terça-feira, 30 de junho de 2026

La Gioia (Itália, 2025)

O cineasta Nicolangelo Gelormini volta a investigar personagens aprisionados por afetos distorcidos, desta vez construindo um drama psicológico de inquietante densidade. Inspirado livremente em um caso real, "La Gioia" evita o sensacionalismo para concentrar seu olhar nas feridas invisíveis de pessoas incapazes de estabelecer relações saudáveis. O resultado é um filme desconfortável, melancólico e profundamente humano, que transforma um amor impossível em uma reflexão amarga sobre solidão, manipulação e desejo de pertencimento.

A narrativa acompanha Gioia (Valeria Golino), uma professora de literatura francesa que, apesar da maturidade, continua vivendo sob a proteção sufocante dos pais. Sua rotina muda quando conhece Alessio (Saul Nanni) , um aluno que vende o próprio corpo, inclusive como crosdresser, para ajudar financeiramente a mãe. Entre os dois nasce uma relação tão improvável quanto proibida, alimentada por carências emocionais distintas. Enquanto Gioia enxerga nele a possibilidade tardia de experimentar o amor, Alessio permanece consumido pela obsessão por ascensão social e pela incapacidade de corresponder ao afeto que recebe.

Gelormini conduz essa aproximação com notável delicadeza. A professora nunca é reduzida a uma caricatura da ingenuidade, enquanto Alessio surge como alguém moldado por abandono, exploração e sobrevivência. O filme compreende que ambos carregam vazios diferentes, ainda que incompatíveis, e faz desse desencontro sua principal força dramática.

O elenco sustenta essa proposta com interpretações impressionantes. Valeria Golino desaparece completamente sob a aparência apagada de Gioia, construindo uma personagem de enorme fragilidade sem recorrer ao excesso. Saul Nanni, por sua vez, imprime charme, ambiguidade e violência silenciosa ao jovem Alessio, impedindo que ele seja apenas vítima ou apenas algoz. A presença de Jasmine Trinca acrescenta outra camada de complexidade familiar, reforçando a sensação de que todos ali reproduzem diferentes formas de abandono afetivo.

Ao tratar de desejo, obsessão e da necessidade desesperada de ser amado, "La Gioia" alcança uma dimensão que ultrapassa o fato real que lhe serve de inspiração. Nicolangelo Gelormini entrega uma obra madura, emocionalmente devastadora e conduzida por interpretações memoráveis. É um drama que evidencia que algumas tragédias começam muito antes de qualquer crime, nas ausências afetivas que ninguém consegue enxergar.



Bate Cabelo! (Brasil, 2025)

 

Há gestos que transcendem a performance e passam a integrar a memória coletiva de uma comunidade. "Bate Cabelo!", documentário dirigido por Luís Knihs, parte justamente dessa ideia ao investigar a origem de um movimento que nasceu nas pistas de dança paulistanas dos anos 1990 e acabou se tornando um dos símbolos mais reconhecíveis da cultura drag brasileira. A partir da figura de Márcia Pantera, apontada como a criadora da técnica, o filme transforma um gesto em um poderoso ato de afirmação, pertencimento e resistência LGBTQIA+.

O roteiro de Will Martins reconstrói essa trajetória combinando imagens de arquivo restauradas, registros de boates históricas e depoimentos de artistas que ajudaram a consolidar o bate-cabelo como linguagem artística. Márcia Pantera, Silvetty Montilla, Natasha Princess, Gretta Star, Brunessa e tantas outras vozes compartilham lembranças que vão muito além da performance. O documentário evidencia como as casas noturnas funcionaram como espaços seguros para a criação de uma cultura própria

"Bate Cabelo!" compreende que o gesto não pode ser reduzido ao espetáculo. Girar uma peruca, desafiar a gravidade e ocupar o palco sempre carregou uma dimensão política. Em um país que historicamente marginalizou pessoas LGBTQIA+, especialmente artistas transformistas e drag queens, bater cabelo tornou-se uma resposta coletiva ao preconceito, uma forma de celebrar a própria existência através do exagero, da beleza e da irreverência.

Luís Knihs imprime ritmo à narrativa por meio de uma montagem pulsante, que alterna memórias afetivas com performances eletrizantes. A edição acompanha a energia das apresentações sem perder de vista o caráter documental da obra, enquanto o material de arquivo dialoga com entrevistas contemporâneas.

É verdade que o documentário opta por um caminho mais celebratório do que investigativo. Alguns momentos poderiam aprofundar questões relacionadas às transformações da cena drag brasileira, às disputas internas ou à influência do fenômeno nas novas gerações impulsionadas pelas redes sociais e pela televisão. Ainda assim, essa escolha não enfraquece a proposta. 

Ao final, o documentário emociona justamente porque compreende que cultura também se transmite através dos corpos. O movimento que dá nome ao filme atravessou décadas, sobreviveu às mudanças das noites queer e segue reinventado por novas artistas. "Bate Cabelo!" funciona como uma carta de amor às drag queens brasileiras e à potência criativa de uma comunidade que transformou um simples giro de peruca em um dos gestos mais emblemáticos da história queer nacional.


segunda-feira, 29 de junho de 2026

RioLGBTQIA+ celebra 15ª edição com mais de 200 filmes


O Festival Internacional de Cinema RioLGBTQIA+ chega à sua 15ª edição entre os dias 2 e 8 de julho, no Rio de Janeiro, reunindo mais de 200 filmes brasileiros e internacionais. A programação ocupa o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), o Instituto Cervantes e o Instituto Italiano de Cultura, reafirmando o evento como um dos principais espaços de difusão do cinema LGBTQIA+ no país.

A seleção deste ano reúne longas, médias e curtas-metragens inéditos, além de estreias nacionais e internacionais. Entre os destaques do cinema brasileiro estão "Apenas Coisas Boas", "Arrenego", "Bate Cabelo!", "Capim-Navalha", "Gravidade", "Lar", "A Miss", "Rita Moreira: crônicas, memórias e videotape", "Tira e Gira" e "Trago Seu Amor", obras que refletem a diversidade de narrativas produzidas no Brasil.

A mostra internacional apresenta produções de países como França, Argentina, Chile, Portugal, México, Uruguai, Espanha, Estados Unidos, Reino Unido, Namíbia e Alemanha. Entre os títulos selecionados estão "Amantes", "Cuidadoras", "Duas Vezes João Liberada", "Jone, a Veces", "Mickey & Richard", "Out Laws", "Truth or Dare" e "What Will I Become?", ampliando o diálogo entre diferentes culturas e experiências LGBTQIA+.


Os curtas-metragens também têm espaço de destaque, com mostras dedicadas ao Brasil, ao Rio de Janeiro e a cinematografias da Europa, Ásia, Oriente Médio e Américas. A programação inclui ainda recortes temáticos como "Diversidade em Animação", "Infâncias LGBTQIA+", "Juventudes LGBTQIA+", "Queens", "Queer Erótica", "Terror Queer" e "Verdades", além da exibição especial da segunda temporada da série "Noturnas".


Além das sessões, o festival promoverá encontros com realizadores e atividades voltadas ao debate sobre diversidade, memória e direitos humanos, fortalecendo o cinema como ferramenta de reflexão e transformação social.


Drea & Cloe (Espanha, 2025)

 

Álvaro Ortega Sanahuja constrói em “Drea & Cloe” um thriller romântico sáfico que transforma desejo, ambição e rivalidade em uma única força destrutiva. A trama segue duas jovens e talentosas maestras de orquestra, Drea Dreiden (Natalia Rodríguez) e Cloe Lara (Alexandra Masangkay), que se conhecem durante um evento promovido por uma prestigiada orquestra sinfônica. A atração é imediata, mas a descoberta de que ambas disputam o mesmo cargo faz com que a noite se converta em um jogo emocional cada vez mais intenso.

O filme encontra sua maior qualidade na forma como associa música e poder. Assim como uma sinfonia depende de controle absoluto sobre cada instrumento, Drea e Cloe tentam conduzir uma à outra, transformando a sedução em estratégia e a vulnerabilidade em arma. Ortega Sanahuja compreende que a competição profissional pode ser tão íntima quanto um relacionamento amoroso, e explora essa ideia através de diálogos afiados e de uma tensão que cresce lentamente até atingir momentos de explosão emocional.

 O romance entre as protagonistas foca nos mecanismos de desejo, insegurança e obsessão. Em vez de uma história sobre aceitação, “Drea & Cloe” é uma história sobre duas mulheres que querem tudo ao mesmo tempo: o amor, o reconhecimento e o poder.

A produção aposta em uma atmosfera elegante e quase gótica. A mansão onde grande parte da ação se desenrola funciona como uma extensão psicológica das personagens, um espaço isolado onde a atração e a rivalidade parecem amplificadas. A fotografia, de Diego Trenas, valoriza sombras, corredores e enquadramentos fechados, criando uma sensação constante de confinamento emocional.

Também merece destaque o trabalho de Natalia Rodríguez e Alexandra Masangkay. As duas atrizes sustentam praticamente toda a narrativa e encontram nuances interessantes em personagens que poderiam facilmente se tornar arquétipos. Rodríguez interpreta Drea com uma contenção calculada, enquanto Masangkay injeta em Cloe uma imprevisibilidade sedutora. A química entre ambas é convincente justamente porque nunca parece estável; há sempre a sensação de que o próximo gesto pode ser um beijo ou um tapa.

“Drea & Cloe” demonstra uma confiança admirável em sua proposta. Álvaro Ortega Sanahuja entrega uma obra elegante, sensual e desconfortável, interessada nas zonas cinzentas entre amor e competição. Ao colocar duas mulheres queer no centro de uma disputa artística feroz, o diretor vai além de obras recentes como "Tár" e "Hedda", e cria um estudo fascinante sobre ego, desejo e os limites que estamos dispostos a ultrapassar para alcançar aquilo que acreditamos merecer.

domingo, 28 de junho de 2026

I’m Not a Nobody (Io non sono nessuno, Itália, 2025)

 

"I’m Not a Nobody", de Geraldine Ottier, resgata uma das figuras mais importantes, e injustamente esquecidas, da história do movimento LGBTQIA+ italiano. Inspirado na trajetória real de Mariasilvia Spolato, primeira mulher a se assumir publicamente como lésbica na Itália, em 1972, o longa transforma sua biografia em um drama que acompanha o preço pago por alguém que decidiu existir em uma sociedade incapaz de aceitar sua liberdade. Longe de construir um retrato confortável, Ottier evidencia como coragem e solidão frequentemente caminham lado a lado quando se desafiam estruturas profundamente conservadoras.

A narrativa acompanha Mariasilvia, interpretada por Erica Zambelli, desde sua atuação como professora de matemática até o momento em que sua militância passa a definir completamente sua vida. Ao participar de manifestações pelos direitos LGBTQIA+, ela perde o emprego, rompe laços familiares e vê sua estabilidade desaparecer. O roteiro procura condensar décadas de uma existência marcada pela exclusão, revelando como a invisibilização institucional foi tão cruel quanto a violência explícita sofrida pela protagonista. Embora algumas passagens simplifiquem acontecimentos históricos, o filme preserva a dimensão humana de uma mulher que se recusou a voltar para o armário.

"I’m Not a Nobody" dialoga diretamente com debates contemporâneos sobre memória LGBTQIA+, especialmente na conservadora Itália, lembrando que muitas conquistas atuais foram construídas sobre histórias de pessoas cujos nomes acabaram apagados da memória coletiva. O filme devolve protagonismo a uma pioneira cuja importância histórica ainda permanece pouco conhecida fora da Itália.

 A direção evita grandes excessos estilísticos, concentrando sua força nas interpretações e no peso emocional dos acontecimentos. Erica Zambelli entrega uma protagonista contida, cuja determinação se expressa menos pelos discursos inflamados e mais pela persistência silenciosa diante de sucessivas perdas.  Ainda assim, o longa não escapa de limitações. Em determinados momentos, a narrativa parece interessada em transformá-la numa mártir, quando sua verdadeira força estava justamente na complexidade de sua militância, de suas contradições e de sua resistência cotidiana.

"I’m Not a Nobody" cumpre uma função essencial ao recolocar Mariasilvia Spolato no centro da história queer europeia. É um filme que emociona menos pelo melodrama do que pela consciência de que sua protagonista existiu de fato e pagou um preço altíssimo para que outras pessoas pudessem viver com mais liberdade décadas depois. Geraldine Ottier não entrega uma biografia definitiva, mas realiza um gesto de reparação histórica que faz deste drama uma obra relevante porque preservar a memória também é um ato de resistência.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Ella Solo Come Carne (Espanha, 2026)

Norberto Ramos del Val construiu uma carreira à margem da indústria espanhola, abraçando o cinema de baixíssimo orçamento, a irreverência e um espírito assumidamente "guerrilheiro". Em "Ella solo come carne", essa vocação permanece intacta. Misturando comédia ácida, horror e humor absurdo, o diretor acompanha Sofía e Minerva, duas mulheres que tentam lidar simultaneamente com uma avalanche de problemas pessoais enquanto transformam o caos em modo de vida. A premissa é deliberadamente anárquica e pouco interessada em coerência, preferindo fazer do excesso sua principal linguagem. 

O roteiro, escrito por Ramos del Val em parceria com César del Álamo, aposta numa sucessão de situações grotescas, diálogos nonsense e personagens que parecem existir permanentemente à beira do colapso. Há ecos do cinema exploitation, do humor ácido espanhol e da tradição trash inspirada por Alex de la Iglesia. Nem todas as piadas encontram o alvo, e muitas sequências parecem desnecessárias, mas existe uma convicção admirável em nunca tentar suavizar sua personalidade excêntrica. 

Rosalía Mira e Raquel Reilly sustentam boa parte da energia do filme. Suas personagens transitam entre a autoparódia e o desespero genuíno, construindo uma dinâmica marcada por neuroses, impulsividade e uma química caótica que funciona justamente porque nunca busca naturalismo. Alejandra Igualada e Eva García-Vacas completam um elenco disposto a embarcar na proposta irreverente do diretor, contribuindo para uma atmosfera em que qualquer lógica pode ser abandonada a qualquer instante. 

Tecnicamente, "Ella solo come carne" transforma suas limitações financeiras em parte da identidade visual. Repleto de sequências sáficas o filme confere uma irreverência que torna o filme provocador, e até mesmo ofensivo, ainda que também contribua para um sentimento de dispersão narrativa.

"Ella solo come carne" dificilmente converterá quem nunca apreciou o cinema de Norberto Ramos del Val. Seu humor pode soar cansativo, sua estrutura frequentemente parece improvisada e o excesso nem sempre produz bons resultados. Ainda assim, é divertido assistir a um diretor que continua filmando exatamente como deseja, sem pedir autorização ao mercado ou às tendências. Entre gargalhadas desconfortáveis, sangue, absurdos e personagens que fazem do desastre um estilo de vida, o longa reafirma a singularidade  do cinema independente espanhol.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Sirens Call (Alemanha/Holanda, 2025)

 Em seu primeiro longa-metragem, as diretoras Miri Ian Gossing e Lina Sieckmann entregam com “Sirens Call” uma obra difícil de enquadrar em categorias. Parte documentário, parte ficção científica, parte road movie experimental, o filme acompanha Una, uma sereia nômade que atravessa uma Terra fragmentada em busca de pertencimento. O ponto de partida é excêntrico mas rapidamente se revela uma poderosa reflexão sobre identidade, comunidade e resistência.

A narrativa segue Una, interpretada pela performer e ativista Gina Rønning, enquanto ela cruza paisagens dos Estados Unidos em direção a comunidades de “merfolk”, pessoas que incorporam sereias e seres aquáticos como parte de sua expressão identitária. O que poderia ser tratado como curiosidade antropológica ganha contornos profundamente humanos.

“Sirens Call” não discute apenas gênero ou sexualidade, mas a própria ideia de existir fora das normas estabelecidas. Os corpos híbridos, as identidades fluidas e as comunidades alternativas tornam-se metáforas para experiências queer contemporâneas, especialmente em um contexto político marcado pelo avanço de discursos conservadores.

Visualmente, o longa é fascinante. Filmado em 16 mm, mistura letreiros de neon, estradas desertas, motéis decadentes e paisagens quase pós-apocalípticas em imagens que parecem flutuar entre sonho e realidade. A fotografia, de Christian Kochmann, constrói um universo de beleza melancólica, enquanto a trilha sonora reforça a sensação de deslocamento constante.


Com mais de duas horas de duração e um ritmo contemplativo, “Sirens Call” exige entrega. Há momentos em que a estrutura se torna deliberadamente difusa, privilegiando sensações e estados de espírito em vez de uma progressão narrativa.


Ainda assim, o filme impressiona pela convicção de sua proposta. Gossing e Sieckmann criam uma obra sobre pessoas que reinventam a si mesmas. Entre sereias, estradas e comunidades dissidentes, “Sirens Call” transforma a fantasia em gesto político e a diferença em beleza.


quarta-feira, 24 de junho de 2026

Take One (EUA, 1977)

“Take One”, de Wakefield Poole, ocupa um lugar singular na história do cinema queer. Realizado poucos anos após o impacto cultural de “Boys in the Sand”, o longa se apresenta como uma “docufantasia”, misturando entrevistas, performance, pornografia e experimentação formal em uma proposta que desafia fronteiras entre realidade e imaginação. Em vez de construir uma narrativa convencional, Poole convida homens gays de São Francisco a relatarem suas fantasias sexuais e, em seguida, as encena diante da câmera.

O que torna o filme particularmente fascinante hoje não é apenas seu conteúdo erótico, mas sua função como cápsula do tempo. Filmado no auge da liberação sexual gay dos anos 1970, antes da devastação da epidemia de AIDS, “Take One” registra uma comunidade vivendo seus desejos com uma liberdade raramente vista no cinema da época. Há algo profundamente emocionante em observar esses corpos e fantasias existindo sem culpa, sem tragédia e sem a necessidade de justificativas dramáticas.

Visualmente, Poole continua demonstrando o talento que já havia revelado em “Bijou”. A fotografia utiliza projeções, filtros coloridos e cenários abstratos para transformar o sexo em espetáculo imagético. Algumas sequências se aproximam da videoarte e da dança experimental, especialmente quando os corpos surgem iluminados por tons rosados, azuis ou vermelhos que os deslocam para um território onírico. 

Também chama atenção a estrutura metalinguística. Aos poucos, “Take One” deixa de ser apenas um filme sobre fantasias para se tornar um filme sobre a própria realização do filme. Poole aparece em cena, a equipe é incorporada à narrativa e o longa culmina em uma sessão de exibição onde espectadores e participantes passam a interagir com a obra que acabaram de criar.

Nem tudo, porém, funciona com a mesma intensidade. Algumas fantasias possuem uma força provocativa genuína, enquanto outras parecem excessivamente longas ou menos inspiradas. Certos segmentos mantêm uma energia inventiva impressionante; outros revelam as limitações de um experimento que nem sempre consegue equilibrar sua ambição artística e sua proposta documental.

“Take One” permanece uma obra valiosa, tanto como documento histórico quanto como expressão artística. Wakefield Poole compreendia que o desejo também podia ser cinema, e filmava o sexo com uma curiosidade estética única. O resultado é um retrato vibrante da imaginação gay dos anos 1970, um filme que continua provocando, intrigando e seduzindo quase cinquenta anos depois de sua estreia.

Meu Nome é Agneta (Je m'appelle Agneta, Suécia, 2026)

 

Johanna Runevad escolhe um caminho delicado para falar sobre recomeços em “Meu Nome é Agneta”. Adaptando o romance de Emma Hamberg, a diretora constrói uma comédia dramática que observa a solidão, o envelhecimento e a redescoberta do desejo.

A protagonista, interpretada por Eva Melander, é uma mulher invisibilizada pela própria rotina. Presa a um casamento sem paixão, ignorada pelos filhos e desvalorizada no trabalho, Agneta aceita uma oportunidade inesperada na França. Ao chegar ao destino, descobre que o emprego não é exatamente o que imaginava. É ali que conhece Einar(Claes Månsson), um senhor excêntrico e espirituoso cuja presença altera completamente o rumo de sua jornada.

O roteiro evita transformar Agneta em vítima ou heroína. Sua crise existencial é tratada como algo profundamente humano, compartilhado por inúmeras pessoas que chegam à meia-idade carregando arrependimentos, frustrações e sonhos adiados. Runevad observa essa experiência com empatia e humor, permitindo que a protagonista encontre novos significados para sua existência sem precisar apagar seus erros ou renegar seu passado. É um filme interessado em possibilidades, não em julgamentos.

Embora Agneta seja o centro da narrativa, é através de Einar que “Meu Nome é Agneta” encontra sua singularidade. O personagem é um homem gay que passou boa parte da vida enfrentando as consequências de escolher viver de forma autêntica. Ex-marido, pai e veterano militar, ele abandonou uma existência moldada pelas convenções sociais para construir uma vida baseada na liberdade, no prazer e na autoaceitação. Sua casa é preenchida por arte, humor, erotismo e memórias, mas também pelos custos dessa escolha.

O encontro entre Agneta e Einar produz os momentos mais emocionantes do filme. A amizade entre eles transcende diferenças de idade, gênero e orientação sexual para falar sobre algo universal: a coragem de finalmente ocupar o próprio lugar no mundo. Ao incentivar Agneta a redescobrir o prazer, a sensualidade, a autoestima e a liberdade de viver segundo seus próprios desejos, Einar se torna muito mais do que um mentor. Ele representa a possibilidade de uma vida autêntica, mesmo depois de décadas de repressão.

De Volta à Córcega (Le Retour, França, 2023)

Catherine Corsini retorna às tensões familiares e afetivas que atravessam sua filmografia em “De Volta à Córsega”, drama ambientado no Meditarrâneo que acompanha Khédidja (Aïssatou Diallo Sagna) e suas filhas, Jessica (Suzy Bemba) e Farah (Esther Gohourou), durante um verão marcado por reencontros, segredos e feridas antigas. Quinze anos após deixar a ilha em circunstâncias traumáticas, a protagonista volta ao local onde nasceu e é obrigada a confrontar um passado que jamais deixou de assombrá-la. A diretora constrói a narrativa a partir desse retorno físico e emocional, transformando a paisagem mediterrânea em um território de memória, identidade e pertencimento.

Corsini observa as diferentes gerações de mulheres. Enquanto Khédidja carrega o peso dos silêncios e das escolhas que moldaram sua vida, Jessica e Farah vivem a descoberta dos primeiros amores, das amizades de verão e das contradições de uma terra que lhes pertence sem que elas a conheçam verdadeiramente. O roteiro, escrito em parceria com Naïla Guiguet, articula essas experiências com delicadeza, explorando também questões de raça, classe e herança cultural em uma sociedade marcada por tradições e tensões históricas. 

Há ainda uma dimensão queer sutil, mas significativa, especialmente na trajetória de uma das jovens protagonistas. Sem transformar a sexualidade em conflito central, Corsini incorpora o despertar afetivo e a descoberta do desejo como parte natural do processo de crescimento. E

Visualmente, “De Volta à Córcega” encontra sua força na relação entre os corpos e a paisagem. A fotografia captura o calor, o mar e a luz intensa do balneário, mas evita o cartão-postal turístico. A ilha surge como uma presença viva, quase um personagem, carregando fantasmas familiares, ressentimentos e promessas de reconciliação. 

“De Volta à Córcega” talvez não alcance a potência de alguns dos melhores trabalhos de Catherine Corsini, como "A Fratura" mas permanece uma obra sensível e envolvente sobre memória, identidade e reconciliação. Ao acompanhar três mulheres tentando reorganizar os fragmentos de suas histórias, o filme encontra beleza nas cicatrizes e nos reencontros, sugerindo que voltar para casa raramente significa recuperar o passado, mas sim aprender a conviver com ele. 

Billie Eilish: Hit Me Hard and Soft - The Tour (EUA, 2026)

Billie Eilish sempre pareceu interessada em desafiar os limites do pop, mas em “Billie Eilish: Hit Me Hard and Soft - The Tour” ela leva essa inquietação para o próprio formato do filme-concerto. Co-dirigido pela cantora ao lado de nada menos que James Cameron, o longa registra apresentações da turnê em Manchester e transforma o show em uma experiência visual imersiva, apostando em tecnologia tridimensional e câmeras posicionadas dentro da multidão para aproximar o público da artista. 

Diferente de muitos registros de turnê que se limitam a reproduzir o palco, o filme procura traduzir a estética emocional do álbum “Hit Me Hard and Soft”. A câmera desliza entre os corpos da plateia, acompanha Billie nos bastidores e transforma canções como “Lunch”, “Birds of a Feather” e “Wildflower” em momentos sonhadores. Há uma preocupação evidente em criar uma sensação de proximidade, como se o espectador estivesse dividido entre a primeira fila e os bastidores. 

O que mais impressiona, porém, é a maneira como Billie se impõe como presença cinematográfica. Mesmo diante de um aparato tecnológico associado ao diretor de “Avatar”, a cantora nunca desaparece sob os efeitos visuais. Pelo contrário, o filme funciona melhor quando enfatiza sua vulnerabilidade, seus olhares para a plateia e a cumplicidade com os fãs. Em vez de transformar a artista em uma figura inalcançável, o filme reforça sua humanidade.

Musicalmente, o resultado é arrebatador. O trabalho sonoro captura tanto a potência das faixas mais explosivas quanto os momentos de intimidade que se tornaram marca registrada da cantora e de Finneas O'Connell. O contraste entre a grandiosidade da produção e a delicadeza das composições cria uma tensão interessante, fazendo com que cada música pareça ocupar um espaço próprio dentro da narrativa.

Nem tudo funciona com a mesma intensidade. Alguns segmentos entre canções e bastidores soam excessivamente calculados, estão mais focadas em exibir a tecnologia do que em aprofundar a experiência emocional. 

No fim, “Billie Eilish: Hit Me Hard and Soft - The Tour” funciona  como uma extensão da identidade artística da cantora. É um espetáculo pop monumental, mas também um retrato de uma artista que continua buscando novas formas de se expressar. Entre a sensibilidade melancólica de suas canções e a grandiosidade tecnológica de James Cameron, surge um filme que não chega a inovar o concerto cinematográfico, mas certamente amplia suas possibilidades.

terça-feira, 23 de junho de 2026

Com estreia de "Apenas Coisas Boas", Lucas Drummond consolida nova fase no cinema brasileiro

Lucas Drummond, em "Apenas Coisas Boas"

A estreia de "Apenas Coisas Boas", novo longa de Daniel Nolasco que chega aos cinemas em 25 de junho, marca um momento importante na trajetória de Lucas Drummond. Conhecido por seu trabalho no teatro, na televisão e em produções independentes, o ator assume pela primeira vez o protagonismo de um longa-metragem, interpretando Antônio, um homem solitário que vive no interior de Goiás e tem sua rotina transformada após acolher um motociclista ferido.

O papel representa um passo significativo na carreira de Drummond, que vem construindo sua presença no audiovisual brasileiro em projetos que transitam entre o cinema autoral e produções de maior alcance. A atuação em "Apenas Coisas Boas" já lhe rendeu reconhecimento em festivais nacionais e internacionais, incluindo os prêmios de Melhor Ator no DIGO Festival, no For Rainbow e no ReelOut Kingston, além de uma indicação ao Iris Prize.

Formado pelo Teatro Tablado, no Rio de Janeiro, e pelo Stella Adler Studio of Acting, em Nova York, Lucas também desenvolve uma carreira paralela como roteirista e produtor. Nos últimos anos, escreveu, produziu e estrelou curtas como "Depois Daquela Festa" e "Todos os Prêmios que Eu Nunca Te Dei", exibidos em dezenas de festivais pelo mundo.

Na televisão, o ator participou de produções como "Todxs Nós", da HBO, e "Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente", da Max. No cinema, também integrou o elenco de "O Paciente", de Sérgio Rezende, e "Seguindo Todos os Protocolos", de Fábio Leal.

Além do trabalho diante das câmeras, Drummond segue investindo em projetos próprios. Atualmente está em cartaz com a peça "O Formigueiro", sucesso da cena teatral carioca, e prepara seu primeiro curta-metragem como diretor, "Pacman", além de desenvolver o roteiro de seu primeiro longa autoral.

Com "Apenas Coisas Boas", Lucas Drummond reforça sua posição como um dos nomes em ascensão do audiovisual brasileiro, ampliando uma trajetória marcada pela versatilidade e pelo compromisso com narrativas que dialogam com diferentes públicos, incluindo importantes produções LGBTQIAPN+ , como na nova parceira com Daniel Nolasco, “Pequenas Tragédias”.

Lucas Drummond, em "Pequenas Tragédias"

TEXTOS RELACIONADOS:

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Hotel Excelsior (Suíça/Alemanha, 2026)

 “Hotel Excelsior”, dirigido coletivamente por Liliane Ott, Jessy Moravec, Talkhon Hamzavi e Martin Skalsky, é um filme de antologia intimista que transforma um único quarto de hotel em Zurique, num palco de memórias humanas ao longo de um século.A obra é estruturada em quatro episódios interligados por um concierge enigmático, explorando temas como identidade, segredos, reconciliação e as marcas do tempo.

Os anos 1920 trazem tensão dramática com um empresário judeu fugindo do passado e a filha em busca de acerto de contas. Os anos 1970 oferecem um encontro inesperado e redentor entre uma mulher suicida e uma aliada improvável. O episódio dos anos 1990, centrado numa banda de rock envelhecida que retorna ao local de seu primeiro grande show (agora uma “prisão dourada”), injeta humor irônico e crítica à fama, revelando a banalidade por trás da imagem rebelde.

A direção colaborativa garante ao projeto muitas vozes, com cada realizador imprimindo sua sensibilidade. O elenco, multicultural e experiente (com destaques para Miriam Japp como concierge, que também desafia binarismos, Robert Hunger-Bühler e Maral Keshavarz), entrega interpretações matizadas que sustentam o tom híbrido entre drama e leveza.


O segmento contemporâneo é o destaque pela ousadia narrativa. Uma mulher iraniana e um profissional do sexo masculino unem forças num plano de golpe financeiro. Essa parceria improvável subverte hierarquias de gênero e poder, transformando o quarto num espaço de conspiração e cumplicidade. A química entre os personagens injeta suspense e acidez, ao mesmo tempo que humaniza figuras frequentemente estigmatizadas

“Hotel Excelsior" se encaixa no cinema de arte europeu contemporâneo que valoriza identidades marginais. A narrativa atual foca especialmente na dinâmica entre a mulher iraniana e o sex worker masculino, explorando fluidez relacional e a vivência à margem das convenções heteronormativas.

“Hotel Excelsior" é um filme interessante, com ambição conceitual e sensibilidade humana que compensam eventuais desequilíbrios entre os episódios. Não é um filme revolucionário, mas uma obra honesta e reflexiva sobre como os lugares guardam histórias e como, mesmo em quartos anônimos, há ecos de resistência e conexão.

ESPECIAL ANIMAÇÕES QUEER - PARTE 1

Do subtexto ao gesto político explícito

Durante décadas, a presença LGBTQIA+ na animação sobreviveu no território do código. Mas a Disney, que hoje nos boicota, já povoou nosso imaginário, tanto com suas princesas como nos vilões: Úrsula, inspirada na drag queen Divine em “A Pequena Sereia”, Scar com vibe maricona em “O Rei Leão”, Gastón como caricatura da masculinidade tóxica, 

Essa lógica do subtexto começa a ruir lentamente nos anos 2000 e se consolida na década seguinte. O subtexto vira texto. A metáfora cede espaço ao afeto nomeado, ao corpo que reivindica existir. Séries como “Hora de Aventura” e “Steven Universe” abrem caminho para uma animação que assume identidade, política e desejo. O que antes era lido nas entrelinhas passa a ocupar o centro da narrativa. A animação queer ainda engatinha, mas já deixa de ser apenas um espaço infantilizado e se afirma como campo radical de disputa simbólica, onde imaginar outros mundos também é resistência.

Eixo Nacional
A animação brasileira ocupa um lugar fundamental nesse percurso, mas especialmente em curtas. Em “Rocky & Hudson: Os Caubóis Gays” (1994), Otto Guerra já escancarava o desejo homossexual em plena década de 90, abrindo caminho para “A Cidade dos Piratas” (2018), onde a presença de Laerte inscreve a experiência trans como força viva dentro de um delírio político e visual. Esse gesto de dissidência dialoga diretamente com “Bizarros Peixes das Fossas Abissais” (2024), de Marcelo Fabri Marão, um surto experimental onde corpo, mutação, estranhamento e desejo se chocam.

Fábulas do deslocamento, exílio e sobrevivência
A animação também se tornou espaço privilegiado para narrar o queer atravessado por violência estrutural. “Flee” (2021), de Jonas Poher Rasmussen, transforma memória, exílio e sexualidade em relato íntimo e político, enquanto “The Breadwinner” (2017), de Nora Twomey, discute gênero e fluidez como performance de sobrevivência em um contexto de opressão extrema. Esse diálogo se expande em “The Missing (Iti Mapukpukaw)” (2023), de Carl Joseph Papa, onde luto, desaparecimento e identidade queer emergem em um país marcado por apagamentos sistemáticos.


Pop queer, afeto e ruptura no mainstream
Quando o queer entra no coração da animação popular, o impacto é imediato. “Steven Universe: The Movie” (2019), de Rebecca Sugar, consolida um universo onde afeto, trauma e reconstrução emocional são explicitamente queer, sem códigos, sem recuos. “Nimona” (2023), de Nick Bruno e Troy Quane, vai além: usa a fantasia para falar de identidade fluida, perseguição e monstros que só existem porque alguém decidiu nomeá-los assim. “The Mitchells vs. the Machines” (2021) integra uma personagem lésbica ao caos familiar contemporâneo sem transformá-la em exceção, enquanto “Mundo Estranho” (2022) marca um passo histórico ao apresentar o primeiro protagonista abertamente gay em um longa da Disney.

Anime, desejo e contemplação
A animação japonesa sempre soube lidar com o queer fora do eixo moral ocidental. “Tokyo Godfathers” (2003), de Satoshi Kon, permanece fundamental ao criar uma das personagens trans mais complexas, humanas e contraditórias do cinema animado. Já “The Stranger by the Shore” (2020) aposta na delicadeza e no silêncio para construir um romance gay contemplativo, sem concessões ao melodrama.

Fábulas de horror, excesso e rebeldia
O queer também explode na violência e no grotesco. “Unicorn Wars” (2022), de Alberto Vázquez, transforma o unicórnio,  símbolo historicamente associado ao desejo dissidente, em peça central de uma fábula animada de horror sobre repressão, guerra e pulsão destrutiva. “A Sapatona Galáctica” (2024), de Leela Varghese e Emma Hough Hobbs, assume o humor, o sci-fi e a identidade lésbica como motor narrativo, enquanto Adam Elliot retrata a melancolica da experiência em filmes como "Mary e Max"(2009) e "Memórias de um Caracol(2024)".

Apesar do boicote recente a personagens LGBTQIA+ por grandes estúdios e de um cenário político global cada vez mais hostil, o trajeto é longo,  e digno de celebração. Do código ao gesto político explícito, a animação queer construiu um arquivo de desejo, resistência e imaginação radical. Da Úrsula ao Teddy de “A Sapatona Galáctica”, de Satoshi Kon a Otto Guerra, o que antes sussurrava agora fala alto. E segue animando a revolução.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Preto Queima Rapidamente (Black Burns Fast, África do Sul, 2026)

 

"Black Burns Fast", estreia em longas da cineasta sul-africana Sandulela Asanda, chega como uma rara celebração da juventude queer negra sem recorrer à tragédia como motor principal. Ambientado em um internato de elite na África do Sul pós-apartheid, o filme acompanha Luthando (Esihle Ndleleni), uma estudante aplicada cuja rotina muda com a chegada da nova aluna Ayanda (Muadi Ilung). O despertar de um desejo inesperado obriga a protagonista a confrontar sua sexualidade, suas amizades e o lugar que ocupa dentro de um ambiente ainda marcado por hierarquias sociais e raciais.

O que mais chama atenção é a leveza com que Asanda conduz uma narrativa que poderia facilmente cair no clichê. Há conflitos envolvendo aceitação, preconceito e pertencimento, mas o filme prefere investir no humor, na fantasia adolescente e nos pequenos constrangimentos da descoberta afetiva. Em vez de transformar a experiência queer em sofrimento permanente, "Black Burns Fast" aposta na alegria, no encanto e na possibilidade de imaginar futuros mais generosos para seus personagens.

O romance sáfico surge de forma espontânea, cercado pelas inseguranças típicas da adolescência, enquanto o roteiro explora as múltiplas identidades que a protagonista precisa equilibrar para sobreviver à pressão familiar e escolar. O resultado é um retrato afetuoso da juventude lésbica negra, ainda pouco vista com essa naturalidade no cinema internacional.

Visualmente, o filme dialoga com a linguagem das redes sociais, dos videogames e da cultura pop contemporânea. Há uma energia colorida e vibrante que transforma paixões adolescentes em eventos quase épicos. A fotografia, de Pierre de Villiers, encontra beleza tanto nos corredores do internato quanto nos momentos de fantasia romântica, enquanto a direção imprime um ritmo ágil que aproxima a obra de clássicos modernos do coming-of-age sem perder sua identidade sul-africana.

Nem tudo funciona com a mesma precisão. Algumas situações são resolvidas de maneira excessivamente conveniente e certos conflitos perdem força justamente quando poderiam ganhar maior complexidade dramática. O roteiro privilegia a sensação de acolhimento à tensões mais profundas, o que pode frustrar espectadores que esperam um mergulho mais contundente nas contradições sociais apresentadas pelo filme. 

Mesmo com algumas equivocações narrativas, "Black Burns Fast" representa um passo importante para o cinema queer africano contemporâneo. Sandulela Asanda entrega uma obra divertida, romântica e assumidamente otimista, que reivindica espaço para histórias negras e LGBTQIA+ marcadas pela alegria, pela imaginação e pela possibilidade de sonhar. Em tempos nos quais tantas narrativas queer continuam associadas à dor, há algo profundamente político em assistir a um filme que escolhe celebrar o amor, a amizade e a descoberta de si mesmo.


Equipo (Espanha, 2024)

“Equipo”, curta dirigido por Miguel Carrillo e Ángel Torrego, aborda uma ferida ainda aberta no universo esportivo: a homofobia dentro do futebol masculino. A produção espanhola segue Álex, um jovem jogador que mantém um relacionamento secreto com o colega Sergio enquanto ambos tentam sobreviver a um ambiente marcado pelo machismo e pelo medo constante da rejeição.

O filme compreende que o armário, no contexto esportivo, não é apenas uma questão individual, mas coletiva. O silêncio de Sergio e a crescente solidão de Álex revelam como a masculinidade tóxica se perpetua através da cumplicidade involuntária daqueles que aprendem a esconder quem são para sobreviver. O roteiro de Ángel Torrego evita discursos grandiosos e aposta em situações reconhecíveis, construindo uma tensão emocional que cresce a cada interação entre os personagens e seus companheiros de equipe.


Embora a narrativa siga uma estrutura relativamente convencional, sua força nasce justamente da familiaridade do tema. O futebol continua sendo um dos espaços mais resistentes à diversidade sexual, e “Equipo” evidencia como o preconceito não precisa se manifestar apenas por meio da violência física. Os olhares, as piadas e a pressão pela conformidade funcionam como mecanismos igualmente cruéis de exclusão.

Do ponto de vista técnico, o curta demonstra eficiência e objetividade. A direção de fotografia de Keith Arnold Oré privilegia a fisicalidade dos treinos, dos vestiários e dos gramados, transformando o esporte em um espaço simultaneamente de desejo e ameaça. A câmera permanece próxima dos personagens, reforçando a sensação de confinamento emocional que acompanha Álex durante toda a narrativa.

Não há espaço para fantasias idealizadas ou histórias de aceitação instantânea. O relacionamento entre Álex e Sergio é atravessado pelo medo, pela insegurança e pela dificuldade de imaginar um futuro possível naquele contexto. Essa escolha torna o curta particularmente relevante, pois reconhece que muitas experiências LGBTQIA+ no esporte continuam sendo marcadas pela invisibilidade e pela autocensura.

“Equipo” cumpre aquilo que se propõe a fazer. É um drama breve, contundente e necessário, que transforma o campo de futebol em um microcosmo das disputas sociais contemporâneas. Ao dar rosto e voz a personagens frequentemente apagados das narrativas esportivas, Miguel Carrillo e Ángel Torrego lembram que, para muitos jogadores, a partida mais difícil ainda acontece fora da linha de campo.



quarta-feira, 17 de junho de 2026

"Quinze Dias" estreia nos cinemas e leva às telas romance juvenil sobre aceitação e autodescoberta

A adaptação cinematográfica de "Quinze Dias", livro de estreia do escritor brasileiro Vitor Martins, chega aos cinemas de todo o país nesta quinta-feira (18). Voltado ao público jovem adulto, o longa-metragem acompanha a trajetória de um adolescente que enfrenta inseguranças, bullying e a descoberta dos primeiros sentimentos amorosos.

Dirigido por Daniel Lieff, o filme é protagonizado por Miguel Lallo e Diego Lira. A história gira em torno de Felipe, um jovem acima do peso e tímido que espera ansiosamente pelas férias escolares para se dedicar aos livros e séries que gosta, longe dos colegas que costumam hostilizá-lo.

Os planos do adolescente, no entanto, são interrompidos quando sua mãe, Rita, personagem interpretada por Débora Falabella, decide hospedar por quinze dias o vizinho Caio enquanto os pais do rapaz viajam. A convivência inesperada desperta emoções que Felipe acreditava estarem adormecidas, já que Caio foi sua primeira paixão na infância.

Ao longo da narrativa, os dois jovens se aproximam e passam por um processo de autodescoberta marcado por conflitos, inseguranças e novas experiências. A produção aborda temas como gordofobia, identidade, aceitação e o primeiro amor, questões presentes no romance original que conquistou leitores desde seu lançamento.


Além dos protagonistas, o elenco reúne Mika Soeiro, Bel Moreira, Mariana Santos, Olivia Araujo, Márcio Vito e João Pedro Chaseliov. O filme também conta com participações especiais de Fernando Caruso, Silvio Guindane e Augusto Madeira.

Com roteiro assinado por Ray Tavares e Vitor Brandt, "Quinze Dias" é uma produção da Conspiração⁠ e tem distribuição da Manequim Filmes⁠. O longa tem produção de Renata Brandão e Juliana Capelini, patrocínio master do Nubank⁠ e apoio do BNDES⁠. A expectativa é que a adaptação amplie o alcance da obra de Vitor Martins ao levar para as telas uma história centrada na diversidade, na autoestima e nos afetos da juventude contemporânea.