sexta-feira, 16 de outubro de 2026

MOSTRA SP 2026: ONDE REPOUSAR MEUS OLHOS E EKLIPSE

por Bruno Weber

ONDE REPOUSAR MEUS OLHOS (Nowhere To Lay My Eyes, Coréia do Sul, 2026) 

O cinema de Hong Sang-soo é composto de observações intimistas. O cineasta coreano parece não se importar com qualquer expectativa do que seria uma trama ou estrutura tradicional de roteiro, capturando uma realidade composta de sutilezas momentâneas e rotineiras. Seu filme mais recente, "Nowhere To Lay My Eyes", se aprofunda mais nessa abordagem, ao mesmo tempo em que a afronta ao seguir a perspectiva de uma cineasta amadora, alguém cujos instintos naturais é aplicar significados profundos às imagens.

Kim Min-hee interpreta Sanghee, que sai de Seul para visitar sua mãe, acompanhada do irmão Sangwon (Shin Seok-ho). A mãe, interpretada por Choi Myung-gil, vive na afastada Ilha de Jeju, onde ganha dinheiro com turismo e hospedaria. Além dos atritos básicos com a mãe, que critica desde a demora da filha em vir visitá-la até a falta de sucesso dela na carreira, Sanghee ainda precisa lidar com o novo namorado da mãe, interpretado por Kwon Hae-hyo. Todo o filme é estruturado quase como um documentário criado pela própria Sanghee, até mesmo com a narração que ela usa nos pequenos curta-metragens que ela cria e publica na internet.

O desconforto de visitar um dos pais ou ser forçado a interagir com uma pessoa nova são situações corriqueiras e banais na vida de qualquer jovem adulto, e Sanghee não as trata como nenhuma grande provação. Somente quando ela conhece a filha de seu novo padrasto, interpretada por Park Mi-so, que ela demonstra alguma perturbação exterior. Não fica claro se a intimidade e súbita admiração que a garota demonstra com ela é fruto de uma insegurança maior e mais enraizada. É possível que a nova irmã postiça estivesse flertando com ela? Ou ela está apenas em choque diante de uma gentileza inesperada? Seja o que for, a presença da garota - uma jovem adulta semelhante a ela, mas talvez mais confortável consigo mesma - parece causar um conflito interno que reflete em suas relações com o resto da família. No final, não há resoluções drásticas ou permanentes, apenas uma pequena e ligeira compreensão da mãe em relação à filha, e alguns momentos de calmaria silenciosa.

EKLIPSE (Áustria/Itália, 2026) por Bruno Weber

Dois garotos andam sorrateiramente pela floresta, empunhando galhos como se fossem rifles, enquanto fingem caçar um ao outro. É assim que somos apresentados à dupla de protagonistas de "Eklipse", primeiro longa-metragem do diretor austríaco Manuel Wetscher. Essa brincadeira com fantasias masculinas de luta e combate combina muito com o ambiente rude habitado por Tomy (Moritz Hohlrieder) e Chris (Finley Brown), isolados numa fazenda de vacas leiteiras no meio das montanhas, onde o pai de Chris é o encarregado de cuidar dos animais e da produção. Tomy e Chris formam uma amizade forte enquanto passam os dias com os afazeres da fazenda, montando apresentações de lipsync pras visitas frequentes da mãe de Tomy, e na expectativa do iminente eclipse total do sol sendo anunciado na TV. Mas essa amizade é abalada quando Chris descobre que o pai de Tomy não está internado com pneumonia, como os dois garotos acreditavam, mas sim por causa da "doença dos gays".

Wetscher estabelece com facilidade a época em que o filme se passa como o final dos anos 90, não apenas com as referências ao eclipse e ao bug do milênio, mas também acentuando o isolamento dos garotos do resto do mundo sem a presença constante de celulares e computadores, mas a verdade é que o conflito principal poderia se passar em qualquer momento das últimas décadas. A homofobia internalizada que os dois garotos apresentam permanece inalterada nos dias de hoje. E a maneira agressiva com a qual Chris começa a rejeitar Tomy, até mesmo assumindo uma postura de fanatismo religioso, infelizmente também tem paralelos hoje. E mesmo que em nenhum momento do filme fique claro como o pai de Tomy foi infectado ou se ele fazia sexo com homens, aos olhos de Chris isso não importa. Para ele, AIDS e homossexualidade são a mesma coisa, e Tomy é culpado dos dois crimes apenas por ser filho de quem é.

Até o pai de Chris, interpretado por Hannes Perkmann, precisa lidar com os próprios preconceitos. Mesmo sendo apresentado como um fazendeiro durão, ele demonstra compreensão e carinho com Tomy e a situação de seu pai, de quem é amigo desde a juventude. Ainda assim, ele não consegue esconder o medo quando Tomy tem um sangramento de nariz normal. Em vários momentos o filme apresenta esses contrastes entre a pureza e a imundície, entre a brancura do leite e o sangue de Tomy misturado com as fezes das vacas. E os testes frequentes sendo aplicados no leite e o próprio cuidado das mazelas dos animais formam um paralelo com a ideia dos frequentes cuidados médicos que o pai de Tomy deve estar passando. Mas no final das contas, o maior paralelo é com o próprio eclipse, uma sombra gigantesca que surge sobre aqueles dois garotos, mas que é, no final das contas, passageira.


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