quinta-feira, 8 de outubro de 2026

London (Brasil, 2026)

Se em “Ato Noturno”, de Marcio Reolon e Filipe Matzembacher, Porto Alegre é uma femme fatale, sedutora, noturna, perigosa, em “London”, de Victor Di Marco e Márcio Picoli, ela assume outra personalidade, mas continua sendo personagem. A capital gaúcha aparece no apartamentos, ruas, interiores e espaços de desejo que não servem apenas para descentralizar a história, mas ajudam a desenhar o estado emocional de London (Victor Di Marco), jovem com deficiência que trabalha realizando performances eróticas em um “inferninho” de fetiches. Quando surge a possibilidade de descobrir, por meio de um exame médico, a origem e o futuro de sua condição, ele se vê diante de uma pergunta que parece objetiva, mas mexe com tudo: até que ponto saber o que acontece com seu corpo significa permitir que outras pessoas decidam o que ele deve ser?

O filme recusa a imagem habitual da pessoa com deficiência como alguém a ser protegido, explicado ou transformado em exemplo de superação. London deseja, transa, trabalha, domina, se diverte, se irrita e se apaixona. Seu corpo não é apresentado como uma incógnita esperando por solução, mas como território de prazer, autonomia e contradição. O longa  evita determinar exatamente qual é sua condição, escolha que desloca a atenção do diagnóstico para a experiência. O Queer Lion, recebido em Veneza, reconheceu essa coragem de celebrar corpo, desejo e sexualidade fora das normas.

E “London” é muito sexy. Há nudez, fetiche, BDSM, corpos expostos e uma liberdade sexual que não aparece como provocação. O protagonista é bissexual e circula entre desejos por homens e mulheres sem transformar sua sexualidade em mais uma etiqueta burocrática. Existe, inclusive, uma relação especial com as mulheres que o cercam, uma espécie de acolhimento que lhe oferecem uma segurança afetiva que nem sempre encontra em outros lugares. Mas, por baixo de toda essa superfície, há uma história sobre solidão. O sexo não elimina o isolamento. O fetiche não resolve a necessidade de afeto. Ser desejado não significa necessariamente se sentir compreendido. 

A presença de Victor Di Marco diante da câmera dá outra camada para a experiência. O ator, roteirista e diretor compartilha com o personagem uma vivência de deficiência, mas “London” não precisa ser lido como autobiografia para que essa proximidade produza efeito.  O filme sabe que existe uma diferença enorme entre falar sobre um corpo e permitir que esse corpo fale por si. 

O longa também funciona como uma expansão de “ZAGÊRO”, premiado curta anterior dos diretores que já investigava a ideia de normalidade e o lugar de corpos que escapam dela. Aqui, essa pesquisa encontra tempo para respirar, errar, desejar e se contradizer. E a fotografia do talentoso Bruno Polidoro é fundamental nesse processo. Porto Alegre surge vívida, pulsante, às vezes acolhedora, às vezes estranha, enquanto o apartamento de London, no centro, funciona como uma extensão de seu mundo interior, quase um microcosmo onde independência, desejo e solidão convivem sem muita organização. A imagem não está simplesmente ilustrando o personagem, está dando uma textura própria à experiência dele.

Há ainda Londres, a cidade que dá nome ao protagonista e que, quando finalmente entra no horizonte do filme, ganha um peso simbólico bonito. Não é apenas uma viagem ou um destino geográfico, mas a possibilidade de imaginar uma existência para além das fronteiras que os outros estabeleceram. Depois de passar boa parte da história sendo observado, examinado, desejado, interpretado e classificado, London precisa decidir o que fazer com aquilo que descobriu sobre si mesmo. E essa é uma questão que ultrapassa a deficiência. “London” entende que a verdadeira liberdade não está em negar o diagnóstico, mas em impedir que ele se transforme na biografia inteira de uma pessoa.

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