quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Privadas de Suas Vidas (Brasil, 2026)

Com direção de Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner, o terror transforma privadas assassinas em instrumentos de choque e comentário social. Entre o riso constrangido e a repulsa, sobra uma pergunta: o que fazer com tanta merda? A presença de Bruce LaBruce como produtor executivo nos créditos iniciais já funciona como uma piscadela para quem acompanha o cinema mais transgressor. A produção de Rodrigo Teixeira, à frente da RT Features, dá musculatura a uma ideia que poderia nascer como delírio de cinema underground, mas que aqui ganha escala, acabamento técnico e uma coleção de situações tão absurdas quanto difíceis de esquecer. O resultado é um terror inventivo, subversivo e absolutamente comprometido com a própria falta de modos.

A história segue Malu (Martha Nowill), uma produtora de eventos que tenta continuar vivendo depois de perder um dos filhos gêmeos em um acidente envolvendo uma privada. O trauma se manifesta também no corpo: ela passa a sofrer de uma constipação persistente, como se aquilo que não consegue elaborar emocionalmente tampouco pudesse liberar fisicamente. Enquanto enfrenta dificuldades financeiras e uma relação desgastada com Gênesis (Benjamín Damini), seu filhe adolescente não binárie, Malu aceita organizar o chá de revelação de gênero de uma vizinha influencer. A festa, com seus códigos cor-de-rosa e azul, oferece uma das ironias mais evidentes do filme: em pleno século XXI, ainda celebramos como espetáculo a tentativa de encaixar uma pessoa em categorias determinadas antes mesmo de ela nascer. 

O prédio onde essas figuras convivem logo deixa de ser apenas cenário. As privadas se transformam em criaturas assassinas, sugando moradores para dentro de uma ameaça que converte o espaço doméstico em espaço de insegurança. É uma ideia tão delirante que chega a ser estranho pensar que o cinema de terror ainda não a tenha explorado dessa maneira. Vinagre e Gewdner encontram na louça sanitária uma criatura improvável, capaz de fazer do banheiro, lugar de intimidade e alívio, uma armadilha mortal. E o filme não se contenta com o sangue: investe nos excrementos, nos fluidos e em tudo aquilo que a sociedade prefere manter fora de vista. A cena da chuca mortal merece um lugar próprio nos anais do cinema nacional, uma sequência que arranca risos constrangidos justamente porque leva o grotesco a um grau de comprometimento quase inacreditável. É uma cagada de proporções épicas. Que nojo! E, sim, esse nojo faz parte do projeto.


O elenco inteiro compra a proposta absurda e a leva a sério dentro do universo de seus personagens. Premiada em Brasília, Martha Nowill sustenta o desespero de Malu sem abandonar sua dimensão patética e humana; Benjamín Damini dá corpo ao conflito de Gênesis, enquanto Otávio Müller, Chandelly Braz, Marco Pigossi, Regina Braga, Maria Gladys, Rodrigo Apresentador e Olivia Torres ajudam a compor esse zoológico de vaidades, ressentimentos e pequenas violências cotidianas. É a entrega  das atuações, que permite ao filme oscilar entre o horror, a comédia e o melodrama.

Mas o que "Privadas de Suas Vidas" tenta dizer afinal? Por trás das privadas assassinas, há uma sociedade inteira entupida de coisas que não sabe processar. Malu retém o luto e corre o risco de perder o filhe que continua vivo; Gênesis luta para não ser aprisionade pelas expectativas da mãe; o chá de revelação transforma o gênero em performance comercial; e o zelador Vilaça (Otávio Müller), explorado durante anos pelos moradores, está prestes a ser descartado em nome da terceirização. O encanamento entupido vira uma imagem bastante literal das relações sociais: cada personagem acumula suas próprias porcarias, enquanto a estrutura que deveria permitir o escoamento já não dá conta de nada. 

O filme sabe como nos fazer olhar para o que preferimos não ver, mas nem sempre aprofunda com igual força tudo o que coloca diante de nós. Em certos momentos, a sucessão de absurdos parece ameaçar engolir o próprio comentário social. Mas, existe algo admirável na disposição de Vinagre e Gewdner de levar essa premissa até as últimas consequências, sem higienizar a experiência. "Privadas de Suas Vidas" é uma experiência de horror, humor e repulsa que transforma a pergunta sobre o que estamos tentando esconder em cinema literalmente fecal.


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