domingo, 18 de outubro de 2026

Ainda, Tijuana (Tijuana, Todavía, México, 2026)

Tijuana costuma aparecer no cinema como território de passagem, violência e desespero, uma cidade fronteiriça em que a sobrevivência parece depender da capacidade de atravessar para o outro lado. Em “Ainda Tijuana” (“Tijuana, todavía”), Gabriel Gutiérrez Morales propõe uma inversão interessante dessa perspectiva. O diretor faz da cidade um possível refúgio para quem já não consegue permanecer em seu país de origem. Maksim (Petr Filimonov), um jovem queer russo que escapa da perseguição e do risco de recrutamento militar no contexto da guerra na Ucrânia, encontra em Tijuana a possibilidade de uma vida diferente. Chava (Humberto Busto), um homem gay de meia-idade, também está tentando descobrir o que fazer com a própria existência. Os dois se conhecem por um aplicativo e, entre identidades virtuais, diferenças culturais e feridas pessoais, começam a construir uma relação que ultrapassa a expectativa de um encontro casual.

Humberto Busto é uma força da natureza. Ator e produtor do longa por meio da Fosfo Producciones, ele sustenta boa parte da narrativa com uma interpretação que combina humor, insegurança, desejo e uma fragilidade solitária. Chava não é um herói, tampouco um homem que tenha superado as contradições da própria formação. Sua masculinidade convive com a solidão, o medo de ser abandonado e a dificuldade de estabelecer uma intimidade que não dependa de máscaras.

Maksim, por outro lado, traz ao filme uma experiência de deslocamento que é política antes mesmo de ser afetiva. Fugir da Rússia significa deixar para trás não apenas um território, mas referências culturais, vínculos e uma vida que não pode ser recuperada com facilidade. O personagem chega a Tijuana carregando a urgência de quem precisa escapar, mas isso não significa que consiga estabelecer imediatamente uma relação com o lugar ou com as pessoas que encontra. E, enquanto Busto consegue preencher os espaços de Chava com uma vida interior bastante perceptível, Maksim permanece, em alguns momentos, mais distante.

A fronteira, entretanto, não está apenas no mapa. Ela aparece nos idiomas, nas identidades assumidas pela internet, nas diferenças de idade e nas expectativas que cada homem projeta sobre o outro. O encontro começa em um ambiente no qual é possível escolher cuidadosamente o que mostrar, mas a intimidade exige que essas construções sejam confrontadas com a vida real. Gutiérrez Morales se interessa por esse intervalo entre a imagem que oferecemos e aquilo que conseguimos projetar.

“Ainda Tijuana” integra uma safra especialmente interessante do cinema mexicano contemporâneo, que vem explorando masculinidades desconstruídas. “En el camino”, de David Pablos, venceu seis prêmios Ariel em 2026, incluindo melhor filme e direção. Em “Ainda Tijuana”, essa desconstrução acontece por meio de dois homens que não conseguem resolver suas contradições apenas com o desejo.

Como primeiro longa, “Ainda Tijuana” revela um diretor que aproxima questões políticas de experiências íntimas. Sua inversão do imaginário fronteiriço é valiosa. Em um mundo no qual a migração costuma ser narrada a partir da suspeita, da ameaça ou da necessidade de expulsão, imaginar o México como lugar de refúgio é um gesto que merece ser celebrado. Tijuana continua sendo uma cidade de fronteiras, mas, nas mãos de Gutiérrez Morales, também se torna um lugar onde duas pessoas podem experimentar a possibilidade de se reconhecer. ¡Viva México, Cabrones!

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