quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Razão e Sensibilidade (Sense and Sensibility, Reino Unido/EUA, 2026)

Marianne Dashwood (Esmé Creed-Miles) não nasceu para se comportar como esperam dela. Em “Razão e Sensibilidade”, a adaptação de Georgia Oakley para o romance de Jane Austen, a personagem vive suas emoções sem a disciplina social que deveria moderar cada gesto, palavra ou desejo feminino. Marianne encontra em Elinor (Daisy Edgar-Jones), sua irmã mais velha, o vínculo que sustenta sua existência quando a família perde a segurança financeira e precisa reconstruir a vida em circunstâncias muito menos confortáveis. A diretora, conhecida por “Blue Jean”, drama sobre uma professora lésbica na Inglaterra dos anos 1980, encontra no clássico de Austen uma história sobre mulheres que precisam negociar constantemente entre aquilo que desejam e aquilo que a sociedade permite. O resultado é um filme de época que respira, sente e se desarruma, recusando a perfeição ornamental que tantas vezes transforma esse universo em uma coleção de vestidos impecáveis e romances idealizados.

A leitura queer está no centro dessa abordagem, embora o filme não transforme as irmãs em um casal nem reescreva seus relacionamentos como romances LGBTQIA+. Oakley declarou que Marianne provavelmente seria queer se vivesse nos dias atuais, justamente por sua recusa ao status quo. A atriz Esmé Creed-Miles também reconhece nessa personagem uma maneira de amar fora das expectativas, uma qualidade capaz de produzir identificação e pertencimento.

Oakley leva essa ideia para a própria linguagem do filme. A relação entre as irmãs não funciona como mero intervalo entre um pretendente e outro: é uma conexão intensa, atravessada por ternura, irritação, desentendimentos e uma devoção que resiste às circunstâncias. Elinor e Marianne são diferentes na maneira de expressar sentimentos, porém encontram uma na outra uma espécie de abrigo emocional. Essa centralidade do afeto feminino abre uma perspectiva sem exigir que o filme ofereça uma identidade sexual explícita às personagens. O que importa é a possibilidade de enxergar formas de amor que não se resumem ao casamento, à conquista romântica ou à segurança econômica proporcionada por um homem.

A comparação com a adaptação de Ang Lee, lançada em 1995, evidencia escolhas estéticas e emocionais distintas. Naquela versão, Emma Thompson interpreta Elinor e assina o roteiro, enquanto Kate Winslet dá a Marianne uma intensidade juvenil que se tornou uma das marcas do filme. Lee constrói um drama de época elegante, sustentado pela ironia social de Austen, pela precisão dos diálogos e pelo contraste entre contenção e explosão sentimental. Oakley prefere aproximar as personagens de uma experiência menos idealizada.  

Há uma tensão interessante na escolha da diretora. Ao mesmo tempo que amplia o peso da relação entre as irmãs, ela também fortalece o romance entre Elinor e Edward Ferrars (George MacKay), procurando tornar mais convincente o apelo do pretendente. A sensibilidade queer do filme não depende da diminuição dos romances heterossexuais, mas da recusa em tratá-los como a única medida possível da realização afetiva. O desejo pode assumir diferentes formas, e a ligação entre duas mulheres pode ser tão transformadora quanto uma paixão romântica.


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