Em “Elefantes na Névoa”, Abinash Bikram Shah nos leva a um pequena comunidade rural do Nepal, um território de suspense, desejo e pertencimento. À noite, os moradores de uma vila cercada por uma floresta patrulham o entorno para afastar elefantes selvagens que ameaçam plantações e casas. Entre eles está Pirati (Pushpa Thing Lama), matriarca de uma comunidade Kinnar formada por mulheres trans que construíram entre si uma família baseada em laços escolhidos. Pirati, porém, sonha em abandonar aquela estrutura para viver com o homem que ama. O desejo de uma vida “normal” entra em choque com a responsabilidade de cuidar das mulheres que dependem dela quando Apsara (Aliz Ghimire), sua filha mais jovem, desaparece durante uma dessas rondas. O que começa como uma história de desaparecimento rapidamente se transforma em uma investigação sobre família, preconceito e as diferentes formas de abandono.
O filme não faz da comunidade Kinnar um simples símbolo de resistência. Shah permite que suas integrantes tenham desejos contraditórios, briguem, façam sexo, se divirtam, cometam erros e também reproduzam hierarquias que as próprias personagens questionam. A família escolhida é, ao mesmo tempo, abrigo e estrutura de controle. Pirati exerce autoridade sobre suas “filhas”, mas também está submetida às tradições e expectativas de uma comunidade que encontrou maneiras próprias de sobreviver à exclusão.
Pirati não está simplesmente lutando contra uma sociedade transfóbica, embora a violência externa seja uma presença constante. Ela também precisa negociar com as regras de sua própria comunidade e com a expectativa de que uma matriarca coloque sempre o coletivo acima de seus desejos individuais. Seu romance com o Mestre dos Tambores introduz uma possibilidade desconcertante: e se ela quiser deixar de ser a pessoa que cuida de todo mundo para cuidar de si mesma?
A investigação pelo desaparecimento também serve para desmontar a aparente segurança da comunidade. Pirati precisa atravessar espaços onde as mulheres Kinnar são toleradas quando suas habilidades espirituais interessam aos moradores, mas marginalizadas quando deixam de ocupar o papel que lhes foi atribuído. A busca por Apsara expõe esse mecanismo de exclusão e faz com que o filme questione quem tem direito de ser considerado parte de uma comunidade. Ao mesmo tempo, Shah evita apresentar suas protagonistas como figuras puramente virtuosas. Existe conflito dentro da própria casa, e é essa imperfeição que torna a família escolhida mais convincente.
O filme encontra uma relação poderosa entre a névoa, a floresta e os corpos que tenta tornar visíveis. A fotografia de Noé Bach trabalha com uma paleta fria e desaturada, enquanto os planos abertos frequentemente diminuem Pirati e as outras mulheres diante da imensidão da floresta. À noite, tochas, fogos de artifício e sombras transformam as patrulhas contra os elefantes em uma espécie de ritual. A própria narrativa muda gradualmente de registro, passando de um retrato comunitário mais caloroso para um suspense noturno cada vez mais angustiante.
E há ainda Pushpa Thing Lama, cuja presença dá ao filme uma força extraordinária. Ativista Kinnar e estreante como atriz, ela interpreta Pirati sem transformar a personagem em monumento. Seu rosto concentra desejo, culpa, autoridade, medo e uma espécie de cansaço acumulado. A performance é particularmente forte porque Pirati nunca parece completamente certa sobre aquilo que deve fazer. Ela quer partir, mas procura Apsara. Quer amar, mas precisa liderar. Quer uma vida própria, mas também sabe que aquelas mulheres são sua família. “Elefantes na Névoa” poderia ter usado a história para oferecer respostas óbvias sobre identidade e pertencimento, mas prefere permanecer na contradição. Até os elefantes do título carregam essa ambiguidade: são temidos quando atravessam os limites impostos pelos humanos, embora tenham sido os humanos que invadiram seu território.
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