sábado, 29 de agosto de 2026

América (Brasil/EUA, 2025)


Em apenas 22 minutos, “América” condensa algumas das questões que atravessam o cinema de Aly Muritiba, deslocamento, violência institucional, masculinidade e personagens submetidos a estruturas de poder, para transformá-las numa história de amor gay atravessada pela imigração. Coprodução entre Brasil e Estados Unidos, filmada em Los Angeles, o curta acompanha Tom (Luca Castellani), um brasileiro sem documentação que tenta sobreviver ao chamado sonho americano e encontra em Josh  (Cheyenne Jackson) uma possibilidade de afeto e pertencimento. A ameaça de deportação, porém, paira sobre esse encontro desde o início.

O título funciona como uma ironia cortante. A América prometida a Tom não é uma terra de oportunidades, mas o reflexo direto da política de tolerância zero do governo Trump, que transformou a máquina estatal em uma ferramenta de perseguição sistemática a imigrantes. Muritiba entende que a condição de ilegalidade não é apenas uma circunstância burocrática, mas uma violência física e psicológica alimentada pela retórica xenófoba daquela gestão. Ser estrangeiro sob a era Trump significa ocupar uma posição permanentemente vigiada; ser um homem gay latino também o coloca em posição de fetiche para os homens que frequentam o diner onde trabalha.

A fotografia, de Andressa Cordeiro, opera como o principal dispositivo de opressão e intimidação. Longe do glamour ensolarado de Los Angeles, a câmera adota uma abordagem que por vezes oferece esperança, em planos abertos, compostos pelos dois protagonistas, em parques de diversão ou ao pôr do sol. Essa estética ambígua reforça o isolamento do protagonista: o ambiente externo oferece uma promessa, enquanto os espaços fechados tornam-se refúgios proibidos onde o corpo do imigrante pode, temporariamente, relaxar, mesmo que seja fazendo sexo no banheiro.

O romance não aparece como uma abstração protegida do mundo, mas como algo que precisa existir sob pressão. O amor não elimina o perigo: torna-se uma pequena zona de esperança dentro de uma realidade que insiste em regular quem pode permanecer, amar e pertencer. Luca Castellani sustenta o curta com uma atuação baseada menos na exteriorização do que na tensão. Tom parece carregar o peso de estar permanentemente prestes a perder aquilo que acabou de conquistar.

Há também uma continuidade interessante entre “América” e “Deserto Particular”, o filme mais explicitamente associado à experiência queer na filmografia de Muritiba. Nos dois casos, o diretor se interessa por homens que vivem o desejo a partir da distância, do segredo e de uma geografia hostil. Mas, enquanto “Deserto Particular” construía uma longa travessia até a possibilidade do encontro, “América” trabalha com a consciência de que nenhum encontro está completamente protegido.

A brevidade é, ao mesmo tempo, a força e a limitação de “América”. Muritiba prefere a contundência à complexidade de um retrato mais amplo, e algumas relações poderiam ganhar maior desenvolvimento em uma duração mais extensa. O curta encontra uma forma precisa para falar de um presente em que imigração, sexualidade e política voltaram a se cruzar de maneira brutal. “América” não idealiza o amor como solução para a violência das fronteiras, mas o filma como uma insistência: o direito de desejar alguém e imaginar um futuro juntos quando o mundo ao redor trabalha para tornar essa permanência impossível.

Nenhum comentário:

Postar um comentário