 

O longa também funciona como uma expansão de “ZAGÊRO”, premiado curta anterior dos diretores que já investigava a ideia de normalidade e o lugar de corpos que escapam dela. Aqui, essa pesquisa encontra tempo para respirar, errar, desejar e se contradizer. E a fotografia do talentoso Bruno Polidoro é fundamental nesse processo. Porto Alegre surge vívida, pulsante, às vezes acolhedora, às vezes estranha, enquanto o apartamento de London, no centro, funciona como uma extensão de seu mundo interior, quase um microcosmo onde independência, desejo e solidão convivem sem muita organização. A imagem não está simplesmente ilustrando o personagem, está dando uma textura própria à experiência dele.

Há ainda Londres, a cidade que dá nome ao protagonista e que, quando finalmente entra no horizonte do filme, ganha um peso simbólico bonito. Não é apenas uma viagem ou um destino geográfico, mas a possibilidade de imaginar uma existência para além das fronteiras que os outros estabeleceram. Depois de passar boa parte da história sendo observado, examinado, desejado, interpretado e classificado, London precisa decidir o que fazer com aquilo que descobriu sobre si mesmo. E essa é uma questão que ultrapassa a deficiência. “London” entende que a verdadeira liberdade não está em negar o diagnóstico, mas em impedir que ele se transforme na biografia inteira de uma pessoa.

Carrie, a Estranha (Carrie, Canadá, 2026)

Talvez o maior desafio de adaptar “Carrie” hoje seja o fato de que todo mundo já sabe como a história termina. O sangue no baile, a vingança, a mãe fanática, a garota humilhada e os poderes telecinéticos fazem parte de um imaginário tão conhecido que seria quase impossível competir com a memória de Brian De Palma. Mike Flanagan encontra outra saída: em vez de correr para o baile, ele fica. Sua “Carrie” tem oito episódios para olhar para os corredores da escola, para os professores, para os pais, para os alunos que praticam o bullying e até para aqueles que simplesmente assistem. O universo de Stephen King se expande para os lados, e Carrie White (Summer H. Howell) deixa de ser apenas o centro de uma tragédia para se tornar parte de uma comunidade inteira que está, de diferentes maneiras, produzindo aquela tragédia.

A estratégia funciona especialmente bem com a malvada e popular Chris Hargensen (Alison Thornton), que ganha um desenvolvimento muito maior e se aproxima de uma versão mais sombria da Regina George. Chris continua sendo cruel, mas Flanagan investiga de onde vem essa crueldade, sua situação familiar. Não chega a existir uma tentativa de absolvê-la, e ainda bem. Algumas pessoas fazem coisas terríveis mesmo quando também estão sofrendo. A diferença é que agora conseguimos enxergar as rachaduras. Sue Snell (Siena Agudong), Tina (Josie Totah), Emaline (Thalia Dudek), os professores e o diretor Grayle (Matthew Lillard) também ganham espaço nessa espécie de retrato coletivo da adolescência.

O cyberbullying atualiza o horror de maneira eficiente. A humilhação de Carrie não termina no vestiário: ela é filmada, compartilhada e transformada em perfil fake. Uma vez publicada, a crueldade passa a ter vida própria. Flanagan ainda aproxima o ambiente escolar do medo dos ataques armados e dos simulados de atirador, lembrando que o terror adolescente contemporâneo não precisa de telecinese para produzir pânico. A crítica ao sistema educacional é discreta, mas existe na dificuldade dos adultos em perceber o que acontece diante deles e na maneira como a instituição tenta administrar sintomas quando deveria estar olhando para as causas. 

A mãe, Margaret White (Samantha Sloyan), se beneficia da expansão. Flanagan não diminui seu fanatismo religioso, mas permite que ela seja também mãe, mulher assustada e alguém profundamente convencida de que está protegendo a filha do mundo. Existe uma tristeza perturbadora nessa relação, porque Margaret ama Carrie de uma maneira que a destrói. E Sloyan encontra um equilíbrio excelente entre o grotesco e o doloroso. Summer H. Howell acompanha esse movimento com uma atuação impressionante, construindo uma Carrie inicialmente curiosa, doce e até encantada pela possibilidade de conhecer o mundo.


Existe uma leitura queer inevitável nessa nova “Carrie”, não apenas porque o elenco reúne artistas LGBTQIA+ e não binários, mas porque a série continua orbitando corpos que não se encaixam nas expectativas de uma comunidade determinada a puni-los por isso. A presença de Josie Totah, mulher trans, e Thalia Dudek, pessoa não binária, é especialmente significativa, enquanto Tim Bagley encontra em Peter Morton um dos personagens mais humanos da série, um conselheiro que consegue estabelecer com Carrie uma conexão através da literatura.

A própria trilha sonora, com artistas como Paris Paloma, The Last Dinner Party, Mallrat, Lana Del Rey e Haute & Freddy, cria uma paisagem sonora muito mais próxima de uma juventude contemporânea, estranha, ansiosa e pouco interessada em caber perfeitamente nas categorias que recebeu. Não é preciso transformar “Carrie” em uma alegoria queer para perceber como sua história conversa com experiências de isolamento, repressão, vergonha e desejo de pertencimento.

A série me pegou mais pelo caminho das cicatrizes do que pelo susto. O clima é construído aos poucos e, embora Flanagan não realize grandes revoluções estéticas a cada episódio, existe uma segurança na maneira como ele deixa a tensão se acumular até que certas imagens conhecidas adquiram outro peso. A evocação de figuras como Joana d'Arc reforça essa ideia de uma garota transformada em símbolo, bruxa, santa ou monstro conforme o olhar de quem conta sua história.

“Carrie” sempre foi uma narrativa sobre o que acontece quando uma sociedade decide que determinada pessoa é estranha demais para pertencer. Flanagan atualiza as ferramentas dessa exclusão, amplia quem participa dela e, ao fazer isso, devolve à personagem alguma coisa que as adaptações anteriores inevitavelmente precisaram sacrificar: tempo para ser simplesmente uma garota antes de se tornar uma lenda. O sangue continua vindo. Mas, desta vez, conhecemos muito melhor as pessoas que ajudaram a derramá-lo.

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

O Gesto Entre Nós (Brasil/França/Portugal, 2026)

Há filmes que registram uma trajetória e há filmes que, sem perceber, acabam registrando o tempo. “O Gesto Entre Nós” pertence um pouco às duas categorias. Roberto Bomtempo acompanha a história da Cia. Dos à Deux a partir de quase três décadas de imagens feitas pelos próprios André Curti e Artur Luanda Ribeiro, companheiros de vida e de criação desde o encontro em Paris, em 1997. O material poderia render apenas uma retrospectiva sobre uma companhia brasileira de teatro gestual que chegou a mais de 50 países. Mas existe alguma coisa mais íntima escondida nessas imagens: jovens artistas ainda descobrindo uma linguagem, dois homens construindo uma relação de amor, viagens, ensaios, palcos e, entre uma coisa e outra, a vida acontecendo. 

A Dos à Deux nasceu em 1998, a partir de uma pesquisa inspirada em “Esperando Godot”, de Samuel Beckett, e encontrou muito cedo uma identidade própria ao transformar gesto, movimento, imagem e fisicalidade em dramaturgia. É curioso perceber como essa escolha estética também parece contaminar a relação dos dois. Eles fazem teatro sem depender da palavra e, durante boa parte da vida, parecem ter encontrado no corpo uma forma de comunicação que o documentário tenta recuperar.

Embora Bomtempo não precise ficar apontando para o aspecto queer com uma seta luminosa, pois ela é completamente natural, ela impregna o filme. André e Artur são um casal há quase três décadas, e essa informação não aparece como parte orgânica de uma vida compartilhada. Isso é significativo. Durante muito tempo, histórias de artistas LGBTQIA+ precisaram justificar sua existência pela violência, pelo preconceito ou pela ruptura. Aqui, a experiência está também naquilo que se constrói: uma casa, uma companhia, uma obra, viagens, escolhas profissionais, crises e permanências. 

O arquivo é provavelmente o grande personagem do filme. São imagens acumuladas durante anos pelos próprios artistas, antes mesmo de existir a intenção de transformá-las em documentário. Isso dá ao material uma espontaneidade que uma reconstituição jamais conseguiria reproduzir. Bomtempo levou nove anos para concluir o projeto, trabalhando sobre quase três décadas de vida registrada. Quando as imagens antigas encontram as filmagens atuais realizadas no Brasil, na França, em Portugal e na Coreia do Norte, o que aparece não é apenas a evolução da companhia, mas a transformação física de seus criadores. Os corpos que antes se lançavam ao palco com vigor agora carregam história.

Por seguir uma estrutura documental bastante tradicional, “O Gesto Entre Nós” nem sempre encontra a mesma inventividade formal da companhia que retrata. Existe uma certa segurança na maneira de organizar depoimentos, imagens de arquivo, trajetória profissional e registros atuais. Em alguns momentos, gostaria que o filme confiasse mais no próprio material, porque aquelas imagens antigas já possuem uma força extraordinária e não precisam ser constantemente explicadas.


Ney por trás das Máscaras (Brasil, 2026)

"Ney por Trás das Máscaras” é sobre alguém que passou a vida inteira demonstrando que a máscara pode ser justamente o lugar mais verdadeiro de uma pessoa. Ney Matogrosso não construiu sua imagem pública apesar da fantasia, da maquiagem, das plumas, dos gestos e da voz inconfundível Foi através deles. Um ano depois de “Homem com H”, Esmir Filho retorna ao artista, agora aos 85 anos, em um documentário que troca a cinebiografia pela observação do presente. O pretexto é o desfile da Imperatriz Leopoldinense no Carnaval de 2026, que homenageou Ney com o enredo “Camaleônico”, mas o filme logo percebe que a avenida é apenas uma das máscaras possíveis. Entre o café da manhã, os exercícios, a fazenda, os bastidores do show e os encontros no barracão da escola, surge um Ney menos monumental, embora nunca exatamente comum.

A proposta tem algo de delicado e também de perigoso. Afinal, o que significa mostrar a intimidade de alguém que fez da exposição uma arte e da preservação de si mesmo uma espécie de método? Esmir filma Ney tomando café, conversando, circulando pela Imperatriz, lidando com a morte da mãe, Beita de Souza Pereira, e até nu, depois do banho. O corpo que durante décadas foi transformado em instrumento de provocação aparece agora sem figurino, sem palco e sem a necessidade de produzir impacto. Mas o curioso é que a nudez não parece ser o momento de maior vulnerabilidade. Ney pode tirar a roupa diante da câmera sem necessariamente entregar aquilo que considera mais protegido. A nudez, para ele, nunca foi exatamente um problema. O difícil parece ser outra coisa: deixar alguém chegar perto demais.

É aí que “Ney por Trás das Máscaras” encontra sua questão mais forte. Esmir diz querer discutir o papel libertador da máscara, como manifestação dos instintos e desejos, e o filme acaba fazendo isso quase contra a própria ideia de um documentário revelador. Gilberto Gil resume a contradição ao dizer que gostaria de ter a capacidade de Ney de “mascarar e desmascarar tantas coisas”. Ney sabe que a imagem é uma construção, mas não parece interessado em abandoná-la. Pelo contrário, ele a manipula, brinca com ela, troca de pele. 

O Carnaval oferece a Esmir uma metáfora que quase se escreve sozinha. Enquanto a Imperatriz monta carros, fantasias e alegorias para transformar Ney em festa popular, o próprio artista revisita as diferentes personas que construiu ao longo de décadas. Há uma beleza particular em vê-lo no barracão, entre costureiras e trabalhadores, observando a fabricação de uma imagem que, naquele momento, já não pertence apenas a ele. Ney virou personagem de uma escola de samba, depois de ter passado a vida transformando-se em personagem de si mesmo. .


Mas, a intimidade aqui é menos cinematograficamente delirante e mais doméstica. Café, academia, camarim, fazenda, barracão. O material é precioso, mas nem sempre produz uma descoberta. Em alguns momentos, o filme parece querer abrir muitas portas ao mesmo tempo, e por isso não consegue permanecer tempo suficiente diante de nenhuma delas.

“Ney por Trás das Máscaras” não consegue desmontar completamente seu personagem porque talvez Ney Matogrosso seja alguém que aprendeu há muito tempo a decidir o que pode ser visto. O próprio artista admite, perto do final, que é emocionalmente travado, que se segura firme. A frase reorganiza tudo o que veio antes. A máscara não está apenas no rosto, na roupa ou no palco. Ela também está no controle do que se entrega ao outro.

terça-feira, 6 de outubro de 2026

One dances, the other doesn't (Die Eine tanzt, die Andere nicht, Alemanha/Espanha/Suíça, 2024)

Em “One Dances, the Other Doesn’t”, Tirza (Tirza Ben Zvi) engravida por acidente, ela está prestes a abortar e recebe da melhor amiga Dani (Daniela Castillo Toro) uma sugestão que parece saída de uma conversa às três da manhã: em vez de interromper a gravidez, por que não criar a criança juntas, ao lado de Reta (Anngret Schultze), namorada de Dani? A diretora Emilie Girardin observa o desconforto de pessoas inteligentes tentando descobrir se uma ideia bonita também pode funcionar na vida real.

A referência a Agnès Varda está estampada no título, mas Girardin não se limita a prestar uma homenagem cinéfila elegante. Se “Uma Canta, a Outra Não” usava a amizade entre duas mulheres para atravessar aborto, maternidade e autonomia corporal, “One Dances, the Other Doesn’t” leva a conversa para um terreno ainda mais bagunçado: e se o problema não for apenas decidir o que fazer com uma gravidez, mas descobrir quem tem o direito de fazer parte da vida que vem depois dela? A proposta de Dani desafia uma convenção bastante arraigada, inclusive dentro de relações queer: a ideia de que a família pode ser escolhida, sim, desde que continue parecendo suficientemente com uma família.

O filme fica particularmente interessante quando percebe que nenhuma utopia afetiva sobrevive intacta ao cotidiano. Tirza é dançarina e está tentando conseguir trabalho enquanto encara a gravidez; Dani e Reta desejam uma criança, mas descobrem que querer uma família não significa necessariamente saber dividir espaço, afeto, responsabilidade ou poder. O que começa como gesto de generosidade pode rapidamente adquirir outro peso: afinal, até onde vai a solidariedade de uma amiga e onde começa a apropriação de uma decisão que continua pertencendo ao corpo de outra pessoa?

O filme nasce de um processo coletivo de improvisação no qual o elenco ajudou a construir personagens e diálogos, antes que esse material fosse condensado em roteiro. Tirza Ben Zvi, que interpreta uma personagem com seu próprio nome e é de fato dançarina, acrescenta ao filme uma fisicalidade impossível de fabricar apenas no papel. Seu corpo é simultaneamente ferramenta de trabalho, objeto de desejo, alvo de decisões médicas e lugar onde todos ao redor parecem querer inscrever algum projeto de futuro.

“One Dances, the Other Doesn’t” não tenta resolver o futuro para ninguém. Sua política está menos nas respostas do que na disposição de levar a sério uma pergunta que o cinema costuma tratar como piada, fantasia ou problema: quem pode ser família? Girardin olha para a amizade sem transformá-la numa versão aguada do romance e para a maternidade sem fazer dela um destino inevitável. E, ao contrário de muito cinema queer que anuncia novas formas de viver antes mesmo de seus personagens terem tempo de experimentá-las, aqui existe uma bagunça saudável. Pessoas se amam, se irritam, fazem propostas absurdas, recuam, tentam novamente.

Karl (Reino Unido, 2025)


Karl Lagerfeld passou décadas transformando a própria imagem em uma instalação de arte. O cabelo branco preso em rabo de cavalo, os óculos escuros, as luvas, o colarinho alto e a postura quase aristocrática fizeram dele uma das figuras mais reconhecíveis da moda, mesmo para quem jamais acompanhou uma coleção de Chanel ou Fendi. Nick Hooker tenta investigar em “Karl”, documentário que percorre sete décadas da trajetória do estilista, de sua infância na Alemanha à transformação em uma espécie de celebridade permanente da cultura pop. Baseado na biografia “Paradise Now”, de William Middleton, o filme reúne imagens de arquivo, entrevistas com colaboradores e depoimentos de nomes como Tilda Swinton, Tom Ford e Penélope Cruz. O problema é que Lagerfeld passou tanto tempo interpretando Karl Lagerfeld que talvez não exista uma separação tão simples entre personagem e pessoa.

Como panorama da carreira, o documentário é bastante eficiente. Hooker entende que contar Lagerfeld significa também contar uma parte importante da transformação da moda em espetáculo midiático. Sua passagem por Chloé, a recuperação da Chanel a partir de 1983, o trabalho simultâneo para diferentes marcas, a criação da própria grife e a capacidade de transformar um desfile em acontecimento cultural aparecem como capítulos de uma trajetória marcada por uma curiosidade quase compulsiva. O desfile da Chanel transformado em supermercado, as campanhas publicitárias, a colaboração com a H&M e a própria presença constante de Lagerfeld diante das câmeras mostram um homem que compreendeu muito antes de seus contemporâneos que um estilista também poderia ser uma marca, um personagem e uma celebridade.

Mas é quando “Karl” se aproxima da intimidade que sua proposta fica mais interessante e, ao mesmo tempo, mais incompleta. Lagerfeld era gay e Jacques de Bascher foi o grande amor de sua vida, uma relação que atravessou décadas e terminou com a morte de Jacques por uma doença relacionada à AIDS, em 1989. O documentário reconhece a importância desse relacionamento e encontra nele uma chave para compreender a solidão do estilista, mas não mergulha profundamente nas contradições dessa vida afetiva. 

Esse paradoxo é o verdadeiro assunto de “Karl”. O filme começa com a promessa de revelar quem estava escondido atrás dos óculos escuros, mas quanto mais pessoas falam sobre Lagerfeld, mais ele parece escapar. Tilda Swinton, Tom Ford e outros admiradores oferecem versões diferentes do mesmo homem: genial, engraçado, cruel, generoso, controlador, infantil, sofisticado, solitário. Os colaboradores que trabalharam durante décadas com ele são, curiosamente, mais reveladores do que as celebridades convidadas a celebrar sua genialidade. 

O problema é que essa admiração também suaviza aspectos que deveriam provocar maior desconforto. Lagerfeld foi responsável por uma série de declarações e posições controversas, especialmente sobre corpos gordos, mulheres, imigração e o movimento #MeToo. “Karl” faz referências muito rápidas a algumas dessas controvérsias, mas não parece interessado em confrontar seriamente a relação entre seu poder, sua influência e aquilo que suas palavras produziram. Como separar o homem que desafiava convenções na moda do homem que também reproduzia preconceitos bastante convencionais? 

“Karl” não decifra Karl Lagerfeld. O documentário é elegante, movimentado e visualmente sedutor, e funciona muito bem como introdução à trajetória de um dos personagens mais influentes da moda contemporânea. Mas a tentativa de encontrar o homem por trás da máscara acaba revelando algo mais curioso: a máscara era parte inseparável daquele homem. Sua sexualidade, sua relação com Jacques, sua solidão, sua obsessão pelo trabalho e sua necessidade de controlar a própria imagem formam um personagem que talvez tenha sido deliberadamente impossível de capturar. Hooker chega perto, encontra algumas fissuras e olha através delas, mas Lagerfeld continua escapando.


FESTIVAL DO RIO 2026: ANIMOL

Enjaulados (Animol, Reino Unido, 2026) por Egídio La Pasta

Ele me lembra de outros filmes com essa temática, mas é muito interessante como esse pensamento se dissipa rapidamente. Não é um filme de observação, eu me senti detido junto do protagonista. Troy é preso numa instituição para jovens infratores pouco mais do que dois meses. Como sobreviver nesse ambiente? Como driblar as relações com os chefões do lugar? Como disfarçar quando há um afeto imediato e inesperado por um dos presos, que corresponde?

A aproximação entre os rapazes nunca romantiza o encontro e não se deixa explorar a intimidade dos personagens de forma gráfica; pelo contrário, o afeto entre eles é tratado pela frágil observação silenciosa, cercado por arames farpados. Tudo é meado pelo ambiente hostil, onde pequenos gestos de carinho precisam ser controlados. Não é um ambiente para a ternura. Zelo, talvez.

Eu gosto quando ele transcende as expectativas do subgênero de filmes sobre reformatórios. Quando ele insere a mãe, numa relação complicada com o protagonista. E acho interessante a composição desse cenário, na representação dos diferentes tipos de transformações que os presos causam uns nos outros. Seja pela experiência dos que já comandavam o lugar. Seja pela necessidade de adaptação e sobrevivência diante das inúmeras violentas situações que aparecem pelo caminho.


O elenco é espetacular.

Há respiro. Mas é um caminho conturbado.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

FESTIVAL DO RIO 2026: FUNK

“Funk” de Aly Muritiba, acompanha os passos e a ascensão de MC Sabrina (interpretada por Duda Santos), uma jovem artista queer criada no Morro dos Prazeres, em Santa Teresa (Rio de Janeiro), que busca conquistar seu espaço no competitivo circuito dos bailes de favela e na indústria musical.A trama explora a fundo os desafios enfrentados pela protagonista na busca por autonomia de sua música, de seu corpo e de sua identidade

Funk (Brasil, 2026)
por Egídio La Pasta

Quero dizer antes de tudo que a Duda Santos merece todos os prêmios por essa performance. MC Sabrina entende o funk como uma forma visceral de expressão, como mulher, como alguém que é livre e dona de si, irredutível na forma como deseja ser tratada, exigindo mais do que reconhecimento, oportunidade. É uma mulher que saboreia a juventude, a possibilidade, a beleza, o talento e a obstinação de melhorar de vida através da sua arte.

Quando a roda gira e ela atinge o ápice da carreira, uma corrida de obstáculos que questionam sua identidade, balança a estrutura, onde novos dilemas sacodem sua nova realidade: o preço de chegar ao topo vale a perda daquilo que a tornou autêntica? A nova vitrine exige que ela se despoje de suas origens, amacie seu discurso e esterilize sua imagem para caber nos padrões industriais. E aí, qual vai ser?


Eu gosto tanto do Aly Muritiba. A fotografia do Inti Briones é linda não só no recorte do Rio de Janeiro, mas nos bailes e sobretudo no grupo de atrizes e atores. Duda Santos, o pilar, a alma da porra toda, a marra em forma de dedo na cara, a delicadeza de quem entende a engrenagem, mas a ferocidade de quem sabe o que quer. É um negócio de louco o que ela faz aqui.


FESTIVAL DO RIO 2026: LA BOLA NEGRA

La Bola Negra(Espanha/França, 2026) por Egídio La Pasta

Há em mim, desde os anos 1990, um pesar profundo sobre o tanto de vidas perdidas pela AIDS. Provavelmente porque foi a epidemia mais violenta que eu presenciei no início da minha vida jovem, já me compreendendo um cara viado, o Tom Hanks definhando tomando vinho e ouvindo ópera, ganhando um oscar e milhares de pessoas morrendo, tendo suas vidas interrompidas. Gerações de atores, escritores, artistas de inúmeras áreas, cujas contribuições poderiam ser expressivas, plurais, inclusivas para o avanço e a permanência da cultura queer. Eu lamento tanto esse lapso, esse apagar de homens e mulheres, vozes, corpos, ideias, poesia. É importante repetir: a poesia.


Aqui, uma epopeia. Literal, esse abraço na palavra escrita, nos grandes feitos heroicos através da história, que insiste em erradicar, enterrar e assassinar a coragem. Existe um peso incomensurável nas coisas que o tempo decide deixar inacabadas. Eis uma tentativa de ecoar e honrar a continuidade dos afetos. Herdar a luta de gerações, muitas delas apagadas porque o amor entre homens era um ato de resistência quase suicida, se não houvesse cuidado e silêncio.


A narrativa se divide e se conecta através de três momentos cruciais da história espanhola, acompanhando personagens cujos destinos ecoam uns nos outros. E é delicioso quando os encaixes começam a dar forma e sentido às conexões, que começam 1932, 1937 (durante a Guerra Civil Espanhola) e 2017.

Em 1932, o filme captura a fragilidade de uma juventude que ousa sonhar em meio a estruturas sociais rígidas e castradoras, simbolizadas pela metáfora de uma votação secreta que dá nome à obra, onde bastava um único voto com a bola preta para banir a existência de alguém dentro daquele grupo. Anos mais tarde, em 1937, o cenário se corrói pelo fogo cruzado da Guerra Civil, transformando radicalmente a vida de Sebastián, onde o filme lindamente começa. Em 2017, essas histórias retornam, como uma herança familiar que liga os fios, que reconecta e acende todas as luzes sobre o passado. Sobre o amor. Sobre homens que amavam homens, apesar da guerra, dos destroços, dos horrores e corpos empilhados, do desespero e da falta de compreensão do mundo com as diferenças. Sempre houve uma brecha para o amor. Apesar do mundo.


É linda demais essa ideia da poesia como herança. Como algo que se resgata para que sobreviva ao tempo, para que não nos deixe esquecer do passado, de todos que vieram antes e lutaram e tentaram resistir aos absurdos do fascismo, autoritarismo, delírios de poder. É linda demais a ideia de exumar essas histórias, na tentativa de espelhar o passado nos dias de hoje. Ou o contrário. De conectar o tempo através do desenho do desejo homoafetivo através da palavra. De um papelzinho dobrado no bolso, escrito por um homem apaixonado. Por outro homem, desdobrando esse mesmo papel e encontrando, pela primeira vez na vida, um poema escrito para ele, sobre eles.

Você já se viu diante de palavras que mudaram a sua vida? Que romperam a barreira dos olhos e entraram na circulação e reviraram os sentidos, questionaram os significados, que sopraram a estrutura, que um milhão de coisas minhas que você jamais vai saber, que um milhão de coisas suas que eu jamais vou imaginar?

Lorca ficaria feliz, acho. Eu fiquei.

domingo, 4 de outubro de 2026

Elefantes na Névoa (Tinīharū, Nepal/Alemanha/Brasil/França/Noruega, 2026)

Em “Elefantes na Névoa”, Abinash Bikram Shah nos leva a um pequena comunidade rural do Nepal, um território de suspense, desejo e pertencimento. À noite, os moradores de uma vila cercada por uma floresta patrulham o entorno para afastar elefantes selvagens que ameaçam plantações e casas. Entre eles está Pirati (Pushpa Thing Lama), matriarca de uma comunidade Kinnar formada por mulheres trans que construíram entre si uma família baseada em laços escolhidos. Pirati, porém, sonha em abandonar aquela estrutura para viver com o homem que ama. O desejo de uma vida “normal” entra em choque com a responsabilidade de cuidar das mulheres que dependem dela quando Apsara (Aliz Ghimire), sua filha mais jovem, desaparece durante uma dessas rondas. O que começa como uma história de desaparecimento rapidamente se transforma em uma investigação sobre família, preconceito e as diferentes formas de abandono.

O filme não faz da comunidade Kinnar  um simples símbolo de resistência. Shah permite que suas integrantes tenham desejos contraditórios, briguem, façam sexo, se divirtam, cometam erros e também reproduzam hierarquias que as próprias personagens questionam. A família escolhida é, ao mesmo tempo, abrigo e estrutura de controle. Pirati exerce autoridade sobre suas “filhas”, mas também está submetida às tradições e expectativas de uma comunidade que encontrou maneiras próprias de sobreviver à exclusão. 


Pirati não está simplesmente lutando contra uma sociedade transfóbica, embora a violência externa seja uma presença constante. Ela também precisa negociar com as regras de sua própria comunidade e com a expectativa de que uma matriarca coloque sempre o coletivo acima de seus desejos individuais. Seu romance com o Mestre dos Tambores introduz uma possibilidade desconcertante: e se ela quiser deixar de ser a pessoa que cuida de todo mundo para cuidar de si mesma? 

A investigação pelo desaparecimento também serve para desmontar a aparente segurança da comunidade. Pirati precisa atravessar espaços onde as mulheres Kinnar são toleradas quando suas habilidades espirituais interessam aos moradores, mas marginalizadas quando deixam de ocupar o papel que lhes foi atribuído. A busca por Apsara expõe esse mecanismo de exclusão e faz com que o filme questione quem tem direito de ser considerado parte de uma comunidade. Ao mesmo tempo, Shah evita apresentar suas protagonistas como figuras puramente virtuosas. Existe conflito dentro da própria casa, e é essa imperfeição que torna a família escolhida mais convincente.

O filme encontra uma relação poderosa entre a névoa, a floresta e os corpos que tenta tornar visíveis. A fotografia de Noé Bach trabalha com uma paleta fria e desaturada, enquanto os planos abertos frequentemente diminuem Pirati e as outras mulheres diante da imensidão da floresta. À noite, tochas, fogos de artifício e sombras transformam as patrulhas contra os elefantes em uma espécie de ritual. A própria narrativa muda gradualmente de registro, passando de um retrato comunitário mais caloroso para um suspense noturno cada vez mais angustiante.

E há ainda Pushpa Thing Lama, cuja presença dá ao filme uma força extraordinária. Ativista Kinnar e estreante como atriz, ela interpreta Pirati sem transformar a personagem em monumento. Seu rosto concentra desejo, culpa, autoridade, medo e uma espécie de cansaço acumulado. A performance é particularmente forte porque Pirati nunca parece completamente certa sobre aquilo que deve fazer. Ela quer partir, mas procura Apsara. Quer amar, mas precisa liderar. Quer uma vida própria, mas também sabe que aquelas mulheres são sua família. “Elefantes na Névoa” poderia ter usado a história para oferecer respostas óbvias sobre identidade e pertencimento, mas prefere permanecer na contradição. Até os elefantes do título carregam essa ambiguidade: são temidos quando atravessam os limites impostos pelos humanos, embora tenham sido os humanos que invadiram seu território.


sábado, 3 de outubro de 2026

FESTIVAL DO RIO 2026: THE EDUCATION OF JANE CUMMING, A LONG WINTER, JIM QUEEN

 

por Egídio La Pasta The Education of Jane Cumming (Reino Unido/Alemanha/Suíça, 2026)

É um filme que expõe não só a homofobia que as professoras sofrem. Mas o racismo por Jane ser indiana. Sua avó não a suporta e a escola funciona como uma forma de fazer com que ela suma de vista.


1810 e a educação para as mulheres era questionada. Por que elas precisam aprender sobre borboletas? Um casal homoafetivo era tratado como algo sobrenatural. Após o julgamento, o caso foi tratado como segredo de justiça e ganhou um sigilo de cem anos.

Tem um lance bacana na atmosfera, que é o isolamento. A escola é distante. A casa é imensa. Elas parecem estar num universo à parte, onde vivem de acordo com as próprias regras, mesmo dentro de uma sociedade machista.


As atrizes estão muito bem, são temperamentos e personalidades muito distintas entre as protagonistas. As crianças criam uma unidade interessante e Fiona Shaw dá uma roubada de cena todo momento em que aparece.

A Long Winter (Reino Unido/Canadá, 2026)

Fazendo as pazes com o Haigh aqui, seu filme anterior, "Todos Nós Desconhecidos", é um filme que não aconteceu em nenhuma esfera comigo. Mas ele é um cara que sabe dissecar silêncios, dentro e ao redor das relações frágeis.

Adaptado do conto de Colm Tóibín, ele nos leva para o isolamento das montanhas rochosas nos anos 1950 para contar uma história onde o clima gélido de fora é só um reflexo do que os personagens carregam no peito. E é bem simples na dinâmica, dois irmãos, jovens adultos, pensando em sair de casa, uma cabana no meio da montanha e ir tentar a vida. E seus pais, a mãe (Caitríona Balfe maravilhosa), sufocada pelo lugar, pela rotina, pela vida e o pai (Ebon Moss-Bachrach, que também está em "The Man I Love"), um cara que construiu essa vida nesse lugar, sem ambição alguma sobre mudar o cenário, sem ser exatamente um brutamontes, mas que compreende seu machismo de maneira rotineira, natural.

Quando o mais novo (Kit Connor, olar) vai embora, o mais velho se encontra diante da herança da expectativa que o pai deposita sobre ele e a compreensão do sofrimento da mãe diante de uma vida toda construída através da aparência. Mike (Fred Hechinger) é um cara sensível, começando a entender seus desejos, de maneira muito sutil. Sua sexualidade é usada como um elemento da personalidade, embora sugerida em momentos específicos, não se sobrepõe a outros traços que também o definem.

A fotografia é um elemento importante, a imensidão sufocante das montanhas com a clausura daquela cabana isolada de tudo. E a investigação sobre dores profundas, luto e as expectativas sufocantes colocadas sobre os homens e mulheres daquela época. É um belo filme.


Jim Queen (França/Bélgica, 2026)

O traço é o máximo. E a velocidade das piadas também.

Imagine um cenário onde a única pandemia que importa não fecha comércios, mas ameaça extinguir o coração pulsante da comunidade queer de Paris. É com essa premissa absurda e deliciosamente provocativa que Jim Queen nos joga de cabeça no caos.

Cores vibrantes, referências pop de três em três minutos e um humor ácido. A história acompanha Jim, um influenciador narcisista e "rainha" incontestável da noite parisiense, que vê seu império desmoronar da noite para o dia por causa do Heterotopzis — um vírus misterioso que converte homens gays em héteros atordoados

O que poderia ser apenas uma piada de uma nota só, ganha fôlego graças ao roteiro esperto e a dinâmica improvável entre Jim e Lucien, um twink recém-assumido que embarca nessa jornada frenética em busca de uma cura.

A relação dos dois funciona como o coração do filme e por trás de todo o deboche, das críticas afiadas ao culto, fama nas redes sociais e da sátira aos modismos da militância contemporânea, existe uma discussão ali sobre pertencimento, ego e o medo de perder a própria identidade.

Rir de si mesmo é sempre um caminho que abre a estrada, desde sempre eu penso dessa forma. E no meio da loucura toda, é um filme sobre o afeto, o que deixa tudo muito mais interessante e divertido.

Eu tava um pano de chão no início da sessão de meia-noite, achei que não ia dar conta e dormir, mas ele é ágil, rápido, sem tempo morto e muito animado.