"Covarde", de Lukas Dhont, é ambientado em 1916, e acompanha Pierre, um jovem soldado que, ao se afastar temporariamente das trincheiras, conhece o artista Francis. Juntos, eles trabalham em uma revista teatral para elevar o moral das tropas, o que desencadeia uma história de amor homossexual e clandestina em meio aos horrores da Primeira Guerra Mundial. O longa estreou no Festival de Cannes de 2026, onde ganhou o prêmio conjunto de Melhor Ator aos protagonistas Emmanuel Macchia e Valentin Campagne, e, foi escolhido como o representante da Bélgica no Oscar de 2027. Covarde (Coward, Bélgica/França/Holanda, 2026) por Egídio La Pasta
Homens diante de seus próprios limites, em um cenário de guerra, no qual demonstrar sentimentos pode ser tão difícil quanto enfrentar o inimigo. Qualquer sentimento. Seja o desespero diante da situação que parece sem fim. Quanto o medo diante da morte. Ou o desespero da dúvida sobre o dia seguinte. Ou o amor por outro homem. A guerra erradica os sentimentos, demole a emoção, aniquila o afeto.
Os combates aqui não funcionam como pano de fundo. Ele é o ambiente integral: thrown/inóspito, cheio de escombros, explosões, desespero. Ao redor há medo, solidão, pavor. Encontrar qualquer tipo de carinho num ambiente como esses parece incompatível. Parece uma traição ao propósito da luta. Desertar. Mais do que acompanhar os acontecimentos no campo de batalha, o filme observa os personagens, especialmente quando precisam esconder suas fragilidades para corresponder à imagem de coragem que se espera deles. Meninos. Sem vida vivida. Sem tempo de estrada. Com uma serie de infinitos desejos inéditos, sonhos em construção, pontes para atravessar. À deriva.
Não há delicadeza na violência. Ela determina as regras. Os pequenos gestos de aproximação ganham dimensão especial entre dois dos soldados. É como se, por alguns instantes, conseguissem escapar da realidade. Com interesse um pelo outro. Curiosidade. Algum carinho confuso, constantemente ameaçado pelas convenções sociais e pela dificuldade de compreender a profundidade do que isso representa. Ali, entre 1914 e 1918. O teatro dos rejeitados, os soldados que não servem mais para a guerra, parece dar rumo a liberdade de Francis. E se apresenta a Pierre, de maneira gradual. A expressão artística suspende a guerra para eles por alguns segundos.
Como a masculinidade, o desejo e a farda conseguem, na representação desses dois rapazes, criar raízes profundas, para além da guerra, apesar dela. Existe uma contradição permanente entre o que sentem e o que precisam aparentar ser diante dos outros. O uniforme não representa apenas a condição de soldados, mas também um conjunto de regras que determina como devem se comportar, sentir e esconder suas próprias vulnerabilidades. O ambiente parece tornar tudo ainda mais urgente, mais cruel. A possibilidade dos sentimentos criarem raízes, diante de um cenário construído para, no mínimo, sufocá-los.
Gostei mais do que imaginei. Muito mais.


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