Ser jovem, morar em Londres e ter acesso a um repertório interminável de discursos sobre identidade, terapia e liberdade sexual não garante que alguém saiba o que fazer da própria vida. Em “It Gets Worse”, Leo Reich pega a ansiedade da geração que deveria ter tudo pela frente e joga em uma comédia de constrangimentos, frustrações e autossabotagem. Ethan, Abi e Sam são amigos desde a universidade, dividem uma história e, até recentemente, um apartamento. Numa espécie de “Rent” da Gen Z, quando a ameaça de despejo desmonta a convivência, os três precisam encarar empregos humilhantes, relações afetivas desastrosas e a possibilidade de que a vida adulta não venha acompanhada de nenhuma revelação extraordinária.
Na série produzida pela A24, Reich interpreta Ethan, um jovem gay egocêntrico, sexualmente frustrado e obcecado pelos próprios dilemas. Seu humor nasce do contraste entre a dimensão monumental que ele atribui aos problemas pessoais e a facilidade com que consegue ignorar as dificuldades alheias. A narração de Zadie Smith acentua essa contradição com uma ironia quase documental, expondo o abismo entre a percepção que Ethan tem de si e os privilégios que continuam protegendo sua existência.
Abi (Emily Fairn) e Sam (Olive Gray) oferecem outras perspectivas sobre o mesmo impasse. Abi tenta organizar a vida em torno de uma ideia convencional de sucesso, com emprego, relacionamento e uma rotina que possa ser apresentada como sinal de estabilidade. Sam cultiva ambições artísticas e uma postura crítica diante das normas sociais, embora também se veja presa a contradições afetivas e profissionais. Eles se irritam, competem, decepcionam uns aos outros e, mesmo assim, continuam procurando maneiras de permanecer próximos.
Há encontros desastrosos, fetiches, fantasias, festas sexuais e negociações de poder que revelam o quanto a intimidade pode ser engraçada, desconfortável e profundamente humana. E então entra Andrew Scott. Sua participação como terapeuta de Ethan começa com uma cena sexual tão inesperada quanto provocadora, marcada por uma dinâmica de dominação que inclui o ator cuspindo na boca de Reich.
“It Gets Worse” pinta a imagem de uma geração que aprendeu a nomear quase tudo, mas continua sem saber como viver com o que sente. A insegurança material se mistura à ansiedade amorosa, a liberdade sexual convive com a solidão e a consciência das próprias contradições não impede ninguém de repeti-las. Leo Reich ri de seus personagens sem exigir que sejam modelos de comportamento ou porta-vozes de uma causa. Eles são egoístas, engraçados, cruéis, frágeis e, às vezes, insuportáveis.


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