quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Primeiras Impressões sobre "Estilhaços"

Era difícil não criar expectativas altas para "Estilhaços". A combinação de Ryan Murphy com Bret Easton Ellis, revisitando a Los Angeles de 1981 através de um thriller sobre jovens ricos e um serial killer conhecido como “The Trawler”, parecia prometer algo próximo de uma fusão entre "Psicopata Americana" e o lado mais sangrento de "American Horror Story". Os dois primeiros episódios, porém, deixam uma sensação curiosa: a de uma série visualmente impecável, mas ainda procurando identidade dramática.

Murphy dirige o episódio de estreia e, nesse terreno da ambientação, ele continua sendo um dos grandes artesãos da televisão. A reconstituição dos anos 1980 é deslumbrante, com carros, roupas, cabelos e interiores cuidadosamente coreografados. A recriação da Los Angeles da elite adolescente, especialmente espaços como o Sherman Oaks Galleria, funciona como um verdadeiro deleite visual. Quem acompanhou trabalhos como "Pose", "The Normal Heart", "AHS: 1984" e "AHS: NYC" reconhece imediatamente o domínio que Murphy tem sobre a década de 80 e sobre o poder narrativo da estética.

A trilha sonora é outro ponto alto evidente. Joan Jett, Duran Duran, The Human League, Pretenders, The Stranglers e Ultravox ajudam a construir uma atmosfera de desejo, paranoia e vazio emocional. Há momentos em que a música entrega mais tensão do que o próprio roteiro. A abertura envolvendo Bret indo ao cinema assistir a "O Iluminado" sintetiza bem isso: é uma sequência elegante, imersiva e carregada de melancolia, talvez a mais forte desses episódios iniciais.

O problema surge quando a série precisa ir além da embalagem. O elenco jovem, composto em grande parte por nomes associados à geração dos nepobabies, ainda não encontra o carisma necessário para sustentar o peso emocional da história. Igby Rigney funciona melhor na narração em off do que em cena, e Homer Gere, apesar do mistério evidente de Robert Mallory, parece depender mais da aura construída pela direção do que de uma presença realmente magnética. Falta aquele “punch” que fazia os personagens de Bret Easton Ellis parecerem simultaneamente sedutores e assustadores.

Também chama atenção a escolha de revelar elementos do serial killer tão cedo. Parte da força do romance estava na ameaça invisível, na dúvida constante sobre quem observar e em quem confiar. Ao materializar o perigo logo no início, a série enfraquece um pouco a paranoia psicológica que poderia diferenciá-la de outros thrillers adolescentes.

"Estilhaços" começa bonita demais e intensa de menos. Há sexo, drogas, privilégio, ressentimento e violência à espreita, mas ainda falta a combustão que se esperava de um encontro entre Murphy e Ellis. Queríamos algo mais próximo de uma “murphalyzação” estilizada de Psicopata Americana, com humor ácido, tensão erótica e crueldade social mais afiada. Por enquanto, os dois primeiros episódios funcionam melhor como retrato luxuoso da futilidade de uma juventude privilegiada do que como thriller verdadeiramente perturbador. A esperança é que, uma vez estabelecido o cenário, a série finalmente encontre o veneno, a perversidade e a intensidade emocional que sua premissa sugere.

Amici Per Caso (Itália, 2024)


 "Amici Per Caso", de Max Nardari, segue Pietro (Filippo Tirabassi), um jovem homofóbico e conservador cuja vida muda quando passa a dividir o apartamento com Omero (Filippo Contri), um homem gay extrovertido e seguro de si. A premissa poderia facilmente escorregar para o didatismo ou para o escravo, mas Nardari prefere conduzir a narrativa como uma comédia de convivência, em que o choque entre os dois personagens se torna ponto de partida para discutir preconceito, masculinidade e amizade.

Filippo Contri constrói um Omero espirituoso, mas também vulnerável, alguém que já aprendeu a lidar com o preconceito sem perder a leveza. Pietro, por sua vez, começa como figura bastante irritante, preso a uma masculinidade defensiva e cheia de inseguranças. A química entre os dois atores sustenta boa parte da narrativa: os diálogos têm ritmo, os conflitos nascem de diferenças reais de comportamento e a aproximação gradual entre eles convence.


A representatividade queer da obra é central, mas tratada através da experiência comum da amizade. Em vez de construir uma história de romance entre os protagonistas, o filme aposta na desconstrução da homofobia por meio da intimidade doméstica: dividir espaço, ouvir histórias, enfrentar problemas práticos e reconhecer a humanidade do outro. Essa escolha aproxima "Amici Per Caso" de uma tradição de comédias italianas que utilizam o humor para abordar temas sociais sem abandonar o tom popular.

A produção é modesta, mas eficiente. A direção de Nardari privilegia os atores e os espaços de convivência, utilizando o apartamento compartilhado quase como um pequeno palco teatral. A fotografia clara e a trilha POP, que às vezes se transforma em sequências de dança, reforçam a atmosfera de comédia romântica, mesmo quando a história toca em questões mais delicadas. O roteiro também encontra bons momentos de observação sobre a cultura italiana contemporânea, especialmente na maneira como expõe contradições entre valores tradicionais, religiosidade e a crescente visibilidade LGBTQIA+ no cotidiano urbano.


Nem tudo tem a mesma força. Alguns personagens secundários existem apenas para impulsionar a transformação de Pietro, e certas situações cômicas parecem previsíveis para quem conhece o subgênero do “opostos dividindo apartamento”. O filme também evita aprofundar as consequências mais duras da homofobia italiana, afastando-se de questões políticas e preferindo manter um tom acolhedor e otimista..

"Amici Per Caso" oferece algo cada vez mais raro: um filme interessado em aproximar pessoas sem abrir mão da identidade de seus personagens queer. Max Nardari utiliza o humor para desmontar preconceitos cotidianos e encontra sinceridade na relação entre Pietro e Omero, sustentada por duas atuações carismáticas. Entre momentos previsíveis e outros genuinamente afetuosos, o longa funciona como uma comédia leve, simpática e emocionalmente honesta, sobre como a convivência ainda pode ser uma das formas mais simples, e mais difíceis, de transformação.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Poster Boy: Becoming Zyzz (Austrália, 2026)

Poucos fenômenos da internet deixaram uma marca tão estranha e duradoura quanto Aziz “Zyzz” Shavershian. Morto aos 22 anos, em 2011, ele atravessou a cultura digital como meme, fisiculturista, motivador, personagem performático e, para muitos jovens, uma espécie de profeta da autoestima masculina. Em "Poster Boy: Becoming Zyzz", a diretora australiana Selina Miles evita tanto a hagiografia quanto o deboche fácil e investiga como um garoto fazendo vídeos no quarto se tornou o rosto do chamado Aesthetics Movement, movimento que antecipou muito do que hoje conhecemos como cultura de influenciadores fitness.

Zyzz não foi apenas um fisiculturista popular, mas um personagem criado para sobreviver à insegurança. Selina Miles articula vídeos caseiros, postagens antigas, imagens de treino e depoimentos de familiares e amigos para revelar a distância entre o jovem ansioso e o avatar hiperconfiante que conquistou milhões de seguidores. A série de vídeos motivacionais, os bordões e a estética exagerada deixam de parecer simples exibicionismo e passam a funcionar como uma armadura emocional. O documentário sugere que a masculinidade performada por Zyzz era, ao mesmo tempo, um produto da internet e uma tentativa desesperada de pertencimento.

É impossível assistir ao filme sem perceber como ele dialoga diretamente com o presente. Muito antes de TikTok, OnlyFans,  reels e algoritmos de engajamento, Zyzz já entendia intuitivamente a lógica da atenção digital: transformar o próprio corpo em narrativa, em marca e em comunidade. O documentário é particularmente perspicaz ao mostrar que o movimento “aesthetic” oferecia mais do que músculos; oferecia identidade para jovens homens que se sentiam invisíveis.

O aspecto queer da obra aparece mais como camada visual e cultural. A estética de Zyzz, bronzeado artificial, poses escultóricas, culto ao corpo grego, erotização constante da musculatura masculina, sempre carregou um forte componente homoerótico, ainda que inserido em um ambiente predominantemente heterossexual. O documentário toca nessa ambiguidade de maneira inteligente, observando como a cultura fitness masculina frequentemente oscila entre virilidade extrema e contemplação estética do corpo masculino. Sem transformar Zyzz em ícone LGBTQIA+, o filme reconhece que sua imagem circulou também em espaços queer e que sua performance de masculinidade nunca foi tão simples quanto seus memes sugeriam.

Quando o documentário aborda o uso de esteroides e o estilo de vida autodestrutivo associado àquela cultura, evita o tom moralista e prefere a tragédia silenciosa de alguém aprisionado pela própria criação.
"Poster Boy: Becoming Zyzz" é um documentário sobre a invenção de si mesmo na era digital. Selina Miles entende que Aziz Shavershian se tornou um mito porque encarnou uma promessa sedutora: a de que o corpo perfeito poderia curar insegurança, solidão e medo. O filme desmonta essa promessa sem destruir completamente o fascínio do personagem.


O Abraço de Couro, por Luiz Silva

por Luiz Silva

CRUISING é um termo para a prática sexual de pegação em locais públicos. Quando escrevi sobre “O Segredo de Brokeback Mountain” falei como certas experiências continuam identificáveis mesmo em épocas e regiões diferentes. CRUISING é nada mais do que pegação. Aquilo de entrar em um banheiro público masculino e ver homens reunidos nos últimos mictórios próximos da parede e olhando para os lados mais do que um homem hétero faria em uma situação com outros homens despidos ao redor. É aquele encontro informal em uma trilha no meio da mata com regras claras mesmo não ditas. É uma rua sem saída em qualquer cidade que pessoas usam desastrosamente, mas ainda intencionalmente como atalho depois do trabalho. Toda cidade tem isso. Até os héteros quando questionados sabem sobre a pegação acontecendo em um lugar desses. Mas e se nesse espaço de escapismo sexual houvesse um assassino em série? Essa é a premissa do livro de Gerald Walker em 1970 e sua subsequente adaptação homônima em 1980 para o cinema por William Friedkin em CRUISING, ambos traduzidos como “Parceiros da Noite”.

A polícia de Nova Iorque no meio da rotina de crimes em uma megalópole começa a encontrar um padrão em uma série de assassinatos. Partes de corpos humanos presumidamente masculinos encontrados no mar, homens gays assassinados com golpes de faca e todos sendo brancos com cabelos escuros, de estatura média e magros. A exata descrição do agente policial Steve Burns, atuado por Al Pacino. Ele é designado para o trabalho de campo onde se infiltrará na cena fetichista da cidade para ajudar a polícia a encontrar o assassino a tempo que a opinião pública da comunidade gay se torne mais voraz e cabeças de superiores comecem a rodar. Guardem esta palavra para depois, "comunidade".

Escondendo sua identidade verdadeira e até sua localização e missão de sua namorada, Steve, ou John Forbes, mergulha de cabeça em algo que se demonstra como uma realidade paralela e inédita para ele. Um vizinho gentil que se torna a única a amizade dele proporciona uma nova perspectiva. Liberdade sexual escondida por paredes. Experimentação de drogas. Tudo acontece pelas próximas semanas de John Forbes. Isso tudo envolto por um abraço forte firme masculino vestindo uma jaqueta de couro. Couro corrente, correntes, uniformes, quepes, óculos escuros à noite, bandanas coloridas codificadas compõe o cenário da experiência. Em vários momentos você ouve o som das roupas de couro se friccionando nos personagens. William Friedkin, que já era familiar com a tensão nos filmes em obras como “O Exorcista” e “Operação França”, faz um filme tenso e sensual digno do subgênero italiano Giallo violência gráfica, moda, cores, técnicas de câmera, etc.


O filme veio polêmico antes de ser gravado quando o roteiro foi vazado para ativistas da comunidade gay nova-iorquina da época. As polêmicas se estendiam por diferentes direções. Desde a representação promíscua, superficial e estereotipada da comunidade como um todo, mas a glamourização da polícia sendo o ponto mais contundente.



Lembram quando eu pedi que vocês guardassem a palavra comunidade lá no segundo parágrafo? Pois bem, durante a minha preparação para este texto eu encontrei o vídeo de um criador de conteúdo e autor sobre presença LGBT+ na mídia chamado Matt Baume sobre este filme (disponibilizarei o link no final do texto). Ele ilustra situações em países fora dos EUA como Canadá, Inglaterra e Austrália onde os assassinatos de gays foram renegados por décadas.


Assassinatos feitos por homens sozinhos e até por gangues. Se não fossem as famílias dessas vítimas e pessoas de suas comunidades, assassinatos que estavam sem solução há décadas não teriam sido solucionados e seus autores presos. O mesmo desdém se repete no Brasil. Desde ser há muito tempo o país que mais mata LGBT+ no mundo como também a falta de estáticas oficiais por parte dos governos. Ademais a maneira como possível suicídio é usada como solução para vários casos aqui e no estrangeiro. Não querendo fazer um texto androcêntrico, sei que há mulheres e não-bináries nas estáticas também. Estou trazendo esta parte sobre homens cisgêneros porque vai de encontro como o tema do filme. Mobilização pública, contato com políticos, divulgação, pressão por divulgação e alertamento partem por parte da comunidade LGBT+ em diferentes locais. Se falarmos sobre violência, morte ou até caça aos LGBT+ este texto ficaria maior do que já é. Mas voltando ao assunto da polêmica que assombra o filme até hoje, em nenhum momento do filme, pelo menos, não vimos qualquer sinal de uma comunidade ativa. Mesmo sendo na mesma cidade onde a revolta de Stonewall já havia acontecido. E a força policial alinhada com a máfia que era quem administrava os imóveis que eram centros gays na cidade ser o herói da história é minimamente contradizente, historicamente falando.

O filme é visto como um dos melhores de Friedkin por especialistas e criadores de conteúdo, mas fico me perguntando duas coisas. Será que esses que celebram o filme são heterossexuais alheios ao arquétipo do gay promíscuo que morre no filme como forma de punição por uma vida sexual ativa, e supostamente pecaminosa? E como eu deveria apreciar o filme em si, como a obra em si ou um

retrato do seu tempo e seus defeitos além do filme que persistem até hoje? Quando eu terminei o filme, eu simplesmente adorei. Eu sou fã de carteirinha de filmes de terror e o subgênero slasher é o meu favorito. Achei um filme corajoso, assustador, sensual. Como um filme bom filme deve fazer, nós nos empatizamos com os personagens. Ótimas atuações e uma direção e roteiro que prendem a

gente ao filme. Mas depois que pesquisei sobre o filme, entendi e concordo com as problemáticas apresentadas por aqueles que não gostaram. Então fico meio dividido.


De qualquer maneira, o filme é lembrado por visualmente retratar a cultura gay fetichista BDSM que já existia antes do filme e que existe até hoje. A cultura que existe e vive a sexualidade menos usual, aos olhos do público geral, permanece ativa e unida mesmo que não apresentada no filme. Locais secretos para escapismo sexual e práticas inusuais são menos tabus, porém menos secretos. Que fique a conclusão que narrativas LGBT+ sejam, de preferência, por pessoas LGBT+ ou que as levem em consideração. Nem tudo sobreviverá o teste do tempo, mas problemáticas não deixam de existir ignorando-as. Empatia e carinho ainda se fazem necessários mesmo em thrillers policiais.