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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

FESTIVAL DO RIO 2026: LA BOLA NEGRA

La Bola Negra(Espanha/França, 2026) por Egídio La Pasta

Há em mim, desde os anos 1990, um pesar profundo sobre o tanto de vidas perdidas pela AIDS. Provavelmente porque foi a epidemia mais violenta que eu presenciei no início da minha vida jovem, já me compreendendo um cara viado, o Tom Hanks definhando tomando vinho e ouvindo ópera, ganhando um oscar e milhares de pessoas morrendo, tendo suas vidas interrompidas. Gerações de atores, escritores, artistas de inúmeras áreas, cujas contribuições poderiam ser expressivas, plurais, inclusivas para o avanço e a permanência da cultura queer. Eu lamento tanto esse lapso, esse apagar de homens e mulheres, vozes, corpos, ideias, poesia. É importante repetir: a poesia.


Aqui, uma epopeia. Literal, esse abraço na palavra escrita, nos grandes feitos heroicos através da história, que insiste em erradicar, enterrar e assassinar a coragem. Existe um peso incomensurável nas coisas que o tempo decide deixar inacabadas. Eis uma tentativa de ecoar e honrar a continuidade dos afetos. Herdar a luta de gerações, muitas delas apagadas porque o amor entre homens era um ato de resistência quase suicida, se não houvesse cuidado e silêncio.


A narrativa se divide e se conecta através de três momentos cruciais da história espanhola, acompanhando personagens cujos destinos ecoam uns nos outros. E é delicioso quando os encaixes começam a dar forma e sentido às conexões, que começam 1932, 1937 (durante a Guerra Civil Espanhola) e 2017.

Em 1932, o filme captura a fragilidade de uma juventude que ousa sonhar em meio a estruturas sociais rígidas e castradoras, simbolizadas pela metáfora de uma votação secreta que dá nome à obra, onde bastava um único voto com a bola preta para banir a existência de alguém dentro daquele grupo. Anos mais tarde, em 1937, o cenário se corrói pelo fogo cruzado da Guerra Civil, transformando radicalmente a vida de Sebastián, onde o filme lindamente começa. Em 2017, essas histórias retornam, como uma herança familiar que liga os fios, que reconecta e acende todas as luzes sobre o passado. Sobre o amor. Sobre homens que amavam homens, apesar da guerra, dos destroços, dos horrores e corpos empilhados, do desespero e da falta de compreensão do mundo com as diferenças. Sempre houve uma brecha para o amor. Apesar do mundo.


É linda demais essa ideia da poesia como herança. Como algo que se resgata para que sobreviva ao tempo, para que não nos deixe esquecer do passado, de todos que vieram antes e lutaram e tentaram resistir aos absurdos do fascismo, autoritarismo, delírios de poder. É linda demais a ideia de exumar essas histórias, na tentativa de espelhar o passado nos dias de hoje. Ou o contrário. De conectar o tempo através do desenho do desejo homoafetivo através da palavra. De um papelzinho dobrado no bolso, escrito por um homem apaixonado. Por outro homem, desdobrando esse mesmo papel e encontrando, pela primeira vez na vida, um poema escrito para ele, sobre eles.

Você já se viu diante de palavras que mudaram a sua vida? Que romperam a barreira dos olhos e entraram na circulação e reviraram os sentidos, questionaram os significados, que sopraram a estrutura, que um milhão de coisas minhas que você jamais vai saber, que um milhão de coisas suas que eu jamais vou imaginar?

Lorca ficaria feliz, acho. Eu fiquei.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Lorca en La Habana (Espanha/Cuba, 2025)

Existe uma imagem de Federico García Lorca que foi construída inevitavelmente a partir de seu fim. O poeta assassinado pela violência franquista, transformado em símbolo da repressão e da tragédia espanhola, muitas vezes acaba aprisionado naquilo que aconteceu depois de sua vida. “Lorca en La Habana”, dirigido por José Antonio Torres e Antonio Manuel Rodríguez Ramos, escolhe olhar para o caminho contrário. O documentário recupera os 89 dias que Lorca passou em Cuba, em 1930, depois de chegar de Nova York, e encontra naquele período um homem particularmente vivo, curioso e feliz. Mais do que acrescentar uma nota biográfica à trajetória do escritor, o filme tenta devolver movimento a uma figura que a memória cultural congelou e que volta agora às rodas de conversa com a proximidade de "La Bola Negra".

A estrutura escolhida pelos diretores é um tríptico que mistura documentário, teatro, entrevistas ficcionalizadas, depoimentos de especialistas, imagens de arquivo e música. Uma das linhas acompanha uma representação da última noite de Lorca em Madri antes da viagem definitiva para Granada; outra recria, por meio de personagens interpretados, figuras que conviveram com o poeta em Cuba, como Nicolás Guillén, Lydia Cabrera e outros intelectuais; a terceira acompanha pesquisadores e escritores cubanos que investigam sua passagem pela ilha.

Lorca não aparece apenas como um espanhol que chegou a Cuba e deixou algumas marcas. O filme insiste na ideia de que Cuba também modificou profundamente o poeta. O contato com a música negra, o son, a vida cultural da ilha e um ambiente que lhe parecia mais luminoso e permissivo interferiram em sua produção artística. Foi durante essa estadia que escreveu, entre outros textos, “Son de negros en Cuba”, e a própria produção do documentário recupera a permanência de sua influência na música, no teatro, na poesia e na narrativa cubanas.

Ainda que o documentário não transforme a sexualidade de Lorca, o filme recupera o artista feliz, desejante e livre, o que também significa recuperar um homem homossexual cuja vida foi atravessada por uma sociedade que não lhe oferecia liberdade plena. Cuba surge, nessa perspectiva, como um intervalo de respiração entre diferentes formas de repressão. 

Essa liberdade também está na própria imagem do filme. A fotografia de Manuel C. Santos, Marcelo Ripado e Hazeina Rodríguez trabalha com luz, cor e movimento, enquanto a montagem de Hazeina Rodríguez aproxima registros documentais. A música tem papel decisivo nessa construção, especialmente a “Habanera de la Máscara”, composta por Jesús Bienvenido e Roko em colaboração com Antonio Manuel. O documentário entende que falar de Lorca em Cuba exige ouvir Cuba, e é nesse momento que sua pesquisa histórica deixa de ser simplesmente ilustrativa para ganhar uma dimensão sensorial.


“Lorca en La Habana” quer lembrar que antes do assassinato existiu um homem que viajou, desejou, escreveu, se encantou e encontrou em uma ilha distante uma espécie de segunda Andaluzia. Essa escolha também explica o caráter afetivo do documentário, que às vezes se aproxima mais da celebração do que da investigação crítica, mas encontra coerência nessa proposta de recuperar uma felicidade que a história posterior quase apagou. Lorca não deixa Cuba apenas como poeta espanhol que passou por ali: permanece como presença cultural, artística e queer, incorporada a uma memória cubana que continua reinventando sua obra.


sábado, 26 de setembro de 2026

GUIA QUEER: FESTIVAL DO RIO 2026

O Festival do Rio acontece entre 1º e 11 de outubro e, mais uma vez, a programação internacional oferece um panorama especialmente fértil para quem procura no cinema histórias sobre desejo, sexualidade, gênero, identidade, masculinidades, corpos dissidentes e formas alternativas de existir. A presença queer não está concentrada em uma única mostra ou em uma definição rígida de “filme LGBTQIA+”. Ela aparece em dramas históricos, romances, terrores, comédias, animações, documentários e histórias de formação.

E existe um ponto de partida praticamente inevitável: “A Bola Preta” (“La Bola Negra”), de Javier Calvo e Javier Ambrossi, escolhido para a Gala de Abertura. O filme atravessa três momentos da história espanhola, em 1932, durante a Guerra Civil e em 2017, conectando três homens através do desejo, da sexualidade, da dor e de um silêncio que atravessa gerações. Inspirado em uma obra inacabada de Federico García Lorca, o longa ganhou o prêmio de Melhor Direção em Cannes e chega ao Rio cercado por uma expectativa enorme. 


DESEJO, AMOR E MASCULINIDADES

O desejo masculino aparece de maneiras muito diferentes na programação. Em “The Man I Love”, Ira Sachs retorna à Nova York do final dos anos 1980 para acompanhar Jimmy George, um performer diagnosticado com AIDS que se recusa a deixar que a doença determine sua existência. Em “Coward”, Lukas Dhont volta à Primeira Guerra Mundial para contar o romance secreto entre dois soldados. Já “Um Longo Inverno”, de Andrew Haigh, leva o desejo para uma paisagem montanhosa dos Estados Unidos dos anos 1950. E há ainda “Iván & Hadoum”, de Ian de la Rosa. Vencedor do Teddy de Melhor Longa-Metragem na Berlinale, o filme acompanha Iván, um homem trans que se apaixona por Hadoum, sua colega de trabalho nas estufas de tomate do sul da Espanha. “We'll Find Happiness”, de Léa Pool, amplia esse mapa ao colocar o amor queer diante das fronteiras e da violência dos Estados. "La Gradiva", de Marine Atlan, traz um amor não correspondido nas ruínas em Pompeia.


O BRASIL QUEER EM MUITAS FORMAS

Entre os filmes brasileiros, talvez o mais interessante seja justamente perceber como não existe uma única maneira de representar experiências não normativas. “A Margem do Rio”, de Matheus Farias e Enock Carvalho, leva o desejo masculino para os manguezais do Recife. Em “London”, de Victor Di Marco e Márcio Picoli, vencedor do Queer Lion em Veneza, um jovem com deficiência trabalha em uma casa de fetiche e aceita passar por um exame médico para tentar compreender melhor o próprio corpo.  “A Professora de Francês”, de Ricardo Alves Jr., com Grace Passô, coloca uma relação entre duas mulheres no centro de uma narrativa que também passa por família, religião, intolerância e pertencimento. A infância também aparece em “Feito Pipa”, de Allan Deberton. Gugu está prestes a completar 12 anos e vive com a avó, enquanto enfrenta as expectativas do pai e da comunidade ao redor. Em “Amora”, a dimensão lésbica deixa de ser subtexto para ocupar o centro da narrativa. A série antológica, dirigida por Juliana Rojas e baseada na obra de Natália Borges Polesso. O Festival exibe o episódio de estreia.  E existe uma representatividade que não depende necessariamente de um romance ou de uma identidade explicitada em cena. “Ney por trás das máscaras”, de Esmir Filho, acompanha Ney Matogrosso durante a preparação para um desfile da Imperatriz Leopoldinense. "Me Deixe Ser", de Viviane D'Ávila retrata vivências intersexo no Brasil, EUA e Índia. Até o grotesco entra. “Privadas de Suas Vidas”, de Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner, mistura horror, humor escatológico e drama familiar para acompanhar uma mãe diante das dificuldades envolvendo seu filho não binário.


London, de Victor di Marco e Márcio Picoli

MEMÓRIA, REPRESSÃO E HISTÓRIAS QUE FORAM APAGADAS

“Barbara Forever”, de Brydie O'Connor, segue a cineasta experimental lésbica Barbara Hammer através de cinco décadas de arquivos, diários sonoros, fotografias e imagens inéditas. O filme ganhou o Teddy de Melhor Documentário em Berlim 2026. “Quem Matou Narciso?”, de Marcelo Martinessi, olha para outro momento em que sexualidade e repressão política se encontram. Ambientado no Paraguai de 1959, durante a ditadura, o filme acompanha Narciso, uma estrela de rádio que leva o rock'n'roll de Buenos Aires para o país e se transforma em símbolo de liberdade. “Seis Meses no Prédio Rosa e Azul”, de Bruno Santamaría Razo, trabalha a memória de uma maneira mais íntima. Bruno tem 11 anos quando começa a desenvolver sentimentos pelo amigo Vladimir, enquanto ao redor deles existe também o medo provocado pela epidemia de HIV. Em “Jaripeo”, de Efraín Mojica e Rebecca Zweig, a memória queer aparece em meio à cultura dos rodeios de Michoacán, onde códigos de masculinidade extremamente rígidos convivem com olhares, toques e desejos clandestinos. “Qual o Destino?”, de Assaf Machnes, leva essa discussão para Berlim. Hassan, um motorista palestino de 55 anos, conhece Amir, um jovem israelense que está explorando sua sexualidade. "A Educação de Jane Cumming", de Sophie Heldman, aborda classe, raça e sexualidade em uma sociedade dominada pelo patriarcado. E “Father, Father”, de Jake Witzenfeld, acompanha um casal gay formado por Khader e Aviv, um muçulmano e um judeu, enquanto os dois discutem a possibilidade de construir uma família em meio à guerra, à propaganda e ao extremismo político. 


O HORROR, A COMÉDIA E O CAMP

Uma das coisas mais divertidas desta programação é perceber como o cinema queer não precisa estar preso ao drama realista. “Jim Queen”, de Nicolas Athané e Marco Nguyen, talvez seja o exemplo mais escancarado. Na animação, um vírus chamado “Heterose” começa a transformar homens gays em heterossexuais.  “A Gruta” (“Bearcave”) encontra o desejo lésbico dentro de um conto quase mítico. Argyro é secretamente apaixonada por Anneta, sua amiga de infância, que está grávida e pretende deixar a vila. No horror, “Leviticus”, de Adrian Chiarella, transforma a homofobia religiosa em pesadelo literal. “Rosebush Pruning”, de Karim Aïnouz, mergulha no desejo como território de transgressão. Ed narra sua obsessão por George, enquanto Robert desenvolve uma relação perturbadora com Jack, e a própria estrutura familiar vai dissolvendo as fronteiras entre afeto, rivalidade, dependência e desejo.  E então chega “I Want Your Sex”, de Gregg Araki. Um dos nomes fundamentais do New Queer Cinema retorna com uma comédia sexual provocadora, cheia de desejo, fetiches, jogos de poder e humor. 


CORPOS, GÊNERO E A INVENÇÃO DE SI

“Rose”, de Markus Schleinzer, é ambientado no século XVII, durante a Guerra dos Trinta Anos, o filme acompanha uma pessoa que assume a identidade de um soldado para conquistar liberdade e reivindicar uma herança. Sandra Hüller recebeu o Urso de Prata por sua atuação, em Berlim. “Soy Mario” parte de outra relação com o corpo. Mario é um homem trans que trabalha como motorista de táxi e vive cercado por expectativas de masculinidade. Uma gravidez inesperada o coloca diante da possibilidade da paternidade e o obriga a reconsiderar a própria relação com o corpo. Já “Chica Checa”, de Simon Holý, aproxima gênero e família através de uma situação aparentemente cotidiana. Uma mãe viúva reencontra o filho que vive na França e descobre aspectos de sua vida que desconhecia. “Elefantes na Névoa”, de Abinash Bikram Shah, acompanha Pirati, que lidera uma comunidade Kinnar formada por mulheres trans no Nepal. Ela sonha em partir com o homem que ama, mas precisa procurar uma de suas “filhas” desaparecida 

Soy Mario, de Sharon Kleinberg

GALA DE ENCERRAMENTO

No encerramento internacional do Festival, “Club Kid”, de Jordan Firstman, volta explicitamente para a cultura queer de Nova York. Peter é um promoter de festas que vive entre drogas, sexo e noites intermináveis até descobrir que tem um filho de dez anos. A chegada de Arlo coloca em choque a vida noturna, a paternidade e a possibilidade de construir uma família sem abandonar completamente a comunidade que o formou. É uma comédia dramática sobre amadurecimento, mas também sobre vulnerabilidade, afeto e família escolhida. O fato de Firstman estar simultaneamente na direção, no roteiro e no papel principal dá ao filme uma dimensão bastante pessoal.

E o Festival ainda olha para a própria história do cinema queer com uma retrospectiva inédita de Rosa von Praunheim, realizada em parceria com o Goethe-Institut. A abertura será com “Não É o Homossexual Que É Perverso, Mas a Situação Em Que Ele Vive” (1971), marco histórico do cinema queer e da militância gay alemã, em uma seleção que reúne outros seis longas do cineasta.

Este ano o evento desenha um percurso bastante amplo. Há romances escondidos, homens tentando descobrir que tipo de masculinidade querem habitar, mulheres apaixonadas, pessoas trans reconstruindo a própria relação com o corpo, crianças procurando um lugar seguro, famílias tentando entender seus próprios filhos, histórias atravessadas pela AIDS, pela migração, pela religião e pela repressão, além de muito horror, humor, sexo e exagero. Para conferir datas, horários e locais das sessões, consulte a programação oficial do Festival do Rio. 


Club Kid, de Jordan Firstman