segunda-feira, 19 de outubro de 2026

MOSTRA SP 2026: I PLANT MY HAND IN THE GARDEN e UM DIA NA VIDA DE JO: CAPÍTULO PHAEDRA

por Bruno Weber
I Plant My Hand in the Garden(Alemanha/Sérvia/EUA, 2026)


Hoda é uma refugiada iraniana vivendo em Berlim, onde está prestes a se casar com o sérvio Boris, um homem queer de quem está esperando um bebê. Em meio aos preparativos, o casal é confrontado com as memórias e bagagens afetivas de suas respectivas famílias, e as diferentes situações que definem cada núcleo familiar. Nessa versão ficcional da realidade, a dupla de cineastas Boris Hadžija e Hoda Taheri, que interpretam a si mesmos no filme, cria em "I Plant My Hand in the Garden" algo além de uma autobiografia ou um documentário.


Há uma cena que acontece no dia do casamento, em que Boris e sua mãe precisam sair um pouco antes da cerimônia para buscar o pai dele, que estava desaparecido há dias antes de ser encontrado num hotel de luxo. No caminho, Boris se lembra que um ex-namorado trabalhava naquele hotel. A mãe pergunta se ele se casou. "Afinal, a sexualidade é fluída", ela diz rindo. Esse momento serve como síntese do filme e de seus temas. Boris, apesar de parecer incomodado com o comentário, assimila isso aos questionamentos que ele se faz sobre as performances que as pessoas criam para si próprias, e se ela realmente estão em conflito com a realidade interior de cada um. Afinal, se alguém pode considerar o casamento dele com Hoda como "de fachada", isso não contraria o amor entre os dois.


Da mesma forma, Hoda contém naturalmente em si várias aparentes contradições que formam um retrato completo e honesto de uma pessoa. Ao mesmo tempo que ela exibe uma doçura com seus amigos e familiares, há também uma refrescante falta de pudor e pragmatismo ao discutir sexo e traumas do passado. Ela se revela uma pessoa composta por profundas camadas, dotada de malandragem e com a cabeça cheia de planos, tudo em prol de exercer uma liberdade idealizada, social e sexualmente. Até mesmo a forma que ela conversa sobre sexo com a mãe e a irmã mais nova desafia estereótipos de nacionalidade e religião. Todas as personagens femininas da trama demonstram essa ligação visceral, que ultrapassa até mesmo o limite do idioma.


Apesar de não ser um filme perfeito ou fácil de se assimilar, "I Plant My Hand in the Garden" reflete as personalidades de seus personagens/autores. É cheio de truques e artifícios um tanto desnecessários (o plano que termina com um close saindo do canal vaginal de Hoda pode parecer um pouco exagerado), mas há muita verdade em suas mentiras. Pode demorar um pouco a dizer o que veio, mas é sincero em seus objetivos.



Um Dia na Vida de Jo: Capítulo Phaedra (Mia mera sti zoi tis Tzo: kefalaio Faidra, Grécia, 2026)

"Mande pra ela o sonho".


Em meio há um emaranhado de cores e reflexos, é com essa frase que começa "Um Dia na Vida de Jo: Capítulo Phaedra". Escrito e dirigido pela cineasta grega Jacqueline Lentzou, o filme narra os acontecimentos de um dia na vida de Josephine. Aos 15 anos, Jo (Evita Andriopoulou) parece uma adolescente típica, vivendo atritos com a mãe divorciada e com o pai ausente, com pressa de chegar na escola para ficar com o namorado, desinteressada nas aulas, nas outras pessoas ou no amanhã. Mas o que a atmosfera onírica do início do filme indica é que Jo está num momento de transformação, como se houvesse uma realidade metafísica, acima do mundo real, que a observasse e a guiasse em direção a algo especial. E o momento de virada acontece quando, numa aula de música, ela ouve a voz de Phaedra (Anastasia Gouliamou). Profundamente afetada pela canção de Phaedra, Jo se sente inexplicavelmente atraída pela colega que ela nunca havia notado antes. Um magnetismo que a faz questionar cada aspecto de sua vida e acaba colocando vários elementos ao seu redor em um movimento que ela só conseguirá compreender no fim.


Lentzou cria uma metáfora para o amadurecimento como uma espécie de final para todas as coisas. Essa versão de Jo deixa de existir para que outra, mais verdadeira, possa surgir. Em essência, a trama pode ser apenas uma história de paixão adolescente, mas é elevada pelo framing elegante e original dessa abordagem de sonho, que no final ganha uma camada metalinguística surpreendente. A metalinguagem pode ser um recurso mal utilizado, pois arrisca comprometer a identificação do público com a história e seus personagens. Um Dia na Vida de Jo, felizmente, escapa dessa armadilha, entregando uma conclusão comovente e significativa.


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