sábado, 12 de setembro de 2026

Virtuosas (Brasil, 2025)

“Virtuosas” começa com uma ideia que parece cada vez menos absurda quanto mais o Brasil insiste em transformar conservadorismo em projeto de vida: um retiro de luxo para mulheres que desejam se tornar versões mais perfeitas de si mesmas. Sob o comando de Virgínia Heinzel (Bruna Linzmeyer), uma coach religiosa que vende submissão, feminilidade e dedicação à família como caminhos para a felicidade, o encontro rapidamente revela sua verdadeira natureza. Cíntia Domit Bittar, em seu primeiro longa de ficção, transforma o universo das "recatadas e do lar" em uma mistura de sátira, horror psicológico e absurdo, mas encontra seu material mais interessante justamente quando percebe que o verdadeiro terror não está necessariamente no sobrenatural, e sim naquilo que essas mulheres fazem umas com as outras.

“Virtuosas” transforma a perfeição em algo ameaçador. A casa é impecável, as roupas parecem recém-passadas, os cabelos permanecem no lugar, os gestos são calculados e até a delicadeza das vozes produz desconforto. Tudo parece excessivamente limpo porque precisa esconder alguma coisa. A diretora já explicou que a construção dessas personagens nasceu de uma pesquisa sobre mulheres ultraconservadoras e que algumas falas utilizadas no filme são praticamente transcrições de discursos reais. O exagero, portanto, não serve para afastar o filme da realidade, mas para revelar o absurdo que já existe nela.

E é justamente nessa casa fechada, onde mulheres observam, julgam e controlam umas às outras, que surge uma das leituras mais interessantes do filme: a queer. “Virtuosas” não é um longa LGBTQIA+ no sentido convencional, nem precisa ser. Seu subtexto está na maneira como o desejo feminino é constantemente deslocado, reprimido e transformado em vigilância. As mulheres se admiram, disputam a atenção da líder, invadem quartos, observam corpos e ultrapassam continuamente os limites umas das outras. 


Há algo de perverso nisso quando lembramos que o discurso defendido por Virgínia pretende justamente organizar o desejo feminino dentro de uma cartilha heteronormativa. A mulher virtuosa precisa ser esposa, mãe, dócil, bonita, disponível e obediente. Seu corpo deve existir para a família e sua sexualidade precisa caber dentro de um modelo previamente autorizado. O filme cria, então, uma contradição bastante queer: quanto mais essas mulheres tentam controlar o comportamento umas das outras, mais íntima, invasiva e corporal se torna a relação entre elas. O desejo não desaparece porque foi proibido. Ele muda de forma, reaparece como obsessão, ciúme, competição, curiosidade e controle.

A escalação de Bruna Linzmeyer acrescenta uma camada deliciosa. Conhecida por sua atuação pública em defesa da liberdade sexual e por se identificar como lésbica e queer, a atriz interpreta justamente uma mulher que transforma a submissão feminina em projeto político e o controle dos corpos em instrumento de poder. Não é simplesmente uma provocação de elenco: existe uma ironia metalinguística muito forte em colocar uma atriz tão associada à liberdade sexual para encarnar uma personagem que tenta determinar como outras mulheres devem existir. 

“Virtuosas” percebe que a monstruosidade não precisa de uma criatura sobrenatural para existir. Ela pode estar em uma mulher ensinando outra a desaparecer dentro do papel de esposa, em um grupo fiscalizando corpos, em uma comunidade transformando submissão em virtude ou em um discurso religioso que promete acolhimento enquanto elimina qualquer possibilidade de desvio. Cíntia Domit Bittar faz um filme sobre mulheres que querem ser perfeitas e descobre, no processo, que a perfeição é uma forma bastante eficiente de horror. 


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