“Rosebush Pruning” é um movimento bastante particular na filmografia de Karim Aïnouz: em vez da intimidade dolorosa o diretor mergulha numa comédia de humor ácido construída sobre uma família rica, branca e completamente disfuncional, isolada numa mansão ensolarada da Catalunha. A partir do roteiro de Efthimis Filippou, colaborador recorrente de Yorgos Lanthimos, o filme parte livremente de “De Punhos Cerrados”, de Marco Bellocchio, para trocar a revolta política do original por uma espécie de necropsia grotesca da elite contemporânea. A família formada por Jack (Jamie Bell), Ed (Callum Turner), Anna (Riley Keough) e Robert (Lukas Gage) vive numa bolha de dinheiro, roupas de grife, música pop e dependência emocional, até que a chegada de Martha (Elle Fanning) ameaça a estabilidade daquele pequeno sistema de perversões. É como um encontro de "O Discreto Charme da Burguesia", de Luis Buñuel, com "Teorema", de Pasolini.
Aïnouz filma esse universo com uma precisão que frequentemente é mais interessante do que aquilo que o roteiro tem a dizer. Tudo parece bonito demais, caro demais e cuidadosamente calculado para esconder alguma coisa. O resultado aproxima o filme do camp, mas sem transformar o exagero em simples decoração: a beleza dos corpos, das roupas e dos ambientes está constantemente em conflito com a degradação moral dos personagens.
É no desejo que “Rosebush Pruning” encontra seu território mais interessante. A sexualidade não aparece organizada em identidades estáveis, e talvez seja justamente essa desorganização que torne o filme tão queer. Ed narra sua obsessão por George, Robert desenvolve uma relação perturbadora com Jack, e o ambiente doméstico parece dissolver continuamente as fronteiras entre afeto, rivalidade, dependência e desejo. Não se trata apenas de inserir personagens LGBTQIA+ numa história familiar: o próprio desejo funciona como força de transgressão da família patriarcal.
Essa dimensão também ajuda a entender a ideia de “esperança queer” associada ao filme. A queerness de Aïnouz não precisa significar necessariamente uma experiência de pertencimento; ela pode aparecer como recusa daquilo que já está estabelecido. Numa família estruturada por autoridade, herança, dinheiro e reprodução de privilégios, os desejos que escapam da norma tornam-se ameaças ao funcionamento do sistema. É uma perspectiva coerente com o próprio percurso do diretor, cuja obra frequentemente investigou personagens deslocados das estruturas convencionais de gênero, sexualidade e família.
O problema está justamente na distância entre a potência dessas ideias e a insistência do filme em transformá-las em choque. “Rosebush Pruning” acumula perversões, fetiches, violência, incesto simbólico, masturbação, humilhações e situações deliberadamente desagradáveis, mas nem sempre encontra uma progressão dramática capaz de transformar esse material em algo mais do que uma sucessão de provocações.
Mas existe uma coerência na escolha de Aïnouz por um filme tão excessivo. “Rosebush Pruning” não quer exatamente compreender aquela família; quer permanecer preso a ela até que a convivência se torne insuportável. A casa deixa de ser apenas cenário e passa a funcionar como organismo: quanto mais os personagens tentam preservar seus vínculos, mais evidente se torna que eles são sustentados por violência, desejo e dependência.. Aïnouz faz uma sátira sobre riqueza, quando dinheiro, desejo e família são confinados no mesmo espaço e, nesse território, sua perversidade visual encontra uma forma genuinamente queer de desordem.
Nenhum comentário:
Postar um comentário