sexta-feira, 23 de outubro de 2026

La Bola Negra (Espanha/França, 2026)

Existem amores que sobrevivem nos arquivos, desejos que atravessam gerações e vidas que a História preferiu deixar para trás. “La Bola Negra”, de Javier Calvo e Javier Ambrossi, Los Javis, nasce desse território de ausências para erguer um monumento cinematográfico à memória queer. É uma obra de reparação histórica que olha para aqueles que vieram antes, para os que foram perseguidos por amar e para tudo aquilo que o fascismo tentou apagar. Um épico sobre a Espanha, sem dúvida, mas também sobre a possibilidade de recuperar nossas histórias antes que o silêncio se torne definitivo.

Costuradas entre 1932, 1937 e 2017, as três narrativas encontram na bola negra um poderoso elo visual e simbólico. Inspirada na peça inacabada de Federico García Lorca, a primeira história acompanha Carlos (Milo Quifes), um jovem homossexual rejeitado por um clube masculino cuja votação o exclui por meio das pequenas esferas escuras que dão título ao filme. Na segunda, o amor entre Sebastián (Guitarricadelafuente) e Rafael (Miguel Bernardeau) se desenvolve em meio à Guerra Civil Espanhola, quando a intimidade entre dois homens precisa sobreviver à brutalidade de um país dividido. Décadas depois, Alberto (Carlos González) investiga uma herança familiar que o conduz aos fantasmas desse passado. As três épocas não são apenas capítulos independentes, mas fragmentos de uma mesma memória, unidos por uma montagem que encontra correspondências entre gestos, imagens, afetos e feridas. A bola negra é o sinal da exclusão, a marca de quem não foi autorizado a pertencer. Recuperar essas vidas é inverter o sentido da sentença.

A fotografia de Gris Jordana é sublime. Desde os créditos de abertura, o filme anuncia uma experiência em que a imagem não ilustra simplesmente a narrativa, mas adquire vida própria. Cada quadro parece uma pintura, cada composição guarda uma tensão entre beleza e tragédia. Quando a história se desloca para os pueblos espanhóis, há uma sensualidade cromática e uma liberdade melodramática que evocam Pedro Almodóvar. Mas existe também algo de Lorca nessa atmosfera, uma poesia que faz o cotidiano roçar o mito, que encontra no desejo uma força capaz de sobreviver à morte. É tudo muito lindo, melancólico e delicado, mesmo quando a violência histórica ameaça romper a superfície das imagens. O homoerotismo percorre “La Bola Negra” com bastante intensidade.


O elenco é extraordinário, com Carlos González se destacando ao conduzir a narrativa contemporânea como alguém que precisa escavar a própria história para compreender a dimensão do que recebeu como herança. Penélope Cruz, como Nené Romero, é uma força à parte. Sua personagem, ligada ao universo da performance e do entretenimento, parece carregar consigo uma ode às transformistas e às figuras que fizeram da arte uma forma de resistência. Há algo de comovente nessa presença, que celebra a exuberância como gesto de sobrevivência. E a participação de Glenn Close acrescenta um brilho especial a esse encontro de gerações, como parte de um elenco que compreende a dimensão épica da proposta sem abandonar seus momentos de intimidade.

A música, o canto e a dança encontram lugar em meio à guerra. Quando tudo ao redor parece organizado para produzir morte, ainda há corpos que dançam, vozes que cantam e pessoas que encontram maneiras de amar. A alegria não anula a tragédia, tampouco funciona como distração diante da violência. Ela se torna uma resposta à tentativa de controlar a existência, um gesto de afirmação diante de forças que desejam determinar quem pode viver, desejar e ser lembrado. É nesse encontro entre o melodrama, a beleza visual e a consciência política que os Javis fazem da luta contra o fascismo algo que ultrapassa a reconstituição histórica.

E quando toca “La Nieve” é impossível não cair em lágrimas. Há muito tempo um filme não me despertava tantas sensações. “La Bola Negra” é a consagração maior de Los Javis, uma obra ambiciosa, épica e profundamente queer. A ligação com Lorca torna tudo ainda mais pungente: imaginar os caminhos de uma peça que o poeta não pôde terminar é também imaginar as vidas que a violência interrompeu e as histórias que nunca tiveram a oportunidade de chegar ao fim. O filme não devolve o tempo perdido, mas cria imagens para aquilo que o tempo tentou destruir. Uma odisseia que atravessa gerações, uma obra prima de amores interrompidos e afetos sobreviventes, um monumento erguido para aqueles que vieram antes. Se a bola negra foi usada para excluir, aqui ela se converte em memória. E a memória, quando finalmente ganha corpo, é uma forma de resistência.



Um comentário:

  1. Ansioso pra ler, quero assistir ao filme antes. Você tem algum link para compartilhar?

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