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segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Went Up The Hill (Austrália/Nova Zelândia, 2025)

“Went Up the Hill”, de Samuel Van Grinsven, é um horror queer assumidamente íntimo, que desloca o medo do susto para o território do trauma herdado. Ambientado nas paisagens verdes e opressivas da Nova Zelândia, o filme segue Jack (Dacre Montgomery), um jovem gay que retorna ao local ligado à morte da mãe e se vê obrigado a conviver com Jill (Vicky Krieps), a viúva dela. Van Grinsven sinaliza que não está interessado em repetir convenções do gênero, mas em distorcê-las, colocando personagens queer no centro de uma narrativa de fantasmas que fala menos de casas mal-assombradas e mais de corpos ocupados por histórias que não conseguem morrer.

A dinâmica inicial entre Jack e Jill é construída a partir de uma identificação imediata e inesperada. Ambos são queer, ambos carregam marcas profundas deixadas por Elizabeth, a mãe falecida de Jack, e essa partilha de identidade cria um laço de “família encontrada” que dispensa qualquer expectativa heteronormativa de romance. Jill funciona como ponte para uma descoberta tardia de Jack sobre a sexualidade da própria mãe, e essa revelação produz uma intimidade estranha, feita de reconhecimento e desconforto. O filme encontra aí um de seus gestos mais interessantes: retirar do espectador a segurança dos arquétipos e instaurar uma relação afetiva ambígua, sustentada mais pela dor comum do que por desejo.

É a partir da possessão espiritual de Elizabeth que “Went Up the Hill” assume seu aspecto mais perturbador. O espírito da mãe passa a habitar os corpos de Jack e Jill como uma extensão de seu controle em vida, usando o afeto como instrumento de manipulação. Inicialmente apresentada como uma presença quase protetora, a possessão revela-se gradualmente egoísta, invasiva e abusiva, transformando o sobrenatural em metáfora direta de dependência emocional e maternidade tóxica. Van Grinsven não suaviza esse processo: a câmera insiste nos gestos cotidianos que se tornam ameaçadores quando atravessados por uma vontade que não pertence mais aos vivos.


A sexualidade queer  torna-se eixo central do horror. As cenas em que a possessão leva a atos de agressão sexual e intimidade forçada, como quando Elizabeth ocupa o corpo de Jack para se impor a Jill, introduzem um desconforto profundo ao tocar em temas como consentimento, incesto simbólico e violência intra-comunitária. O filme recusa qualquer idealização da experiência queer e confronta o espectador com uma realidade mais dura, onde vítimas e abusadora compartilham a mesma identidade, complexificando noções fáceis de pureza ou redenção.

O longa aposta em um ritmo deliberadamente lento, que privilegia o acúmulo emocional em vez do choque gratuito. As paisagens da Nova Zelândia funcionam como extensões do estado psicológico dos personagens, amplificando o isolamento e o sentimento gótico de aprisionamento. É um horror que opera pela repetição, pela invasão gradual e pela sensação de não conseguir escapar de um passado que insiste em se reencarnar.

A aliança queer que se forma se consolida como resistência ao fantasma manipulador, deslocando o foco do medo para a possibilidade de cura. “Went Up the Hill” subverte os tropos tradicionais do terror ao transformar a possessão em linguagem para falar de abuso, luto e autonomia, oferecendo uma abordagem ousada e incômoda do horror queer contemporâneo, imperfeita em sua forma, mas potente em suas implicações.


quarta-feira, 19 de março de 2025

Inky Pinky Ponky (Nova Zelândia, 2023)

"Inky Pinky Ponky", dirigido por Damon Fepulea'i e Ramon TeWake, é uma joia rara que brota direto das Ilhas do Pacífico, trazendo uma história queer e Pasifika para o centro da tela. Baseado na peça de Amanaki Prescott-Faletau e Leki Jackson-Bourke, o filme segue Lisa, uma jovem fakaleitī tonganesa — um "terceiro espírito" na cultura do Pacífico —, vivida com magnetismo pela própria Prescott-Faletau. Em St. Valentine’s High, na Nova Zelândia, ela enfrenta intolerância e encontra amor onde menos espera: com Mose, o capitão do rugby (John-Paul Foliaki). É uma narrativa coming-of-age que pulsa com autenticidade, enraizada nas experiências de uma equipe totalmente Pasifika, de Tonga a Aotearoa.

O filme é um banquete visual e emocional, misturando o humor afiado dos adolescentes pardos da Nova Zelândia com a estética vibrante das Ilhas do Pacífico. Lisa quebra a quarta parede com um charme que lembra Fleabag, mas com um sotaque tonganês e um olhar que carrega séculos de resiliência cultural. As cenas do baile escolar, com seus vestidos coloridos e danças improvisadas, ecoam as celebrações comunitárias do Pacífico, enquanto a trilha sonora — com hits como “They Don’t Know”, de Kirsty MacColl, logo nos primeiros minutos — dá um toque de nostalgia que conecta gerações. É como se o filme dissesse: "Nós, Pasifika, estamos aqui, e nossa história é agora."


A força de "Inky Pinky Ponky" está em sua autenticidade cultural. A mãe de Lisa, interpretada por Sesilia Pusiaki, é um retrato fiel das mães tonganesas, com maneirismos que vão do sermão ao carinho em um piscar de olhos — um eco das dinâmicas familiares das ilhas. O filme não foge das tensões entre tradição e identidade queer; pelo contrário, as encara com um diálogo honesto, como na cena em que Lisa questiona estar presa em um corpo que não a reflete. É um grito universal, mas profundamente enraizado na experiência Pasifika.


O romance entre Lisa e Mose é o fio que costura a narrativa, e a química entre Prescott-Faletau e Foliaki é puro fogo. Ele começa como uma aposta cruel — típica dos clichês de high school —, mas evolui para algo genuíno, desafiando as expectativas tanto dos colegas de Mose quanto do público. Aqui, o filme mostra sua raiz Pasifika ao subverter o tropo do "príncipe encantado": o amor não é só redenção, mas um espelho das complexidades da aceitação em uma comunidade que valoriza a coletividade acima de tudo. É delicado, é real, é Tonga em cada olhar trocado.


Claro, nem tudo é perfeito. Com apenas 60 minutos, o filme às vezes parece correr demais, deixando subtramas — como a relação de Lisa com a mãe ou os amigos de Mose — pedindo mais espaço para respirar. A montagem também tropeça em momentos, com transições que poderiam ser mais fluidas para dar peso às emoções. Mas esses deslizes não ofuscam o brilho do que "Inky Pinky Ponky" representa: uma vitória da soberania narrativa Pasifika, feita por e para sua gente, com um elenco e equipe que carregam o Pacífico no sangue.


No fim, "Inky Pinky Ponky" é mais do que um filme — é um marco. Ele leva as histórias queer das Ilhas do Pacífico para o mundo, mostrando que a identidade fakaleitī não é novidade, mas parte de uma tradição rica e viva. De Tonga à Nova Zelândia, ele valida as lutas e os triunfos dos jovens Pasifika, oferecendo um espelho para os pēpēs (bebês) trans do futuro. Com sass, coração e um toque de humor escolar, é um convite para celebrar a diferença,

quarta-feira, 29 de março de 2023

Punch(Nova Zelândia, 2022)

A estreia em longa-metragem de Welby Ings, indicado ao Oscar por seu curta Boy é uma história de amadurecimento muito convincente que acerta como um soco. Situado na zona rural da Nova Zelândia, e estrelado pelo britânico Tim Roth, o filme é um conto de como a homofobia de uma pequena cidade combinada com a xenofobia pode ter consequências explosivas.

Jim Richardson (Jordan Oosterhof) tem treinado para sua chance de se tornar um boxeador profissional durante toda a sua vida em Punch. Seu pai Stan (Roth) o pressiona desde criança. Este é o sonho de ambos, mesmo que às vezes pareça mais com Stan do que com Jim. 


Jim é um adolescente que está crescendo, explorando e aprendendo sobre si  mesmo. Ele não pode se concentrar apenas no boxe, há mais no mundo. Ele tem interesse em fotografia, música e vídeos. Durante esse período de autodescoberta, Jim conhece Whetu (Conan Hayes), um Maori nativo, abertamente gay, que é ridicularizado e condenado ao ostracismo por isso. Os dois amadurecem juntos com Whetu ajudando Jim a perceber quem ele realmente é e a aceitar sua sexualidade.


Jim terá que lidar com seus sentimentos crescentes por Whetu, a pressão dos sonhos de seu pai para seu futuro e as demandas de todas as várias pessoas da cidade que querem definir o homem que ele se tornará.


Ings baseia-se na experiência pessoal e nas de pessoas próximas a ele para o filme. Isso adiciona um nível de realismo aos personagens e suas jornadas. O cineasta emprega tomadas únicas, enquadramentos e closes para tentar estabelecer uma conexão mais profunda com os atores. A cinematografia, de Matt Henley, é atmosférica e linda e eleva o filme, especialmente nas cenas que Whetu e Jim passam juntos. 


Punch é uma história focada em dois relacionamentos envolvendo três homens, Stan, Jim e Whetu. A relação entre pai e filho e o romance entre dois jovens. Esses três personagens não são apenas centrais para o filme, mas são o filme.  Ao lado do veterano Roth, os jovens atores mostram uma gama de emoções de forma gritante e com pequenas sutilezas transmitidas com perfeição.




segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Ataque dos Cães (The Power of the Dog, EUA/Reino Unido/Austrália/Nova Zelândia, 2021)



Os irmãos George(Jesse Plemons) e Phil (Benedict Cumberbatch) não poderiam ser mais diferentes. Enquanto um é sofisticado e elegante o outro é um legítimo e bruto cowboy, proprietários de um rancho, em Montana, de 1925.

Quando George, anuncia que se casou em segredo com a viúva Rose(Kirsten Dunst), que dirige um pequeno restaurante e tem um filho claramente homossexual, Pete (Kodi Smit-McPhee), que se interessa por medicina e gosta de flores, a família não recebe a notícia com simpatia e o intolerante Phil, decide fazer da vida deles um inferno.

A vida de Rose no rancho não é feliz, a personagem míngua e regride conforme os maus tratos a ela e ao filho acontecem. A personagem recorre à bebida para preencher o vazio que começa a tomar conta da sua vida. Sem noção, o marido tenta animá-la com um piano que ela não consegue tocar em encontros sociais.

Quando Pete está prestes a se juntar às férias de verão da faculdade com a família, sua delicadeza torna-se um alvo fácil no rancho e parece trazer à tona uma crueldade particular em Phil, o que acaba revelando muito sobre o personagem.



A escritora e diretora Jane Campion, ganhadora do Oscar, pela direção do filme e também pelo roteiro de O Piano(1993), se inspirou no romance de Thomas Savage para escrever o roteiro sobre a masculinidade tóxica. O Ataque de Cães pode demorar um pouco a acontecer, mas a tensão que Campion cria é poderosa e até mesmo desconfortável.

A fotografia, de Ari Wegner, é esplendorosa e destaca paisagens bucólicas que dão o tom ao filme. Apesar de se passar num rancho da região montanhosa dos Estados Unidos, o longa foi rodado na Nova Zelândia. Mas não é só nas paisagens que habitam a beleza, a câmera traz um certo homoerotismo com a nudez de Cumberbatch, ou num banho de rio tomado por vários vaqueiros.


Pete desperta o pior em Phil, ele desencadeia algo no personagem que ele parece incapaz de ignorar mas com o passar do tempo, também aflora um senso de humanidade. Pete é acovardado, mas há uma luminosa cena dele desfilando com 'orgulho' em meio aos peões, enquanto é vaiado, e essa é a sensação que só um LGBTQIA+ conhece. Phil é bruto mas quando não há ninguém por perto, vemos um lado mais suave, um lado que ele se esforça muito para manter em segredo. 


sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Almas Gêmeas(Heavenly Creatures, Nova Zelândia, 1994)



Quando Peter Jackson, em 1994, dirigiu Almas Gêmeas ele vinha de filmes de terror como Fome Animal e Náusea Total, por isso este seu ingresso num longa-metragem mais sério era muito esperado. E Jackson fez isso com louvor. Criando um filme lindo, colorido e com boas pitadas de fantasia ele provou porque um dia seria um dos diretores mais cultuados graças à franquia O Senhor dos Anéis.

O filme também marca a estreia no cinema de Kate Winslet, outra grande revelação, a atriz vive Juliet Hulme, uma nova moradora da cidade que se envolve com Pauline Yvonne, interpretada pela também estreante Melanie Linskey. Nos conservadores anos 1950, na Nova Zelândia, a amizade excessiva das duas acaba se tornando objeto de preocupação para os pais.


Juntas, Juliet e Pauline vivem uma relação intensa, criam um mundo de fantasia e nele se tornam inseparáveis. Após Juliet contrair tuberculose e se internada, a relação acaba criando ainda mais dependência com a troca de cartas de personagens fictícios e uma imaginação um tanto excêntrica.


Durante quase todo o tempo de projeção do filme, o romance entre as duas adolescentes é velado, porém suspeito pelos pais de Pauline, que a levam a um psiquiatra que a diagnostica como homossexual e sugere o afastamento de Juliet, ou então um tratamento, o que era comum naquela época.


Em um embate com os pais e a sociedade as amigas desafiam a tudo e a todos para ficarem juntas e encarnam uma trajetória de empoderamento feminino, em plenos anos 1950. A relação porém acaba se tornando tóxica e nenhum pouco saudável para nenhuma das partes.


Como a tragédia é anunciada no início do filme, que conta que o longa foi baseado nos diários de Pauline, o mundo lúdico com unicórnios e borboletas gigantes acaba se desfazendo diante de uma violenta realidade.


Almas Gêmeas foi o primeiro grande filme de Peter Jackson e simboliza através de sonhos, metáforas e analogias a homossexualidade em uma sociedade conservadora. Também conta uma história trágica através de um ponto de vista lúdico e uma fotografia belíssima. Numa história de paixão e loucura, Kate Winslet se destaca por fazer uma estreia perfeita no cinema.