quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Ao Sabor das Cinzas (Brasil, 2026)

O que uma família faz para preservar as próprias aparências? Em “Ao Sabor das Cinzas”, o cineasta pernambucano Taciano Valério usa essa pergunta como uma viagem pelo Agreste, conduzida por duas irmãs que mal conseguem sustentar uma conversa enquanto procuram o corpo desaparecido do pai. Bethânia (Verônica Cavalcanti) e Laura (Maria Lima) se reencontram depois da morte de Seu Lauro (Everaldo Pontes), mas a busca pelo patriarca rapidamente deixa de ser apenas uma questão de sepultamento. Entre estradas, silêncios e aparições insólitas, o passado começa a cobrar a conta de uma família tradicional paraibana que construiu sua respeitabilidade sobre segredos difíceis de esconder. 

A viagem das irmãs acontece em paralelo à investigação conduzida por Isadora (Isadora Gibson), filha de Bethânia, que edita arquivos audiovisuais da família e monta um registro capaz de alterar a compreensão que todos têm da própria história. A montagem desses materiais cria uma espécie de documentário dentro do filme, no qual as imagens deixam de funcionar como simples lembranças e passam a servir de evidência. O passado não é recuperado de maneira neutra: ele é reorganizado, exposto e confrontado.

Laura mantém um relacionamento com outra mulher, mas sua companheira é tratada como uma presença inconveniente na imagem oficial da família. Na cena do último Natal, Bethânia tenta alterar discretamente o enquadramento de uma fotografia para excluir a namorada da irmã. O gesto é pequeno, quase doméstico, mas carrega uma violência muito reconhecível: a tentativa de apagar uma relação sem precisar declarar abertamente a rejeição. 

A questão se torna ainda mais perturbadora quando os conflitos em torno da sexualidade são colocados ao lado dos crimes escondidos pelos homens da família. A investigação de Isadora revela uma rede de tráfico e exploração de mulheres envolvendo seu pai, Mário, e o avô, Seu Lauro. O contraste não deve ser reduzido a uma equivalência entre homofobia e esses crimes, mas permite observar a hipocrisia de uma moral familiar que vigia o afeto entre duas mulheres enquanto protege homens envolvidos em violências muito mais concretas. 

O realismo fantástico amplia esse retrato ao embaralhar as fronteiras entre vivos e mortos. A ausência do corpo de Seu Lauro transforma o luto em investigação, mas também abre espaço para que o passado continue interferindo no presente de maneiras inesperadas. O fantástico não precisa oferecer respostas claras para funcionar como linguagem de uma memória contaminada por segredos. Nesse universo, os mortos não desaparecem porque suas ações continuam organizando a vida dos sobreviventes. 

“Ao Sabor das Cinzas” dá sua contribuição mais significativa na forma como aproxima o apagamento íntimo e a corrupção moral. O enquadramento que tenta excluir a namorada de Laura condensa uma política familiar inteira: controlar a imagem, proteger a reputação e decidir quem pode ser reconhecido. O filme nem sempre consegue organizar todas as camadas de sua narrativa, mas a imagem da fotografia manipulada permanece como síntese de seu universo. Algumas famílias preferem apagar uma mulher da foto a rever as próprias convicções. Outras precisam que os mortos desapareçam para que seus segredos continuem enterrados. E em certos ocasiões, precisam fazer de ambos os casos parte da mesma história.


Nenhum comentário:

Postar um comentário