domingo, 11 de outubro de 2026

Santo (Brasil, 2026)

Um acidente de trânsito aproxima dois entregadores que, em princípio, parecem habitar universos diferentes. Em “Santo”, segundo curta-metragem de Maria Luísa Alves, Yuri (Pedro Tófani) é provocativo e circula com mais liberdade, enquanto Davi (João Pedro Mariano) carrega consigo a fé evangélica e uma rotina marcada pelo trabalho. A colisão que coloca os dois no mesmo caminho tem uma força simbólica evidente: às vezes, basta um desvio na rotina para que certezas cultivadas durante anos comecem a vacilar.

O interesse está no atrito entre religião e desejo, especialmente quando a sexualidade masculina precisa disputar espaço com uma visão de mundo que estabelece limites rígidos para o afeto. Davi não é apenas um jovem religioso que encontra alguém atraente. É alguém cuja formação espiritual pode ter lhe ensinado a interpretar certos desejos como ameaça, desvio ou pecado. Yuri, por sua vez, surge como a possibilidade de conhecer outras formas de viver. A pergunta mais instigante não é simplesmente se os dois vão se envolver, mas o que acontece quando a experiência concreta de um encontro contradiz aquilo que aprendemos a considerar verdade.

“Santo” pode remeter à devoção de Davi, mas também à ideia de pureza que tantas vezes serve para separar corpos considerados aceitáveis daqueles tratados como pecaminosos. Quando o desejo entre homens entra em cena, quem define o que é puro e o que precisa ser reprimido? A contradição ganha força porque a história não se passa num espaço protegido, longe da vida cotidiana, mas nas ruas de São Paulo, entre entregas e obrigações. O trabalho aproxima os protagonistas e lembra que a vida não espera que nossas convicções estejam resolvidas para continuar acontecendo.


Os protagonistas são entregadores, trabalhadores que atravessam a cidade para cumprir tarefas, lidar com prazos e garantir o sustento. O encontro amoroso se desenha nesse cotidiano, e não num cenário idealizado, apartado das pressões materiais. Em quinze minutos, porém, há um desafio considerável: fazer com que o conflito não se reduza à oposição previsível entre o rapaz livre e o rapaz reprimido, como se a sexualidade de um fosse simples e a fé do outro explicasse tudo.

A proposta de “Santo” tem força por aproximar duas experiências que o debate público costuma colocar em campos inimigos: a fé e a homossexualidade. O risco está em tratar o conflito como uma disputa simples entre repressão e liberdade, sem dar a Davi e Yuri contradições suficientes para escapar dos papéis que representam. O que torna um romance assim realmente interessante é a possibilidade de que o encontro não produza respostas imediatas, nem transforme alguém em salvador de outra pessoa. Quando o desejo aparece, a fé não precisa desaparecer para que a vida se torne mais complexa.

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