Mostrando postagens com marcador séries brasileiras. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador séries brasileiras. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Primeiras Impressões sobre AMORA, de JULIANA ROJAS

Em “Tia Marga”, episódio de abertura da série “Amora”, Juliana Rojas encontra uma situação que parece ter sido inventada por alguém com um senso de humor bastante particular: duas mulheres aguardam o nascimento do primeiro filho enquanto participam do velório de uma parente. Tereza (Bruna Linzmeyer) e Daniela (Ana Hikari) estão prestes a começar uma família, mas a chegada do bebê vem acompanhada de dúvidas, segredos e inseguranças que a presença dos parentes só faz aumentar. Entre flores, despedidas e conversas atravessadas, o luto se mistura à expectativa de uma nova vida. A morte está na sala, o nascimento se aproxima e ninguém parece ter um manual para lidar com nenhum dos dois. É desse desconforto, tão reconhecível quanto absurdo, que o episódio extrai boa parte de seu humor.

A questão da dupla maternidade dá à história um peso que ultrapassa as ansiedades comuns de quem espera um bebê. Daniela está gestando a criança, mas o reconhecimento das duas como mães não é tratado como uma consequência automática do amor que compartilham. Existe uma insegurança jurídica que acompanha o casal e expõe o quanto famílias LGBTQIA+ ainda precisam pensar em direitos que muitos casais heterossexuais consideram garantidos.

Bruna Linzmeyer, figura importante para a representação LGBTQIA+ no audiovisual brasileiro, e Ana Hikari formam um casal cuja intimidade não depende de grandes declarações. O que interessa é a maneira como cada uma administra as próprias inseguranças, inclusive os segredos que podem abalar a relação num momento já suficientemente delicado. O encontro familiar no velório abre espaço para comentários, constrangimentos e pequenas disputas, enquanto o episódio evita apresentar a família tradicional como um bloco homogêneo de vilões.

“Amora” tem sotaque gaúcho, não apenas na maneira como suas personagens falam, mas na textura cotidiana que envolve a história. A direção de arte de Juliana Lobo contribui para esse ambiente, dando materialidade ao espaço doméstico e ao ritual do velório. O cenário fúnebre poderia facilmente engolir o episódio, mas Rojas encontra nele um lugar de convivência, observação e até humor.

A adaptação do livro homônimo de Natalia Borges Polesso também abre uma perspectiva promissora para a antologia. Vencedor do Prêmio Jabuti em 2016, “Amora” reúne narrativas sobre diferentes formas de amar entre mulheres, com personagens que atravessam descoberta, preconceito, desejo, envelhecimento e liberdade. A série parte desse universo para apresentar casais de idades e trajetórias distintas na cidade fictícia que lhe dá nome.

Como primeiro contato com a série, “Tia Marga” deixa uma impressão calorosa justamente porque não exige que suas personagens representem uma comunidade inteira. Elas podem ser engraçadas, contraditórias, assustadas e até um pouco egoístas. Podem esconder coisas uma da outra e discutir no momento menos conveniente. O episódio entende que ampliar a representação queer também significa permitir que essas mulheres tenham uma vida cotidiana, com os embaraços e as pequenas crueldades que pertencem a qualquer relação. Há uma boa ironia em colocar o nascimento iminente de uma criança no centro de um velório, mas a graça não apaga o que está em jogo: quem pode ser reconhecida como família, quem tem o direito de cuidar e quais garantias ainda faltam para que o amor não dependa apenas da boa vontade dos outros.