terça-feira, 6 de outubro de 2026

One dances, the other doesn't (Die Eine tanzt, die Andere nicht, Alemanha/Espanha/Suíça, 2024)

Em “One Dances, the Other Doesn’t”, Tirza (Tirza Ben Zvi) engravida por acidente, ela está prestes a abortar e recebe da melhor amiga Dani (Daniela Castillo Toro) uma sugestão que parece saída de uma conversa às três da manhã: em vez de interromper a gravidez, por que não criar a criança juntas, ao lado de Reta (Anngret Schultze), namorada de Dani? A diretora Emilie Girardin observa o desconforto de pessoas inteligentes tentando descobrir se uma ideia bonita também pode funcionar na vida real.

A referência a Agnès Varda está estampada no título, mas Girardin não se limita a prestar uma homenagem cinéfila elegante. Se “Uma Canta, a Outra Não” usava a amizade entre duas mulheres para atravessar aborto, maternidade e autonomia corporal, “One Dances, the Other Doesn’t” leva a conversa para um terreno ainda mais bagunçado: e se o problema não for apenas decidir o que fazer com uma gravidez, mas descobrir quem tem o direito de fazer parte da vida que vem depois dela? A proposta de Dani desafia uma convenção bastante arraigada, inclusive dentro de relações queer: a ideia de que a família pode ser escolhida, sim, desde que continue parecendo suficientemente com uma família.

O filme fica particularmente interessante quando percebe que nenhuma utopia afetiva sobrevive intacta ao cotidiano. Tirza é dançarina e está tentando conseguir trabalho enquanto encara a gravidez; Dani e Reta desejam uma criança, mas descobrem que querer uma família não significa necessariamente saber dividir espaço, afeto, responsabilidade ou poder. O que começa como gesto de generosidade pode rapidamente adquirir outro peso: afinal, até onde vai a solidariedade de uma amiga e onde começa a apropriação de uma decisão que continua pertencendo ao corpo de outra pessoa?

O filme nasce de um processo coletivo de improvisação no qual o elenco ajudou a construir personagens e diálogos, antes que esse material fosse condensado em roteiro. Tirza Ben Zvi, que interpreta uma personagem com seu próprio nome e é de fato dançarina, acrescenta ao filme uma fisicalidade impossível de fabricar apenas no papel. Seu corpo é simultaneamente ferramenta de trabalho, objeto de desejo, alvo de decisões médicas e lugar onde todos ao redor parecem querer inscrever algum projeto de futuro.

“One Dances, the Other Doesn’t” não tenta resolver o futuro para ninguém. Sua política está menos nas respostas do que na disposição de levar a sério uma pergunta que o cinema costuma tratar como piada, fantasia ou problema: quem pode ser família? Girardin olha para a amizade sem transformá-la numa versão aguada do romance e para a maternidade sem fazer dela um destino inevitável. E, ao contrário de muito cinema queer que anuncia novas formas de viver antes mesmo de seus personagens terem tempo de experimentá-las, aqui existe uma bagunça saudável. Pessoas se amam, se irritam, fazem propostas absurdas, recuam, tentam novamente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário