domingo, 11 de outubro de 2026

FESTIVAL DO RIO 2026: NARCISO, NÃO ESTAMOS SONHANDO E A PROFESSORA DE FRANCÊS

Quem Matou Narciso? (Narciso, Paraguai/Brasil/Espanha/Uruguai/Alemanha/França/Portugal, 2026) por Egídio La Pasta

Marcelo Martinessi parte de um assassinato para investigar a identidade do Paraguai, durante a ditadura, no controle dos corpos, dos desejos e das palavras. Narciso surge como uma presença que incomoda justamente por precisar romper os limites. O rock e a liberdade com que transitam entre diferentes relações, tornam-se elementos de uma existência que desafia a ordem estabelecida. Tem uma tinta suave na sexualidade dele, pouco explorada pelo roteiro. Mas o que mais inquieta é perceber como a violência contra determinados corpos não termina no ato de matar: ela continua no silêncio, na omissão e na tentativa de apagar as circunstâncias que tornaram aquela morte possível. O filme encontra nessa dimensão política sua questão mais importante, mostrando que, em sociedades marcadas pelo autoritarismo e pelo preconceito, até mesmo a verdade pode se tornar uma ameaça. A gente não aprendeu nada.

Embora a atmosfera de repressão esteja presente e a trajetória de Narciso carregue potência, senti falta de uma aproximação mais profunda do personagem, de algo que ultrapassasse sua condição de jovem radialista, para revelar também suas contradições e fragilidades. A pergunta que dá nome ao filme na nossa tradução, perde a força. Que sociedade permite que alguém seja perseguido e, depois de sua morte, ainda encontra maneiras de silenciar sua história? Onde, em que momento, que o mundo virou esse lugar?


Essa é uma edição do festival do Rio com filmes que resgatam a memória queer. Que vasculha histórias, que joga luz em quem resistiu, quem lutou, quem atravessou o tempo, sem nem pretender, para nos dar um sopro quente de realidade, de que há guerras que duram gerações, que há gritos que ecoam por séculos, dores e abismos inimagináveis diante da diferença. De quem não enxerga o que há de melhor em nós. Resistimos. Resistiremos. Resistamos.

Não Estamos Sonhando(Brasil, 2026)
por Egídio La Pasta

É bonita a imagem que abre o filme, Ciro, um jovem negro, despertando, nu, numa espécie de coreografia não ensaiada. A dança está nele, de forma orgânica, no cotidiano duro de um estudante de medicina, na sua rotina, na turma de amigos da universidade, onde eles fazem, juntos, aulas de pole dance. É um lugar seguro, de acolhimento, de muito carinho entre os amigos. E liberdade.


É um roteiro que encontra no corpo de homens e mulheres negros, no desejo e nas contradições de Ciro, um caminho para falar sobre liberdade, pertencimento e as expectativas que tentam determinar quem podemos ser. Entre a faculdade e a sala de ensaio, os personagens habitam mundos que parecem exigir deles identidades distintas, como se não fosse possível conciliar razão e desejo, futuro e prazer, disciplina e liberdade. Nessa tensão, o filme encontra força, ao compreender que existir também é desafiar os lugares que nos reservam aos nossos corpos.


A política - especialmente nesse momento - não está apenas em ocupar devidamente essas instituições ou nos grandes enfrentamentos, denunciando toda e qualquer arbitrariedade do ambiente estudantil, mas também na intimidade, no exercício livre da sexualidade e no direito de experimentar outras possibilidades, ocupando espaços e não abrindo mão de si mesmo. Não estamos sonhando porque desconhecemos a realidade, mas porque, apesar dela, ainda somos capazes de legitimar as nossas formas de (r)existir.

A Professora de Francês (Brasil/Portugal/França, 2026)
por Bruno Weber

O diretor Ricardo Alves Jr. faz em "A Professora de Francês" uma denúncia do fanatismo religioso que assombra as comunidades periféricas com uma linguagem típica do terror. Tanto uma fábula do lobo em pele de cordeiro quanto um torture porn psicológico, é na atuação magnífica de Grace Passô que ele encontra seu ponto mais forte.


Não Estamos Sonhando

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