Thierry Besseling parte de um conflito íntimo, que ganha dimensão quando colocado dentro de uma instituição que exige disciplina, renúncia e compromisso com uma verdade supostamente inabalável. A igreja. Jean está prestes a se tornar padre, mas a experiência no mosteiro e a presença de outro homem colidem na certeza da construção da identidade que vinha erguendo. O que me interessa aqui é que a dúvida não diz respeito apenas à possibilidade de amar alguém, mas também ao preço de permanecer fiel a sua escolha, quando o desejo coloca em questão essa escolha.
A religião, nesse contexto, não funciona somente como obstáculo ao prazer. Ela também oferece a Jean uma estrutura de pertencimento, uma maneira de exercitar e praticar a fé e de canalizar sua energia para o ofício que dedicou boa parte da sua vida. Abandonar esse caminho, portanto, não seria necessariamente um gesto simples de libertação, mas colocar em risco toda a sua trajetória. Até que ponto uma vocação continua legítima quando exige que uma parte de nós permaneça silenciada? Há um diálogo precioso, quando questionado sobre sua sexualidade pelo superior. Talvez ali, ele compreenda pela primeira vez que é um homem gay. Ao mesmo tempo, sente na prática, que a igreja católica abomina que homens como ele existam.
Jean se aproxima de uma decisão que deveria consolidar seu futuro dentro da igreja. O despertar do desejo por Marco desorganiza certezas e torna impossível conciliar sua natureza, que sempre esteve distante. Mas sempre presente; Não é a ausência de convicções que nos paralisa, mas o medo de descobrir que elas já não dão conta de quem nos tornamos.
A dúvida é dolorosa e coloca Jean diante das próprias contradições. Não é um filme que opõe fé e desejo, mas abre espaço para pensar na dificuldade monumental de tentar conciliar no que acreditamos, no que sentimos e no que o ambiente ao redor espera e exige de nós. A questão mais difícil não é escolher entre Deus e o amor, mas reconhecer que nenhuma instituição, por mais sólida que pareça, consegue responder sozinha a todas essas perguntas.


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