quarta-feira, 21 de outubro de 2026

A Paixão Segundo G.H.B. (Brasil, 2026)

 
Clarice Lispector não deve estar acostumada a esse tipo de homenagem. Em “A Paixão Segundo G.H.B.”, Gustavo Vinagre e Vinícius Couto pegam “A Paixão Segundo G.H.”, romance publicado em 1964, e o arrastam para uma orgia gay atravessada por drogas, encontros casuais e conversas sobre HIV. É uma profanação deliberada, dessas que podem despertar tanto curiosidade quanto indignação; A proposta tem algo de irreverente e, em princípio, bastante instigante: transportar a experiência radical de uma mulher diante dos limites da própria existência para um universo masculino em que prazer, entorpecimento e desejo de conexão se confundem. O título acrescenta uma letra, mas a operação vai muito além de uma brincadeira com as iniciais. O que está em jogo é o confronto entre a busca de transcendência de Clarice e a possibilidade de dissolução do sujeito por meio das drogas e do sexo.

A estrutura semidocumental ajuda a construir essa zona de indefinição. Os participantes interpretam versões de si mesmos, incorporando experiências, discursos e relatos pessoais a uma narrativa que se desenvolve com espontaneidade. Vinícius Couto conduz a ação como Matias, um brasileiro que vive em Portugal e recebe parceiros em seu apartamento. Os encontros se sucedem, o sexo se intensifica e as conversas avançam por assuntos como chemsex, sorologia e dependência. A presença de Christiane Tricerri como G.H. introduz uma ruptura deliciosa e estranha. A mistura de depoimento, improvisação e ficção também aproxima o longa de “Não É o Homossexual que É Perverso, mas a Situação em que Ele Vive”, de Rosa von Praunheim, manifesto cinematográfico de 1971, que confrontava a vida gay com suas contradições sociais e políticas.

É preciso reconhecer a importância do tema. O chemsex, prática que associa o uso de substâncias psicoativas a encontros sexuais, merece ser discutido sem moralismo e sem reduzir a experiência gay a uma narrativa de culpa. O HIV também precisa aparecer no cinema para além do trauma histórico, do estigma e das representações que transformam pessoas que convivem com o diagnóstico em advertências ambulantes. Vinagre e Couto tentam estabelecer relações entre o desejo de conexão, a solidão, a vulnerabilidade e a busca de escape. O problema é que uma intenção pertinente não garante, por si só, uma realização igualmente contundente.

Durante boa parte do filme, a discussão parece se perder em meio às cenas de “colocação”, e à sucessão de situações sexuais explícitas. Corpos, penetrações e ejaculações ocupam a tela com uma insistência que pode ser entendida como afronta à censura moral que historicamente controla a representação do sexo entre homens. Mas também pode produzir outro efeito: a impressão de que o filme está interessado demais em chocar ou em conquistar o espectador que procura justamente essa estética. A transgressão não é o problema. A questão é o que consegue produzir além de si mesma. 

Me incomoda a maneira como o filme administra o equilíbrio entre prazer e perigo. “A Paixão Segundo G.H.B.” não precisa condenar seus personagens, interromper a narrativa para dar lições de comportamento ou transformar o sexo em uma ilustração didática dos riscos do consumo de drogas. Muito pelo contrário: a liberdade de mostrar pessoas LGBTQIA+ em experiências que escapam aos modelos de respeitabilidade é valiosa. Ainda assim, quando a obra se propõe a discutir uma prática potencialmente destrutiva, a ausência de uma elaboração mais consistente pode fazer com que certas cenas pareçam normalizar ou até romantizar aquilo que o filme pretende problematizar. Entre o “padê”, o "calvin", os orgasmos e a promessa de conexão imediata, o prazer ganha uma materialidade muito mais convincente do que as consequências. É explícito, mas o contexto não excita.

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