Talvez o maior desafio de adaptar “Carrie” hoje seja o fato de que todo mundo já sabe como a história termina. O sangue no baile, a vingança, a mãe fanática, a garota humilhada e os poderes telecinéticos fazem parte de um imaginário tão conhecido que seria quase impossível competir com a memória de Brian De Palma. Mike Flanagan encontra outra saída: em vez de correr para o baile, ele fica. Sua “Carrie” tem oito episódios para olhar para os corredores da escola, para os professores, para os pais, para os alunos que praticam o bullying e até para aqueles que simplesmente assistem. O universo de Stephen King se expande para os lados, e Carrie White (Summer H. Howell) deixa de ser apenas o centro de uma tragédia para se tornar parte de uma comunidade inteira que está, de diferentes maneiras, produzindo aquela tragédia.
A estratégia funciona especialmente bem com a malvada e popular Chris Hargensen (Alison Thornton), que ganha um desenvolvimento muito maior e se aproxima de uma versão mais sombria da Regina George. Chris continua sendo cruel, mas Flanagan investiga de onde vem essa crueldade, sua situação familiar. Não chega a existir uma tentativa de absolvê-la, e ainda bem. Algumas pessoas fazem coisas terríveis mesmo quando também estão sofrendo. A diferença é que agora conseguimos enxergar as rachaduras. Sue Snell (Siena Agudong), Tina (Josie Totah), Emaline (Thalia Dudek), os professores e o diretor Grayle (Matthew Lillard) também ganham espaço nessa espécie de retrato coletivo da adolescência.
O cyberbullying atualiza o horror de maneira eficiente. A humilhação de Carrie não termina no vestiário: ela é filmada, compartilhada e transformada em perfil fake. Uma vez publicada, a crueldade passa a ter vida própria. Flanagan ainda aproxima o ambiente escolar do medo dos ataques armados e dos simulados de atirador, lembrando que o terror adolescente contemporâneo não precisa de telecinese para produzir pânico. A crítica ao sistema educacional é discreta, mas existe na dificuldade dos adultos em perceber o que acontece diante deles e na maneira como a instituição tenta administrar sintomas quando deveria estar olhando para as causas.
A mãe, Margaret White (Samantha Sloyan), se beneficia da expansão. Flanagan não diminui seu fanatismo religioso, mas permite que ela seja também mãe, mulher assustada e alguém profundamente convencida de que está protegendo a filha do mundo. Existe uma tristeza perturbadora nessa relação, porque Margaret ama Carrie de uma maneira que a destrói. E Sloyan encontra um equilíbrio excelente entre o grotesco e o doloroso. Summer H. Howell acompanha esse movimento com uma atuação impressionante, construindo uma Carrie inicialmente curiosa, doce e até encantada pela possibilidade de conhecer o mundo.
Existe uma leitura queer inevitável nessa nova “Carrie”, não apenas porque o elenco reúne artistas LGBTQIA+ e não binários, mas porque a série continua orbitando corpos que não se encaixam nas expectativas de uma comunidade determinada a puni-los por isso. A presença de Josie Totah, mulher trans, e Thalia Dudek, pessoa não binária, é especialmente significativa, enquanto Tim Bagley encontra em Peter Morton um dos personagens mais humanos da série, um conselheiro que consegue estabelecer com Carrie uma conexão através da literatura.
A própria trilha sonora, com artistas como Paris Paloma, The Last Dinner Party, Mallrat, Lana Del Rey e Haute & Freddy, cria uma paisagem sonora muito mais próxima de uma juventude contemporânea, estranha, ansiosa e pouco interessada em caber perfeitamente nas categorias que recebeu. Não é preciso transformar “Carrie” em uma alegoria queer para perceber como sua história conversa com experiências de isolamento, repressão, vergonha e desejo de pertencimento.
A série me pegou mais pelo caminho das cicatrizes do que pelo susto. O clima é construído aos poucos e, embora Flanagan não realize grandes revoluções estéticas a cada episódio, existe uma segurança na maneira como ele deixa a tensão se acumular até que certas imagens conhecidas adquiram outro peso. A evocação de figuras como Joana d'Arc reforça essa ideia de uma garota transformada em símbolo, bruxa, santa ou monstro conforme o olhar de quem conta sua história.
“Carrie” sempre foi uma narrativa sobre o que acontece quando uma sociedade decide que determinada pessoa é estranha demais para pertencer. Flanagan atualiza as ferramentas dessa exclusão, amplia quem participa dela e, ao fazer isso, devolve à personagem alguma coisa que as adaptações anteriores inevitavelmente precisaram sacrificar: tempo para ser simplesmente uma garota antes de se tornar uma lenda. O sangue continua vindo. Mas, desta vez, conhecemos muito melhor as pessoas que ajudaram a derramá-lo.



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