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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

FESTIVAL DO RIO 2026: COWARD

 

"Covarde", de Lukas Dhont, é ambientado em 1916, e acompanha Pierre, um jovem soldado que, ao se afastar temporariamente das trincheiras, conhece o artista Francis. Juntos, eles trabalham em uma revista teatral para elevar o moral das tropas, o que desencadeia uma história de amor homossexual e clandestina em meio aos horrores da Primeira Guerra Mundial. O longa estreou no Festival de Cannes de 2026, onde ganhou o prêmio conjunto de Melhor Ator aos protagonistas Emmanuel Macchia e Valentin Campagne, e, foi escolhido como o representante da Bélgica no Oscar de 2027. Covarde (Coward, Bélgica/França/Holanda, 2026)  por Egídio La Pasta

Homens diante de seus próprios limites, em um cenário de guerra, no qual demonstrar sentimentos pode ser tão difícil quanto enfrentar o inimigo. Qualquer sentimento. Seja o desespero diante da situação que parece sem fim. Quanto o medo diante da morte. Ou o desespero da dúvida sobre o dia seguinte. Ou o amor por outro homem. A guerra erradica os sentimentos, demole a emoção, aniquila o afeto.  

​Os combates aqui não funcionam como pano de fundo. Ele é o ambiente integral: thrown/inóspito, cheio de escombros, explosões, desespero. Ao redor há medo, solidão, pavor. Encontrar qualquer tipo de carinho num ambiente como esses parece incompatível. Parece uma traição ao propósito da luta. Desertar. Mais do que acompanhar os acontecimentos no campo de batalha, o filme observa os personagens, especialmente quando precisam esconder suas fragilidades para corresponder à imagem de coragem que se espera deles. Meninos. Sem vida vivida. Sem tempo de estrada. Com uma serie de infinitos desejos inéditos, sonhos em construção, pontes para atravessar. À deriva.  


​Não há delicadeza na violência. Ela determina as regras. Os pequenos gestos de aproximação ganham dimensão especial entre dois dos soldados. É como se, por alguns instantes, conseguissem escapar da realidade. Com interesse um pelo outro. Curiosidade. Algum carinho confuso, constantemente ameaçado pelas convenções sociais e pela dificuldade de compreender a profundidade do que isso representa. Ali, entre 1914 e 1918. O teatro dos rejeitados, os soldados que não servem mais para a guerra, parece dar rumo a liberdade de Francis. E se apresenta a Pierre, de maneira gradual. A expressão artística suspende a guerra para eles por alguns segundos.  

​Como a masculinidade, o desejo e a farda conseguem, na representação desses dois rapazes, criar raízes profundas, para além da guerra, apesar dela. Existe uma contradição permanente entre o que sentem e o que precisam aparentar ser diante dos outros. O uniforme não representa apenas a condição de soldados, mas também um conjunto de regras que determina como devem se comportar, sentir e esconder suas próprias vulnerabilidades. O ambiente parece tornar tudo ainda mais urgente, mais cruel. A possibilidade dos sentimentos criarem raízes, diante de um cenário construído para, no mínimo, sufocá-los.  


​Gostei mais do que imaginei. Muito mais.


FESTIVAL DO RIO 2026: FEITO PIPA E WHERE TO?

Feito Pipa

Aclamado nos festivais de Berlim e Gramado, "Feito Pipa", do diretor Allan Deberton, é o representante oficial do Brasil na corrida pelo Oscar 2027. Rodado no sertão do Ceará, o longa acompanha Gugu, um garoto de 11 anos apaixonado por futebol, dança e maquiagem. Criado com liberdade pela avó, ele esconde o avanço do Alzheimer dela para não perder sua autonomia e ser obrigado a viver com o pai intolerante.

"Where to?", longa de estreia do diretor Assaf Machnes, utiliza a cabine de um carro para mapear as dores do exílio e do conflito no Oriente Médio. A trama acompanha um motorista palestino cuja rotina muda ao longo de dois anos após corridas com um jovem turista israelense, transformando o choque geopolítico em uma sensível relação de afeto.

Feito Pipa (Brasil, 2026)
por Egídio La Pasta

Yuri Gomes é um acontecimento. Que seja um ator com uma carreira bonita e generosa pela frente.

Allan Deberton transforma a infância de Gugu em um delicado território de descobertas, afetos e medos. Criado pela avó Dilma (Teca Pereira, espetacular) no interior do Ceará, o menino encontra nela a liberdade para gostar de futebol, dançar e se expressar sem precisar caber nas expectativas dos outros. Quando a saúde da avó começa a se deteriorar, o medo de perdê-la se mistura à possibilidade de ter que morar com o pai (Lázaro Ramos, ótimo), com quem mantém uma relação difícil. Crescer é também enfrentar um mundo que talvez não esteja disposto a aceitá-lo como ele é. Mundo e pessoa. Pessoa e mundo.

O que me parece tocante é a maneira como o amor entre avó e neto se constrói nos pequenos gestos, nos detalhes de como ela abraça a liberdade do menino e está sempre disposta ao amor. A barragem que revela uma cidade esquecida, distante, parece acompanhar esse movimento da memória, trazendo à superfície aquilo que o tempo suprimiu. É bem leve quando aborda o preconceito e amadurecimento, mas muito certeiro quando lembra que a infância deveria ser um espaço de liberdade, nunca de medo. A tal da pipa que insiste em voar, apesar dos ventos contrários.

Where To? (Israel/Alemanha/França, 2026)
por Egídio La Pasta

Eu costumo recorrer à sinopse porque muitas vezes eu encontro algo que eu não consegui captar. Aqui, um motorista palestino e um jovem israelense se cruzam durante algumas viagens de táxi por Berlim, em diferentes momentos. O passageiro é um homem gay. O tempo aqui, é também um personagem importante. Porque ele não constrói exatamente as relações, mas ele deixa marinar os pensamentos sobre algumas conversas entre eles dois.

Hassan percebe na juventude de Amir, o impulso do amor apaixonado, rasgado, disponível. E acende memórias do jovem que ele foi. Isso mexe intimamente com ele. Com a forma como ele lida com a sua vida, a sua família. A forma como ele rompe sua própria convenção de ser o homem que ele se deixou transformar, criando uma rede de afeto tão confortável como inexistente.


A troca entre eles é algo que parece se perder na tradução e no significado. A compreensão nem sempre é nítida, as intenções são. Dois homens cujas trajetórias são moldadas pelo exílio e pela urgência de se reinventarem em Berlim. Um, em movimento perpétuo numa estrada que não chega a lugar algum. O outro, que parece encontrar o grande amor, se perde de si mesmo, ainda mais estrangeiro.

É bonito demais!


Where To?

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

FESTIVAL DO RIO 2026: A MARGEM DO RIO

"A Margem do Rio", der Matheus Farias e Enock Carvalho, foi ganhadora do Prêmio Especial do Júri no Festival de Cinema de Locarno, na Suíça. A obra segue Izaquiel (Caique Copque), um jovem que trabalha como auxiliar de serviços gerais em Recife. À noite, ele costuma frequentar os manguezais da cidade em busca de encontros sexuais secretos. Sua vida muda drasticamente ao conhecer Jeremias (Ítalo Martins), um pescador misterioso. Quando uma onda de violência e ameaças externas invade a região, Jeremias guia Izaquiel em uma jornada tensa pelas profundezas do manguezal, onde o desejo, a religiosidade e o mito se misturam.


A Margem do Rio (Brasil, 2026)
por Egídio La Pasta

É um mergulho em águas profundas e turvas. Que exige aceitar alguns códigos, sobretudo na reta final, onde o filme parece romper com alguns signos, me fazendo repensar de que talvez eu pudesse estar muito preso ao universo realista que ele imprime tão bem.


Izaquiel, um jovem gay, trabalha como auxiliar de serviços gerais em Recife e enfrenta diariamente o cerco dos seus contratantes. Ele é transferido para uma igreja evangélica, numa última tentativa de mantê-lo na empresa.

Enquanto o dia exige discrição para sobreviver nesse ambiente, a noite o leva para o manguezal. É na lama e na penumbra que ele busca encontros sexuais e encontra Jeremias, um pescador enigmático. Arrisco dizer que ele não busca apenas o sexo. Mas algum tipo de conexão com a floresta, com o rio, com a natureza, que parece chamá-lo. Quando a violência externa invade a intimidade desse refúgio, ele tenta preservar não só esse lugar tão importante para sua conexão com a sua essência, mas a sua identidade.


Há suspense, erotismo e realismo mágico (embora eu tenha demorado a compreender), transformando o próprio mangue em um personagem sufocante e acolhedor ao mesmo tempo. É um filme quase sensorial sobre existir à margem, muito direto no ponto, onde essa igreja radical, que tenta curar o que não precisa de cura (e tenho visto cada vez mais isso), exerce um personagem crucial no roteiro.

Implico com o final, mas gosto demais de como Izaquiel traça suas relações, de como ele parece estar numa investigação profunda sobre quem ele é, disponível para a sua intuição, desfrutando da sua beleza e juventude, mas ciente de que esse mundo é um lugar filho da puta.


Todas as atrizes trans que dividem o apartamento e a vida com ele são maravilhosas.

terça-feira, 6 de outubro de 2026

FESTIVAL DO RIO 2026: ANIMOL

Enjaulados (Animol, Reino Unido, 2026) por Egídio La Pasta

Ele me lembra de outros filmes com essa temática, mas é muito interessante como esse pensamento se dissipa rapidamente. Não é um filme de observação, eu me senti detido junto do protagonista. Troy é preso numa instituição para jovens infratores pouco mais do que dois meses. Como sobreviver nesse ambiente? Como driblar as relações com os chefões do lugar? Como disfarçar quando há um afeto imediato e inesperado por um dos presos, que corresponde?

A aproximação entre os rapazes nunca romantiza o encontro e não se deixa explorar a intimidade dos personagens de forma gráfica; pelo contrário, o afeto entre eles é tratado pela frágil observação silenciosa, cercado por arames farpados. Tudo é meado pelo ambiente hostil, onde pequenos gestos de carinho precisam ser controlados. Não é um ambiente para a ternura. Zelo, talvez.

Eu gosto quando ele transcende as expectativas do subgênero de filmes sobre reformatórios. Quando ele insere a mãe, numa relação complicada com o protagonista. E acho interessante a composição desse cenário, na representação dos diferentes tipos de transformações que os presos causam uns nos outros. Seja pela experiência dos que já comandavam o lugar. Seja pela necessidade de adaptação e sobrevivência diante das inúmeras violentas situações que aparecem pelo caminho.


O elenco é espetacular.

Há respiro. Mas é um caminho conturbado.

sábado, 3 de outubro de 2026

FESTIVAL DO RIO 2026: THE EDUCATION OF JANE CUMMING, A LONG WINTER, JIM QUEEN

 

por Egídio La Pasta The Education of Jane Cumming (Reino Unido/Alemanha/Suíça, 2026)

É um filme que expõe não só a homofobia que as professoras sofrem. Mas o racismo por Jane ser indiana. Sua avó não a suporta e a escola funciona como uma forma de fazer com que ela suma de vista.


1810 e a educação para as mulheres era questionada. Por que elas precisam aprender sobre borboletas? Um casal homoafetivo era tratado como algo sobrenatural. Após o julgamento, o caso foi tratado como segredo de justiça e ganhou um sigilo de cem anos.

Tem um lance bacana na atmosfera, que é o isolamento. A escola é distante. A casa é imensa. Elas parecem estar num universo à parte, onde vivem de acordo com as próprias regras, mesmo dentro de uma sociedade machista.


As atrizes estão muito bem, são temperamentos e personalidades muito distintas entre as protagonistas. As crianças criam uma unidade interessante e Fiona Shaw dá uma roubada de cena todo momento em que aparece.

A Long Winter (Reino Unido/Canadá, 2026)

Fazendo as pazes com o Haigh aqui, seu filme anterior, "Todos Nós Desconhecidos", é um filme que não aconteceu em nenhuma esfera comigo. Mas ele é um cara que sabe dissecar silêncios, dentro e ao redor das relações frágeis.

Adaptado do conto de Colm Tóibín, ele nos leva para o isolamento das montanhas rochosas nos anos 1950 para contar uma história onde o clima gélido de fora é só um reflexo do que os personagens carregam no peito. E é bem simples na dinâmica, dois irmãos, jovens adultos, pensando em sair de casa, uma cabana no meio da montanha e ir tentar a vida. E seus pais, a mãe (Caitríona Balfe maravilhosa), sufocada pelo lugar, pela rotina, pela vida e o pai (Ebon Moss-Bachrach, que também está em "The Man I Love"), um cara que construiu essa vida nesse lugar, sem ambição alguma sobre mudar o cenário, sem ser exatamente um brutamontes, mas que compreende seu machismo de maneira rotineira, natural.

Quando o mais novo (Kit Connor, olar) vai embora, o mais velho se encontra diante da herança da expectativa que o pai deposita sobre ele e a compreensão do sofrimento da mãe diante de uma vida toda construída através da aparência. Mike (Fred Hechinger) é um cara sensível, começando a entender seus desejos, de maneira muito sutil. Sua sexualidade é usada como um elemento da personalidade, embora sugerida em momentos específicos, não se sobrepõe a outros traços que também o definem.

A fotografia é um elemento importante, a imensidão sufocante das montanhas com a clausura daquela cabana isolada de tudo. E a investigação sobre dores profundas, luto e as expectativas sufocantes colocadas sobre os homens e mulheres daquela época. É um belo filme.


Jim Queen (França/Bélgica, 2026)

O traço é o máximo. E a velocidade das piadas também.

Imagine um cenário onde a única pandemia que importa não fecha comércios, mas ameaça extinguir o coração pulsante da comunidade queer de Paris. É com essa premissa absurda e deliciosamente provocativa que Jim Queen nos joga de cabeça no caos.

Cores vibrantes, referências pop de três em três minutos e um humor ácido. A história acompanha Jim, um influenciador narcisista e "rainha" incontestável da noite parisiense, que vê seu império desmoronar da noite para o dia por causa do Heterotopzis — um vírus misterioso que converte homens gays em héteros atordoados

O que poderia ser apenas uma piada de uma nota só, ganha fôlego graças ao roteiro esperto e a dinâmica improvável entre Jim e Lucien, um twink recém-assumido que embarca nessa jornada frenética em busca de uma cura.

A relação dos dois funciona como o coração do filme e por trás de todo o deboche, das críticas afiadas ao culto, fama nas redes sociais e da sátira aos modismos da militância contemporânea, existe uma discussão ali sobre pertencimento, ego e o medo de perder a própria identidade.

Rir de si mesmo é sempre um caminho que abre a estrada, desde sempre eu penso dessa forma. E no meio da loucura toda, é um filme sobre o afeto, o que deixa tudo muito mais interessante e divertido.

Eu tava um pano de chão no início da sessão de meia-noite, achei que não ia dar conta e dormir, mas ele é ágil, rápido, sem tempo morto e muito animado.

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

COBERTURA FESTIVAL DO RIO 2026: THE MAN I LOVE

 

Ambientado na vibrante e dolorosa Nova York do final dos anos 1980, “The Man I Love”, de Ira Sachs, com roteiro de Maurício Zacharias, acompanha Jimmy George (Rami Malek), um icônico artista e ator de teatro. Após ser diagnosticado com AIDS, ele lida com a iminência da morte enquanto tenta realizar um último grande papel no palco e vivenciar o amor intensamente. O filme explora um triângulo amoroso entre Jimmy, seu carinhoso namorado Dennis, e Vincent, um jovem vizinho britânico.

The Man I Love (EUA/França, 2026)
por Egídio La Pasta

Acho que o pior do filme está no Rami Malek. Não entendo como um diretor como o Sachs não conseguiu controlar as caras e bocas e olhinhos virados. É muita afetação.


Dito isso, é um recorte de um momento muito dramático. Ele, inclusive, evita o drama e mergulha num estudo sobre esse ator de teatro e seu processo atropelado pela doença. E nem sempre funciona porque todo o entorno das suas relações parecem muito mais interessantes e relevantes do que os bastidores de um espetáculo de teatro.

Boa direção de arte e figurinos. E o clima e a atmosfera da época, dos signos gays e dos corpos e a vida dentro e fora das boates, colidindo nas relações familiares e amorosas diante da ruptura, tudo isso me parece um material espetacular para o filme que eu não encontrei.

Esse protagonista, esse ator famoso, desejado, reconhecido, ávido por atenção, ele é uma síntese bastante precisa de alguém que se utiliza do outro, independentemente se pode ou não machucá-los. Deixar marcas. Ele esbarra nesse retrato de homens irresistíveis, que se acham muito melhores do que são e compreendem o amor de forma muito equivocada.

Aqui o filme acerta muito na representação de um tipo facilmente reconhecível, acredito, por muitos de nós. Só não precisava de tanto biquinho e pescocinho virado. Queria muito mais Tom Sturridge, um tremendo coadjuvante.