quarta-feira, 5 de agosto de 2026

O Abraço de Couro, por Luiz Silva

por Luiz Silva

CRUISING é um termo para a prática sexual de pegação em locais públicos. Quando escrevi sobre “O Segredo de Brokeback Mountain” falei como certas experiências continuam identificáveis mesmo em épocas e regiões diferentes. CRUISING é nada mais do que pegação. Aquilo de entrar em um banheiro público masculino e ver homens reunidos nos últimos mictórios próximos da parede e olhando para os lados mais do que um homem hétero faria em uma situação com outros homens despidos ao redor. É aquele encontro informal em uma trilha no meio da mata com regras claras mesmo não ditas. É uma rua sem saída em qualquer cidade que pessoas usam desastrosamente, mas ainda intencionalmente como atalho depois do trabalho. Toda cidade tem isso. Até os héteros quando questionados sabem sobre a pegação acontecendo em um lugar desses. Mas e se nesse espaço de escapismo sexual houvesse um assassino em série? Essa é a premissa do livro de Gerald Walker em 1970 e sua subsequente adaptação homônima em 1980 para o cinema por William Friedkin em CRUISING, ambos traduzidos como “Parceiros da Noite”.

A polícia de Nova Iorque no meio da rotina de crimes em uma megalópole começa a encontrar um padrão em uma série de assassinatos. Partes de corpos humanos presumidamente masculinos encontrados no mar, homens gays assassinados com golpes de faca e todos sendo brancos com cabelos escuros, de estatura média e magros. A exata descrição do agente policial Steve Burns, atuado por Al Pacino. Ele é designado para o trabalho de campo onde se infiltrará na cena fetichista da cidade para ajudar a polícia a encontrar o assassino a tempo que a opinião pública da comunidade gay se torne mais voraz e cabeças de superiores comecem a rodar. Guardem esta palavra para depois, "comunidade".

Escondendo sua identidade verdadeira e até sua localização e missão de sua namorada, Steve, ou John Forbes, mergulha de cabeça em algo que se demonstra como uma realidade paralela e inédita para ele. Um vizinho gentil que se torna a única a amizade dele proporciona uma nova perspectiva. Liberdade sexual escondida por paredes. Experimentação de drogas. Tudo acontece pelas próximas semanas de John Forbes. Isso tudo envolto por um abraço forte firme masculino vestindo uma jaqueta de couro. Couro corrente, correntes, uniformes, quepes, óculos escuros à noite, bandanas coloridas codificadas compõe o cenário da experiência. Em vários momentos você ouve o som das roupas de couro se friccionando nos personagens. William Friedkin, que já era familiar com a tensão nos filmes em obras como “O Exorcista” e “Operação França”, faz um filme tenso e sensual digno do subgênero italiano Giallo violência gráfica, moda, cores, técnicas de câmera, etc.


O filme veio polêmico antes de ser gravado quando o roteiro foi vazado para ativistas da comunidade gay nova-iorquina da época. As polêmicas se estendiam por diferentes direções. Desde a representação promíscua, superficial e estereotipada da comunidade como um todo, mas a glamourização da polícia sendo o ponto mais contundente.



Lembram quando eu pedi que vocês guardassem a palavra comunidade lá no segundo parágrafo? Pois bem, durante a minha preparação para este texto eu encontrei o vídeo de um criador de conteúdo e autor sobre presença LGBT+ na mídia chamado Matt Baume sobre este filme (disponibilizarei o link no final do texto). Ele ilustra situações em países fora dos EUA como Canadá, Inglaterra e Austrália onde os assassinatos de gays foram renegados por décadas.


Assassinatos feitos por homens sozinhos e até por gangues. Se não fossem as famílias dessas vítimas e pessoas de suas comunidades, assassinatos que estavam sem solução há décadas não teriam sido solucionados e seus autores presos. O mesmo desdém se repete no Brasil. Desde ser há muito tempo o país que mais mata LGBT+ no mundo como também a falta de estáticas oficiais por parte dos governos. Ademais a maneira como possível suicídio é usada como solução para vários casos aqui e no estrangeiro. Não querendo fazer um texto androcêntrico, sei que há mulheres e não-bináries nas estáticas também. Estou trazendo esta parte sobre homens cisgêneros porque vai de encontro como o tema do filme. Mobilização pública, contato com políticos, divulgação, pressão por divulgação e alertamento partem por parte da comunidade LGBT+ em diferentes locais. Se falarmos sobre violência, morte ou até caça aos LGBT+ este texto ficaria maior do que já é. Mas voltando ao assunto da polêmica que assombra o filme até hoje, em nenhum momento do filme, pelo menos, não vimos qualquer sinal de uma comunidade ativa. Mesmo sendo na mesma cidade onde a revolta de Stonewall já havia acontecido. E a força policial alinhada com a máfia que era quem administrava os imóveis que eram centros gays na cidade ser o herói da história é minimamente contradizente, historicamente falando.

O filme é visto como um dos melhores de Friedkin por especialistas e criadores de conteúdo, mas fico me perguntando duas coisas. Será que esses que celebram o filme são heterossexuais alheios ao arquétipo do gay promíscuo que morre no filme como forma de punição por uma vida sexual ativa, e supostamente pecaminosa? E como eu deveria apreciar o filme em si, como a obra em si ou um

retrato do seu tempo e seus defeitos além do filme que persistem até hoje? Quando eu terminei o filme, eu simplesmente adorei. Eu sou fã de carteirinha de filmes de terror e o subgênero slasher é o meu favorito. Achei um filme corajoso, assustador, sensual. Como um filme bom filme deve fazer, nós nos empatizamos com os personagens. Ótimas atuações e uma direção e roteiro que prendem a

gente ao filme. Mas depois que pesquisei sobre o filme, entendi e concordo com as problemáticas apresentadas por aqueles que não gostaram. Então fico meio dividido.


De qualquer maneira, o filme é lembrado por visualmente retratar a cultura gay fetichista BDSM que já existia antes do filme e que existe até hoje. A cultura que existe e vive a sexualidade menos usual, aos olhos do público geral, permanece ativa e unida mesmo que não apresentada no filme. Locais secretos para escapismo sexual e práticas inusuais são menos tabus, porém menos secretos. Que fique a conclusão que narrativas LGBT+ sejam, de preferência, por pessoas LGBT+ ou que as levem em consideração. Nem tudo sobreviverá o teste do tempo, mas problemáticas não deixam de existir ignorando-as. Empatia e carinho ainda se fazem necessários mesmo em thrillers policiais.



Nenhum comentário:

Postar um comentário