quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Estilhaços (The Shards, 2026)

Era difícil não criar expectativas altas para "Estilhaços". Ryan Murphy e Bret Easton Ellis juntos, revisitando Los Angeles em 1981 através de adolescentes ricos, sexo, drogas, paranoia e um serial killer conhecido como The Trawler, parecia uma combinação destinada ao excesso. Os primeiros episódios até sugerem essa possibilidade. A série chega com uma produção luxuosa, uma fotografia impecável e uma trilha sonora capaz de ressuscitar os anos 1980 com uma eficiência quase indecente. O problema é que, conforme a temporada avança, fica cada vez mais evidente que o pacote é melhor do que o conteúdo. A colaboração que parecia capaz de produzir uma criatura deliciosamente perversa acaba entregando uma série frequentemente bonita, às vezes divertida e quase sempre menos interessante do que deveria.

Murphy continua sendo um dos grandes especialistas em transformar televisão em vitrine. A Los Angeles de 1981 é sedutora, ensolarada e artificialmente perfeita, povoada por carros, roupas, mansões, telefones extravagantes, cabelos cuidadosamente penteados e uma sucessão de referências culturais que parecem ter saído diretamente de uma pasta de inspiração sobre os anos 1980. A trilha sonora, com Joan Jett, Duran Duran, The Human League, The Pretenders, The Stranglers, Ultravox e outras escolhas certeiras, é especialmente eficiente. Em determinados momentos, a música produz mais tensão, desejo e melancolia do que o próprio roteiro.


O problema aparece na passagem da estética para a dramaturgia. "Estilhaços" começa como um thriller sobre paranoia, identidade e desejo e aos poucos vai acumulando subtramas, personagens, suspeitos, reviravoltas e mudanças de tom sem conseguir estabelecer uma hierarquia convincente entre eles. O mistério do Trawler deveria ser o motor da temporada, mas frequentemente parece uma decoração de luxo colocada sobre um drama adolescente que não sabe se quer ser levado a sério. A série alterna thriller, melodrama, humor camp, erotismo, sátira social e terror sem encontrar uma combinação inteiramente satisfatória. O resultado tem momentos deliciosamente exagerados, mas também longos trechos em que a sensação é de que estamos esperando Ryan Murphy finalmente apertar o botão do caos. E ele aperta. Só que, quando aperta, muitas vezes já estamos cansados.


Existe uma ironia curiosa na maneira como a série lida com Bret e sua sexualidade. O romance de Ellis nasceu justamente de uma relação muito íntima entre memória, desejo, identidade e a tentativa de compreender o próprio passado. Na televisão, essa dimensão queer continua presente, mas é transformada em combustível para o suspense e para a atração entre Bret e Robert. A tensão entre os dois é uma das coisas mais interessantes da temporada, justamente porque mistura desejo, paranoia e projeção.



Também existe uma questão incômoda na adaptação: seus personagens são tão protegidos por dinheiro, beleza e privilégios que frequentemente se tornam difíceis de suportar. Isso poderia ser uma virtude se a série usasse essa antipatia como instrumento de sátira. Em alguns momentos, usa. Em outros, parece simplesmente esperar que nos importemos com eles porque são bonitos e estão sofrendo em casas enormes. Bret funciona melhor porque Igby Rigney consegue encontrar fissuras na pose autocentrada do personagem. Evan Rachel Wood e Wes Bentley também entendem perfeitamente o registro exagerado que o universo de Murphy pede. Já parte do elenco jovem parece ter sido escalada antes pela fotogenia do que pela capacidade de desaparecer dentro dos personagens. E sim, o fato de Kaia Gerber e Homer Gere serem filhos de Cindy Crawford e Richard Gere, respectivamente, torna o elenco uma piada metalinguística quase perfeita para uma história sobre adolescentes privilegiados de Los Angeles. O problema é quando a piada começa a parecer mais interessante do que a atuação.


A série também sofre de uma doença bastante conhecida na televisão de Ryan Murphy: o excesso de ideias acompanhado por uma relativa escassez de consequências. A cada episódio surge uma nova possibilidade, uma nova suspeita, um novo trauma, uma nova extravagância. Algumas funcionam muito bem, outras são abandonadas ou resolvidas rapidamente, e o suspense vai perdendo força justamente porque a narrativa parece incapaz de decidir qual de suas obsessões merece realmente sobreviver. O ritmo começa a parecer menos uma construção deliberada de tensão e mais aquele conhecido "ritmo Ryan Murphy", em que a série vai acumulando acontecimentos até que alguma coisa suficientemente chamativa apareça para manter o espectador interessado. É divertido. Também é cansativo.


E talvez seja esse o maior problema de "Estilhaços": a série nunca parece tão cruel quanto sua reputação, tão perturbadora quanto sua premissa ou tão ácida quanto o nome de Bret Easton Ellis faria esperar. O romance tinha uma dimensão de memória, culpa, desejo e autoanálise que tornava sua violência inseparável da subjetividade do narrador. A série preserva a superfície dessa experiência, mas muitas vezes transforma sua complexidade em nostalgia oitentista, roupas caras, adolescentes lindos e uma sucessão de acontecimentos sinistros. Não por acaso, parte da crítica comparou a adaptação a uma versão muito mais superficial do livro, enquanto outras elogiaram justamente sua capacidade de transformar o material em um espetáculo televisivo sedutor. A verdade provavelmente está no meio.


"Estilhaços" é uma experiência curiosamente frustrante porque a série está sempre a poucos centímetros de ser extraordinária. Ela tem o elenco certo em alguns lugares, o diretor certo, o material literário certo, a época certa, a trilha certa e dinheiro suficiente para transformar tudo em uma fantasia visual irresistível. O que falta é justamente aquilo que a parceria entre Murphy e Ellis fazia imaginar: uma mordida realmente venenosa. Murphy entrega o luxo, Ellis fornece o trauma, mas a mistura termina parecendo um coquetel servido bonito demais para ser realmente forte. "Estilhaços" não é ruim. É pior, de certa maneira: é uma série que nos lembra constantemente de como poderia ter sido muito mais interessante.

Nenhum comentário:

Postar um comentário