sábado, 24 de outubro de 2026

Everyone’s Sorry Nowadays (Tegenwoordig heet iedereen Sorry, Bélgica, 2026)

Aos treze anos, qualquer indiferença pode adquirir proporções de catástrofe. Quando essa sensação se instala dentro de casa, o lugar que deveria oferecer segurança passa a parecer um território estrangeiro. Em “Everyone’s Sorry Nowadays”, Frederike Migom segue Bianca (Lisa Vanhemelrijck), uma adolescente de temperamento intenso que luta para encontrar espaço numa família onde parece haver sempre alguém mais importante do que ela. Sua mãe está absorvida pelos cuidados com Alan, o irmão mais novo que tem um problema cardíaco, enquanto o pai construiu uma nova vida com Cruz e demonstra pouca disposição para lidar com a filha. Bianca é chamada de difícil, indisciplinada, impossível de compreender. Mas e se o problema não for apenas aquilo que ela faz, e sim o fato de ninguém se esforçar para escutar o que está tentando dizer?

Ambientado ao longo de um dia sufocante de verão, o filme encontra na temperatura uma extensão do estado emocional de sua protagonista. O calor aumenta, os conflitos se acumulam e pequenas frustrações adquirem uma dimensão quase insuportável. A chegada inesperada de Billie King (Sachli Gholamalizad), atriz de uma novela e grande ídolo de Bianca, rompe a rotina familiar e abre uma possibilidade de mudança. A celebridade não aparece simplesmente como uma fantasia escapista, mas como alguém capaz de oferecer à menina uma atenção que ela não consegue encontrar nos próprios vínculos. O encontro permite que Bianca enxergue outras perspectivas para sua raiva e comece a compreender sentimentos que, até então, só conseguia expressar por meio de explosões.

A diretora mostra que crescer também significa descobrir que os adultos são contraditórios, que as relações familiares não obedecem a uma lógica simples de culpados e vítimas e que sentir-se abandonada não significa necessariamente ter sido abandonada de maneira deliberada. A interpretação de Lisa Vanhemelrijck é fundamental para essa construção. Em sua estreia no cinema, a jovem atriz sustenta as oscilações da personagem e faz com que a irritação deixe entrever uma vulnerabilidade que Bianca ainda não sabe nomear.


A imaginação tem papel importante nessa experiência. Ao apresentar determinadas situações pela perspectiva da menina, o filme permite que a realidade se misture às imagens mentais que ela cria para organizar o mundo. É também na presença de Billie King que se abre uma perspectiva particularmente interessante para uma leitura queer. A atriz vive com sua esposa, Malika, e seu filho, Jazz, oferecendo a Bianca o contato com uma configuração familiar que não corresponde ao modelo tradicional que organiza boa parte de seu entorno. 

“Everyone’s Sorry Nowadays”, por vezes, hesita diante das possibilidades mais arriscadas que apresenta. Isso não elimina a delicadeza do resultado, nem o trabalho de uma diretora que dá forma cinematográfica ao ruído interior de quem sente que ninguém está ouvindo. No fundo, Bianca não precisa que todos concordem com ela, nem que os adultos acertem sempre. Precisa que alguém reconheça que existe uma pessoa por trás de sua raiva.


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